quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Maças de D Maria e as cerejas por terras da Ribeirinha

Quis o despertar das minhas lembranças falar de cerejeiras. Adoro cerejas... 
Louca brincadeira que se repetia todos os anos em junho no meu tempo de criança com a minha irmã -, os pares de cerejas nos serviam de brincos pendentes  escolhidas do parco quilo comprado pela nossa mãe no mercado de Ansião, ao sábado, às mulheres das bandas de Maças D. Maria, que se chegavam de cestas de verga branca carregadas delas reluzentes vestidas em cerise  e esbranquiçadas...
Na minha infância em Ansião só me lembro de ver cerejeiras no extinto jardim do solar do Luís de Menezes, onde funcionam hoje os serviços municipalizados, outra na quinta do Bairro do Ti Inácio, e claro muitas por terras de Maças de D. Maria a caminho da Fonte do Pereiro, onde fui algumas vezes em miúda buscar a cantarinha com água fresca.
Naquele tempo as cerejeiras-, incrível reconhecer a faixa que ocupavam tão delimitada ao tempo no País, cresciam espontaneamente desde a terra quente, em Trás os Montes, para em descida preencher a faixa nordeste e se finar por terras de Ferreira do Zêzere. Flagrante divisão aqui reconhecer nesta região do centro do País, quase em perpendicular, rés vés na limitação da estrada nº110-, sendo a rainha desta iguaria a zona da Cova da Beira e Fundão, sendo que nos últimos anos em qualquer quintal existe uma cerejeira, finou-se o encanto de antigamente...
Das cerejas me lembro dos tempos que ia com a minha mãe, a Maças de D. Maria, que aqui se deslocava para trabalhar nos Correios, fazer férias ou partes de doente.
Para mim era um dia com muito pouco para me divertir , por isso decidia partir sozinha para  descobrir a vila, mas só de memória visual, não tinha máquina fotográfica...
Ao tempo muito deserta, não se via vivalma. Recordo a quinta emblemática a seguir aos Correios sempre de portão aberto, ao meio do empedrado avistava um cenário bucólico com um grande tanque em pedra com água a correr rodeada de muitas flores a rivalizar encanto naturista de beleza idílica qual quadro bucólico seja rivalizar Mestre Malhoa ou o maior de todos Remblant, no meio de silêncios só o sussurrar da queda do fio d' água se fazia ouvir no tanque a beijar flores...
Abaixo dos Correios gostava de subir a alta escadaria de pedra muito antiga que me levava até ao adro, no primeiro encalço, o cemitério velho, gostava de observar o abandono sem abandono, das campas em jeito de varandas em ferro forjado, e as mais ricas em cantaria elaborada com lindos remates, ainda um ou dois jazigos.Património de valor a preservar.
Igreja de Maças de D. Maria - Alvaiázere
Foto de João Paulo Coutinho
A igreja relativamente nova, sempre me indignou a escadaria da torre sineira em pedra torneada em  caracol, igual à que mais tarde conheci e subi no torreão do arco da Rua Augusta.Tal fato hoje ainda me perplexa, no meu imaginário fértil, continuo a achar poder ser de uma época anterior à igreja-, restos de outro culto aqui já antes ter existido, pertinente palpitar (?).
Na frente do adro o Cruzeiro Filipino, também mais tarde comparei com o do Senhor Roubado em Odivelas, por me parecer mui parecido, embora este ultimo mais rico.
Nesse contraponto, apenas a estrada nos medeia de um grande largo  que se espraiava em rampa, no lado direito a antiga escola primária das raparigas, sendo a dos rapazes mais à frente. Aqui nesta terra a minha mãe fez o exame da 4ª classe. Na altura não existiam sanitários, as necessidades fisiológicas da professora eram feitas num caldeiro que as alunas tinham o dever de despejar e limpar...Quis o destino que um dia a dita professora reformada aparecesse nos Correios para enviar uma carta, fazia eu bonecos nos papéis do lixo... As duas trocaram carinhos e matam saudades dum tempo passado. Recordo que a minha mãe a questionou pela saúde do marido, ao que esta lhe respondeu..."Sabes, agora dormimos em camas separadas, é muito mais higiénico"...Não entendi o que quis dizer, mas registei em memória, foram anos para perceber o significado ...
Sem dúvida outros tempos, nem se podia interrogar, interromper, perguntar?
Habilitava-me a uma valente bofetada !
Lembranças do grande edifício de vários pisos que destoava do resto do casario, o Armazém das Cinco Vilas, ainda me lembro bem dele, onde havia de tudo. Aqui começou o Posto de Correios, supostamente  segundo os meus pais aqui fui encomendada!
Houve uma primeira vez que a minha mãe foi comigo para me ensinar o caminho da Fonte do Pereiro, onde haveria de ir outras vezes logo de manhã que me mandava ir buscar a cantarinha de água fresca , recordo que a levava de braçado na minha caminhada a pé pela subida da estrada principal para entrar ao cimo ao entroncamento e virar à esquerda para em descida, por entre muros altos em pedra que logo me reportaram para o caminho da antiga estrada real ao Vale Mosteiro em Ansião, assim igualmente ladeada por altos muros-, só que aqui me divertia perdida a olhar para tanta cúpula de cerejeira carregadinha a rondar os céus, qual espetáculo avassalador jamais antes assim visto que me afastava do medo, ao invés do caminho ao Vale Mosteiro em Ansião que me incutia desconforto! 
Julga-se que este nome deriva de origem medieval, integrando-se na primitiva povoação assim chamada de "Pereiro" , da qual resta como testemunho toponímico ainda hoje, só tomou o nome de Maçãs de Dona Maria, depois da sua doação por D. Sancho I a D. Maria Pais Ribeiro -, que ficou conhecida na história como"Ribeirinha", da qual reza a história ter sido a sua amante favorita, das duas que tinha.

