segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ginjal à Quinta de Arialva no Olho de Boi

Passeio em família 
Ginjal, Quinta do Arealva e  falésia do Cristo Rei
A MINHA PRINCESA.
 A foto revela o contraste da destruição da porta vandalizada sem aldraba -,com a beleza doce dela...
Em pose do guindaste usado para puxar barcos do Clube de vela
Linda a paisagem do rio vista da escadaria do Miradouro da Boca do Vento, magnífica, soberba sobre Lisboa com o cais para barcos particulares atracarem vindos de Lisboa.

No cimo da escadaria que liga o miradouro da Boca do Vento ao Cais do Ponto Final, deixei-me fotografar, o que adoro. Triste por reparar que ainda há muita falta de conhecimento que deu na cobertura tosca a cimento da parede de sustentação do Miradouro -, ostentava uma enorme concentração de fósseis com milhões de anos, parecia um quadro.

As arribas foram estancadas com redes, preservadas, para não haver derrocadas. Mostra-se mais agradável o grande atalho que daqui parte na direção do rio ou dele a caminho de Almada velha.
Para encantar o visitante na descoberta de belezas ainda selvagens deixo o convite à laia de escapadela até à  margem sul para degustar uma mariscada no Miradouro da Boca do Vento, ou no Miradouro do Castelo de Almada, basta apanhar o cacilheiro  depois em caminhada pelo Ginjal tem restaurantes na borda do rio muito bons como o Ponto Final com este cais espetacular onde registei a minha mãe no dia do seu aniversário em 2010 passado em Cascais  e na volta aqui viemos tomar um refrigerante e desfrutar o Tejo e Lisboa.


Esplanada do Ponto final 
Atrevimento é subir a escadaria. Se não tiver forças, tem sempre o elevador panorâmico.
Há um jardim relvado junto do Tejo.
Património,o Fontanário da Pipa onde as caravelas enchiam as pipas d'água doce a caminho de outros mares. 
 
 
 

Em frente do Museu do Mar no Olho de Boi jazem mós de lagar em pedra e uma pedra esculpida em pia.

Quinta do ARIALVA

A entrada da Quinta de Arialva logo a seguir a Olho de Boi a beijar o Tejo no sopé do Cristo Rei
Há registo que o palacete foi mandado edificar por um nobre irlandês João O'Neill em 1766
Litígios de heranças (?) e decadência com abandono da indústria de engarrafamento de vinhos foi abandonada sendo rapidamente vandalizada por toxicodependentes .
  • Julgo que no momento a propriedade é camarária com projeto de revitalização que englobe as minas de ouro julgo de origem fenícia no vale debaixo da ponte(Vale da Rocha Brilha). 
Julgo tem havido muitos entraves nesta zona ribeirinha com propriedades cujos herdeiros ausentes pelo Brasil e noutras bandas, em tudo torna as negociações morosas  ao que se acresce o aproveitamento de gente sem escrúpulos que vão tomando poiso de espaços, e depois tem de ser despejados, além das verbas para limpeza e revitalização sendo que a falésia neste espaço ainda por estancar em segurança!
Conheci a quinta há 35 anos com os armazéns de pipos de madeira  ainda intatos de tão grandes que rondavam os tetos, o palácio fechado nem me atrevi a espreitar, porque não descortinei a entrada de acesso das instalações fabris à arriba da casa por uma escadaria.
Na segunda vez que visitei o espaço descobri a cozinha do forno de lenha com dois alguidares vidrados em ocre e verde encravados em bancada cerâmica para neles se amassar a farinha .
A frontaria para a arriba de lajes que seguia o enfiamento do portão da entrada, hoje apresenta-se entupida com um penedo de tonelada desprendido da falésia, na sua frente muro de sustentação do jardim em leirões e do lado oposto outro jardim, na mediação do palácio com o miradouro alpendrado que gosto de chamar caramachão,  e do lado da falésia o lagar de varas para terminar noutro jardim de muro de pedra de sustentação do Tejo com bocas compridas para escoamento de águas .
Anos mais tarde incendiada e destruída sendo que no passado o palácio teve estuques lindos que vi resquícios nas paredes.
 
