quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Padarias do meu tempo em Ansião, o bom que se perdeu!

Não sei como era feito o primitivo pão de rolão feito com mistura de cereais - trigo e centeio amassado com água morna, sal e o crescente - massa de pão da cozedura de pão ou de broa que passava de mão em mão  na vizinhança  entregue a massa em taça e assim sucessivamente o fermento caseiro de massa azeda passava de mão em mão em várias vizinhas na combinação do dia da cozedura do seu pão ou broa.Ainda vi este ritual no Bairro de Santo António com a minha tia Maria de taça do crescente na mão no adro a caminho da casa da Ti Maria do Raul.
Taça do crescente 
                          
A massa leva o fermento  até  se despegar das mãos para depois de amassado se cobre -se com um pouco de farinha, faz-se uma cruz com a mão ao alto e entoa-se a reza "São Vicente te acrescente, Santa Inês te dê boa vez. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", Pai-Nosso ou uma Ave-maria por fim tapa-se com o pano branco, abafada fica a levedar, até dobrar de volume.

Massa levedada
Pão a levedar antes de entrar no forno
                                 
                                       
O momento do ponto da levedura é dado pela farinha a desprender-se da cruz que deve dobrar de volume para tender os pães ou bolinhas dispostas no pano branco do tabuleiro enfarinhado que se levanta sempre um bocadinho para não pegarem umas às outras. O forno tem de estar quente, mais de uma hora a arder com fartura de ramos de carvalho, oliveira, urze e carrascos, o sinal é dado com a cúpula esbranquiçada hora de roldão na mão a puxar o brasido para a boca do forno onde fica - se for caso limpa-se o terreiro com o rolão de panos.Pronta a pá na mão para enformar o lastro de pães sempre do fundo para a boca do forno. Fornada cozida em menos de uma hora sem lugar à poia  a jorna de uma broa ao forneiro de serviço que se dava em muita terra. Grande era a vontade de comer o pão acabadinho de cozer, tantas vezes trincado e logo cuspido, por certo a queimadura na boca, apesar dos avisos  que comer pão quente faz mal, agarra-se ao esófago. O forneiro quando tira o pão tem o preceito de o bater por baixo com a mão, ao sinal de leveza, sinal de cozidinho.  No meu tempo de criança em casa dos meus pais a nossa pá  foi adaptada pelo nosso pai de uma gasta que tinha sido da sua mãe Piedade e as demais alfaias como um alguidar, tabuleiro de madeira e o pano de estoupa branco. Atrás da casa o meu pai construiu um pequeno forno com o barro branco saído do buraco para se fazer o poço no quintal e telhos mouriscos dum barracão desabado, o telheiro do fornito era de estrutura fraca - a ciência de cúpulas, demorou a dar certo no Mosteiro de Aljubarrota  e o nosso pai afinal, tinha-se ficado pela matrícula no curso em Coimbra, assim o nosso fornito foi sol de pouca dura!

Em Ansião a arte de cozer pão começou na Vintena da Cabeça do Bairro
Provavelmente na família dos pais da minha trisavó Ana da Purificação das Dores , natural de Maças de D Maria, dita que o pai tinha uma função importante na Cabeça do Bairro e era de Maças. Casou com António Joaquim de Bastos Guimarães. Um dos seus filhos deixou escrito que o pai tinha sido exposto na Roda de Guimarães, aportando a Ansião para trabalhar no Tribunal da Vintena - recente descoberta. Na minha investigação só vejo duas hipóteses , sendo à prior um filho bastardo que não foi assumido porque o pai seria casado, mas não o descuidou na educação, pagando estudos pese o ter posto na Roda  - 1ª o pai seria  de apelido Pimentel de Maças de D Maria com ligação ao norte onde o deixou na Roda de Guimarães para lhe dar este apelido a 2ª  mais provável ou não  se prenda com alguém de Guimarães que vinha às feiras francas da Constantina, pelo menos o nome de dois estão mencionados nos manuscritos da Confraria, vinham vender peles curtidas para se fazer calçada na centúria de 800, um deles teria numa mulher de Ansião o seu filho, homem, que quis proteger e o levou para a sua terra- Guimarães, o pondo na Roda dos expostos mas salvaguardado no pagamento de estudos, uma vez feito homem  para aprender um oficio, como tinha estudos o pai lhe  tenha dito a sua origem decidindo partir onde veio trabalhar- o que me parece plausível afirmar. Na verdade teria dinheiro com que adquiriu muita propriedade de chão que foi do Mosteiro em haste pública para ter chegado dividida por tantos filhos, inclusive o meu bisavô
Em finais de 800 aporta vindo de Tornado- Almoster - Manuel Cruz, ferrador que se casa com uma filha dele - Adelina Augusta,  vai continuar a arte de cozer  pão. Instalaram-se no tardoz do que foi a casa da Roda na Cabeça do Bairro.No actual  barracão da Mavilde ainda existe a masseira do pão.
Manuel Cruz tinha a oficina de ferrador onde hoje é a casa da Mavilde, com frente para a estrada real. A mulher era conhecida por Ti Maria Zé da Adelina.
Pais
Do meu bisavô Elias da Cruz
Pai dos Murtinhos (Abílio, Manuel e Conceição)
Do marido da Ti  Maria (Moreira) apelido do 2º marido (Julgo tiveram dois filhos, o "Cara" e uma irmã)
Maria José, viveu no gaveto da propriedade do Alto, a sul com o caminho para a Fonte da Costa, teve 3 filhos, o "Zé carates",  e os outros vivem no Brasil.
José, conhecido por Zé Ferrador, viveu em Além da Ponte.Este sem a certeza dos seus filhos - a Conceição Capelo, casou com o Terceiro e foram pais da Isaura Terceiro, pelo laço familiar.E o Zito Coutinho, o pai era ferrador e a mãe devia ser filha também. A Beatriz e,...

