quarta-feira, 21 de abril de 2010

Capela Santo António ao Ribeiro da Vide em Ansião

Citar o Padre Manuel Ventura, pároco de Ansião na página do Facebook
"Esta capela de Santo António ao Ribeiro da Vide deve datar dos meados do século XVII. Na soleira da porta que dá da capela para a sacristia, encontra-se a data de 1647, que outrora deveria estar na verga da porta principal mas que para aí deve ter sido deslocada quando foi feita a sacristia. A verdade é que esta capela não aparece na relação de capelas da paróquia de Ansião feita em 1627 pelo pároco da mesma.
A Relação do estado das igrejas, confrarias e capelas da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Ansião, redigida pelo Padre José Fernandes da Serra, em 1769, diz o seguinte:
«A Capella de Santo , tem calis, patena, e colher de prata, pedra de ara, quatro toalhas, duas mezas de corporais, seis sanguinhos, huma vestementa de seda de corres [sic], alva, amito, e cordam em bom uzo, dois frontais, hum de seda de corres [sic] muito uzado, e outro de damasco branco, e incarnado quazi novo, a Imagem do Santo em vulto bem esculpida e incarnada, hum Santo Christo bem perfeito, dois castissaes de estanho, e sino; esta forrada de guarda pó.» In “Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas - Ansião”
É provável que esta capela fosse outrora muito mais pequena. Como acontecia com quase todas, tratava-se de um centro de apoio à administração dos sacramentos aos doentes. Quando o pároco era chamado, as pessoas disponíveis, ao toque do sino ou sineta, reuniam-se ao pé da capela e aí organizavam uma procissão de acompanhamento do Santíssimo Sacramento até à casa do doente.
A sacristia parece ter sido um acrescento relativamente recente, quando ela começou também a servir para dizer Missa, ao menos uma vez por ano, com festa em homenagem ao padroeiro."
O Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Leiria de 1955, da Academia das Belas Artes, refere: «Fica num alto cerca da povoação sobre um escadório de vários lanços. Está quase abandonada, e não tem coisa alguma de interesse artístico.»Creio que o seu autor, Gustavo de Matos Sequeira, não valorizou devidamente a imagem de Santo António e o Cristo crucificado que devem ser da época da construção.
Reflectindo sobre a matéria das Memórias Paroquiais que o  Sr Padre Manuel Ventura Pinho transcreveu e a sua versão aos factos faz sentido questionar sobre a capela apesar de instituída em 1603 por João Freire não foi nessa data construída, apenas instituída nessa vontade, até porque não aparece referenciada na relação de capelas de Ansião de 1627.Para mais tarde ser erigida  mais pequena com frontaria a nascente que ainda hoje existe a porta mais pequena onde junto da mesma encontramos no chão lajeado números de sepulturas.
Capela a nascente para a quinta do Bairro
Laje na soleira da porta para a sacristia com a inscrição de 1647
Falta investigação da razão abaixo da data  1647  os números 6    4. 
O Livro sobre o Património Religioso de Ansião do D. Manuel Augusto Dias, filha Dra Joana Dias e do Dr. António Simões sobre esta capela, pouco quase nada mencionado tendo sido retirado do meu Blog sem indicar fontes em Webegrafia a menção da data de 1641, por lapso de não saber ler português arcaico confundi o 7 por um 1 que à posterior retifiquei por altura do baptismo dos meus queridos netos nesta capela quando o Padre José Eduardo Coutinho a meu pedido celebrou o seu baptizado me esclareceu da data correta. Em repto isto é investigação em fazer correlação do que está escrito nas Memórias Paroquiais, mas também de colocar nos espaços a matéria exarada, no caso em mais saber desta capela a indiciar ser anterior à data de 1647 mas que até hoje ninguém assim a abordou, apenas superficialmente não a dignificando no valor que encerra herança do seu passado!
Citar excertos das Memórias Paroquiais Setecentistas de Mário Rui Simões Rodrigues e Saul António Gomes «a capela que instituiu João Freire desta villa aos 18 de outubro de 1603, parte dela possui Luísa Freire desta villa que manda dizer 24 missas e outra parte a possue Domingos Freire que manda dizer 18 missas, morador na mesma villa."«(...) devoto a Santo António ao Ribeiro da Vide, o Padre António Freyre de Sam Bento, e seu irmão o licenciado Manoel Freyre Coutinho desta vila (...) e hum a S.João no lugar da Sarzedela na Capela de Santa Luzia...»
Pressupõe João Freire como arrendatário da quinta do Bairro que era do Mosteiro e ainda estalajadeiro ao Largo do Bairro onde a quinta extremava a nascente e houve uma estalagem para ter dado o orago a Santo António, o patrono dos viandantes.Família teria origem no Escampado da Lagoa, na centúria de 500 aparece um André Freire que seria rico no papel de padrinho de batismos. Famílias ricas, exploravam moinhos e lagares de azeite e naturalmente também estalajadeiros.João Freyre tinha de ter posses para pôr a estudar em Coimbra pelo menos um filho e o outro seguir o sacerdócio, e neste caso tinha de ter bens, porque ele podia não ter igreja para paroquiar num tempo de fartura de homens a abraçar o sacerdócio, e ainda instituir uma capela.Não seria apenas da agricultura a retirar fortuna.O apelido Freire deu alguns padres a Ansião;Citar  Informação ao Cabido de Coimbra em 29.05.1769

