sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Passeio de comboio a vapor da Régua ao Tua

Um dos meus sonhos de infância era viajar num comboio a vapor. Decidi presentear a família. Se melhor o pensei melhor o fiz. Na Net descobri o endereço turístico e foi fácil fazer a reserva e transferência electrónica ao que de retoma me foi enviado o Voucher para 4 pessoas.Partimos de Ansião no sábado dia 30 de Setembro 2006, pelas 7,30 tomámos a direcção da IP3 só parámos em Mortágua para beber um café e verter águas, comemos uns folhados que tinha feito de véspera para o farnel.De seguida fomos revisitar Tondela, está em franco crescimento, muita habitação nova e infra-estruturas de grandes superfícies. Mal consegui localizar o Solar (restaurante onde há coisa de 25 anos tinha saboreado o melhor caldo verde nesta vida, apesar do que a minha mãe faz também ser muito bom, ali junto à igreja com a sua torre alta do inicio do séc XX.
Convenci o meu marido a rumar até às termas de S. Pedro do Sul. Quase que não reconhecia o local, tantas foram as obras. Deixei de ver o balneário romano. Banhei as mãos nas águas sulfurosas e quentes. 
De regresso à estrada e com receio de nos podermos atrasar só voltámos a parar na Régua. Reconheci a velha estação ferroviária e os vastos armazéns vinháticos em madeira a cair de velhos, na linha fazia-se ouvir o comboio, estava com a fornalha a arder, via-se o fumo saído da chaminé a ondular o horizonte, muito escuro.....do outro lado o rio imenso a espraiar-se num sorriso aberto e mesmo junto a nós o frenesim do vaivém das vindimas com as carrinhas a abarrotar de uvas a luzir no inox dos tanques a caminho dos lagares. Já em Godim por causa dum casamento entrámos numa estrada tão estreita como nunca vi, sempre a subir e não havia jeito de o piso melhorar nem sentido de saída, decidimos inverter a marcha em boa hora o fizemos, já quase à entrada vinha um táxi se tivesse sido um pouco mais à frente não sei como sairíamos daquela enrascada, agora a situação criada quase dá para sorrir, mas não para repetir.Naquela região, o nosso olhar só alcança beleza, vinhedos e mais vinhedos, casas solarengas com os lagares em laboração e o cheiro, o cheiro a mosto a vinho novo...nada de encontrar um parque de merendas para degustar o piquenique que levava e já se fazia horas de almoçar foi mesmo à beira da estrada numa urbanização de vivendas no muro largo de cimento armado que suporta o declive, serviu de mesa e como pano de fundo o rio como paisagem, atrás de nós o corropio da azáfama das vindimas, todos nos endereçavam cumprimentos, estávamos no norte, as pessoas são mais hospitaleiras.Depois de reconfortarmos o estômago fomos estacionar o carro e tomar um címbalo no café da estação.Visitámos o comboio estava a máquina a ser oleada com grandes regadores com bico fino e muito comprido, o operador de manutenção disse-nos que a fornalha demorava 4 horas a aquecer, vi pela 1ª vez o carvão verdadeiro utilizado nos comboios e navios de outrora, trouxe uma pequena amostra para a minha colecção de pedras. 
O comboio ia cheio, sentámo-nos nos lugares virados para o rio, muito fumo e muito apito, trim....pim... pim...quase demasiado, mas faz parte do cenário, foi-nos servido a bordo bôla de presunto de Lamego e um cálice de vinho do Porto e água fresquinha esta grátis, apenas tínhamos de comprar o púcaro de alumínio de 1 € para bebermos as vezes que os aguadeiros passavam de garrafão de palha em braços de rótulo branco a dizer ÁGUA.A nossa carruagem era das mais antigas, uma maravilha, para se abrir as janelas tinham correias de couro largas e para se porem os casacos tinham por cima dos bancos suportes em ferro forjado com rede.Todo o passeio foi deslumbrante. Todo o trajecto desfrutado é magnífico, avistam-se nas colinas muitas quintas no meio dos socalcos de vinhedos, exibem garbosamente grandes cartazes publicitários das suas produçoes ao viajante que fica viciado e espontaneamente repete em voz alta, olha ali em cima é a quinta da Ferreirinha, e a do Calém e a do K... da janela nas curvas via-se o deslizar sinuoso do comboio ao longo do rio, a estrada de fumo e barcos de recreio , trocávamos acenos de adeus, do outro lado as infindáveis paredes e barreiras de xisto como companhia e muito respeito.
 