A arte de cozer pão foi continuada pelo meu bisavô Elias Cruz no Alto, ao Vale Mosteiro
Depois de casado foi viver  numa grande casa, pelo tardoz fechava num pátio com telheiro corrido a poente, cavalariças com colunas redondas, casa do azeite, onde antes se guardavam outros viveres, eira e poço - para mim foi antes uma estalagem. Montou uma padaria de gaveto com o portão seguida da  casa para sul. O  negócio familiar foi continuado pelas filhas - a minha avó Piedade da Cruz, a Ti Luz do Canhoto do Carvalhal, a Ti Amélia Cruz , Beatriz e Conceição, em Além da Ponte.
Ao tempo da minha avó Piedade da Cruz era obrigatório alvará e o boletim de sanidade.
Tempo que se fazia bom pão artesanal no negócio familiar de gerações: avós, pais, irmão, tios e primos do meu pai.

Na boca da minha avó Piedade "Qualquer coisa se pode pôr entalar na massa, chouriça, bacalhau, sardinha até açúcar"… 
A receita  das suas  broas de azeite com mel
Ingredientes: 0,5l de água + 0,25 l de mel+ 0,25 l de azeite+ 125 g de açúcar amarelo +0,5 kg de farinha de trigo + 50 g de erva-doce + 1/2 c de chá + de sal + 1/2 c de chá de canela em pó + 1 c de sopa de nozes ou pinhões (tal a fartura da casa nestes ingredientes) + raspa de limão.
Preparação: Num tacho deita-se: água, mel, açúcar, erva-doce, canela, sal e nozes ou pinhões. Leva-se ao lume e deixa-se ferver durante 15 minutos. Retira-se, junta-se a farinha e vai novamente a ferver, mexendo-se sempre, até que a massa despegue do fundo do tacho. Deixa-se a massa repousar até arrefecer. Tendem-se broinhas longitudinais num tabuleiro, golpeiam-se com uma faca à superfície, podem ser pinceladas com um ovo batido, vão a cozer no forno quente em tabuleiro untado de azeite ou manteiga até que fiquem de cor dourada e fofas por dentro. A avó dizia que não se deviam deixar cozer muito, ficavam nos dias seguintes muito rijas, calhaus no dizer dela...
Receita das merendeiras dos Santos
Ingredientes: um quilo de farinha, outro de açúcar, meio quilo de puré de batata, outro de nozes igual de passas, canela, erva-doce, oito ovos, uma colher de sopa de aguardente e fermento. No alguidar amassa-se a farinha, açúcar, puré de batata e os ovos, tudo bem misturado. No fim juntam-se: miolo das nozes, passas de uva, erva-doce e algumas gotas de aguardente. Tendem-se redondas, levam-se a cozer no forno de lenha, nunca mais de trinta minutos para não ficarem muito secas.
As minhas
                            
Bom pão, o dito fino chamado Coroa - tinha o preceito de se pôr em cima uma folha de couve para não queimar o olho repenicado cortado em quatro a tesourada que levava a massa, era fofo, branco, macio, uma maravilha...Carcaça grande e pequena, papos-secos com maminhas, e pão de mistura, grande e pequeno de 17 tostões. Debalde sem foto... Bom foi o Pão coroa e o Pão de Ló, de Ansião noutros tempos… 