"Relação dos clérigos da freguesia de Ansião assinada pelo Cura acima Jozé Fernandes da Serra   
Padre António Freire de S.Bento, várias vezes Pároco encomendado,vigário da Aguda, Cura na igreja de Ansião três vezes e duas Cura da Santa Sé de Coimbra, tem património a título que se ordenou muito suficiente."
Outros Padres  dos Escampados com o apelido Freyre

" O Padre Jozé Freyre do Escampado de Santa Marta de secenta, e ceis annos, hé confessor e ajuda, a tudo o que pode, e por ser munto achaquado não pode mais (?) mas tem munto zello da salvação das Almas; os livros também os remeteo;tem património suficiente, a titulo do qual se ordenou."

"O Padre Manoel Freyre  de Assumpção do lugar do Escampado de Santa Marta, de idade de cincoenta e nove anos, hé formado nos Sagrados Canones e nisto se aplica munto;também he confessor, e não deixa de ce exercitar neste ministério;padece alguns achaques especialmente de gotta, e por esta cauza não pode muntas vezes vir a Igreja;os livros que tinha de Moral, os remeteo também para a cidade de Porto pella mesma Ley."
Desconhece-se a data da inicial construção da capela que teria sido mais pequena com frontaria a nascente para em finais do século XIX ampliada com frontaria a norte quando foi feito o escadatório com dois bancos em pedra ocos na frente a ladear a porta. Depois da implantação da República houve capelas que foram anuladas e esta permaneceu para em 1926 sofrer nova requalificação com acrescento da sacristia onde foi deixada na soleira a laje com a data seguida do chão da sacristia a cimento feita pelo meu avô Francisco Rodrigues Valente.  Quanto à laje  se pertenceu inicialmente à frontaria (?) é provável. A parte da afirmação do "Sr Padre Ventura a dizer que Gustavo de Matos Sequeira, não valorizou devidamente a imagem de Santo António e o Cristo crucificado que devem ser da época da construção." Na verdade o Santo primitivo era em pau , existe um relato num Livro do César Nogueira " O Santo foi levado à fonte do Ribeiro da Vide para o lavar", a evidenciar que teria sido queimado pelos invasores pela marca da fogueira no lajeado, para hoje a que existe ser em terracota.E os instrumentos em prata os levaram por serem menos pesados.
Adoro ver o Santo engalanado com fita no braço
 Os meus oratórios


