quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O que existiu na quinta do Vale Mosteiro de Cima em Ansião?

Neste último verão à laia  de Françoise Choay historiadora e investigadora das teorias e formas urbanas e arquitectónicas mui atenta, esforçada com muito empenho na interpretação do "espírito dos lugares" que nos permitem compreender como emergiu e se desenvolveu a preocupação pela preservação dos edifícios, mas sobretudo as confusões e amálgamas perigosas que estão associadas à noção de "património" actualmente omnipresente nesta época de globalização, contra tudo aquilo que tende a transformar o espólio arquitectónico em objecto de lucro ou em museu...Para assim comandada  nessa grande vontade de aclarar  outras questionáveis hipóteses afinal do que existiu na quinta do Vale do Mosteiro de Cima para em luz dizer tudo menos um mosteiro!
Pecadora me confesso ao ter durante anos acreditado piamente que tenha existido!
Abri o poder da mente depois de revisitar Abiul onde existem vestígios visigóticos que desconhecia para no imediato me catapultar para a Nazaré e a sua igreja de S.Gião, para numa conversa a esse propósito mais aprofundar com o meu bom amigo Renato Freire da Paz me falar que a devia conhecer para nesse contexto questionar Ansião, sobre a sua pequena ermida que conhecemos de NSConceição (hoje igreja da Misericórdia) edificada no séc.XII pelo portal gótico a merecer estudo, sita a nascente do então burgo primitivo a poente, onde entre ambas se encontra o actual cemitério  que antes foi medieval e o "vulgo mosteiro onde existiu um portal gótico igual, mas maior"  que o  conheci, mas já não existe .Fulcral contrabalançar a razão da implantação desta ermida com portal gótico a nascente sem aparente outro casario nem caminhos no século XVII a balizar outra capela  com igual portal gótico , apenas muito maior  que  existiu a poente onde no seu palco ainda estava a pia de água benta e uma Cruz alta na beira da estrada medieval,  a mediar 200 metros  da ermida de NSConceição, hoje capela da Misericórdia a nascente, ditar a possibilidade desta ermida tenha sido antes um morabito árabe ou  capela do tempo romano-gótico (?) para nos séculos seguintes ter sido transformada em ermida cristã e dela hoje apenas resiste o seu portal gótico. Sou particularmente observadora, conheço pelos menos dois morabitos um em Almada e outro no Cabo Espichel porque quando se passeia  ou caminha é fundamental observar para se interrogar os testemunhos  e mensagens do passado que as ruínas e as pedras ainda nos podem  transmitir!
Se juntar a passagem dos romanos nesta terra com a permanecia de mouros durante séculos e ainda a escassos metros desta ermida de NS Conceição a existência de duas cisternas, uma entupida no actual parque de estacionamento junto da CGD, no meu tempo de escola ali a passar todos os dias me reportava para uma Citânia de Briteiros, anos mais tarde ao espreitar apanhei o maior susto da minha vida , a casita de pedra redonda há muito tinha perdido o telhado com as dobradiças onde esteve uma porta ao léu,  afinal encerrava um poço muito fundo, como outro nunca assim antes nem depois enxerguei, muito bem empedrado, sem saber a razão da casa na sua volta e ainda no passado ter tido telhado como se enchia?Apenas com a água da chuva repassada pela terra? Não teria no tempo caleiras que se perderam, o mais sensato como nas Degracias. Anos mais tarde ao falar com o Carlos Silva, neto do dono da propriedade a quem agradeço a partilha por me confidenciar que se tratava de uma cisterna havendo outra a escassos metros dentro da cozinha da pensão da prima Quitas onde antes foi a Casa e Albergaria da Misericórdia, (cabe-me a eleição de a ter colocado no seu palco), cisterna que servia cumulativamente a cozinha da Albergaria e o Hospital servia-se por uma janela ( o local do 1º hospital  também me cabe a honra de o ter colocado no seu palco na casa onde morou Alfredo Simões) esta cisterna acredito ainda existe. A prática em reter água nesta região por ser parca no verão atestada com a cisterna romana no Carvalhal em Santiago da Guarda e aqui na quinta do Vale do Mosteiro de Baixo em Ansião