Outras padarias
Com a abertura da Rua Dr Domingos Botelho de Queiroz no principio do século XX cortou uma propriedade de família onde também se cozia pão  na casa da Maria do Carmo Lopes, por detrás da minha casa, tanto pão vendeu no tempo da guerra com o racionamento, a minha mãe a estudar em Ansião esperava em fila com o livrinho das senhas, continuou o negócio a filha Piedade Lopes com uma nova padaria construída na parte de baixo da estrada.
A Padaria da minha avó Piedade, com o mesmo nome da prima era de paredes meias logo duas padarias na frontaria da estrada.

A padaria das Porteladas não seria da família, assim o julgo...
Julgo não houve mais …Havia gente que cozia o pão e o vendia ao sábado e domingo em tabernas com sardinha assada- Taberna do Ti Ruivo na vila, Dorinda entre outras.

A padaria da minha avó Piedade
De todas as padarias a mais emblemática para mim, a da minha avó Piedade da Cruz padeira de papel passado, diplomada. Aqui parava a cada dia a caminho da escola para dar os bons dias aos avós, certo e sabido ser enxovalhada pelo avô "Zé do Bairro" para não adormecer enquanto o pão cozia, se entretinha a ler os livros do meu pai e pela manhã delirante gostava de testar conhecimentos adquiridos comigo, mas esquecia-se que eu ainda andava na primária, sendo que lia livros do 5 e 7º ano de história e geografia...Pois era matéria que ainda não abonava, recordo de o ouvir por entre dentes a balbuciar amofinado " o teu pai era melhor de cabeça..."Recordo em miúda as obras de remodelação da padaria velha, que lhe fizeram um reforço de placa metendo tijolos de vidro para dar claridade, de um forno passou a dois, ainda a construção da nova chaminé, vestiário e casas de banho. A água era tirada a pulso com a barrica de madeira pesada do poço que ficava ao endireito da segunda porta, ao lado havia uma pia em laje vermelha (barro).Grande era naquele tempo o tráfego de homens e mulheres naquela casa no vaivém dos rituais fosse na padaria, a cada dia ao fim da tarde pelas cinco, até ao meio dia, quando a venda estivesse acabada  e em trabalhos nas propriedades, e ainda apanhar  carrascos para os fornos que se acendiam os fornos com tábuas sobrantes da serração. 
Na padaria a cada dia abriam-se as guitas dos sacos de farinha que se despejavam na amassadeira, uma rodada de mão certa de sal, água quente que vinha da panela de ferro na beira do lume depois era ver gente debruçada de braços nus enfiados na amassadeira de madeira onde amassavam a massa até ficar elástica, enquanto o forneiro acendia os fornos, os via arder em labaredas brutais e estridentes com os carrascos com bolotas da Costa da Fonte, e pelo meio aparas de pinho ...A fachada da padaria tinha apenas duas portas para a frente, uma atulhada de pilhas de sacos de farinha até ao teto e outros sacos de sal e ainda barras de fermento holandês,  no outro quarto de paredes meias era onde se atendia a freguesia e se vendia o pão, com balcão e balança de ferro azul com pratos em latão.As fardas e boinas dos padeiros eram de algodão brancas, as bicicletas eram armadas de cestos de verga debruados a panos iguais às fatiotas e se fechavam em rodada com fitas de nastro que se compravam nas manas Lucrécias. A venda era feita por mulheres  com cestas de pão à cabeça - a Ti Angelina de Albarrol, do Cimo da Rua ou as filhas do "Pau preto" trabalhadoras diárias da lida das fazendas, da casa e da padaria.Via chegar da fazenda cestas abarrotar de folhas de couve crespa e galegas para cobrir os bolos de noiva e o pão de coroa , para não se crestarem, ficarem só coradinhas e estaladiças.No corpo da padaria havia filas de tabuleiros de madeira enfarinhados, pás de encosto nas paredes de tijolo burro dos fornos de portas em ferro, com ferrolhos que faziam barulho a abrir, roldões de trapos para limpar o lastro da fornalha, vassouras de urse grandes para barrer o chão e latas para aparar cinzas...A padaria deixou de laborar por morte do meu tio Chico, seguida da minha avó Piedade.  Ainda foi alugada ao Sr Rocha do Avelar que ao meter dois aprendizes sem tutor, claro deu em frosques...Tantas vezes assisti ao trabalho árduo de fazer o bom pão de Ansião de outros tempos!
A padaria da D. Piedade Lopes
Laborou durante anos sob a sua orientação. Recordo depois de se retirar que a alugou, no dia a dia a via entrar portas dentro, escolhia o seu pão diretamente no tabuleiro, já o filho Necas de vozeirão, chegava-se e o pedia ao balcão, ao sábado o prazer de ouvir a conversa solta da Ti Maria e Albarrol, mãe do Fernando Freire, mulher despachada de passo rápido e conversa certeira, a "São do Mocho" essa ia à procura das sobras de véspera, levava um saco de papel da farinha cheio para engordar as galinhas, ao passar por mim dizia "então cachopa estás por cá?" a paixão que tinha pelas netas, sempre em alto patamar, já do neto não tinha a mesma satisfação por não ter queda para os estudos. Pena no coração a que sinto de a não voltar a ver -, sei que foi internada num lar fora de portas!
Lembranças do tempo do último inquilino
Isaura dos Empiados e o Júlio Godinho do Casal.
Um costume pelos Santos, Natal e Páscoa, reunir-se aqui uma meia dúzia de mulheres para fazerem bolos. Portas dentro, acotovelavam-se tabuleiros de madeira para os tender, na bancada grandes alguidares, cestas de ovos e formas de lata escuras de tanto irem ao forno cozer o Pão-de-ló, ou bolinhos de Todos os Santos, tendidos à mão. Há coisa de 6 anos, o tempo passa a correr, por altura dos "Santos" estive nesta padaria em alegre cavaqueira com a Amélia Serra, cachopa de 60 anos a todos deixou consternados a notícia da sua morte, boa mulher muito trabalhadora, aquela ganhou o Céu e merecia melhor sorte no dizer dos demais e no meu também, a visitei quando nasceu a filha, vivia então ainda numa casa alugada. Quem também estava na azáfama de bater os ovos, a Emília da Sarzedela, na altura vivia num apartamento na rua, a Ausenda do Mouco e outras mulheres do Casal. Daqui saíram bons e ricos assados de cabrito, galo, ou borrego nas assadeiras de barro que aos poucos se foram substituindo pelas de inox para não deixar rasto de gordura no lastro dos fornos, tanta gente aproveitou a quentura para os fazer à borla, a minha vizinha da frente a Emília do Porfírio, a Helena do Alexandre, eu, e outras que vi chegar, as manas Matias da rua do cemitério de carro com tabuleiros logo pela manhã de domingo, a minha Titi que vi sair bem vestida de assado nas mãos em vésperas do tour até França que havia de vitimar a sua querida filha e marido...Tantas vezes vi os assados saírem tostadinhos e de cheiro "arremedar leitão fingido". Incontestável a afabilidade da padeira Isaura, nessas alturas tanto subia e descia a escadaria da sua casa para olhar pela assadura, até chegar uma cavaca de sobro na fornalha para o calor não abrandar, o marido Júlio, um "paz de alma" com os copitos falava demais, fazia e dizia disparates -, boas as lesmas gordas para bons dentes que a Isaura fazia como ninguém.Grande o vaivém de gente a comprar pão, broa, bolo de noivos, lesmas... 