Chão em cimento da sacristia com a data e iniciais do nome do meu bisavô paterno
Marca da fogueira no lajeado da capela no endireito da porta a nascente
Na passagem dos invasores franceses em 1810 no seu chão lajeado fizeram fogueira cuja marca.
As pedras na volta da marca da fogueira encontram-se à toa numeradas e desde pequena me interrogava julgando ingenuamente que teriam sido eles que as tinham feito, para muito mais tarde conhecer outras semelhantes na igreja da Torre de Vale Todos e finalmente entender que as capelas também serviam para testemunhar a  fé católica de cristãos novos aqui aportados, mas também para nela ficarem sepultados.O que atesta a capela ter sido antes mais pequena.
Ainda me lembro da capela velhinha, quase a cair em 1965 de belo altar em madeira em azul marmoreado, muito bonito, pena foi terem-no substituído por um altar de pedra...Tenho uma foto do casamento da prima Tina tirada do quintal dos pais em que se identifica a Capela velhinha de paredes abobadadas. Sofreu obras de grande restauro por volta de 65/66 (?), tendo mantido a volumetria do espaço apenas perdendo a originalidade interior e exterior.Do exterior foram retirados os bancos ocos em pedra que existiam a ladear a porta de entrada, a Cruz e o campanário do sino foram novos e também foram alteradas as janelas a poente. Do interior foi retirado o altar em madeira na tonalidade azul em marmoreado muito gracioso e foi feito um patamar em cima do lajeado para suporte do altar de pedra e na parede frontal duas mísulas para suporte das Imagens, havendo apenas a do Santo António. A tia Maria muito devota à Senhora de Fátima enterneceu para a sua aquisição com um grande Crucifixo, espólio que enriqueceu a Capela. O lampadário central foi retirado e electrificada com um candeeiro no teto, ao meu gosto ficou em demasia alto e candeeiros com chaminé facho na lateral do altar, mais tarde foi apetrechada com bancos, tornando-a muito moderna... Do tempo primitivo apenas o lajeado do chão e a Imagem de Santo António e um Crucifixo.
No adro foi queimado o altar e a mesa da sacristia, ainda lhe salvei um puxador de madeira!
A prima Júlia ofertou-me a caixa de esmolas, por ter sido substituída por duas novas.
 O interior atual da Capela de Santo António

Esta capela de Santo António ao Ribeiro da Vide jamais foi objecto de videos e fotos de publicidade ao concelho de Ansião, tão poucono concurso Olhares de Ansião a que concorri...Para ganhar a ponte do Marquinho...
Capela com belo escadatório  dos finais do século XIX com a construção do segundo hospital no outro promontório com o rasgo de novas estradas; para o hospital, Escampados, Barreira com quatro viadutos em pedra para encanar o ribeiro(Vide) e a fonte em 1897.O Ribeiro da Vide, o adro da Capela de Santo António,o Largo do Bairro de Santo António e a Cerca, foram no meu passado locais enigmáticos da minha meninice e adolescência onde mais a norte tenho a minha segunda habitação e nas minhas deslocações a Ansião os percorro amiúde e ainda a quelha para o Vale Cerejeira, sendo certo que adoro subir o escadatório a relembrar o tempo que fui criança e fazia das lajes deitadas ao longo dos degraus, escorrega...
Vivi de paredes meias com a Capela de Santo António no tardoz do adro no gaveto à esquerda .No linguarejar da minha mãe a minha avó materna Maria da Luz da Moita Redonda vinha passar umas temporadas a Ansião para me ajudar a criar, mas passava o tempo de roda das criadas com medo que elas "roubassem" alguma coisa de valor, na idade mais de 70 anos já não lhe conferia feição para governanta nem tão pouco para ama ao me deixar sozinha na camita com o biberão enroscado na fé e sorte da reza no pedido de mediação ao divino "Santo António, Santatoninho te acuda minha filha, Pai Nosso e Avé Maria" - ao jus aludir ao soneto do Códice Conimbricense O "Divino António com o Menino Jesus nos braços" "Fiava-se Deus dele, e bem convinha - que desse António a Deus, o mais, que teve - se Deus a António deu o mais, que tinha"...Expressão lírica no azo em acreditar nos Milagres feitos por Pádua ...O  "Santo" esse fazia o que podia para tomar conta de mim,  não seria por morar paredes meias com a Capela que recebia mais graças, afinal via todos os dias a tia Maria à sua volta com rezas, flores e azeite para o alumiar e, graças não sei se as recebeu quantas pediu (?).
A casa dos meus pais e a capela 