pela existência de duas cisternas a escassos metros da ermida (se a considerar antes tenha sido morabito ou capela gótica-romana ) venha ditar que ali houve casario romano e mais tarde árabe que teria sido reaproveitado em meados da centúria de 600 para ser construída a Casa e Albergaria da Misericórdia e o seu humilde Hospital. Se juntar o número de poços de chafurdo que ainda existem desde Santiago da Guarda, Sarzedela, Ansião onde conheci alguns, sendo o maior o Poço da Ameixieira e no Bairro no quintal dos meus pais existe outro em formato abaulado para finalizar com a Fonte da Bica às Lameiras, e o seu grande tanque de chafurdo a reportar termas romanas ou a prática de banhos árabes, infelizmente soterrado debaixo do nó do IC 8, a fundamentar esta teoria na visita a Abiul  com o abrir do espírito dado pela presença visigótica, afinal tão perto de Ansião para na visita à Sarzeda num lagar velho a visão de uma parede em adobe lindíssima que me deixou pasma por não saber a sua origem, graças a um documentário televisivo sobre a vida do pintor Delacroix  na sua viagem a Marrocos enxerguei a prática do adobe proveniência da cultura árabe onde distingui uma parede cheia de pequenos buracos em quadrado que outra assim distingui à dias na Fortaleza de Sesimbra, para enfim entender muitos dos testemunhos deixados pelos romanos e árabes nem sempre valorizados pelo desconhecimento cultural  que devia ser dever das autarquias investir e incutir aos seus concidadãos na valorização desta arte ancestral do adobe, cada vez são mais raros os seus testemunhos na região de Ansião a Ourém, apenas encontrei na Sarzeda, em Almoster, na Freixianda e Rio de Couros que se vão a cada dia perdendo salpicos de paredes  com buracos redondos em adobe  ou simplesmente feitas a barro com seixos, calhaus rolados e telhos a serem derrubadas para se fazerem mamarrachos em tijolo de cimento...
Fundamental o cruzar de mais informação para em claridade dizer que ali na quinta do Vale do Mosteiro de Cima não existiu nenhum mosteiro.Até porque não existe qualquer documento que o ateste!
Reconheço a facilidade intrínseca em mim de querer acreditar que ao Vale Mosteiro de Cima em Ansião existiu um pequeno mosteiro desde sempre inspirada pela toponímia - Vale do Mosteiro... A que acresce o meu perfil curioso, autodidata, sem formação histórica nem arqueológica, apenas feeling em que tem sido fundamental a minha cultura geral e paixão pelo património de Ansião na  mirabolante procura de mais de 50 anos de mais querer saber do seu passado com avanços e recuos, também a errar, para mais tarde emendar como agora, sem pejo de enxovalho ou coisa que o valha, jamais de orgulho bizarro porque investigar é moroso requer cuidado e nem tudo o que parece o é por isso exige cautela, e claro reconheço a minha cota parte de ingenuidade ao me ter deslumbrado aos 8 anos quando conheci o "vulgo mosteiro" no que tinha sido o palco de uma Capela onde entrei com a minha irmã por um belo portal gótico a que juntei lendas e ditos ainda vivos na tradição de boca em boca  das minhas primas Júlia e São e da Lúcia Parolo quando as instigava sempre me falavam que ali houve uma cama em pedra que se dizia ter sido da Rainha Santa Isabel. Em que o Ti Inácio do Bairro de Santo António veio a ser receptor da pia de água benta que vendeu em Lisboa na feira da ladra e a Cruz em pedra foi vendida pelo marido da Carmita do Bairro para o cemitério novo de Santiago da Guarda. Por fim quando soube que existiu um  Esmoliadouro na extrema da herdade de Ansião a poente tenha sido achega para ter sido supervisionado por frades, a que acresce na toponímia em Ansião a existência do Vale Frade para o lado das Matas e a vivência de três ermitas na centúria de 800 em Ansião referidos nas Memórias Paroquiais sem qualquer suporte documental a credenciar a existência de um pequeno mosteiro em Ansião, para enfim reconhecer devia ter valorizado as informações que dispunha solicitadas ao Sr Padre Manuel Ventura Pinho e as retiradas do Livro do Padre José Eduardo Reis Coutinho .
Portal gótico da Igreja da Misericórdia de Ansião
Também é da minha lavra o ter dado a conhecer ao Mundo.