Chegámos ao Pinhão, sítio pitoresco, no rio viam-se muitos barcos. Alguns turistas terminaram ali o seu passeio . Outros tomaram um dos barcos rumo à Régua, antes tomavam aperitivos na House Vintage do Porto. Quanto a nós preferimos apenas fazer o circuito de comboio, seguimos até ao nosso destino o Tua. Desembarcámos para o comboio mudar de linha e reabastecer de água, foram manobras muito bonitas a fazer lembrar os filmes de westerns, nunca antes tínhamos presenciado tal façanha, a fornalha a ser atestada de carvão pelos homens com pás enormes para não se queimarem. As manobras são um momento lúdico a não perder.Os turistas estavam radiantes meteram-se dentro da máquina queriam ver todos os pormenores, logicamente estavam todos farruscas, até nós, as narinas ficaram cheias de fuligem e a nossa roupa também. Durante o percurso da viagem fomos abrilhantados por um grupo de 4 pessoas de um rancho folclórico, fenomenal a miúda da pandeireta era muito bonita e sabia-o.......fogosa e atrevida o raças da moçoila!
Neste compasso de tempo trouxe umas placas de xisto para a minha colecção assim como um bloco redondo de granito típico desta zona.De regresso oferecemos os nossos lugares aos senhores que tinham vindo sentados do lado do xisto, para poderem apreciar o rio, foi um bonito gesto, sei. Pelo meio estabelecemos alegres conversas, lembro o Sr de Arco do Baúlhe que dizia ser o maior produtor de tremoços da região, o homem não se calava estava sempre a meter conversa com as hospedeiras de bordo, deviam ter trazido uns pastelinhos de bacalhau e tremoços , a bôla que nos deram só deu para o furo de um dente, caramba afinal o bilhete custa 8 contitos...

Acabou a viagem de novo chegada à Régua. Despedimos-nos dos companheiros anónimos desta linda viagem. Aproveitámos ainda a luz do dia e demos uma voltinha pela parte histórica de carro e decidimos ir até Viseu onde já chegámos de noite, jantámos no Hilário, tasca mesmo na zona histórica , barato e muito boa confecção, quando saímos estava a chuviscar, decidimos ir para casa e não dormir fora, a chuva no restante percurso foi intempestiva, furiosa, quase não deixava ver o piso mas com a graça de Deus chegámos bem, dormimos toda a noite o cansaço tomou conta de todos...
Valeu o passeio foi inesquecível!
Aconselho a todos vivenciarem tão belos cenários.

Falar do Pinhal antes foi Casal do Galego e do Carvalhal em Ansião

Casa da Ti Alzira Aureliano
Boa mulher acabou cega, a minha primeira vez que senti a cegueira e seus efeitos tanta aflição me fazia vê-la naquela casa jamais concluída na beira da estrada ao Carvalhal, sem luz, não enxergava nada. A casa ainda resiste de encosto à parede norte a roseira de pétalas pálidas, tantas vezes colhi as suas belas rosas de conversa com ela a caminho das Cavadas e de outras fazendas na carroça puxada pela mula "Gerica" na companhia da prima Júlia do Bairro sempre com tempo para dois dedos de conversa com a pobre mulher …"atão Ti Alzira como está vossemecê hoje?" com tempo de me abeirar da roseira para sufragar em cheiro apressado rosas!

Falar do Carvalhal do Bairro , antes se chamou Casal do Galego e hoje Pinhal
O Ti Narciso conhecido pelo "Lavrante" com o genro trabalhavam a pedra. Ainda vive na minha memória as lembranças de os ver a partir pedra na eira atrás da casa quando ia à minha fazenda da Barroca do Bairro na extrema com o ribeiro e o quintal dele, e o dia quando trouxeram uma nova pia para o azeite, dizia-lhe a minha mãe "espero que esta não lhe ponha ranço como a outra...", retorquiu o pobre homem ”tire-lhe a senhora a borra do fundo que mau sabor a pedra não lhe dá”. Enquanto isso, o genro agradecia o gelo que os filhos tinham vindo buscar a nossa casa em  tabuleiros de gelo que se partia  com o martelo para encher a botija redonda que traziam e levavam em corrida para a mãe que tinha sido operada ao estômago… 
Casa da "Maria entrevada"