O escritório adornado de prateleiras minúsculas foi à poucos anos destruído como o telhado.
Bela chaminé estreita ao lado do mirante
Passeio em família numa caminhada de sábados à tarde.
Triste ver o que resta da Quinta de Arialva totalmente destruída , outrora tão abonada noutros tempos de grande labuta,- resta-lhe a vista sobre o postal de vistas -, a capital!
  • Reviver o Lagar de Varas ainda em óptimo estado a pedir quem lhe acudam antes que seja mais vandalizado. Julgo o que arruinou a vida do Lagar foi a filoxera nos vinhedos da encosta do Cristo Rei  nos anos 1856 (?). ainda resistem algumas parreiras bravias desses tempos com gvinhas e cachos...
 

Breve descanso naquela que um dia foi o miradouro em varanda coberta do solar da Quinta de Arialva sobranceira ao rio e apreciar a três a vista sobre Lisboa com a brisa de mansinho a tocar os veleiros...A sonhar!
Vislumbrei das janelas abertas o Cais da Rocha, e nele havia paquetes, rebocadores e porta - contentores. Enquadrado na silhueta da  ponte vinha a deixar rasto nas águas do Tejo o cacilheiro de Belém a caminho da Trafaria. 
Pescadores amadores de fim-de-semana em pequenos barcos pintados em cores berrantes a fazer lembrar toiros e festa brava, junto à margem. Outros empoleirados no muro de sustentação do jardim junto do miradouro com o varandim, adornado de lindas bicas de pedra...
 Bancos de jardim revestidos a azulejos
O Tejo e Lisboa  na vista do caramachão  fechado, só aberto de janelas
No rio  no cais atracavam barcos com pipas de vinho para aqui ser engarrafado.
O que resta da Capela de São João na frontaria do solar
Jardim entre o Lagar de Varas e o miradouro do Tejo

Instalações fabris 
Caves onde foi engarrafado o vinho de marca "Arialva e Benfica "que trouxe rótulos...
Passeio de colunatas em pedra para sustentação de videiras  na sombra para os jardins em leirões com escadinhas

Só vi destruição. Registei o que resta de cubas de armazenamento, ainda me lembro dos enormes pipos em madeira  a rondar os tetos.
 Atrevimento descer até ao rio por carreiros de pescadores
A ponte vista de baixo para cima, do rio
 Vale da Rocha Brilha, por aqui minas de ouro em tempos idos onde apareciam limalhas no Tejo. 
Revigorar forças  no continuar a subir a falésia até ao Cristo Rei!

Descansei ao meio da falésia ainda antes de chegar na hora de assistir à missa  no Cristo Rei, sem antes apreciar a magnífica paisagem.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lembrar padarias do meu tempo de cachopa em Ansião