Pão de Ló
Adorava, ainda adoro comer ferraduras penduradas em andores de fogaças em Pousaflores e Dornes. 
Boas eram as Cavacas da Ti Matilde do Cimo da Rua, tão bem as sabia fazer e Pão-de-ló que qualquer boa doceira sabe fazer em terras de Ansião. No galinheiro da minha casa o ninho era e ainda continua de palha, raro o dia que as galinhas não o enchessem de ovos de gema amarelinha para as gemadas com açúcar amarelo.O melhor Pão-de-ló, esplêndido, húmido a fazer inveja à alta confeitaria das mãos da minha mãe saem altos e húmidos.
                          
Também baixos tipo Ovar, com creme por dentro, uma loucura de fofos, os da
minha comadre Odete que imitei!

A imitar as Fatias de Resende

Cavacas
                               
Bolos de noiva
                                
Lesmas
                                 
Sinto falta do buliço e sobretudo do cheiro a pão fresco acabadinho de cozer .
Hoje em Ansião não há pão de qualidade . Usam muito pão congelado.Abusam de fermentos e outros aditivos. 
O que falta em Ansião?   
Uma Panificadora!
A laborar no Camporês para pão e bolos tradicionais da região com distribuição pelo concelho.
O retalho em cada esquina de venda de pão sem se saber a proveniência devia acabar, pelo mal que faz a quem o come! 
O pão é para ser feito como deve ser- Bem Feito                     

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Adágios e ditados que ouvi por Ansião.