Mãe das minhas amigas: Idalina, Helena e Júlio. Vítima de um aparatoso acidente doméstico quando trabalhava como mulher-a-dias na casa do Sr. Oliveira na vila. Grávida quando subia a escada de madeira com um cântaro de água desequilibrou-se e caiu desamparada, fraturando a coluna. Entrevada ficou para sempre, assim se dizia num tempo que não se faziam seguros de acidentes pessoais, porque existir até existiam. Não se compreende em gente abonada, tal sabedoria não abonar, nem tão pouco entender reparar o acidente de outra forma. As poucas vezes que conversei com ela na cozinha junto ao lume a vi rastejar para o atiçar… Afetuosa era demais a mãe das minhas amigas, mulher de poucos recursos teve brio de obsequiar a oferta do pasto da Ferranha para as ovelhas, as filhas a minha casa vieram trazer a oferenda, açúcar, arroz e, ...Mulher bondosa, sofrida, não merecia tanto azar nesta vida!...
O marido Abílio Carvalho era do Bairro, costumava ir ao Alentejo à ceifa. Um ano a camioneta deixou-o ao Ribeiro da Vide quando eu ia a passar, orgulhoso com as oferendas que trazia logo ali me mostrou - oh cachopa olha o chapéu que trouxe do Alentejo - ali o abre, enorme, em pano azul...e um grande pão- dura 7 dias...

"Ti Ana Sapateira" 
Gostava da pinguita, abastecia-se na adega do vizinho Augusto Lopes e Ti Eufrofina, a quem chamávamos Porfina, os filhos malandros misturavam água, ela não notava, ainda lhe faziam outras tropelias, sim porque a Emília era levada da breca…
Reminiscências romana/visigóticas da sua casa
Sita na berma da que foi a estrada medieval
 
Já não me lembro como se chamava a mulher que aqui viveu e tinha a filha em Lisboa
Casa da prima Ermelinda já falecida
O Ti Augusto Lopes e Ti Eufrofina
Tinham no quintal um poço de chafurdo
Casa da irmã da minha avó paterna a tia  Maria da Luz Canhoto
A Ti Jezulinda era uma mulher alta do Casal Soeiro, carismática no meandro das crendices e das poções mágicas…Tirou-me o cobranto.
A Ti Ermelinda e o Ti Neco quando tinham os netos de férias estes perdiam-se nas brincadeiras no Largo do Bairro, mal a noite caia punha-lhes o candeeiro a petróleo na janela, assim o Zé Manel e a Cristina não perdiam o caminho de casa…
Mais gente do Carvalhal: Arlindo e Helena; Celeste, Emília, António e Lídia Lopes; Prima Luzita do "Canhoto" e irmãos; António, Filipe e Mário e,
No Pinhal: Helena e Fernando, altos e bonitos; Henrique, Joaquim, Mário, Gracinda, Maria, do Ti " Borracheiro", muito dados; Adelaide e,

Alhandra e sub Serra verdejante a passear...

Viagem no dia 1 de Abril de 2006 .