Não sei como era feito o primitivo pão de rolão, com que cereais na mistura de trigo e centeio amassado com água morna, sal e fermento holandês, até  se despegar das mãos, cobre-se com um pouco de farinha, faz-se uma cruz com a mão ao alto e entoa-se a reza "São Vicente te acrescente, Santa Inês te dê boa vez. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", Pai-Nosso ou uma Ave-maria por fim tapa-se com o pano branco, abafada fica a levedar, até dobrar de volume.
O momento do ponto da levedura é dado pela farinha a desprender-se da cruz que deve dobrar de volume para tender os pães ou bolinhas dispostas no pano branco do tabuleiro enfarinhado que se levanta sempre um bocadinho para não pegarem umas às outras. O forno tem de estar quente, mais de uma hora a arder com fartura de ramos de carvalho, oliveira, urze e carrascos ao sinal da cúpula esbranquiçada hora de roldão na mão a puxar o brasido para a boca do forno, se for caso limpa-se o terreiro com o rolão de panos.Pronta a pá na mão para enformar o lastro de pães sempre do fundo para a boca do forno. Fornada cozida em menos de uma hora sem lugar à poia  a jorna de uma broa ao forneiro de serviço que se dava em muita terra. Grande era a vontade de comer o pão acabadinho de cozer, tantas vezes trincado e logo cuspido, por certo a queimadura na boca, apesar dos avisos  que comer pão quente faz mal, agarra-se ao esófago. O forneiro quando tira o pão tem o preceito de o bater por baixo com a mão, ao sinal de leveza, sinal de cozidinho.  No meu tempo de criança em casa dos meus pais a nossa pá  foi adaptada pelo nosso pai de uma gasta que tinha sido da sua mãe Piedade e as demais alfaias como um alguidar, tabuleiro de madeira e o pano de estoupa branco. Atrás da casa o meu pai construiu um pequeno forno com o barro branco saído do buraco para se fazer o poço no quintal e telhos mouriscos dum barracão desabado, o telheiro do fornito era de estrutura fraca, que a ciência de cúpulas, demorou a dar certo no Mosteiro de Aljubarrota  e o nosso pai afinal, tinha-se ficado pela matrícula no curso em Coimbra, assim o nosso fornito foi sol de pouca dura!
As receitas da minha avó Piedade  "Qualquer coisa se pode pôr entalar na massa, chouriça, bacalhau, sardinha até açúcar"… 
Receita das broas de azeite com mel
Ingredientes: 0,5l de água + 0,25 l de mel+ 0,25 l de azeite+ 125 g de açúcar amarelo +0,5 kg de farinha de trigo + 50 g de erva-doce + 1/2 c de chá + de sal + 1/2 c de chá de canela em pó + 1 c de sopa de nozes ou pinhões (tal a fartura da casa nestes ingredientes) + raspa de limão.
Preparação: Num tacho deita-se: água, mel, açúcar, erva-doce, canela, sal e nozes ou pinhões. Leva-se ao lume e deixa-se ferver durante 15 minutos. Retira-se, junta-se a farinha e vai novamente a ferver, mexendo-se sempre, até que a massa despegue do fundo do tacho. Deixa-se a massa repousar até arrefecer. Tendem-se broinhas longitudinais num tabuleiro, golpeiam-se com uma faca à superfície, podem ser pinceladas com um ovo batido, vão a cozer no forno quente em tabuleiro untado de azeite ou manteiga até que fiquem de cor dourada e fofas por dentro. A avó dizia que não se deviam deixar cozer muito, ficavam nos dias seguintes muito rijas, calhaus no dizer dela...
Receita das merendeiras dos Santos
Ingredientes: um quilo de farinha, outro de açúcar, meio quilo de puré de batata, outro de nozes igual de passas, canela, erva-doce, oito ovos, uma colher de sopa de aguardente e fermento. No alguidar amassa-se a farinha, açúcar, puré de batata e os ovos, tudo bem misturado. No fim juntam-se: miolo das nozes, passas de uva, erva-doce e algumas gotas de aguardente. Tendem-se redondas, levam-se a cozer no forno de lenha, nunca mais de trinta minutos para não ficarem muito secas.
Bom pão dito fino chamado de coroa em cima era posto uma folha de couve para não queimar o olho repenicado cortado em quatro a tesourada que levava a massa, era fofo, branco, macio, uma maravilha...Carcaça grande e pequena, papos-secos com maminhas, e pão de mistura, grande e pequeno de 17 tostões.
Debalde sem foto... Bom foi o Pão coroa e o Pão de Ló, de Ansião noutros tempos… 
Pão de mistura foi feito pela minha filha Dina tem genes de padeira!
No Bairro de Santo António na casa da Ti Maria Zé, mãe do meu bisavô Elias da Cruz e do pai dos Murtinhos onde ainda existe no barracão da Mavilde onde amassava o pão.Sempre houve muita gente em Ansião a cozer pão. Ao tempo era obrigatório alvará e o boletim de sanidade. Bom pão artesanal no negócio familiar de gerações: avós, pais, irmão, tios, e primos do meu pai.
No Alto se cozia pão na casa do meu bisavô Elias da Cruz onde ainda conheci a padaria desativada ao tempo de gaveto, com a casa com janelas e porta a norte e a poente, forno e uma pequena chaminé.
A caminho da Fonte da Costa na grande casa em pedra de sobrado e poço no átrio da entrada, da Maria José, irmã do meu bisavô.
Em Além da Ponte na casa do irmão do meu bisavô Zé Ferrador, e também na casa da sobrinha a tia do meu pai, a Amélia.
Na vila na casa da Maria do Carmo Lopes, por detrás da minha casa, tanto pão vendeu no tempo da guerra com o racionamento, a minha mãe a estudar em Ansião esperava em fila com o livrinho das senhas, continuou o negócio a filha Piedade Lopes.
Padaria da minha avó Piedade, com o mesmo nome da prima e de paredes meias logo duas padarias na frontaria da estrada.Outras padarias apareceram: da irmã da minha avó "Luz do Canhoto"no Carvalhal. 
Porteladas não era da família, assim o julgo, e não sei se houve mais …
De todas as padarias a mais emblemática para mim, a da minha avó Piedade da Cruz padeira de papel passado, diplomada. Aqui parava a cada dia a caminho da escola para dar os bons dias aos avós, certo e sabido ser enxovalhada pelo avô "Zé do Bairro" para não adormecer enquanto o pão cozia, se entretinha a ler os livros do meu pai, e pela manhã delirante em testar conhecimentos adquiridos comigo, mas esquecia-se que andava ainda na primária, sendo que lia livros do 5 e 7º ano de história e geografia...Pois era matéria que ainda não abonava, recordo de o ouvir por entre dentes a balbuciar amofinado " o teu pai era melhor de cabeça..."Recordo em miúda as obras de remodelação da padaria velha, que lhe fizeram um reforço de placa, e meteram tijolos de vidro para dar claridade, de um forno passou a dois, ainda a construção da nova chaminé, do vestiário e casas de banho. A água era tirada a pulso com a barrica de madeira pesada do poço que ficava ao endireito da segunda porta, ao lado havia uma pia em laje vermelha (barro).Grande era naquele tempo o tráfego de homens e mulheres naquela casa no vaivém dos rituais fosse na padaria, a cada dia ao fim da tarde pelas cinco, até ao meio dia, quando a venda estivesse acabada  e em trabalhos nas propriedades, e ainda apanhar  carrascos para os fornos. 