Adágios e ditados populares que teimam ficar no meu ouvido por tanto os ouvir na boca do pessoal de fora, gente que conheci contratada para trabalhos vários, nas fazendas dos meus pais...
Trovão em janeiro, nem bom prado nem bom palheiro. 
Não há luar como o de Janeiro, nem amor como o primeiro. 
No dia 22 de Janeiro pelo S. Vicente alça a mão da semente. 
Neve de fevereiro, presságio de mau celeiro.

No dia 24 de Fevereiro dia de S. Matias começam as enxertias.
Março, marçagão, manhã de Inverno, tarde de Verão; março marceja (chuva miudinha) pela manhã chove e à tarde calmeja; março pardo, antes enxuto que molhado. 
Quem não poda até março, vindima no regaço.
Vento de março, chuva de abril, fazem o maio florir. 
Em abril queima a velha o carro e o carril. 
Abril águas mil. É próprio do mês de abril as águas serem às mil.
Maio pardo e ventoso faz o ano formoso. 
Mês de maio, mês das flores, mês de Maria, mês dos amores.
Junho ventoso faz o ano formoso. Lavra no S. João, se queres haver pão. Sardinha de S. João já pinga no pão.
Julho mês das colheitas. Pelo S. Tiago, pinta o bago.
Agosto mês das festas. 
Em setembro ardem os montes, secam as fontes.
Dia de S. Bartolomeu anda o diabo à solta.
Quem planta no São Miguel vai à horta quando quer.
Outubro quente traz o diabo no ventre.
Em outubro sê prudente, guarda o pão, guarda a semente. 
No dia de S. Martinho em novembro, mata o teu porco e bebe o teu vinho. 
Pelo S. Martinho vai à adega e prova o vinho.
 Do Natal a Santa Luzia, cresce um palmo o dia.
 Em dia de Santa Luzia cresce a noite e mingua o dia e, …
Outros ditos do pessoal que andava ao dia a forase fores ao mercado compra:


Porco sarnudo (muita carne). 

Queijo pesado (não é rendilhado). 
Pão leve (sinal de bem cozido).
Azeite líquido (não tem borra). 
Mel coalhado (é puro). 
Ainda outras sabedorias, adágios que das suas bocas ouvia
”Se eu puder meto os meus e tiro os teus”…
”Quando o ganho é fácil a despesa é louca”…  
“Quem pouco ganha e muito gasta, se não herdou, furtou” 
Com todos me acostumei na aprendizagem de mezinhas, saberes, ditados do "borda-d’água popular” o saber das fases da lua para sementeiras e colheitas -, ao falar com eles a mesma linguagem, criei com todos uma empatia -, alguns desabafavam, contavam segredos, não era o facto de andar a estudar que me tornava diferente - gostava de estar com aquelas pessoas, com elas aprendi muito, tudo o que sei sobre a arte da lavoura e alguma coisa da vida.
Pior foi quando cheguei a Lisboa senti o gozo diário da minha pronúncia desses tempos “chamavam-me bimba”. 
Gente desse tempo que sempre me respeitou, especialmente o Ti Alfredo da quelha da Atafona, pai da minha amiga Tina -, no quintal semeava as favas, batatas, fazia os regos a prumo para o feijão verde, verdejava a frondosa e secular nogueira. Então não me lembro tanto dele, de me ensinar a pôr as batatas no rego, com carinho me arranjava um pauzito a bitola do espaço para nascerem certas, e o mesmo cuidado a plantar alfaces, couves-galegas, beterrabas, feijão, e ainda outras sabedorias. Amigo da conversa, de tantas conversas, adorava-me, sentia, e eu a ele, por ser homem bom, abençoado de olho esverdeado, homem distinto,  mais parecia um “Santo”. Havia outros trabalhadores rurais contratados pelos meus pais para tratarem de escavar a vinha; Pedro e Marcolino de Albarrol, também da mulher deste a Rosa, andou no quintal a tratar das nozes -, no tempo que eram três nogueiras, o Rafael da Garriasa também um trabalhador assíduo, e o Ti “Pau-preto ”andaram muito em tarefas pelo quintal.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Férias a deambular por Ansião em 2009