Questionei sobre este assunto o Sr Padre Manuel Ventura
«Sobre o Vale Mosteiro pouco ou quase nada sei. Penso que a toponímia se refere apenas à posse do Vale pelo Mosteiro de Santa Cruz. Como sabe, a igreja velha de Ansião ficava para aqueles lados (perto ou dentro do atual cemitério, que deve ter incluído o cemitério do adro da velha igreja) e era pertença daquele Mosteiro. O próprio lugar de Ansião estava implantado naquela região. Penso, mas não vi isso em nenhum documento, que perto da Igreja teria de haver residência para os párocos frades que serviam a paróquia. O mosteiro de Santa Cruz era abastado, pois o próprio D. Afonso Henriques o dotou com muitas propriedades e, por isso, devia ter naquela zona um bom solar para servir de residência aos frades que viviam ou visitavam a zona. O mais provável é que tivessem dentro do próprio solar uma capela, para não terem de se deslocar por tudo e por nada à igreja, quando atendiam pessoas ou faziam as suas orações comuns. A esta residência não chamaria "Mosteiro" mas uma sucursal do Mosteiro. O povo entretanto era capaz de lhe chamar mosteiro. Lembro-me de quando eu estava em Figueiró ter consultado muitos livros e documentos sobre mosteiros na Biblioteca da Universidade de Coimbra e na Torre do Tombo e nunca me apareceu referência a mosteiro algum em Ansião. Figueiró teve dois: um masculino e outro feminino. A extinção das Ordens Religiosas no século XIX fez com que o património dos conventos fosse vendido ao desbarato e encontrei a igreja do convento feminino de Figueiró dos Vinhos totalmente derrubada e a servir de cerca de galinheiro. Na altura ainda se viam alguns azulejos antigos.Quanto a mosteiro no Vale do Mosteiro de Ansião penso que havia apenas umas instalações para recolha das rendas para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e uma casa (ou casas) para os Frades que paroquiavam a Igreja de Ansião, e eventualmente outro pessoal que estava ao serviço do referido Mosteiro."
Padre Manuel Ventura Pinho «Com a extinção das Ordens Religiosas os bens dos Conventos e Mosteiros foram dados a amigos ou correlegionários ou vendidos ao desbarato, pelo que acho verosímil afirmar que muitas peças de culto religioso da residência dos párocos/frades que servia a paróquia de Ansião seja pertença do Mosteiro de Santa Cruz. E devem ter tido o mesmo destino outras da Igreja de Ansião.»
Excerto http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/ "O Vale Mosteiro está limitado a Norte pela Igreja Velha e a Sul pelo Ribeiro de Vide. Para o Padre José Eduardo Reis Coutinho no Livro de Ansião de 1986 o  topónimo "designa não um mosteiro ali existente, mas o vale pertencente ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra". Pois segundo o autor, as estruturas que observou no local, eram propriedade daquela instituição religiosa, até à extinção das Ordens Religiosas, em 1834, de acordo com o que refere o Livro de D. João Teotónio, fl. 10 e 142 v.º a 144 v.º, sobre a aquisição e localização da herdade de Ansião pelo Mosteiro. A própria tradição popular (lenda da Rainha Santa) é reveladora da importância de Ansião como possível ponto de paragem para descanso dos viandantes, bem como da existência de um esmoliadouro. Este topónimo indica que havia um local, propositadamente preparado para que os viandantes deixassem as suas esmolas, o que logicamente seria junto à estrada. Também o Livro de D. Teotónio o refere, onde entre as delimitações registadas da herdade de Ansião, aparece o "esmoliadouro". Assim a estrada designada por "estrada coimbrã", passaria por Vale Mosteiro e Igreja Velha. No decurso da prospeção levada a cabo numa área com 166.980m², foram detetadas a Sudeste do estaleiro do município de Ansião, num local que se encontra ocupado por uma construção devoluta, estruturas que, pela sua volumetria aparentam estar parcialmente soterradas, e que foram reutilizadas para o levantamento daquela construção. Numa habitação contígua identificaram-se também alguns elementos arquitetónicos, que poderão estar relacionados com as estruturas detetadas. E que se encontram integrados numa escadaria, que permite o acesso ao primeiro andar da habitação. O sítio em questão faz parte do conjunto de sítios que se identificaram no perímetro urbano da vila de Ansião, onde foram detetados vestígios com interesse arqueológico. Tendo em conta a informação existente sobre a localização e o tipo de espólio que foi detetado, é lícito interpretar a mancha de ocupação em causa, associada aos vestígios que se encontraram por uma vasta área na malha urbana da vila de Ansião, que vai desde a Igreja Velha até ao Vale Mosteiro (limite Oeste da vila), passando pelo centro da povoação, na Avenida Victor Faveiro. Neste sentido, poder-se-á estar na presença de um assentamento do período romano (uma possível Villa) e do período medieval."
Voltar a questionar o Sr Padre Manuel Ventura Pinho « li os artigos que me indicou e achei muito interessante o que aí diz. Fiquei com a sensação de ver na sua descrição os restos dum palacete com capela, como houve vários nesta freguesia e em muitas outras: o Solar dos Veigas nas Lagoas é o único que está de pé. Como toda aquela zona de que fala pertencia ao Mosteiro de Santa Cruz, devia estar aí a residência monástica da delegação do Mosteiro de Santa Cruz que actuava em Ansião."
«Há um documento de 1627, feito no Cartório de Santa Cruz de Coimbra, que fala da Capela de S. Lourenço "no adro velho", alusão ao adro da igreja velha. Pensa-se que o Cemitério da Igreja velha tenha sido incluído no que foi feito na segunda metade do século XIX. Na altura já existiam na freguesia de Ansião as capelas do Escampado de Santa Marta, Casal de S. Brás, Espírito Santo e S. Silvestre na Sarzedela, S. Luís da Fonte Galega, Nª S.ra da Paz da Constantina e Nª S.ra dos Anjos na Ribeira do Açor. É interessante que tirando a da Constantina e a da Ribeira do Açor que era particular e já não existe, todas as outras guardam imagens do século XVI. Deste século é também a fundação das paróquias de S. Tiago, Ateanha, Torre, Lagarteira e Cumeeira, entre outras. E todas têm imagens quinhentistas. »
Tombo de Anciaõ, Livro 56 do Cartório de Santa Cruz «Num Auto de Reconhessimento que fez o Reuerendo Antonio Martinz Vigário da Igreja de Ansião  a 19 de Março de 1627, é feito o elenco das capelas « a dita Igreja estão unidas as ermidas seguintes (...) São Lourenço no adro velho (...) fabricadas pelos fregueses  sem para isso o mosteiro Contrebuir Com Cousa algua sem obrigação alguma do mosteir
A descoberta