Na padaria a cada dia abriam-se as guitas dos sacos de farinha que se despejavam na amassadeira, uma rodada de mão certa de sal, e água quente que vinha da panela de ferro na beira do lume depois era ver gente debruçada de braços nus enfiados na amassadeira de madeira a amassar até ficar a massa elástica, enquanto o forneiro acendia os fornos, que os via arder em labaredas brutais e estridentes com os carrascos com bolotas da Costa da Fonte, e pelo meio aparas de pinho ...A fachada da padaria tinha apenas duas portas para a frente, uma atulhada de pilhas de sacos de farinha até ao teto, e outros sacos de sal e ainda barras de fermento  e no outro quarto de paredes meias era onde se atendia a freguesia e se vendia o pão, com balcão e balança de ferro azul com pratos em latão.As fardas e boinas dos padeiros eram de algodão brancas, as bicicletas eram armadas de cestos de verga debruados a panos iguais às fatiotas e se fechavam em rodada pelas fitas de nastro, que se compravam nas manas Lucrécias, as mulheres de Albarrol, do Cimo da Rua ou as filhas do "Pau preto" trabalhadoras diárias da lida das fazendas, da casa, e da padaria, também andavam na venda do pão de cesta à cabeça.Via chegar da fazenda cestas abarrotar de folhas de couve crespa e galegas, para cobrir os bolos de noiva e o pão de coroa , para não se crestarem, ficarem coradinhas.No corpo da padaria havia filas de tabuleiros de madeira enfarinhados, pás de encosto nas paredes de tijolo burro dos fornos de portas em ferro, com ferrolhos que faziam barulho a abrir, roldões de trapos para limpar o lastro da fornalha, vassouras de urse grandes para barrer o chão, e latas para aparar cinzas...A padaria deixou de laborar por morte do meu tio Chico, seguida da minha avó Piedade. 
Ainda foi alugada ao Rocha do Avelar que ao meter dois aprendizes sem tutor, claro deu em frosques...Tantas vezes assisti ao trabalho árduo de fazer o bom pão de Ansião de outros tempos!
A padaria da D. Piedade Lopes laborou durante anos sob a sua orientação. Sendo após a sua retirada várias vezes alugada. Lembranças do tempo do último inquilino: Isaura dos Empiados e o Júlio Godinho do Casal. Um costume pelos Santos, Natal e Páscoa, reunir-se aqui uma meia dúzia de mulheres para fazerem bolos. Portas dentro, acotovelavam-se tabuleiros de madeira para os tender, na bancada grandes alguidares, cestas de ovos, e formas de lata escuras de tanto irem ao forno cozer o Pão-de-ló, ou bolinhos de Todos os Santos, tendidos à mão.
Há coisa de 6 anos, o tempo passa a correr, por altura dos "Santos" estive nesta padaria em alegre cavaqueira com a Amélia Serra, cachopa de 60 anos a todos deixou consternados a notícia da sua morte, boa mulher muito trabalhadora, aquela ganhou o Céu e merecia melhor sorte no dizer dos demais e no meu também, a visitei quando nasceu a filha, vivia então ainda numa casa alugada. Quem também estava na azáfama de bater os ovos, a Emília da Sarzedela, na altura vivia num apartamento na rua, a Ausenda do Mouco, e outras mulheres do Casal. Daqui saíram bons e ricos assados de cabrito, galo, ou borrego nas assadeiras de barro que aos poucos se foram substituindo pelas de inox para não deixar rasto de gordura no lastro dos fornos, tanta gente aproveitou a quentura para os fazer à borla, a minha vizinha da frente a Emília do Porfírio, a Helena do Alexandre, eu, e outras que vi chegar, as manas Matias da rua do cemitério de carro com tabuleiros logo pela manhã de domingo, a minha Titi que vi sair bem vestida de assado nas mãos em vésperas do tour até França que havia de vitimar a sua querida filha e marido...Tantas vezes vi os assados saírem tostadinhos e de cheiro "arremedar leitão fingido". Incontestável a afabilidade da padeira Isaura, nessas alturas tanto subia e descia a escadaria da sua casa para olhar pela assadura, até chegar uma cavaca de sobro na fornalha para o calor não abrandar, o marido Júlio, um "paz de alma" com os copitos falava demais, fazia e dizia disparates -, boas as lesmas gordas para bons dentes que a Isaura fazia como ninguém.Grande o vaivém de gente a comprar pão, broa, bolo de noivos, lesmas... 
No dia a dia da antiga padeira D. Piedade a via entrar portas dentro, escolhia o seu pão diretamente no tabuleiro, já o filho Necas de vozeirão, chegava-se e o pedia ao balcão, ao sábado o prazer de ouvir a conversa solta da Ti Maria e Albarrol, mãe do Fernando, mulher despachada de passo rápido e conversa certeira, da "São do Mocho" essa ia à procura das sobras de véspera, levava um saco de papel da farinha cheio para engordar as galinhas, ao passar por mim dizia "então cachopa estás por cá?" a paixão que tinha pelas netas, sempre em alto patamar, já do neto não tinha a mesma satisfação por não ter queda para os estudos. Pena no coração a que sinto de a não voltar a ver -, sei que foi internada num lar fora de portas!
Adorava, ainda adoro comer ferraduras penduradas em andores de fogaças em Pousaflores e Dornes. 
Boas eram as Cavacas da Ti Matilde do Cimo da Rua, tão bem as sabia fazer e Pão-de-ló que qualquer boa doceira sabe fazer em terras de Ansião. No galinheiro da minha casa o ninho era e ainda continua de palha, raro o dia que as galinhas não o enchessem de ovos de gema amarelinha para as gemadas com açúcar amarelo.O melhor Pão-de-ló, esplêndido, húmido a fazer inveja à alta confeitaria, que das mãos da minha mãe saem altos e húmidos, também baixos tipo Ovar, com creme por dentro, uma loucura de fofos, os da minha comadre Odete!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Adágios e ditados que ouvi por Ansião.