Quintal dos meus pais beija  o adro da Capela de Santo António 
Foto com a minha mãe e as primas Tina e Júlia junto do muro de pedra antigo depois de me banharem no alguidar... Apesar da má qualidade da foto distingue-se a nova estrada para a Barreira e a antiga de ligação da vila ao inicio do Cimo da Rua ao Ribeiro da Vide roteada em meados da centúria de 600 quando o poder da Vintena foi instalado na Cabeça do Bairro  a passar à minha porta.
Foto captada pelo meu pai com a máquina emprestada pelo Jaime Paz ao cimo do escadatório da Capela de Santo António com os plátanos ainda meninos adolescentes... Segura-me ao colo no dia do meu batizado a minha querida avó materna Maria da Luz Ferreira da Moita Redonda - Pousaflores  no dia 8 de agosto de 1957, cujo padre sobrinho do meu avô  José Lucas  viria a ser considerado Ilustre Ansianense o Dr. António Freire de Lisboinha.
 Alunas do Externato António Soares Barbosa
Cortesia da Suzete ao permitir a partilha pela Odete Antunes na página do Facebook dos antigos colegas do Externato. Na foto as colegas: Eugénia Nunes, Suzete, São Vicente, Silvina, Emília de Almoster, eu e Odete do Marquinho.
Sentadas no banco defronte da capela que ainda não tinha sido remodelada, tendo-lhe sido retirado os bancos de pedra ocos que tinha na frontaria, portanto antes de 1965 (?).
Só reconheci o local pela casa feita para o casamento da prima São do balanço do poço e o muro de pedra no seguimento para a casa dos meus pais a nascente.