O excerto diz-nos que a ermida de S. Lourenço foi instituída como as outras referidas «fabricadas pelos fregueses  sem para isso o mosteiro Contrebuir Com Cousa algua sem obrigação alguma do mosteir .
Em que a ermida que se veio a chamar capela S. Lourenço foi pertença não de um solar, mas sim de um albergue,estalagem ou albergaria,a primeira em Ansião entre 1100/1200 a privilegiar a escolha onde se implantou pelo vestígio do portal gótico da capela  que conheci, possa ter sido antes uma capela romana-gótica .
Para finalmente clarificar o ponto 2.1.3.6. do Livro do Padre José Eduardo Reis Coutinho - Clérigos Franceses «(...)Dom Edme de Salieu, abade de Claraval, veio à Península Ibérica visitar as abadias cistercienses em companhia de uma comitiva, entre os quais o seu secretário, Frei Claude de Bronseval, o autor do diário das viagens, onde descreve as sínteses das ocorrências: - Dia 6  de julho de 1532, depois de percorrerem uma péssima estrada que os trouxe do Rabaçal, chegaram ao lugar campestre de Ansião, onde foram bem recebidos num bom albergue;ali almoçaram bastante bem e dormiram. Dia 7, de manhã, ouviram Missa na capela onde na véspera já tinham celebrado, e meteram-se por um terrível  caminho  através de montanhas extremamente altas, arborizadas e cobertas de rochas. Como não havia outra estrada directa a Alvaiázere, os viajantes atravessaram a serra, por um caminhos de cascalhos e de calhaus que enormemente fatigavam os cavalos...»
Este extraordinário excerto do Peregrinatio Hispanica 1531/1533 de Frei Claude de Bronsevaltranscrita em 1986 pelo Padre José Eduardo Coutinho as vezes que o li sem o pensar atento, para agora com maior atenção nos dar a imensa luz do que aqui se pretende especular - Dia 7, de manhã, ouviram Missa na capela onde na véspera já tinham celebrado- em 1532 só havia a igreja primitiva que se aventa existir desde 1259, e foi localizada a nascente do actual cemitério novo, o autor ao referenciar capela, diz-nos que o complexo que julguei anos ter sido um pequeno mosteiro outra coisa não foi que o primeiro albergue como lhe chamou, em Ansião então sito na beira da estrada real ou coimbrã que teve de facto uma capela a S. Lourenço e dela ainda conheci o palco, no mesmo modo em Almoster outra avento existiu com capela ao Senhor do Mundo para na sua ruína se  construir a primitiva igreja.E ainda quem as explorou foram judeus vindos de norte tomando a estrada medieval para se fixar e ganhar a vida.
Este enxergar de maior claridade do primeiro albergue de Ansião com capela ,a dizer não foi um mosteiro!  