Adágios e ditados populares que teimam ficar no meu ouvido por tanto os ouvir na boca do pessoal de fora, gente que conheci contratada para trabalhos vários, nas fazendas dos meus pais...
Trovão em janeiro, nem bom prado nem bom palheiro. 
Não há luar como o de Janeiro, nem amor como o primeiro. 
No dia 22 de Janeiro pelo S. Vicente alça a mão da semente. 
Neve de fevereiro, presságio de mau celeiro.

No dia 24 de Fevereiro dia de S. Matias começam as enxertias.
Março, marçagão, manhã de Inverno, tarde de Verão; março marceja (chuva miudinha) pela manhã chove e à tarde calmeja; março pardo, antes enxuto que molhado. 
Quem não poda até março, vindima no regaço.
Vento de março, chuva de abril, fazem o maio florir. 
Em abril queima a velha o carro e o carril. 
Abril águas mil. É próprio do mês de abril as águas serem às mil.
Maio pardo e ventoso faz o ano formoso. 
Mês de maio, mês das flores, mês de Maria, mês dos amores.
Junho ventoso faz o ano formoso. Lavra no S. João, se queres haver pão. Sardinha de S. João já pinga no pão.
Julho mês das colheitas. Pelo S. Tiago, pinta o bago.
Agosto mês das festas. 
Em setembro ardem os montes, secam as fontes.
Dia de S. Bartolomeu anda o diabo à solta.
Quem planta no São Miguel vai à horta quando quer.
Outubro quente traz o diabo no ventre.
Em outubro sê prudente, guarda o pão, guarda a semente. 
No dia de S. Martinho em novembro, mata o teu porco e bebe o teu vinho. 
Pelo S. Martinho vai à adega e prova o vinho.
 Do Natal a Santa Luzia, cresce um palmo o dia.
 Em dia de Santa Luzia cresce a noite e mingua o dia e, …
Outros ditos do pessoal que andava ao dia a forase fores ao mercado compra:


Porco sarnudo (muita carne). 

Queijo pesado (não é rendilhado). 
Pão leve (sinal de bem cozido).
Azeite líquido (não tem borra). 
Mel coalhado (é puro). 
Ainda outras sabedorias, adágios que das suas bocas ouvia
”Se eu puder meto os meus e tiro os teus”…
”Quando o ganho é fácil a despesa é louca”…  
“Quem pouco ganha e muito gasta, se não herdou, furtou” 
Com todos me acostumei na aprendizagem de mezinhas, saberes, ditados do "borda-d’água popular” o saber das fases da lua para sementeiras e colheitas -, ao falar com eles a mesma linguagem, criei com todos uma empatia -, alguns desabafavam, contavam segredos, não era o facto de andar a estudar que me tornava diferente - gostava de estar com aquelas pessoas, com elas aprendi muito, tudo o que sei sobre a arte da lavoura e alguma coisa da vida.
Pior foi quando cheguei a Lisboa senti o gozo diário da minha pronúncia desses tempos “chamavam-me bimba”. 
Gente desse tempo que sempre me respeitou, especialmente o Ti Alfredo da quelha da Atafona, pai da minha amiga Tina -, no quintal semeava as favas, batatas, fazia os regos a prumo para o feijão verde, verdejava a frondosa e secular nogueira. Então não me lembro tanto dele, de me ensinar a pôr as batatas no rego, com carinho me arranjava um pauzito a bitola do espaço para nascerem certas, e o mesmo cuidado a plantar alfaces, couves-galegas, beterrabas, feijão, e ainda outras sabedorias. Amigo da conversa, de tantas conversas, adorava-me, sentia, e eu a ele, por ser homem bom, abençoado de olho esverdeado, homem distinto,  mais parecia um “Santo”. Havia outros trabalhadores rurais contratados pelos meus pais para tratarem de escavar a vinha; Pedro e Marcolino de Albarrol, também da mulher deste a Rosa, andou no quintal a tratar das nozes -, no tempo que eram três nogueiras, o Rafael da Garriasa também um trabalhador assíduo, e o Ti “Pau-preto ”andaram muito em tarefas pelo quintal.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Férias a deambular por Ansião em 2009