Votei anos mais tarde para mostrar a Fonte do Pereira à minha filha. 
Ainda havia tanta cerejeira carregada encarcerada por altos muros em pedra que no imediato me fizeram crescer água na boca-, mas de todo intangíveis, impossível apanhá-las, nem dava para roubar, nem uma, ainda me aventurei subir a um muro esventrado, debalde não consegui!
A fonte do Pereiro em espaço franco, com a sua mina de água e o tanque de lavar a roupa, e a sul onde ainda existe um portão em ferro forjado, supostamente o acesso direto à fonte noutros tempo pela família da quinta pertença dos Pimenteis Teixeira , a casa nobre de um só piso de arquitetura residencial no estilo rococó. Na frontaria uma escadaria com degraus em meia lua, e cantarias lavradas com a capela na perpendicular à casa.
Conheci esta casa e a capela ainda  com janelas e portas fechadas, por volta de 64/65, mostrando evidentes sinais de declínio e fausto do que teria sido no passado. Recordo que me deixava ficar na rampa da feira a olhar pasmada em total fascínio e contemplação das serranias e da casa com a sua capela-, sem respiração perdida em sonhos, sozinha, por segundos em minutos gordos, imaginava um dia ter assim uma casa igual, apesar da tenra idade inexplicavelmente adorava contemplar as cantarias das janelas por me transportarem até ao filme os 4 Mosqueteiros, série televisiva que já via, mote dado pelo formato cimeiro se mostrar semelhante às golas das camisas que eles usavam, também pela elegância da capela de cornija saliente e remates de cantaria em fogaréus, que ao tempo desconhecia estes nomes, no finado e tamanho fascínio fosse sentir o gosto da pedra esculpida, como era possível alguém assim fazer da pedra obras de arte, talvez a minha paixão por pedras tenha nascido aqui. No cimo do alto terreiro em bicos de pé avistei pela guarita com grades da capela o retábulo em madeira-, a curiosidade era em mim preocupante, ao tempo vivia defronte do adro da capela Santo António em Ansião edificada em 1641, cuja última remodelação aconteceu em 63/64-, era uma criança, mas ainda a recordo abobadada de velhinha com o altar em madeira marmoreada em azul, que foi destruído para porem um moderno, coisa que ao tempo me chocou fazendo eco ao ditado popular que a minha avô materna da Moita Redonda me dizia"guarda o que não presta acharás o que é preciso".
Este retábulo que julgo estava à guarda de alguém (?) acabou por aparecer em venda na leiloeira do Correio Velho (?).
Foto tirada por altura das obras de requalificação do espaço.
Capela em Maçãs de Dona Maria
Capela do solar recuperada - foto de João Paulo Coutinho
Tanto me questionava os porquês de total abandono, sem respostas!
E na dor de inveja, por na minha terra adoptiva- Ansião, afinal tão perto, não haver nada semelhante de tão grandioso, histórico, assim tão antigo e belo...
Teimei em 2015 acrescentar a efeméride dos 500 anos da atribuição do Foral
Maçãs de D. Maria é terreiro de gentes que teimou não deixar passar a data da comemoração dos 500 anos do seu Foral -, no querer exaltar este brio, com monumento evocativo. 
De assinalar que são Gentes com atos de louvar, seja no passado e no presente! 

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O meu tempo de escola primária em Ansião!

A minha escola primária na vila de Ansião-, curiosamente conheci as quatro salas...

Decorria o ano de 1964 que se acabou o bem bom da brincadeira com o seu início ...
No primeiro dia fui levada pela minha mãe, ao dobrar a esquina da casa do Dr. Silveira reparei no lindo varandim com bancos de pedra implantados no mural encimados por gracioso suporte em ferro da trepadeiras -, um refúgio bucólico onde nunca vi ninguém a desfrutar de tão lindo recanto -, ao baixar o olhar dei de caras com o carro preto do Prof. Albino Simões no estacionamento privado, aqui todos os dias no mesmo sítio debaixo da árvore em cima da calçada -, certo a enorme alegria quando não o via, mais sortudos os rapazes não tinham aulas...
Aqui entrei e sai vezes sem conta
Entrei ao portão de ferro, não me lembro se ia alegre ou feliz por ir para a escola, talvez não me sentisse muito à vontade por ser tímida, para o envergonhadito. O carreiro em terra batida até ao recreio, só de raparigas, ao fundo havia um pequeno telheiro e duas portas, entrei numa delas, ao rebate logo se abria uma sala de entrada ao lado desta outra privada, ao fundo a sala de aulas com três grandes janelas viradas a nascente para a rua principal
A minha mãe deixou-me com recomendações à senhora contínua D. Fernanda. Ao bater das palmas fomos entrando em fila indiana, as tábuas corridas gastas cheiravam a velho, nas paredes caiadas havia mapas de todos os tamanhos , dois grandes quadros de ardósia preta debruados a madeira e na calha paus de giz e a esponja. Em cada sala havia um fogão a lenha em ferro redondo com pezinhos, ao tempo nunca vi nenhum funcionar enquanto frequentei a escola -, estragados de canos cor de prata desencaixados. 