Segundo as Memórias Paroquiais
«Designação da propriedade - Um Olival chamado o S Lourenço. Antes tinha Foros e outros encargos . Foreiro em dois alqueires de azeite a Senhora da Conceição, computado em dois mil e trezentos e cincoenta réis.»
O albergue ou estalagem englobado numa quinta  que o Padre José Eduardo Reis Coutinho no Livro de 1986  « (...) em Junho do ano seguinte, 1176, o Mosteiro completa a compra(da herdade de Ansião) com a aquisição da última parcela, o oitavo final, a Pedro Soares e a sua mulher Maria Pais, por igual preço do anterior». A ditar tenha sido esta, por ter o albergue por todas as valias.Que nos Cadernos de Estudos Leirienses nº9 de Saul António Gomes e Mário Rodrigues - O Povoamento do Território de Ansião nos séculos XII/I  referem apenas «Pedro Soares e a mulher Maria Pais vendem ao MSCC  uma herdade em Ansião» A ditar que o Padre José Coutinho foi mais completo na sua analise para mais dizer e assim mais se especular que esta foi a última parcela da herdade a mais difícil em adquirir.
Após a extinção das Ordens Religiosas  em 1834  a venda tenha sido mais evidente por volta de 1875 com a instauração da Comarca de Ansião da venda em haste pública dos bens afectos ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em que no Vale do Mosteiro de Cima o complexo ruinal do primeiro albergue com capela foi comprado por  vários particulares a ditar a pobreza estrema para tão parco espaço ter chegado aos dias d'hoje ainda pertença de vários donos, no contraste da terra da mesma herdade ter sido vendida em grandes extensões a uma meia dúzia, os novos ricos da vila de Ansião. Em que a Imagem do S. Lourenço em pedra, antiga, seja verossímil dizer daqui saiu nessa altura para engrandecer a nova capela do cemitério em 1875 reinstalado no mesmo local onde o foi no tempo medieval.