Boas férias em 2009 na casa rural . Há anos que não gozávamos assim umas férias...Por Ansião, Agroal e Moita Redonda e ainda fomos ao Algarve que merece outra cronica pelas fotos. As festas já tinham acabado. À nossa espera um arroz de cabidela como só a minha mãe sabe fazer, divinal e ainda nos presenteia com um bolo magnífico, não resiste a guloseimas.
No dia seguinte tínhamos convite para almoçar em casa do Tio Zé e da Tia Emília no Pereiro de Baixo. O repasto, mesa farta de leitão do "Bigodes" muito bom mesmo, dos melhores que tenho comido!
Seguiu-se o convite para o Pereiro de Cima na casa do Tio João e da Tia Zézita. Degustámos um esplêndido cozido, tinha havido matança, possivelmente a última, tudo é muito trabalho disse o tio. Seguramente um saboroso cozido à Portuguesa feito à moda antiga. Quanto a nós só faltava a farinheira, enchido que não gostamos de prescindir.
Passámos quatro dias sozinhos na casa rural . Não se podia com o calor à noite e o barulho da bichesa, grilos, cigarras...Era tanto calor que tivemos de dormir em quartos separados com as janelas abertas a ouvir até à uma da manhã o som inesquecível suave do "Oceano Pacífico". Não fizemos as tarefas todas que tínhamos programado. O tempo passou sem darmos conta. Depois de trabalhos no quintal no melhor ao escurecer por volta das 9 com a falta de luz no terraço gosto de me despir para saltar para a banheira e tomar um grande banho. Na cozinha confeccionar o jantar ao som de outra telefonia. Depois da cozinha arrumada refrescar na estrada na soleira da porta na noite escura na luz das estrelas ao som da bicharada.
Convidámos a família e oferecemos um almoço na adega. Sardinhada com tios do Pereiro , Zé ;Emília, João, Zézita; Acácio e Benilde. Grande o trabalho de limpar as teias de aranha e aranhões da adega, demos cor às madeiras das arcas e dos pipos velhos, redecorámos as velharias e alfaias suspensas sobre as traves de madeira. No janelo cortina de estoupa com renda azul que bordei. Deslocámos a mesa grande de madeira com os bancos corridos e outra mesa redonda, eram 11 pessoas, porque o chão em terra torna-se mais fresca.
O banco de carpinteiro e a arca grande serviram de apoio, nada faltou. Começamos com os acepipes, queijo fresco com trago a pedras de sal, queijo curado do Rabaçal, caju, passas de uva e o vinho do Porto da Mó. Seguiu-se a sopa de feijão verde com tomate, uma delícia.A sardinhada com boa salada e batata cozida. Por fim o famoso Pão de Ló feito pela minha mãe, aguardentes e café. Todos gostaram.
 
 


Agroal  
Um outro dia fomos redescobrir o Agroal de cara lavada, apesar de ainda não estar tudo pronto, havia muita gente, e muito menos moscas...
A minha linda mãe, tomara eu chegar à sua idade  e ter assim um belo corpo!
Levámos piquenique, comemos sob o olhar dos demais que comiam sandes e frango de churrasco sobre os joelhos enquanto nós bem acomodados na nossa mesa tipo malote, degustávamos o farnel, não faltou o cafezinho...levo sempre o termo com água quente. 
 
Também a praia fluvial do Mosteiro estava repleta, gostámos do banho. Ainda vimos um carro deslizar por o condutor não o ter deixado engatado, se não fosse o muro de cimento armado tinha sido uma catástrofe.
De regresso a casa, a filhota iniciava as suas férias e no dia seguinte seguimos rumo a desfrutar o Algarve!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Colónia de férias Dr. Bissaya Barreto em 60