Segui a rota da A1 em direcção à Vialonga , ai segui pela antiga estrada N1 percorrendo as várias localidades, Sta Iria Azóia e Póvoa, parei em Alverca para visitar a nova igreja dos Pastorinhos. Ouvimos to som do carrilhão.Já dentro da igreja reparei que os padres confessavam crianças que se acotovelavam na sua vez, imagem arredada de mim há muito tempo e que de repente me fez lembrar a época que se aproxima, a Páscoa ! Também eu enquanto criança , na quaresma ia á confissão para comungar no dia de Páscoa.Gostei de sentir tanta veneração em crianças de tão tenra idade, eram muitas, pareciam tão inocentes. Percorremos muitas ruas, vários centros comerciais, muito comércio tradicional ,recantos de lazer ,alguns a lembrar a forte tradição partidária esquerdista tão enraizada naquelas gentes na mostra desenfreada de esculturas de ferro tão ao gosto imperial da grande e pesada indústria representativa de trabalho árduo e mal remunerado.
Seguimos para Alhandra. A vila enquadra-se num cenário de engaixamento entre o rio, caminho de ferro e a auto estrada.Optámos por deixar o carro logo na entrada para descobrir a pé a vila de traça ribatejana, pitoresca, repleta de casario com traça antiga, ferro forjado, azulejaria variada com a zona ribeirinha quase totalmente requalificada.
Falta aproveitar os antigos armazéns e criar infra-estruturas de sucesso como restaurantes, discotecas à semelhança do que Matosinhos fez aproveitando as enormes fachadas dos velhos armazéns para seduzir o turista com lonas gigantes a anunciar, ementas e eventos...
muito agradável para passeios pedonais e de bicicleta. Muitos bancos cobertos por lonas de cor crua para dias de muito calor. Paisagem deslumbrante sobre o mouchão de Alhandra a que eu teimo em chamar de sapal, mas não o sendo ,por ser uma ilha o que difere do sapal por ter meandros de água e terra...era chegada a hora do almoço.Passámos defronte da casa onde viveu o escritor Soeiro Pereira Gomes onde escreveu o livro " Esteiros" , situa-se na quinta da Escusa, das janelas vêem-se laranjeiras o rio e a lezíria.Já tínhamos escolhido o restaurante mesmo no canto da Praça 7 de Março dia de nascimento do Dr. Souza Martins, cujo busto está patente com o pedestal cheio de flores oferecidas pelos agraciados nas suas preces. Entrámos e já era a última mesa. O repasto como não podia deixar de ser foi Sável frito com açorda e ovas raladas , houve quem quis provar as enguias fritas com arroz de grelos, de sobremesa uma soberba fatia de bolo de bolacha rematada com um bom brandy, o preço foi uma pechincha. Voltámos a caminhar mais um pouco para degustar o repasto.Tirei mais umas fotos de estilo e visitámos o Museu implantado na casa onde nasceu o Dr Souza Martins de carisma pessoal. O espólio algo pobre, com aproveitamento para relembrar outros filhos da terra que também foram grandes no desporto e tauromaquia, no r/c pode-se observar vários tipos de cerâmica outrora fabricados em Alhandra como os tijolos de 2 e 4 buracos, as telhas de canudo que na beira se chamam de mouriscas e as telhas merselha, a arte de carpintaria, miniaturas de barcos típicos do Tejo e por fim a emblemática fábrica do cimento ainda em laboração.
De lamentar falta de simbologia da antiga fábrica de descasque de arroz inaugurada em 1932 e que hoje apenas resta a sua imponente fachada.
Saímos borda fora...e fomos ver novamente o rio , as barcaças e passadiços em ripas de madeira quando a maré está alta servem de transbordo para a margem dos pescadores.
Seguimos para o sub-serra em direcção a S. João dos Montes.
Paisagem magnífica muito verdejante toda emoldurada por flores amarelas e brancas das árvores de fruto, subimos o morro onde está a Junta de freguesia, ali mesmo o cemitério uma igreja rematada com uma cruz em pedra do tempo dos Templários e uma grande casa de quinta do outro lado, em avançada fase de construção um conjunto de grandes vivendas cuja arquitectura agradável e muito bonita com remates de tijoleira antiga , lindas ...
Apanhámos logo a CREL e viemos em trânsito sossegado até casa.
Valeu a pena!
Rico passeio, rio, serra, arte tradicional e bom almoço!
Vale a pena repetir.