Vista sobre o sitio do "vulgo mosteiro" ao Vale do Mosteiro  na beira da rota da  estrada medieval
A primeira casa em azul era da Deolinda irmã de " António Arrebela" 
Quando aqui vim pela 1ª vez em 64/65 não existia. Por não ter espaço para fazer a cozinha, confidenciou-me a entestante a norte, a Carmita do Bairro nessa altura lhe dispensou o corredor da capela com o portal gótico, por onde eu com a minha irmã entrámos.
A sapata em pedra com fino friso que havia na frente veio a ser reutilizada nos degraus da sua escadaria colocados ao contrário.Mostrei ao Padre José Eduardo Coutinho e também a fotografou.
Conheci o local após um incêndio  cujos moradores, Miguel e miguela já o tinham vendido e emigrado para o Brasil onde julgo tinham familiares. O sogro da Carmita do Bairro que vivia no Carvalhal veio a adquirir o espaço depois herdado pelo seu marido onde um dos seus filhos, o Fernando veio a construir a sua vivenda quando casou com a Ausenda, no que foi o palco da capela de S. Lourenço. 
A foto onde é a chaminé da casa da Deolinda onde foi o portal gótico para a entrada da capela
Entrada a sul para o "vulgo mosteiro" 
Local de escolha eleita para o albergue por volta de meados de 1100 edificado na beira da estrada medieval a dividir duas quintas; Vale do Mosteiro de Cima e para nascente Vale do Mosteiro de Baixo.
Em que a quinta do Vale Mosteiro de Cima implantou num pequeno promontório em formato quadrado ao jus de forte sustentado por um alto muro em pedra a poente e a norte onde existe um portão de acesso às cavalariças e ao vale e a outra entrada, a sul com entrada para o albergue e capela.
A minha primeira vez na visita a este local  aconteceu em dia em dezembro com  a minha irmã  na entrada do caminho na esquerda havia uma pequena casita com uma nogueira e do outro lado  deparámos com uma sapata  em pedra com fino friso a ornar um retângulo com erva para o subir tivemos de dar um impulso à pernita a evidenciar tenha sido aqui os cómodos do albergue, ao fundo a norte havia uma grande porta ornada de arco afunilado de pedra muito bonita, gravada na minha memória muito maior da que conhecia atrás da Misericórdia que me deslumbrava quando brincava no jardim dos Paços de Concelho, só anos mais tarde na escola percebi que se tratava de um portal gótico de arco quebrado com frisos em ogiva. Entrámos por uma porta de madeira a cair de velha  com muitos cordéis presos nos buracos da que foi a fechadura depois de empurrada abria-se um corredor onde caminharmos numa passadeira de lajes quadradas polidas imensamente brancas de calcário a fazer lembrar cal para ao fundo entrar no que foi o palco da capela que  conheci reconvertido em casa habitacional onde tinha havido um incêndio com vestígios de restos de arcos no tecto e num quartito a norte encerrados a pia de água benta e uma Cruz alta em pedra, a justificar que o altar fosse a sul de orago a S. Lourenço dado a conhecer numa relação de capelas afectas à igreja de Ansião de 1627,o Santo considerado o patrono dos bens da Igreja .Saímos assustadas com a brutalidade do cenário de incêndio com barrotes negros a descer sobre as nossas cabeças  por uma porta mais à frente virada a norte que nos deu acesso já na rua a um portal de pedra com remate de esfera cravada em pescoço elegante também gravado na minha memória por ser tão requintada que outras assim me recordou ver no Convento de Cristo em Tomar.