Boas férias em 2009 na casa rural . Há anos que não gozávamos assim umas férias...Por Ansião, Agroal e Moita Redonda e ainda fomos ao Algarve que merece outra cronica pelas fotos. As festas já tinham acabado. À nossa espera um arroz de cabidela como só a minha mãe sabe fazer, divinal e ainda nos presenteia com um bolo magnífico, não resiste a guloseimas.
No dia seguinte tínhamos convite para almoçar em casa do Tio Zé e da Tia Emília no Pereiro de Baixo. O repasto, mesa farta de leitão do "Bigodes" muito bom mesmo, dos melhores que tenho comido!
Seguiu-se o convite para o Pereiro de Cima na casa do Tio João e da Tia Zézita. Degustámos um esplêndido cozido, tinha havido matança, possivelmente a última, tudo é muito trabalho disse o tio. Seguramente um saboroso cozido à Portuguesa feito à moda antiga. Quanto a nós só faltava a farinheira, enchido que não gostamos de prescindir.
Passámos quatro dias sozinhos na casa rural . Não se podia com o calor à noite e o barulho da bichesa, grilos, cigarras...Era tanto calor que tivemos de dormir em quartos separados com as janelas abertas a ouvir até à uma da manhã o som inesquecível suave do "Oceano Pacífico". Não fizemos as tarefas todas que tínhamos programado. O tempo passou sem darmos conta. Depois de trabalhos no quintal no melhor ao escurecer por volta das 9 com a falta de luz no terraço gosto de me despir para saltar para a banheira e tomar um grande banho. Na cozinha confeccionar o jantar ao som de outra telefonia. Depois da cozinha arrumada refrescar na estrada na soleira da porta na noite escura na luz das estrelas ao som da bicharada.
Convidámos a família e oferecemos um almoço na adega. Sardinhada com tios do Pereiro , Zé ;Emília, João, Zézita; Acácio e Benilde. Grande o trabalho de limpar as teias de aranha e aranhões da adega, demos cor às madeiras das arcas e dos pipos velhos, redecorámos as velharias e alfaias suspensas sobre as traves de madeira. No janelo cortina de estoupa com renda azul que bordei. Deslocámos a mesa grande de madeira com os bancos corridos e outra mesa redonda, eram 11 pessoas, porque o chão em terra torna-se mais fresca.
O banco de carpinteiro e a arca grande serviram de apoio, nada faltou. Começamos com os acepipes, queijo fresco com trago a pedras de sal, queijo curado do Rabaçal, caju, passas de uva e o vinho do Porto da Mó. Seguiu-se a sopa de feijão verde com tomate, uma delícia.A sardinhada com boa salada e batata cozida. Por fim o famoso Pão de Ló feito pela minha mãe, aguardentes e café. Todos gostaram.
 
 


Agroal  
Um outro dia fomos redescobrir o Agroal de cara lavada, apesar de ainda não estar tudo pronto, havia muita gente, e muito menos moscas...
A minha linda mãe, tomara eu chegar à sua idade  e ter assim um belo corpo!
Levámos piquenique, comemos sob o olhar dos demais que comiam sandes e frango de churrasco sobre os joelhos enquanto nós bem acomodados na nossa mesa tipo malote, degustávamos o farnel, não faltou o cafezinho...levo sempre o termo com água quente. 
 
Também a praia fluvial do Mosteiro estava repleta, gostámos do banho. Ainda vimos um carro deslizar por o condutor não o ter deixado engatado, se não fosse o muro de cimento armado tinha sido uma catástrofe.
De regresso a casa, a filhota iniciava as suas férias e no dia seguinte seguimos rumo a desfrutar o Algarve!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Colónia de férias Dr. Bissaya Barreto em 60