Ao canto da sala havia uma solitária secretária, numa das gavetas guardava-se a régua grossa de madeira para aplicar os castigos aos alunos,- apanhei várias vezes, as mãos ficavam brutalmente vermelhas e dormentes. De encosto à quina da parede ao lado dos quadros jaziam de pé as canas da Índia, altas e grossas, reluzentes de ser manuseadas, cheias de nós -, tantas levei cabeça abaixo em constantes viradas de meia roda... 

Na parede do quadro ao centro havia um crucifixo, ladeado por fotografias, uma do Dr. António Salazar e outra do Almirante Américo Tomás.

Na 1ª classe na sala todas pequenitas, acabrunhadas, olhar assustado, cheias de medos...seria a minha primeira Prof a D. Laura Simões -, infelizmente para mim não guardo gratas recordações, chumbou-me, com ela andei até à 2ª classe. Senhora de cariz conservador, britânica no vestir, tinha o seu quê de austera, fria e platónica. Levava nas mãos uma pasta em cabedal comprada no bazar em Coimbra em frente à vidraria do Saúl.

No ano seguinte apesar de ter chumbado estreei nova pasta estampada em plástico, moderna em tons de azul, a de cabedal ofereci às cachopas da Maria José , a " Ilhoa" do Casal das Peras -, lindas moçoilas a Amália e a gémea Eulália.

A maioria das minhas colegas usavam sacolas de chita fechadas com um botão, olhavam para mim de lado... Na pasta levava o livro de leitura, ardósia, lápis de carvão, lápis de cor e cadernos de 3$50 e 5$00, algumas colegas tiravam da sacola cadernos finos de $50. 

Senti nos seus olhares a tristeza de não terem cadernos iguais aos meus, o que fez nascer em mim uma incrível vontade de as ajudar. A ideia surgiu na minha cabeça, logo a pus em marcha, rebuscar os bolsos dos casacos do meu pai enquanto dormia -, sempre encontrei moedas e com elas comprei cadernos iguais aos meus na papelaria da D. Arminda em frente ao Correio velho, também cheguei a pagar a quota do rádio escolar a um ou dois, tal a insistência do Prof. Albino Simões,semanalmente fartava-se de chamar a atenção a alguns, pelo incumprimento. 

Tenho a sensação de que nunca me disseram obrigado..."sorte a minha que também não me lembro mais dos seus nomes". 

Um dia a turma mista, não me lembro mais se o seria, ou por falta do marido juntou as turmas, o Nuno filho do Dr. Juiz chamado ao quadro e assustado com a voz altiva da Professora perdeu o controlo e num descuido urinou-se pernas abaixo...o pleonasmo é obrigatório para dar ênfase ao sucedido -, lindos calções aos quadradinhos repassados, pior o lago aos pés no chão da sala... imagem deprimente que permaneceu na minha cabeça durante anos a fio. 

Não era permitido ir à casa de banho fora do intervalo das onze horas. As carteiras de madeira e banco de ripas, ainda se fazia uso da tábua em ardósia para fazer contas, sempre pronta a utilizar depois de passar o trapo de pano que se pendurava num suporte em viés pregado abaixo do tampo. O que me marcou mais-, o temor, assustada e nervosa também ficava com vontade de ir à casa de banho, a Professora recusava, quando não aguentava mais a pressão, fazia chichi aos pinguinhos no banco, e com o trapo da ardósia limpava, tal memória afetou-me, apesar de sozinha ter aprendido a desenrascar-me. 

Reconheço que na altura tinha alguma dificuldade de aprendizagem tal qual alguns cérebros que reza a história - seria o método conservador, rígido, implacável envolto em medos, sei que nunca fui capaz de aprender a raciocinar, a refletir, a pensar .

Em casa o ambiente também não era nada acolhedor, não abonava a favor, pouco aplicada nos estudos por falta de incitação.Um dia estava à lareira com o meu pai quis testar se fazia contas na 1ª classe, não fui capaz, enervou-se, deu-me uma bofetada, rebolei fiquei entalada debaixo do suporte do fogão de esmalte branco tipo mesinha. 

A única mensagem de valor que me recordo do meu pai -, a sua preocupação em não tirar nada a ninguém, quando se lembrava de rebuscar a pasta e via alguma coisa que sabia não ser minha, obrigava-me a ir de imediato entregar. Passei autênticas vergonhas, serviu-me de lição.Detestava o sanitário de cheiro nauseabundo, inóspito, escuso, deprimente, tosco em cimento, sem autoclismo, ao fundo do recreio com porta de madeira sem janela, trinco relaxado, um buraco. Até a contínua D. Fernanda tinha um semblante austero e imponente na sua bata azul, mais parecia uma guarda republicana, só lhe faltava o cinturão com o crachá, seria por não sorrir? Por isso talvez a semelhança!

Posto que ao tempo funcionava neste solar no 1º andar , sendo que no r/c ao portão era a oficina de irmãos que tratavam de bicicletas...