Esta foto mostra os muros do lado esquerdo do caminho, teria sido a estrebaria ou cavalariça.
Na frente da casa azul no meu tempo havia um grande buraco onde alguém criava coelhos, se especula podia ser a entrada de um túnel que se desmoronou. Pelo desnível só podia ir daqui para o burgo sediado no actual cemitério (?).
Lado norte
Um portão cujo remate apresenta uma caracteristica  de casario antigo com a ombreira em pedra a rematar com outra igual no muro tipo "L" .
Janela com gradeamento
Aqui foi com muita certeza a primeira cadeia

Do portão dava comunicação para o lagar e adega , na frente o  seguimento do caminho com uma palmeira das mais finas de Portugal, as primeiras que vieram, ainda me recordo dela, depois morreu e descia-se ao  vale agrícola.

A centralidade  da estalagem em plena estrada romana/medieval/ estrada real 
Baptizada Avª Sá Carneiro...

A entestar a estrada seria o corpo da estalagem que abrangia as duas entradas.
No meu tempo já não haviam janelas tendo sofrido em parte demolição aquando do alargamento da Avenida Sá Carneiro, ainda visíve ao meio o muro mais grosso com outro fino.

Verossímil dizer algures foi encastrado o Esmoliadouro
O Esmoliadouro referenciado na extrema a poente da herdade de Ansião na beira da estrada medieval por onde passava toda a estirpe de viandantes desde nacionais e estrangeiros, clero, nobres, reis, almocreves, mercadores, ladrões e mendigos,  ricos e pobres, as esmolas eram muito comuns na altura e o local tinha de ser vigiado. A  recolha das esmolas seriam para distribuir pelos pobres que aqui acorriam doentes e famintos, sem recursos .
Pela situação privilegiada na beira da estrada medieval o Esmoliadouro teria sido sediado na entrada sul ou na entrada a norte.
Espectável a casita na entrada a sul, teria sido a portagem? 
Entrada a norte do casario antigo dito mosteiro
Beco por onde saí com a minha irmã, ao fundo onde é a casa branca recuada por um portão era a capela e tinha um portelinho para o beco.
Entrada a norte onde hoje existe esta casa, e ao fundo se de facto existiu uma cadeia tenha sido aqui a localização  do Esmoliadouro (?).
Arco de volta perfeita a norte a descoberto no casario
Na segunda vez que visitei o local quis perpetuar a minha linda mãe pela sua bondade ao me acompanhar nas minhas deambulantes aventuras em local emblemático sentada na pedra de fuso a lembrar um miliário romano que também os houve deste formato, tendo sido reutilizados séculos mais tarde para pedras de fuso de Lagares de vinho.
 
Ao limite do muro uma coluna pequena partida ao meio aventa ser do século XVIII
Há anos quando fotografei o único arco de volta perfeita visível da rua a coluna estava sobreposta junto ao muro a norte
 