Foram uns três anos que frequentei com a minha irmã, a Colónia Balnear Dr. Bissaya Barreto na COVA - GALA com uma extensão de 7 hetares, importante obra deixada por este médico nascido em Castanheira de Pera, como tantas outras Casas para Crianças, espalhadas pelo centro do País. 
As instalações serviam como colónia de férias para jovens do interior do país, mais carenciados. 
Volvidos 40 anos voltei ao espaço, agora abriga idosos em férias. Senti-me triste por ver que tanta coisa tinha mudado!
À chegada das camionetas todos eram divididos por setores; serviços, plásticos e,...A cachopada em fila indiana à sombra das copas dos altos pinheiros em a forte alarido e tropelia, apesar das vigilantes nos mandarem estar ordeiros ate´que nos mandassem seguir na direção dos balneários, porque do banho ninguém escapava, alguns seria a sua primeira vez, diziam as vigilantes entre dentes...Balneário de paredes em mármore e grandes torneiras com água morna onde todos se lavavam com sabão azul e branco  para depois de secos, de novo em fila indiana para receber um par de calção azul de sarja e camisola branca de meia manga, sendo que elas não se preocupavam com os tamanhos se seriam os apropriados para as crianças. Aconteceu num ano em que me deram uns calções onde cabiam dez... Casa onde se aprendia a ser esperto e ter pé ligeiro, havia gente das bandas de Viseu com ar de astucia, apesar de pobres -, então não nos roubaram logo no primeiro dia as lindas camisas de noite feitas de propósito pela modista D. Lucinda do Fundo da Rua de Ansião, nunca mais lhe pusemos a vista em cima. O nosso pai mandava-nos na mala amostras de vinho do Porto que à noite nos beliches abríamos para reconfortar o estômago da fome esfomeada por ser comida intragável e detestável, num ápice tal aparato fazia a delícia de quem se abeirasse de nós, até ao dia que sem elas ficamos também...Por isso aprendi rápido a ser espevita e maldosa, e no ano que me deram os calções enormes nessa noite os troquei pelos  calções do "pão dezassete tostões" alcunha que lhe tinha posto logo que a conheci, pelo formato da cabeça me fazer lembrar o pão que todos os dias ia à padaria comprar...A comida terrível de travo e cheiro a fénico, nunca tinha comido polvo, odiava aquele arroz escuro com tentáculos que me pareciam sardaniscas, o que vale é que tal como no Bairro de Santo António -, também aqui liderávamos o nosso grupo de cachopada da terra, sentadas na mesma mesa, coitada da filha do Guarda Fios, o Sr Farinha, obrigada a comer não sei quantas sopas, também as cachopas do carteiro João dos Netos e,...A deambular pelo refeitório "a fazer de polícia, o Sr. Marques" homem rude, baixote, armado de óculos de massa e régua em punho-, o polícia para manter o silêncio, e na vigia da obrigação de se comer tudo o que punham no prato...Mas fazíamos batota, o salão era enorme...De manhã as filas indianas se organizavam para sair intercaladas a caminho da praia a calcorrear dunas, a subir e a descer por meandros, como cobras a serpentear na areia a olhar o mar, o entretimento passava por apanhar a caruma dos pinheiros que nós chamamos munha e fazer espinhas.Tanta brincadeira com todos em círculo na roda da barraca -, tomava conta de nós a então Regente da escola de Albarrol. Adorava o jogo do prego na areia molhada, pior mesmo o ritual do mergulho com o banheiro, o medo que fiquei, ainda hoje não consigo mergulhar, boas lembranças do lanche à tardinha em que as mulheres demoravam em chegar armadas de cestas de verga à cabeça cobertas com panos brancos, traziam o lanche, nada mais do que quartos de pão de quilo com grossas fatias de marmelada da boa, vermelha. Muito gulosa a minha irmã ficava com a minha e eu com o pão dela. 
Lembro-me de um dia termos recebido uma encomenda da nossa mãe, sandes de carne assada embrulhadas em papel vegetal dentro de uma caixa de sapatos que pedira na sapataria do Sr. Gaspar. Esquecer este episódio é que jamais-, quando a encomenda foi aberta…"pão duro e carne seca e negra, mas que nos soube tão bem, não fossem os nossos fortes dentes, difícil seria traga-las..."
No melhor? Nunca, em ano algum, fizemos a temporada completa, ao terceiro domingo os nossos pais apareciam mortos de saudades, de olhos fixos nas filas com centenas de miúdos vestidos de igual, a descoberta era árdua, difícil, todos diferentes sendo todos iguais-, nesse ano repararam na minha irmã que trazia no bolso de trás dos calções o papo-seco rijo que tinha sobrado da dita encomenda. Visivelmente incomodados por tal aparato, apesar de nós dizermos que tinham chegado rijas que nem "cornos" mas no caso nos souberam que nem "ginjas".
Na colónia havia um anfiteatro para fazer peças de teatro e outras atividades. 
Recordo que todos os pavilhões eram forradas com bonitos azulejos da fábrica de Aleluia de Aveiro.

sábado, 18 de abril de 2009

As minhas sardinheiras...

Adoro sardinheiras.Talvez por serem eternamente portuguesas!
Esta compre-a em Odemira quando aluguei a casa típica pintada de branco com barras a azul para a minha filha.