Os recreios…
Havia o das meninas e dos meninos, ao tempo separados por muro alto e uma porta, eram de terra batida. Faziam a delícia das muitas brincadeiras e dos jogos. 
Os rapazes brincavam à Barra. 
As raparigas: Saltar ao Elástico; Jogar à Parda; Reis e Rainhas; Macaca; Cabra Cega; Saltar à Corda; Jogar ao Lenço e muitos outros. 
No alpendre baloiçávamos nos pilares de madeira para deslumbre de ver quem tinha a renda da combinação mais bonita, a da Inês filha do Dr. Juiz em bordado inglês...As aulas terminavam às 3,30. Aos portões os cachopos dividiam-se em direções diferentes a caminho de casa: Além da Ponte; Moinho das Moitas; Salgueiro; Casal S. Braz; das Sousas; Casal Viegas; Empiados; Carrascoso; Garriasa; Cimo da Rua; Casal das Peras; Escampados; Bairro de Santo António; Carvalhal; Pinhal...a minha comandita parava na mercearia do Carlos Antunes para comprar rebuçados com a mania das cadernetas de cromos que muitos de nós gostávamos de fazer, os rapazes faziam a dos jogadores de futebol. Ainda se compravam pastilhas em feitio de moedas douradas, pela estrada acima a desembrulhar papelinhos em grupo, uns inocentes a cantarolar ...quando aparecia o arco-íris, entoávamos a cantilena: " A chover e a fazer sol, as bruxas em Albarrol a fazerem uma camisa para o compadre caracol"…No tempo invernal a bem dizer ia de outubro a maio com temperaturas negativas durante a noite e geada de manhãzinha, ao sair à porta da cozinha, o quintal, o adro da capela, tudo o que a minha vista alcançasse era um infinito manto branco, a água do tanque dura, tal a grossura da capa de gelo...adorava pressentir os estalitos da geada a quebrarem debaixo dos meus pés na ida à padaria dos avós buscar o pão quentinho, ia e vinha pulando nas mesmas pegadas que repetia de novo a caminho da escola para poupar as botitas de cabedal. Dias de chuva a somar a semanas de intempérie, trovões e relâmpagos sem um aconchego na escola. Ao chegar à fonte do Ribeiro da Vide de olho na minha casa em primeira linha, da alta chaminé saia fumo indiciava que a minha mãe antes de ir trabalhar o deixara aceso, muitas vezes a cozer "feijão da velha" enchidos, e ossos do espinhaço para roer e chupar presos nas mãos ao jantar, na cama da cinza quente amornava o café de cevada acabadinho de fazer, na bancada a costeleta de porco com sal para grelhar no brasido...que cheirinho e sabor da boa carne de porco… 

Quem também não me deixou alegrias na escola? A Prof. Armanda Oliveira, senhora altiva de colo esbelto, cabelo estufado, vestia lindas meias de vidro que lhe conferiam umas pernas de invejar. Senhora de cariz austero passava quase todo o tempo à janela a olhar, seria a pensar ou sonhar...

Vá lá saber-se o seu pensar de encosto à cana-da-índia verdejava num rodopio pelas cabeças das alunas. De tanto me puxar as orelhas ,que rasgou ,- então não usava os brincos pesados de oiro branco da minha mãe, ainda hoje tenho lembranças desse triste passado quando amiúde perco brincos, tal o tamanho do rasgo …

Dúvidas que não via esclarecidas…Adorava atazanar a minha mãe todos os santos dias na porta da cozinha -, caso de me querer bater poder fugir -, lia num tom muito alto o texto do livro da 3ª classe "enquanto a bichana dormia" por desconhecer que assim se chamava à gatinha, termo ouvido no ar associado a malandrice em conversas de intimidades nas noites de inverno ao lume entre os meus pais e amigos ,entre eles, o Albertino e o irmão Emídio Murtinho na altura solteiros deslumbrados com as raparigas bonitas vindas trabalhar para a fábrica…de ouvir dizer ao meu pai que a mioleira fazia muito bem à inteligência e, por não a comerem alguns…"eram burros todos os dias" dizia ele também que a doutrina obrigava a decorar umas " porras, as bem-aventuranças, não percebia para o que serviam"… 

Meu colega de escola…fulgor ainda hoje de ter sido colega do meu bom amigo Dr. Manuel Dias do Lugar de Manguinhas na vereda entre o Casal de S. Brás e o Viegas, por várias vezes lado a lado (aos Sábados de manhã, na rádio escolar!) .Ele foi sempre aluno do Prof. Albino Simões ao tempo Presidente da Câmara. Quando ele faltava iam todos para a D.ª Laura a minha Professora, que não gostava muito dele chamava-lhe o "mimo do caco!". O marido, ao contrário, adorava-me (salvo seja!) os seus colegas levavam tareia de meia-noite (ele partiu sei lá quantas réguas de metro no corpo daqueles mártires; quando não sabiam as contas agarrava-os em peso pelas orelhas e batia-lhes várias vezes com a cabeça nos quadros de lousa, talvez "pensando" que assim as regras matemáticas entrassem melhor no cérebro dos seus alunos; outras vezes dava-lhes tamanha chapada, que com a mão esquerda tinha que parar o impacto do castigo, se não os alunos até voavam para o outro lado da sala! 
No caso, o bom Manel ao contrário, recebia 1 tostão e 2 tostões para ir ao Alberto Melado comprar rebuçados para ele, como prémio das suas contas sempre bem feitas, das leituras e escritas sempre modelares. Assim, ele chupava rebuçados e os outros tanta tareia, o que o incomodava profundamente. Talvez por se dizer bem dele à esposa (que era professora das suas irmãs e elas tinham dificuldades na aprendizagem), é que ela o titulava assim, quando o via, pelas mãos de sua mãe. 