 A minha escolha do escadatório  onde me fiz à foto 
 
 
A Capela é aberta por altura da Trezena no ritual das velas acesas no pedido do terço durante os treze dias antecedentes à festa do padroeiro, o Santo António festejado no dia 13 de junho. O patrono dos estalajadeiros que as exploraram durante séculos na beira da estrada real, pelo menos duas estalagens identificadas no Largo do Bairro e mais duas para norte tenham sido, uma na quinta do Atalho e outra a que foi a casa dos meu bisavô Elias da Cruz. E claro entre elas haviam tabernas, a do Ti Parolo a do Ti Moreira sejam as mais recentes que ainda conheci .
Em 1971/72 frequentei o Colégio Religioso as Salesianas no Monte Estoril. Quis nessa altura o malfadado destino antecipar brutalmente a morte do meu pai, com isso não voltei ao Colégio.O facto de ter estudado um ano neste Colégio conferiu-me um estatuto de pessoa adulta sabedora das doutrinas de cariz religioso no julgar de muitas pessoas para no ano seguinte a tia Maria me dirigir convite para pedir o terço na Trezena. Honra que até aí só era pertença de uma velhota do Cimo da Rua. Um grande prazer por ter assumido tão grande responsabilidade. Estranho ouvir a minha voz sonante, clara a recitar o terço naquela Capela apinhada, porém em silêncio, apinhada de gente!
A chegada da hora fazia-se com o corropio dos cachopos em puxar o pingarelho do sino, até eu.Adorava no final a cançoneta dedicada ao Santo, enchia-me de prazer logo eu que nem sei cantar ali sentia dava-lhe jeito.A partir de meados de maio começavam os preparativos de fazer as flores e bandeirolas em papel de todas as cores. Na véspera da festa os cachopos tinham a tarefa de estender cordel pelo recinto do adro e escadaria para colar as bandeirolas com cola feita com farinha e vinagre. Os homens montavam os arcos grandes em pinho, pesados, depois de enfeitados eram postos no ar depois de abertos os buracos fundos. No arraial rapazes graçolas em rancho iam buscar lenha para se saltar à fogueira . Pedia-se a burra da tia Maria, a Gerica, onde íamos pelos pinheirais roubar aqui e ali, trazia-se uma carrada das grandes, mal arrumada a fugir pelos fueiros toscos de pinho com os cachopos em paródia a rir e a brincar. As mulheres lavavam a capela e enfeitavam o altar. Moçoilas a tentar fazer tapetes de malmequeres amarelos nos patamares das escadas depois dos cachopos a terem raspado com o sacho e varrido com a vassoura de urze.Pela noitinha no adro acendia-se a fogueira, abria a tasca dos comes e bebes, ajeitava-se a música para o bailarico, acendiam-se as luzes. O arraial estava pronto para começar a festa.Predilecção sentia por a minha casa ser paredes meias com o adro, num passo estava na festa...À volta da fogueira reunia-se uma mão cheia de gente de várias faixas etárias a comer petingas assadas no brasido e chouriça, bem regadas com vinho, cervejas e sumos.Noite dentro a deitar conversa fora, havia encantamentos e deslumbramentos. Tudo era pecado naquele tempo. Tudo era proibido. Ia para casa desgastada com a sensação de não ter gozado quase nada, e havia tanto para gozar.Rapazes bonitos, o Fernando do Pinhal, o Zé Emídio, o Toino do Tarouca, o Alberto da Carmita, o Chico Borges e,....
Capela aberta com as luzes do altar acesas
Nunca me canso de fotografar aqui em  paisagem outonal
 Paisagem primaveril
 Infraestruturas de apoio às festas
Sem estética nem rigor a desfiar o espaço ...
2016
Em 2016 no último dia da Trezena foi servida sardinha assada com broa e vinho, a "Isaura Reala" levou um panelão de bom caldo verde e uma palangana de petinga com molho escabeche. A Tita uma vida  a viver no Seixal mudou-se para a casa herdada do sogro"Trinta" ao Ribeiro da Vide fez uma grande caixa de "S" de Azeitão, eu e a minha mãe passámos duas horas na cozinha a fazer um grande arroz doce e bolinhos de bacalhau, com a conversa  esqueceu-se de pôr a farinha toda no Pão de Ló pelo que baixou, tivemos do comer em casa, estava maravilhoso, outros ofereceram bolos e rissóis e,...
A minha mãe no jardim da sua casa no tardoz da Capela
Domingo o dia ansiado de festa estreava sempre um vestido novo. Usava as pinturas da minha mãe para me maquilhar. Lembro-me de num ano a minha prima São me dizer, "oh cachopa estás muito bonita com os olhos pintados". Adorava sentir os meus cabelos cor asa de corvo longos soltos ao vento, davam-me tanta segurança fosse pelo brilho e elogios. Confiante, vaidosa e fresca até à igreja matriz buscar os paramentos para a missa e procissão. A Capela enchia-se de gente a transbordar para a rua. A procissão era muito grande e bonita. A Filarmónica abrilhantava com rasgados sons dos instrumentos reluzentes ao sol em contraste com a farda azul. As janelas enchiam-se de colchas brancas e de seda para a procissão passar. Depois abria-se a festa com a quermesse e com o pregão das fogaças oferecidas ao Santo e animais.Alguns compravam a própria fogaça oferecida com o assado para a ir comer com a família pela Cerca. Ouviam-se gritos para os jogos tradicionais. Anos mais tarde junto à tasca dos comes e bebes havia sempre gente a comer caldo verde, feijoada, carne assada, torresmos e couratos com vinho a sair dos pipos em infusas para atestar copos de três em flecha.O som do altifalante da música convidava a bailarico, apareciam sempre os desocupados, embriagados, tristes, solitários e claro bons rapazes, bonitões, atrevidotes, malandrecos e rapazes de outras paragens. Tempo de se desconfiar de tudo e de todos. De ficar "falada" infelizmente já não tinha pai e sentia por isso o dobro do dever de me recatar pela defesa da honra...No entanto sentia querer namorar!
Adorava rir-me, fazer festa. Saudades de tempos que já não voltam.
Nesta Capela casei em 1978 - o segundo casamento aqui celebrado.Os meus netos foram em 2016 aqui batizados.
Porta engalanada para o batizado