Arrábida até aos confins do Moinho da Mourisca

20 de maio de 2006 - Era domingo, decidimos sair logo pela manhãzinha em direcção à serra da Arrábida. Passámos por Azeitão logo na entrada do lado direito nasceu vasta urbanização de luxo, vivendas de todos os estilos, algumas enormes, com lindos telhados e com muitos espaços em redor, ajardinados a denotar muito bom gosto com piscinas, relvados e arbustos, noutras mais o meu género antigo , apreciei objectos em barro como talhas, de todos os tamanhos, que me parece inserida em condomínio fechado  com becos, pracetas e estradas sem saída, pouca sinalética, debalde perdemos o tino da entrada, vimos-nos gregos para a encontrar, mas por fim lá nos orientámos e saímos pela estrada que vai dar à aldeia de Dois Irmãos , finalmente. De seguida tomámos a estrada da serra, logo na entrada uma grande Quinta onde está instalada uma oficina de azulejaria e pintura com venda directa ao público, mais à frente mesmo na ribanceira, julgo a Quinta do Bispo, não sei se nasce ou renasce casarão que pela vegetação luxuriante não deixava enxergar ou vislumbrar nada durante anos.Adiante algum casario isolado e quintas salpicam o espaço até começarmos finalmente a subir a serra, do lado esquerdo podemos ver o azulejo a dar o mote " El Carmen" à enorme Quinta na encosta da serra, defronte do mar....Muita vegetação exuberante típica mediterrânica de 1 a 2 metros de altura, entrelaçada quase impenetrável, ao longe ....podem ver-se os pastos verdejantes a lembrar a paisagem "Bocage", aqui tão perto em plena serra da Arrábida.Continuámos caminho por entre brechas da serra podemos observar rasgos de mar, resplandecente com o brilho do sol em tão grande calmaria. Cenário muito lindo apesar de persistirem névoas a encobrir a sua beleza.Tomámos a direcção do Portinho da Arrábida, descemos a longa estrada em declive, a vegetação nesta zona é um pouco diferente com pequenas árvores enroladas nos arbustos criando no observador uma vontade nata de desejo em tomar os trilhos e partir à descoberta de rotas no meio da serra, que se podem tornar perigosas se não forem acautelados todos os meios de orientação. A talhe de foice em frente ao Convento dos Capuchos estava um grupo de escuteiros junto a um trilho pedonal, no dia seguinte vi na televisão já na parte final da reportagem os bombeiros tiveram de ir em seu auxílio e resgatá-los.Voltando atrás, chegados ao Portinho, ainda persiste continuar a garganta apertada da estrada que contorna o Forte e nos dá acesso mesmo à água, quiçá um quadro pintado por Rembrandt, muito pela simbiose das cores, tonalidades de verdes contrastes do branco do casario , verde, azul do mar e o céu, tudo místico, quem dera ser poetisa e soltar a voz em versos de eloquência para descrever este sítio de tamanha beleza indiscritivel, incomensuravelmente bela.Caminhámos sobranceiro ao mar, desci à praia, a água calma em ondas minúsculas a rebentar devagarinho....as conchas, as pedras, de todos os tamanhos, trouxe uma e um pequeno caracol por este apresentar pingos de madrepérola.De regresso vimos casal com filhote de 4 anitos , o pai levava o saco do piquenique, gostei de ver e recordar o passado quando eu fazia o mesmo com a nossa filha. Subimos novamente a serra, a estrada para a Figueirinha ainda interdita pelas obras de requalificação das falésias é magnífica, os morros de pedras sublimes em calcário , apresentam esculturas de rara beleza que o tempo pela erosão, vento e a chuva esculpiu tão majestosamente, que a vontade é de percorrer a serra e trazer todas......a paisagem é uniforme, grande vastidão tem indícios de incêndio do último ano, deixando as pedras mais descarnadas, fazendo lembrar meandros ondulados , paisagem única...........descemos e por curiosidade fomos ver se a estrada para a Figueirinha estava mesmo fechada, depois de passada a fábrica do cimento, deparámos efectivamente com obras na falésia, gruas e um carrinho pendurado por cordas a fazer lembrar paisagem lunar na primeira ida à Lua, na colocação de redes de protecção para as pedras não caírem, bem, assim no verão já se poder ir em segurança à praia. Rumámos em seguida até Setúbal, quando passámos no parque de merendas na Quinta da Comenda já cheirava a sardinha, e de repente lembrei-me, vamos até à Mitrena, há anos que não vamos lá. Usei a minha forte dose de convencimento. Tomámos a estrada, lindo foi saborear as margens do rio ali junto a nós ao longo da estrada , também as grandes indústrias que se perfilham como cogumelos, de repente o sapal à nossa frente, vestígios de moinho de maré junto ao estaleiro que agora é da Lisnave. Estava um paquete e vários navios para reparação, mais à frente a estrada termina, tudo em redor é sapal menos do lado esquerdo que é um morro, subimos pela 1ª vez esta estrada e só vimos fábricas e uma grande quinta com uma vinha invejável.Deu no entanto para observar como era bonito todo o cenário água por todo o lado menos por um, afinal a península de Setúbal! Linda a paisagem, soberba. Fazia-se a hora do almoço, de regresso tomámos a estrada para Praias do Sado e fomos almoçar ao sítio das Pontes, nunca lá tínhamos comido. A comida era muito caseira, javali no tacho, o tempero era espectacular parecia o tempero do frango na púcara da minha mãe, divinal, a amarelinda macia , encorpada, doce, picou na glote, gostei muito , o vinho de Fernando Pó, pois claro não estivéssemos nós em terras de bons vinhos, uma pomada e o o pão alentejano, muito bem confeccionado.Bem ressoados como se diz na minha terra, o mais sensato foi tomar o caminho de regresso a casa, mas antes ainda quisemos ir ali tão perto à Gâmbia . Grande o seu parque de campismo, andavam a fazer a rede de esgotos, muitos buracos no maquedame. Apreciámos os Esteiros onde se pratica piscicultura. Nem de propósito tinha na semana antes visto num programa de televisão uma reportagem sobre este tema, para o efeito tinham levado exemplares das várias espécies cultivadas em viveiros, corvina, robalo, eiró, safio, dourada, alguns servem para confeccionar as famosas caldeiradas que exemplificaram e com o caldo desta fazem uma sopa de peixe com massinha de cotovelo para no final confortar o estômago, com sabor a coentros. Fiquei com água na boca. A atestar pelos imensos e desafogados viveiros orlados pelos altos carreiros cobertos pelo manto de água, acredito que o seu paladar nada deve deixar aos pescados no mar.