Ao sábado de manhã ...ouvia-se o rádio escolar na sala dos rapazes, uma perdição partilhar a sala naqueles instantes... havia um lindo rapaz de olhar lânguido em verde quão lago de nenúfares a raiar ao sol... não parei nem descansei enquanto não descobri o nome dele completo - António Manuel ..... para jogar o "Pancaios"... jogo singelo depois de subtraídas as letras iguais do meu e do nome dele, as restantes contavam-se... ao resultado aplicava-se a tabela da frase chave: 
P -Paixão; A -Amizade ; N -Namoro; C -Casamento; A -Amor; I -Inveja; O-Ódio; S -Simpatia.
Brincadeiras de cachopos a pensar em namoricos.... Lembrança nunca esquece
Foto com a turma e a professora, sou a segunda a contar da esquerda.

Episódio passado na 4ª classe com a Professora vinda de fora -, Maria do Nascimento que entendeu não me propor a exame, disse-mo numa 6ª feira. Mal chegada a casa não me contive e contei ao meu pai que destroçado com o segundo chumbo, tentou abrandar a minha tristeza confortou-me " na segunda-feira vou falar com a Professora pedir-lhe para te propor a exame" prometido devido foi comigo, porém nada havia a fazer, já tinha sido enviada a listagem com os nomes das alunas para Leiria, desculpa esfarrapada da Professora sem antes desafiar no conselho o meu pai que eu deveria acompanhar as colegas nas revisões suplementares que iria fazer . Gesto que acedi. As explicações decorreram a céu aberto no jardim do solar da D. Maria Amélia Rego junto ao lago, sentadas num banco em pedra circular junto da pérgula ladeada de trepadeiras. A perpetuar esse momento a foto na Mata Municipal, abraçadas com a Professora ao meio, Augusta Murtinho, "Irene dos Burros", Alice Tomé, Fátima e Lucília do Casal S. Brás numa clareira de seculares carvalhos. 

Jamais esqueci as palavras da Professora! " Isabel sinto muita pena de não a ter proposto a exame, afinal a menina está bem mais preparada do que as suas colegas"…

Sendo por natureza tímida, reservada, corava por tudo e por nada, não falava, ficava quietinha no meu canto, foi preciso crescer para sentir o peso da perda, da derrota na minha vida e com isso tenha desabrochado -, acabei por revelar um saber que antes nunca o tinha assim conseguido! 

Sinto uma nostalgia em reconhecer que nunca fui compreendida, acompanhada devidamente, nunca nenhuma professora soube despertar em mim a vontade e o gosto de aprender, esse dom maior que é o prazer de saber, percalço maior que resultou de forma negativa na minha caminhada académica.

Todas as Professoras que me acompanharam durante seis anos - tempo que durou a minha primária, revelavam temperamentos muito autoritários, discursos de distância, frios na sua relação com os alunos, - inevitavelmente comigo. 

Também em nada ajudou a rotina de fazer os trabalhos de casa, a minha mãe fazia-os por mim - o grande erro, na vez de me ensinar a estudar, a perceber, desajudou na minha escolaridade que continuou no colégio nas disciplinas de francês e inglês.Ainda se diz que é uma mais-valia os pais ter estudos para ajudar os filhos, será que concordo? Não fez por mal, uma boa forma de colmatar o tempo vazio nas noites de turno no Correio velho. Adorava fazer as redações, assim chamadas na altura.

O que os genes nos transmitiram?
O prazer da escrita na mesma feição, sentimental - também à minha filha, porque a minha irmã, saiu ao meu pai mais dada à poesia , no seu tempo de menina e moça comprou um livro de razão usado nas mercearias para apontar as dívidas da clientela,onde escreveu os seus versos, sorte que o guardei…contudo tinha uma caixa de madeira esculpida em retângulo - julgo foi da prima Júlia – viveu com ela anos até se estragar, onde guardava segredos. Gosta de caixas, gosta!

O que aprendi na escola?
Pouco, francamente lamento dizer que o mal foi para mim - sem bases, os estudos ficaram pela metade, poderia se quisesse, mas não me apetece estudar, gosto mais de conversar…
Foram seis anos. Infelizmente para mim chumbei na 1ª e 4ª classe.
Conheci as quatro salas, todas diferentes, todas iguais!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Externato António Soares Barbosa no meu tempo!