FONTES
Página da Igreja de Ansião Padre Manuel Ventura
O Livro sobre o Património Religioso de Ansião do D. Manuel Augusto Dias, filha Dra Joana Dias e do Dr. António Simões

terça-feira, 13 de abril de 2010

Gondramaz aldeia de xisto em Miranda do Corvo


Visitei em família a aldeia de Gondramaz no feriado de 1 de Maio de 2006. Aldeia em xisto nas faldas da serra da Lousã, encravada num dos contrafortes do alto da serra de Miranda do Corvo a uns valentes 9 Kms sempre a subir por estrada estreita e sinuosa, eis que chegamos ao paraíso muito a gosto ainda a placa identificativa das antigas,em cimento, na companhia das antenas de energia renovável em desfile não me chocou!
Também se pode subir pelos carreiros estrategicamente já delineados com sinalética.Gostei de calcorrear as calçadas de xisto, revivi um cenário idílico, transcendente de foro mui emocional, só igualável a um orgasmo seja intelectual ou sexual. Mesmo assim, a um deles, seja qual for.Praticamente a aldeia toda requalificada, e a meu ver muito bem, com muitos motivos de interesse.

Mulher nua em pedra tão desnudada, agressiva, cravada numa das paredes, aventa ao visitante artista escultor, que por lá tem o seu atelier. Noutra parede apenas pequena caras esculpidas, a fazer lembrar escultura visigótica.
Parapeitos das frágeis janelas com ardósias  e nelas tachos de barro preto característico de confeccionar a chanfana, ali dispostos em jeito de vasos.
Adorei tal conexidade naquele cenário, tipicamente tão português e o contraste da negrura do barro sem vidragem como manda a tradição.A aldeia é circundada por cerejeiras, vales a perder de vista como se tivessem ali sido semeadas, nascem espontaneamente desde os confins da chamada Terra Quente em Trás os Montes, em jeito de despedida abruptamente até se extinguem no concelho de Alvaiázere depois do Rego da Murta, Areias, mais coisa menos coisa.
O lavadouro
A capela