Comprei duas diferentes, quando me vim embora, trouxe uma pernada de cada uma, mas apenas esta sobreviveu , está farta de dar flores, aqui e na casa rural também.Gosto sobretudo da tonalidade e do frondoso cacho de flores em cerise a lembrar as cerejas...bonito vaso vidrado em amarelo torrado a ostentar vaidoso a minha sardinheira!

Uma rua replta de sardinheiras eem Santiago da Guarda ao Carvalhal
 

terça-feira, 14 de abril de 2009

Rosas de Alexandria na Mouta Redonda

Avista-se a serra do Anjo da Guarda onde o calcário é rei e na frente a Nexebra eucaliptizada de costados xistosa onde já proliferam antenas eólicas.Serra da Ovelha também conhecida por Serra do Anjo da Guarda de onde se desfruta além do miradouro, moinhos de vento  recuperados que se deslocam sobre rodas em  eiras de pedra,  mesas para piqueniques, a capela do Anjo da Guarda, casa dos caçadores, casa do Ciclo do Pão, vestígios do paleolítico e outras pedras esculpidas pela erosão salpicadas de orquídeas da serra e tomilhos, o mais predominante e conhecido na região chamado erva de Sta Maria, e alecrim, cucas, jacintos, lírios do campo, alfazema, carqueja e rosmaninho.
O almoço pascal  de 2009  aconteceu na casa rural...A minha mãe fez o almoço e trouxe-o onde foi degustado. Desde que herdámos a casa foi a primeira vez que comemos na sala, temos utilizado o terraço, a cozinha velha, também chamada churrasco, ou a cozinha da casa. A mesa estava bonita com uma toalha branca bordada do meu enxoval, enfeites e uma jarra com rosas do jardim, onde não faltava um prato cheio de amêndoas de chocolate branco e preto, lilás, de Paris, e... O arroz de pato assado com couve lombarda " Pato à Franklim" estava uma delícia. As sobremesas além do arroz doce símbolo da época festiva, o folar, o bolo com doce de chila para fechar com o cafézinho e um pichel de aguardente de cana trazida dos Açores,  pena estar prestes a acabar. Depois do almoço passeata até ao Vale para matar saudades, o sítio onde a minha mãe nasceu e eu em miúda passei dias de férias com a minha avó.

Vale 
Na quelha do Vale parei na porta da  casa  do tear da Ti Joaquina tecedeira, hoje a casa da Maria  e do Silvério que se abre para o largo da fonte e dos tanques.
A figueira da Índia ou do Inferno como lhe chamava em pequena, por causa dos picos, trazida de Coruche cresceu no talho na frente da eira da minha mãe.
Redobradas forças para caminhar pela Nexebra até ao Santaínho propriedade herdada que fica junto à estrada de terra batida agora mais larga, vendidos os eucaliptos apreciar os novos rebentos. Decidi conhecer o limite da propriedade que se estende por uma das faldas da encosta, ninguém me quis acompanhar, caminhei sozinha apenas por intuição e cheguei primeiro à Mina de S.João, do que eles, que optaram regressar pela estrada. Aventura vivida em êxtase porque o terreno se apresenta a pique com eucaliptos de todos os tamanhos de onde apenas deslindava resquícios de céu por entre as suas pontas tão altas, e pelo chão à toa infestantes troncos nus, sobrepostos com muita ramagem deixada pelos madeireiros no corte da madeira, loucura o emaranhado em que tive de saltar, abaixar-me, sempre com medo de escorregar pelo declive e obstáculos  sempre surreais do terreno. Finalmente encontrei uma mina  que contornei com cuidado por o terreno se mostrar traiçoeiro, optei por descer pelo seu leito, por entre silvas, e outros pequenos arbustos para finalmente chegar sã e salva.Adorei ter conseguido fazer a descida sozinha de imprevisto.Aventura fenomenal.
Depois ainda não satisfeita esgueirei-me pela ribanceira abrupta do Carvalhal da minha mãe, com o alargamento da estrada, o acesso ficou muito alto, com muita pedra de xisto solta e íngreme.
Mirei o grande tanque em pedra que outrora levava a água da mina da Cavada para a casa dos meus avós em queda livre.


Para junto da eira parar junto do silvedo das rosas vermelhas de Alexandria, as favoritas da minha mãe e já eram da minha avó.
 
No ribeiro que desce da Nexebra apanhei  um ramo de jarros para enfeitar a casa da minha irmã, afinal era dia de Páscoa e ainda fui ao cemitério enfeitar a campa do meu pai, e as rosas deixei na campa logo atrás da da minha Titi, irmã mais velha da minha mãe, marido e filha Isabelinha...

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