Decorria o ano de 1972/73 quando entrei no Externato António Soares Barbosa em Ansião, fundado em 1941, aqui estudaram os meus pais até ao 5º ano. No meu tempo o diretor era ao tempo o Dr. Silveira.
Foto com o Dr Silveira e a esposa na frente do carro alegórico
A minha vontade de ir estudar para o colégio era grande, poder usar bata azul às preguinhas vincadas, julgava eu poder conviver com os rapazes que eram muitos e giros... Estava enganada, - os recreios eram separados!
Carrinha do Externato António Soares Barbosa cujo motorista era o meu tio Alberto Lucas de Pousaflores.
Fachada do solar onde funcionava o Externato que dava para o quintal, o recreio dos rapazes onde fizeram as casas de banho.
Painel que hoje existe na lateral do edifício monstruoso, a descaraterizar a zona histórica da vila.
Despertava em mim e neles a adolescência. Recém chegada ao Externato deparei-me com novas modas-, uma delas um inquérito num caderno com perguntas para darmos a nossa resposta sobre "Intimidades" ...De manhã lembro-me dos rapazes chegarem na carrinha vindos das aldeias distantes, em particular do Carlos Gomes do Vale da Couda -, rapaz giro ornado de cabelos escorridos para o compridote que lhe conferiam um ar de atrevido, hoje diretor na Polícia Judiciária teimava que acabaria com o meu namoro em dois tempos...Muito gostavam eles de estarem à porta defronte da grande escadaria em meia lua de pedra à espera das miúdas, no caso de me "inspecionar" se tinha usado as pinturas da minha mãe -, nada percebiam, só queriam certezas se as pestanas bonitas e fortes eram minhas , pois usava o rímel da minha mãe...
Chegava de bicicleta com a minha mini-saia a esvoaçar com a brisa matinal.
O Arménio fazia espera por mim à porta da sapataria do amigo Sá...O problema é que não estudava nada, tal o enamoramento que por ele sentia, na matemática nos testes não passava dos dois valores. A português a coisa também estava preta, embora melhor. Mesmo assim, decidi falsificar a assinatura do meu pai. A tarefa correu-me mal, a assinatura do meu pai elaborada de arco de volta perfeita com remate minucioso...Quis o raça da mão a pensar no namoro tremer a fugir do papel químico azul que trouxera do correio. A Prof.Ilda conservadora, de cariz inglês, austera, altiva e platónica exigiu logo ali naquele instante outra assinatura do meu pai.Em plena aula mando-me sair para ir ao Tribunal ... atrapalhada, difícil era engendrar forma airosa de sair daquela cena. Na rua vi que os funcionários estavam todos à conversa na Placa ( assim se passou a chamar o terreiro onde outrora estivera o Pelourinho, dai mudado -, foi calcetado à portuguesa em 1937 defronte dos Paços de concelho o antigo solar dos Menezes, donos da vila ) todos queimando os últimos cartuchos antes de voltarem ao trabalho da parte da tarde.Como se nada fosse, com aquele arzinho de boazinha disse "paizinho a Dra. Ilda quer que assine novamente a prova..."Mal será dizer que levei logo diante do Cascão e do Zé Carlos uma tremenda bofetada, e recado,- para o ano seguinte iria estudar para um colégio religioso.
Mas antes ainda tinha de fazer exame em Pombal.No dia previsto da reunião de Professores para decidirem quais os alunos propostos a exame -,eu sabia que não reunia as condições, habituada a chumbos e a perder por estar calada, decidi intervir a meu abono.
Afoita, telefonei à minha mãe, pedi-lhe que telefonasse ao Dr. Silveira, diretor do Externato, para me propor a exame. Assim foi, coitado de quem é mãe.
No dia seguinte para meu espanto na vitrine estava o meu nome proposto a todas as disciplinas, enquanto o de outros melhores do que eu, tinham à perna um chumbo a matemática às costas, uma injustiça!Recordo o Dr Cardoso o Prof de matemática que achincalhava alguns alunos-, aos gémeos Rui e Rogério de Chão de Couce usavam óculos de lentes grossas os apelidava de "co-natos" e a outros "cavalgadura"! 
No átrio da Escola Secundária de Pombal recordo o Dr. Silveira -, homem alto de cabelo esbranquiçado a que alcunhei de "estepe russa" …Ficou célebre a pergunta " oh piquena sabes o que é a Républica?"...Res -coisa - publica – de todos… Risada geral!
Não estou na foto ou estarei cortada?
Geração anterior à minha. Alguns que conheci, à esquerda, de óculos a Robetina-, Tina que morava ao cimo do meu quintal, e a outra com ar de reguila também de óculos a Celeste Marques da Sarzedela e com boas parecenças a minha prima Helena da vila e a Odete do Moinho das Moitas a rir, o Amândio, filho do correeiro e a Manuela Franco.Outros conheço de vista.mas não asocio aos nomes.
A minha prima Célinha, a Manuela Franco e a Odete muito giras, modernas,o Freire de Albarrol
Mobiliário Art Déco, na peça de teatro, não sei se no Ensaio?


Olha a minha querida mana 
Jamais fotogénica, embora mui gira com os seus belos cabelos negros lisos brilhantes asa de corvo , resquícios da nossa origem fenícia por parte paterna, no corte à tigela...