Foram uns três anos que frequentei com a minha irmã, a Colónia Balnear Dr. Bissaya Barreto na COVA - GALA com uma extensão de 7 hetares, importante obra deixada por este médico nascido em Castanheira de Pera, como tantas outras Casas para Crianças, espalhadas pelo centro do País. 
As instalações serviam como colónia de férias para jovens do interior do país, mais carenciados. 
Volvidos 40 anos voltei ao espaço, agora abriga idosos em férias. Senti-me triste por ver que tanta coisa tinha mudado!
À chegada das camionetas todos eram divididos por setores; serviços, plásticos e,...A cachopada em fila indiana à sombra das copas dos altos pinheiros em a forte alarido e tropelia, apesar das vigilantes nos mandarem estar ordeiros ate´que nos mandassem seguir na direção dos balneários, porque do banho ninguém escapava, alguns seria a sua primeira vez, diziam as vigilantes entre dentes...Balneário de paredes em mármore e grandes torneiras com água morna onde todos se lavavam com sabão azul e branco  para depois de secos, de novo em fila indiana para receber um par de calção azul de sarja e camisola branca de meia manga, sendo que elas não se preocupavam com os tamanhos se seriam os apropriados para as crianças. Aconteceu num ano em que me deram uns calções onde cabiam dez... Casa onde se aprendia a ser esperto e ter pé ligeiro, havia gente das bandas de Viseu com ar de astucia, apesar de pobres -, então não nos roubaram logo no primeiro dia as lindas camisas de noite feitas de propósito pela modista D. Lucinda do Fundo da Rua de Ansião, nunca mais lhe pusemos a vista em cima. O nosso pai mandava-nos na mala amostras de vinho do Porto que à noite nos beliches abríamos para reconfortar o estômago da fome esfomeada por ser comida intragável e detestável, num ápice tal aparato fazia a delícia de quem se abeirasse de nós, até ao dia que sem elas ficamos também...Por isso aprendi rápido a ser espevita e maldosa, e no ano que me deram os calções enormes nessa noite os troquei pelos  calções do "pão dezassete tostões" alcunha que lhe tinha posto logo que a conheci, pelo formato da cabeça me fazer lembrar o pão que todos os dias ia à padaria comprar...A comida terrível de travo e cheiro a fénico, nunca tinha comido polvo, odiava aquele arroz escuro com tentáculos que me pareciam sardaniscas, o que vale é que tal como no Bairro de Santo António -, também aqui liderávamos o nosso grupo de cachopada da terra, sentadas na mesma mesa, coitada da filha do Guarda Fios, o Sr Farinha, obrigada a comer não sei quantas sopas, também as cachopas do carteiro João dos Netos e,...A deambular pelo refeitório "a fazer de polícia, o Sr. Marques" homem rude, baixote, armado de óculos de massa e régua em punho-, o polícia para manter o silêncio, e na vigia da obrigação de se comer tudo o que punham no prato...Mas fazíamos batota, o salão era enorme...De manhã as filas indianas se organizavam para sair intercaladas a caminho da praia a calcorrear dunas, a subir e a descer por meandros, como cobras a serpentear na areia a olhar o mar, o entretimento passava por apanhar a caruma dos pinheiros que nós chamamos munha e fazer espinhas.Tanta brincadeira com todos em círculo na roda da barraca -, tomava conta de nós a então Regente da escola de Albarrol. Adorava o jogo do prego na areia molhada, pior mesmo o ritual do mergulho com o banheiro, o medo que fiquei, ainda hoje não consigo mergulhar, boas lembranças do lanche à tardinha em que as mulheres demoravam em chegar armadas de cestas de verga à cabeça cobertas com panos brancos, traziam o lanche, nada mais do que quartos de pão de quilo com grossas fatias de marmelada da boa, vermelha. Muito gulosa a minha irmã ficava com a minha e eu com o pão dela. 
Lembro-me de um dia termos recebido uma encomenda da nossa mãe, sandes de carne assada embrulhadas em papel vegetal dentro de uma caixa de sapatos que pedira na sapataria do Sr. Gaspar. Esquecer este episódio é que jamais-, quando a encomenda foi aberta…"pão duro e carne seca e negra, mas que nos soube tão bem, não fossem os nossos fortes dentes, difícil seria traga-las..."
No melhor? Nunca, em ano algum, fizemos a temporada completa, ao terceiro domingo os nossos pais apareciam mortos de saudades, de olhos fixos nas filas com centenas de miúdos vestidos de igual, a descoberta era árdua, difícil, todos diferentes sendo todos iguais-, nesse ano repararam na minha irmã que trazia no bolso de trás dos calções o papo-seco rijo que tinha sobrado da dita encomenda. Visivelmente incomodados por tal aparato, apesar de nós dizermos que tinham chegado rijas que nem "cornos" mas no caso nos souberam que nem "ginjas".
Na colónia havia um anfiteatro para fazer peças de teatro e outras atividades. 
Recordo que todos os pavilhões eram forradas com bonitos azulejos da fábrica de Aleluia de Aveiro.

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