sábado, 10 de abril de 2010

Moinho de maré no Montijo

Aldegalega o nome primitivo do Montijo
Ultimamente temos ido ao Montijo uma vez por mês, geralmente ao 2º sábado aproveitando o evento da feira de velharias. Juntar o útil ao agradável.
Aquando da implantação da República a localidade tinha o nome de Aldeia Galega do Ribatejo conforme atesta placa evocativa num edifício republicano no centro da vila.
Quem como eu conheceu o Montijo há coisa de 30 anos quase que não reconhece, tais foram as zonas já rejuvenescidas pelo programa Polis.Grande expansão de prédios quintas dentro, novas avenidas, mas as entradas ainda um pouco "entaladas" em rotundas. O progresso chegou depressa um pouco atabalhoado,desde que se começou a falar na Ponte Vasco da Gama.
Euzinha
Passeio em 2009. A zona ribeirinha ganhou novos recantos e encantos, apesar de ainda faltar uma grande parte. Ainda persistem na paisagem muitos armazéns,fábricas desactivadas e muita ruína com escombros.
Vale a pena passear à volta dos meandros dos esteiros roubados ao rio e os da caldeira para uso do Moinho de Maré para fazer girar as Mós com a força motriz da água.Pena os canteiros tão arquitectónica e diria magestosamente implantados no rebordo das margens em círculos descendentes totalmente desprazíveis, apesar de rega automática.Interessante é deambular o olhar sobre eles no contexto do sol reflectido sobre as águas mansas e o desfile de calhaus rolados descendo até às margens em jeito de decoração minimalista.
O meu marido
Visitei no Cais o Moinho de Maré aberto ao público em outubro de 2009 com o meu marido e filha. O cicerone homem camarário muito aficionado a coisas ancestrais, com a lição estudada desde a sua fundação, denotando um prazer inexcedível em argumentar, explicar e acompanhar no ritual do cereal em grão até à moagem da farinha, exemplificando in loco onde o grão é esmagado, entre como quem diz ,a Mó de cima e a Mó de baixo, fazendo inclusive a alegoria ao ditado português:
Quando se está mal na vida é costume dizer-se o ditado " está na Mó de baixo, porque é uma Mó mais baixa, delgada"
Quando se está bem de vida é costume dizer-se o ditado "está na Mó de cima, mais alta, maior".
Adorei a desenvoltura do homem, transpirava por todos os poros, mas sentia-se que estava satisfeito por estar à altura de tal desempenho, sei que não lhe dei trégua, perguntei até à exaustão. De tudo sabia, até aqueles nomes dos instrumentos tradicionais. Vimos ainda alguns achados arqueológicos aqui encontrados quando da reconstrução, ainda me lembro do moinho em total ruína.Digno de uma visita sem dúvida.
Cá fora todo o cenário é de uma beleza sem paralelo, águas mansinhas para prática de desportos como o remo, que inveja senti, sei que me faria tão bem, anulava de vez os pneus circulares tão incomodativos...oh não, sim, sim...!
Ainda inserido no mesmo contexto o mercado ao ar livre mais acima também com vista para o rio expandindo-se terreno fora quase sem limites, há de tudo. Gosto em particular de lá comprar batatas, cebolas, morangos, pão, fogaças (bolos típicos de erva doce e canela) e flores.
A minha filha linda na foto também se encanta com rituais de muita cor e gente para trás e para a frente -, gritos de feirantes a apregoar a mercadoria, muita vontade de largar a nota...essa a verdade...mesmo chegando a casa e avaliar que afinal as compras não são o que pareciam.
Passeando a pé pela vila pode-se apreciar a arquitectura ancestral típica com muito azulejo na frontaria e ferro forjado trabalhado. A igreja matriz com a data de 1606 é um edifício imponente, recheada de grandes painéis lindíssimos de azulejos, em destaque o do hall de entrada em cúpula de tamanho mais exíguo e tons fortes mui gracioso. De todas as imagens a minha predilecta foi a de Nossa Senhora da Piedade,bela peça escultórica em terracota com o Jesus caído nos braços da mãe Nossa Senhora, uma figura muito delicada em tons esverdeados a lembrar o céu.Numa roda viva andavam algumas senhoras de volta dos preparativos para a grande festa dos motards a decorrer amanhã. Enfeitavam-se os andores. O santo padroeiro S. Pedro engalanado de seda lavrada em vermelho, o andor cheio de antúrios vindos directamente da Madeira, eram caixas e caixas de flores. Ao meio da igreja o andor da Nossa Senhora da Atalaia, vinda de propósito do santuário do concelho para a cerimónia. Mais abaixo quase à entrada o andor do Santo Rafael patrono dos motards com um mapa na mão e um capacete na outra e uma réplica de mota encravada à frente,ainda aguardava vez para ser ornado, estava nu.
O Montijo é uma cidade a descobrir com tantas frentes, tantos contrastes, ainda tanto por fazer, mas vale sempre a pena contemplar tão grandiosa frente ribeirinha tão doce de ondas a desvanecer de mansinho.
Ao longe Lisboa, a ponte 25 de Abril, Almada, Mar da Palha...uma vista a perder de vista com o aeroporto militar. Pena terem desactivado a linha de caminho de ferro...era demasiado típica, ainda a estação de Sarilhos de janelas e portas fechadas à espera de solução.
Visitem, acreditem, não darão o tempo como perdido muito, porque vale mesmo a pena conhecer!
 
 

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