Aqui vim fazer o exame do ciclo.A prova de matemática apenas a preenchi, seguindo esquematicamente os itens solicitados, deixando o espaço em branco para as respostas e cálculos. Quando faltavam os últimos 15 minutos para a prova acabar tive uma saída brutal pedi o rascunho à colega da frente que mal conhecia, também ela Isabel, mais velha, trabalhava na CUF tirava o ciclo à noite para poder trabalhar nos escritórios.Naquele tempo havia uma carteira de intervalo entre os alunos a fazer exame e três professoras de cara fria à nossa frente, tipo guardas da GNR.
Incrível ninguém viu -, ela deu-me o rascunho, copiei tudo o que pude como pude em flecha e dentro do tempo.Uns dias mais tarde, ainda me lembro que era segunda feira, a minha mãe tinha ido fazer a meia-noite nos correios, ficamos em casa muito pelo concurso Jogo do Galo com o Artur Agostinho.Toca o telefone, o meu pai atende -, era o padre Filipe Antunes ao vir de Coimbra lembrou-se de passar por Pombal para ver se as notas já estavam afixadas nas pautas, trazia novidades. Parabenizava o meu pai por eu ter dispensado às orais, uma coisa impensável, só possível tal o esforço surpreendeste no final de ano...Diziam, logo eu que nunca seria proposta a exame, se não copiasse tal nunca teria acontecido, até tinha dispensado...Obra de mestre!
Será que alguma vez agradeci tal gesto de hombridade à Isabel? Talvez não. Graças ao gesto avulso, grátis, e amigo sem ser minha amiga, me possibilitou o passaporte para continuar a estudar na altura apesar dos atropelos tirar o 5º ano. Devo-lhe isso, sei !
Espero ansiosamente a lotaria, ou outra grande notícia de chegada de dinheiro fresco no jogo. A primeira pessoa a ser contemplada serás tu Isabel!
Não é de hoje esta motivação. Vive no meu seio há anos. Tenho muita fé, Deus sabe que ainda sou nova e com uns pecaditos...castiga-me nesta longa espera.
Foi uma festa, o meu pai abriu um garrafa Lágrima de Cristo. Tal foi a indisposição da minha irmã, o vinho caiu-lhe mal, fartou-se de vomitar...atrás dela com a pá em chapa e vassoura a limpar o chão da casa. Esteve mais de 20 anos sem beber tal vinho, ainda hoje julgo não lhe toca.
Olhos d'Água com a minha turma do 5º ano.
Por denuncia da Prof de Português a D. Ilda, o meu pai decidiu que era melhor para mim eu sair do Externato do ambiente de namoro ( apelando às suas culpas do passado quando conheceu a minha mãe que engravidou de mim, e o curso de engenharia não passou da matricula).
Tive de aceitar sem resignação o colégio religioso de orago a Maria Auxiliadora!
HINO DO COLÉGIO 
Autor: Dr. Filipe Santos

Lançados na vida, que é mar tenebroso,
Pedimos ajuda a nauta seguro
Aponta o caminho farol luminoso. 
E assim, sem temor, coração ansioso 
Vivemos um sonho dourado e puro. 

Guiados pêlos mestres, irmãos devotados
Sentimos que a vida é mais proveitosa.
Saber e virtude, são bens desejados. 
E a posse segura de dons tão sagrados 
Virá pelo Externado Soares Barbosa.


FONTES
Algumas fotos retiradas da página do facebook do Externato

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Tradição do Dia de Santos no meu tempo de criança por Ansião

Ritual do pedir os bolinhos
Ti Maria dá bolinhos por alma dos seus Santinhos?
Ou
Vimos pedir os bolinhos em louvor de todos os Santinhos

ou
Bolinhos e bolinhós,
Para mim e para vós,
Para dar aos finados
Que estão mortos e enterrados
À porta daquela cruz.
Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Sentada num banquinho
Faz favor de vir cá fora
Para nos dar um tostãozinho.
Se a porta se abrisse cantava-se:
Esta casa cheira a broa,
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho,
Aqui mora um santinho.
Se a porta não se abrisse cantava-se:
Esta casa cheira a alho
Aqui mora algum bandalho.
Esta casa cheira a unto,
Aqui mora algum defunto.
Portas abertas as mulheres vinham ao som da cantilena com as mãos a segurar a aba do avental carregada de nozes, passas de figo pingo mel, castanhas, chouriça, romãs, macãs, e bolinhos dos Santos ,merendeiras típicas desta época do ano feitas com passas de uva e nozes com aroma a erva-doce. Muitas vezes entravamos na cozinha  em cima da mesa não faltava o alguidar verde cheio de tremoços...E atiçavam os cachopos "então não querem tremoços, olhem que estão bem demolhados"...atabalhoados os cachopos atropelavam-se com os talegos abertos para os encher na mistura de merendeiras, nozes e nas lojas recebíamos algum dinheiro , o Carlos Antunes dava-nos sempre moedas.
A única vez que fomos à casa da D. Paulete, irmã do saudoso poeta falecido com a pneumónica Políbio Gomes dos Santos, ilustre conterrâneo da nossa terra entrámos em fila pelo portão do lado da Misericórdia, em frente da porta debaixo do telheiro entoámos a cantilena... Ti Maria dá bolinhos por alma dos seus Santinhos...aparcem visivelmente emocionadas a mãe, senhora de idade, baixinha vestida de negro, de cabelo branco que logo entrou em casa para buscar o porta moedas deu-nos uma nota de 20$00  em contraste com a filha alta, forte, um mulherão ficou extasiada com a alegria da cachopada. A viverem em Lisboa vinham passar os "Santos" à terra...deixou a cachopada radiante com a simpatia das senhoras.
Ao fim do dia cansaditos de tanto cantarolar e andar por todo o lado ao final do dia  ao Ribeiro da Vide  a hora de se acender uma fogueira com os cavacos dos plátanos para no brasido se assarem chouriças enquanto outros iam à procura de pão e sumo...Grande o momento de partilha, de alegria, de muitos sorrisos sem malícia, todos abriam os talegos, todos partilhavam o que tinham recebido...
Grande momento de união que jamais esqueço... Toino e Mena do Trinta, Natércia, Augusta, Lucília do Murtinho, Alberto, Nito e TóZé da Carmita, Adriano do Mocho, e...
Saudades de ir de porta em porta...Ti Maria dá bolinhos, por alma dos seus santinhos?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Agroal está em mudança!




