Ainda visitámos o moinho de Maré da Mourisca, restaurado com o seu passadiço de madeira a cair de velho e o barco ancorado de cor azul forte.Até exclamei, ai se tivesse outra vida, era aqui que comprava uma casita .Local muito idílico e apetecível ainda mui selvagem, onde não falta muita água, sobreiros, ricas paisagens, bom peixe vinho e pão, tão perto da capital, um cantinho feito por Deus sobranceiro ao rio, lindo vasto para sonhar, amar e morrer a sorrir.....de regresso seguimos pela auto estrada e chegámos sãos e salvos.

Foram horas de lazer e de gozo de prazeres indescritíveis para REPETIR...Havemos de voltar, disso tenho a certeza!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Alvorge no concelho de Ansião!


Gosto muito de Ansião, A minha terra de adopção, onde vivi até aos meus 20 anos.Algumas pessoas interrogam-se neste tão nobre gostar, na pretensa  saber o porquê. Direi que é muito simples, pelo carinho que sinto pela terra e pelas Pedras...Lamento muitíssimo a atitude dos nossos antepassados, alguns ainda vivos por não terem o mesmo orgulho pelas ditas Pedras...diria em jeito de ofensa "as comeram" ou simplesmente tem vendido as poucas que ainda restam, empobrecendo ainda mais o concelho e todo um Património que apesar de ser na maioria  particular, deveria ser de Todos.
Se os antepassados da vila de Ansião fossem da mesma têmpera dos da vila do Alvorge, todos no concelho nos poderíamos orgulhar também de ter mais património de pé e não temos! 
Os nossos antepassados menosprezaram as Pedras, em lembrar as gentes do Alvorge no orgulho na sua conservação e preservação, apetece-me dizer " gostaria muito de aqui ter nascido "
Parabéns às gentes que tão brilhantemente tem sabido reconstruir as casas dos seus antepassados.
"Casa dos Avós"
 
Desafio a outros conterrâneos a fazerem um passeio até ao Alvorge e percorrer as ruas em jeito de caminhada, como fiz com a minha mãe, deleitem-se com o bom gosto dum Povo que nem parece pertencer ao concelho de Ansião. Perguntarão o porquê ? Respondo mais à frente...As pessoas do Alvorge denotam serem amantes das Pedras, das cortinas de linho com rendas, das floreiras nas janelas e sobretudo muito asseadas, na visita à igreja, das mais limpas do concelho, a cheirar a lavado onde falei com as senhoras que procediam à rotina de limpeza, explicaram-me tudo o que queria saber sobre as imagens e a talha dourada, até à sacristia fui, nos pormenores é que se vê a grandeza do Povo, pois os meus olhos poisaram numa lindíssima toalha de rosto, em linho, com mais de cem anos, com uma das rendas e monograma mais bonitas que jamais descansei o olhar, e olhem que a minha avó paterna Piedade da Cruz, tinha um enxoval de rainha, executado por ela na sua máquina de costura e à mão.