Contraste da pedra de fuso do lagar antes e agora 
A Fátima e a irmã as penúltimas donas do imóvel ao ler a crónica inicial a quem informei iria voltar ao local para indagar melhor, apenas me aconselhou a ter cuidado por  estar em derrocada. Na 3ª vez fiz-me acompanhar pelo Padre José Eduardo Reis Coutinho que me confirmou tratar-se de uma pedra de fuso de lagar. Esta informação foi importante para afigurar a hipótese de adega cuja existência de vinhas naquele tempo eram grandes e ainda hoje na toponímia a minha irmã tem casa num lote com esse nome "Vinha" a escassos metros para sul.
Arcos de volta perfeita do lagar e adega da estalagem
Os arcos seguem-se debaixo do casario vindos do norte da capela onde a adega seria adoçada.A quarta vez em visita ao local aconteceu em agosto de 2014 mas esqueci-me de levar a máquina fotográfica tendo descido ao vale onde constatei o muro de sustentação.Voltei uns dias depois tendo reparado que alguém nesse entretanto arrombou na cave uma porta cedendo a estrutura da parede frágil tendo ficado a notar-se um novo arco visível , o arco foi entaipado em 1933 onde foi deixado escrita a data no caliço quando foi feita a arrecadação. 
A descoberta de um novo arco a juntar a outros dois que existem debaixo da casa da Deolinda somam na totalidade quatro, sem saber no restante casario de permeio se ainda existem mais!

Ruína limpa o que  ainda pode catalogar desse tempo primitivo?
A parte dos herdeiros de "António Serrador" esteve anos em venda tendo sido concretizada este ano.
Não se vislumbram no que existe ombreiras nem linteis gravados, nem datas.
Em agosto de 2018 percebi da intervenção de limpeza de hera  que cobria totalmente esta parede tendo entrado uma última vez para fotografar só por fora. À posterior vim a saber que tinha sido adquirido pelo Nito meu amigo de infância, espero não seja motivo de desagravo, em verdade as fotos servem para mais se especular património edificado do passado de Ansião.
As pedras de suporte ao longo da parede a evidenciar que ali houve parreiral. 

A sequência de arcos  de volta perfeita e a pedra de fuso de lagar a ditar um lagar de vinho
Parte da coluna partida espero que não se perca.
Parte de uma coluna desirmanada a evidenciar atribuição ao séc XVIII .A requerer estudo arqueológico os arcos existentes podem reportar à mesma época, em que a  igreja primitiva do séc XII pelo portal gótico que nela existiu e conheci tenha sido mais tarde reaproveitada em capela a S. Lourenço pelos povoadores com origem franco/judeus se olhar ao último vendedor de apelido "Soares"  e "Pais"  além da exploração de vinha teriam outra de porcos que se alimentavam de lande pelos costados da Costa.
 
Casa que foi do Sr. António Serrador
Foi construída sobre os arcos do Lagar/adega, de sobrado com reutilização da pedra de varandim pertenceu à capela a norte, segundo me confidenciou o "António Arrebela" que nasceu por aqui, haviam dois varandins sendo hábito as pessoas reaproveitar o que podiam.
Cave da casa que foi o lagar/adega 
Apenas com a porta e uma janela com grade

Resta ainda outro casario reconvertido no espaço
A merecer vistoria por um arqueólogo na eventualidade de serem encontrados outros vestígios.
Complexo ruinal que fotografei da terceira vez um pilar de pedra antigo  a norte e portas  com ferrolhos em ferro e tranca de madeira, de quem ali morou depois de 1875.
Em finais de 2018 uma nova perspectiva de abordagem ao que efectivamente existiu na quinta do Vale do Mosteiro de Cima em Ansião , o primeiro albergue ou estalagem em Ansião, com cadeia e a primeira unidade de Enfermaria, para mais tarde  ditar o Hospital na vila, na minha perspectiva.


Fontes 
Livro Memórias Paroquiais
http://arqueologia.patrimoniocultural.pt
Testemunhos do Padre Manuel Ventura Pinho
Livro do Padre José Eduardo Reis Coutinho
Tombo de Anciaõ, Livro 56 do Cartório de Santa Cruz
Cadernos de Estudos Leirienses nº9 de Saul António Gomes e Mário Rodrigues O Povoamento do Território de Ansião nos séculos XII/I 

2 comentários:

  1. Interessante trabalho de pesquisa. Prossiga, Parabens pela disponibilidade e interesse em desvendar o passado histórico de Ansião.

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  2. Caro Carlos Pereira muito obrigado pela cortesia da visita e pelo carinho do comentário.

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