Abergaria da Misericórdia do Alvorge de 1709 
Sobrado com balcão na tradição de antanho na região e o banco para descanso
 
Senti-me bem nesta terra onde percorri todas as ruas em calçada...
Hospital e Capela da Misericórdia 
Falta placa informativa defronte da Casa da Misericórdia explicando a sua origem, do brasão, do sino e até das palmeiras, trazida pelos mouros.
Apreciei com grande emoção várias janelas de avental, algumas com inscrições; a pequena capela, datada do séc.XVI; outra janela ostenta a data de 1707, esta decorei, nem a casa amarela, muito bonita por sinal, mas de cor exageradamente forte, destoa no conjunto, mas se fosse retirado o reboco mostrando a pedra firme a brilhar ao sol seria ainda mais bonita, nem a dezena de outras habitações que apesar de pedra, ainda não sofreram remodelações.Tudo em prol de mostrar a traça tradicional que foi rainha na região.
 Choca a mistura do antigo com o moderno nem sempre feliz nas escolhas...
Pedras a ladear janelas para os vasos de sardinheiras

 Casa que foi de um juiz
Na centúria de 800 disse-me a actual proprietária  D.Clementina o seu varandim de colunas veio do solar da Torre da Ladeia dos Carneiro Figueiredo.

 Pela frente bela caçada antiga de calhaus em preto e branco
Descobri na antiga estrada real antes foi romana
Uma casa onde me parece ser bem visível a reutilização de pedras antigas .
O pedestal das ombreiras laterais das portas da fachada, numa delas, apesar da grade ofuscar distingui esculpida a sigla jesuíta.E o varandim também é antigo, nada tem a ver com a arquitectura da casa simples.
Na mesma casa noutra porta encontrei outras pedras com palavras esculpidas, igualmente reutilizadas.
Induz a pensar ter havido uma pedra com uma inscrição e ao ser reaproveitada para esta porta foi cortada em partes iguais, sendo que na esquerda apresenta as letras(?) ODEVS e na direita QVEMO (?).
Enquanto que a sigla jesuíta não deixa margem para dúvidas, já as outras duas não sei se teriam pertencido à Companhia jesuíta. Aventa duas hipóteses; aberta a rua de acessibilidade a sul da capela foi demolida a sacristia no séc XX e antes tenha pertencido aos jesuítas, tendo sido reaproveitadas as pedras na casa, outra hipótese tenham vindo as pedras do paço jesuíta da Granja. Aposto na primeira hipótese, a primeira residência jesuíta foi aqui  no Alvorge (?), matéria a explorar.

Capelinha do Espírito Santo
 Casa com balão telhado e janelas de avental
 Alminhas
  Duplo beirado português e janela de avental
 Acima do lintel vestígios da meia lua em pedra ao estilo romano
Solar brasonado da Torre da Ladeia no Alvorge.
Mereceu crónica individual

 No adeus ao Alvorge...
Deixo um desafio à Junta de Freguesia, falta tão pouco para conseguirem que o centro histórico seja totalmente reabilitado e assim conseguissem reportar a vila nos roteiros turísticos, apelidada de " Vila de Pedra" conjugando esta beleza com a Cruz também  em pedra sediada no centro da praça que antes esteve junto da igreja e para abertura de acessibilidade foi deslocada em fazer lembrar um Pelourinho incrustado em bloco aparelhado com efeitos a lembrar ondinhas, juntar o artesanato e a gastronomia, o famoso queijo denominado" do Rabaçal" as nozes e apreciar as vistas sobre os outeiros envolventes, finalizando com a requalificação da encosta da Fonte da Ladeia e das ruínas do solar com brasão dos Carneiros Figueiredos com capela levantada em 1693, onde  há 60 anos ainda se rezava missa , espaço ruinal que conheci aos 9 anos com o meu pai pela altura das festas de agosto.
Mas deixo rol de alertas à Câmara; deficiente sinalética e em muitos casos falta da mesma, neste meu passeio. Acho que seria pertinente a organização de fóruns com a população para debate de ideias quando pretendem alterar centros históricos.

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