Agroal é um paraíso de beleza selvagem despido de árvores de porte pelos incêndios. A cada ano, as veredas das encostas tornam-se mais compactas,rasteiras,muito crespas e verdes, resquícios de vegetação mediterrânica à toa semeada de pedras de calcário pelos costados. Diria mais no meu jeito..."um buraco" um fim do mundo....onde Judas um dia perdeu as botas...como se por um milagre fosse no sopé da serra na margem esquerda  do vale aflora em fúria ( quem se lembra do Galfúrria?)  uma rebentação de águas cristalinas a beijar o rio Nabão no limite do concelho de Ourém, a  margem  direita  pertença do concelho de Tomar. O maior afluente deste rio - que lhe dá caudal todo o ano - porque na nascente em Ansião - a água vai muita funda, infelizmente ali o rio é seco no verão...e não devia...será que foram os romanos que o desviaram?
O Agroal é muito procurado nas redondezas - os meus avós maternos aqui vieram a águas tratar de mazelas  e eczemas da pele. Sempre que aqui vim -  vi gente com mazelas a banhos, alguns vindos de longe. Uma dessas vezes estava lá um casal de Bragança, na esperança de curar a sua pequenita muito enferma com uma pele extremamente sensível cheia de feridas abertas, até dava dó só de olhar, tinham visto uma reportagem na televisão sobre as propriedades daquela água - não resistiram de vir em busca de milagre...a pequenita chorava ao colo do pai...então não vi!
Águas frias! Alguns aventavam hipóteses, que tal aquecer a água e darem-lhe banhos quentes...conversa puxa conversa, naquilo um homem de meia idade perto de Pombal confidenciou-me que uma das suas filhas tinha tido em miúda um problema de pele, ao ponto de me confidenciar que a tinha curada aqui em banhos e também com a ajuda de uma botica.Sem pedir, deu-me a receita da mezinha que diz ter comprado na farmácia:
Mezinha
2$50 de pó de Joane
2$50 de pó de Alvaiade
2$50 de azeite sem sal
Tudo comprado na farmácia
Vai tudo a ferver num púcaro de alumínio a estrear
Depois passa uma noite ao relento
No dia seguinte o unguento está pronto a aplicar


Desde miúda, há roda de cinquenta anos, aqui afluo a banhos neste vale estreito encravado entre serranias. Esteve anos sem outra saída ou escape tal as abruptas arribas das encostas. Um verão a minha mãe levou-me a mim e à minha irmã para ficarmos uma semana, alugou um quarto pobre, sem quaisquer condições de habitabilidade. Tinha 17 anos, a minha irmã 15, a parca comida fazíamo-la no quarto, os grelhados na rua. Quem nos foi visitar, um namoradito da minha irmã, o Joaquim do Outeiro para os lados do S. João de Brito, tirámos umas fotos na ponte pedonal. Apesar da pobreza ser maior do que o nosso quotidiano, só sei que adorávamos aquilo. Anos mais tarde fizeram a ponte sobre o rio, ligaram em definitivo as duas margens. Também da enfadonha estrada de terra batida a seguir aos Formigais dizem ser terra de tesouros escondidos, de vez em quando aqui ainda aparecem com o livro de S. Cipriano, quem sabe do tempo em que o rio era navegável e funcionava como única via de acesso (?). Ao longo do vale desliza a caminho de Tomar, o rio Nabão, nas suas margens proliferam aldeias que sempre viveram da agricultura e da riqueza das águas para o regadio. Aldeias de forte emigração, o casario de cariz estrangeiro desenquadrado com as casas em adobe, típicas da região. Do Agroal não tenho saudades do barroco com pedras - assim se chamava à piscina(?), dos garrafões que se enchiam ao fundo da minúscula escadaria, da força da corrente a fugir por entre as tábuas do rebordo com limos, muito menos das pessoas que se levavam com o sabonete junto à roda dos alcatruzes, meio escondidas, a esfregavam-se à borla. Saudades mesmo? Da roda com os alcatruzes tão típica destas terras; do aluguer de fatos de banho guardados em cestinhos expostos no varão, quem aderia ao serviço acabava por ser privilegiado, desciam por dentro e entravam diretos para o banho; dos quartos para aluguer; do chalé em madeira anos vinte, alto, elegante, soberbo durante anos em quase total abandono, na outra margem... hoje já não existe, o que eu gostava, que a Câmara de Tomar tivesse o ensejo de aqui idealizar outro albergue semelhante; da ponte baloiçante pedonal em madeira com corrimão de cordas; da velha taberna do Galfúria, da mesa de matraquilhos à porta, onde aprendi a ser mais férrea com o meu Sporting; pelo entardecer de caminhar rio acima à pesca com professores reformados de Mira D’Aire, nas mãos redes tipo canoeiro; do tempo que aqui passei férias com os tios Paredes; do fascínio das grutas, escalar as veredas, espreitar de olhos arregalados na louca descoberta de pinturas rupestres, caveiras, ossos, tesouros, como se via nos filmes; das moscas, inferno tanta mosca, dessas não se guarda saudades! 
Pena senti da grossa e polida coluna em mármore partida, anos e anos persistia debaixo da varanda da casa azul em frente ao “barroco” quem sabe se seria romana, gostaria de a ter visto aproveitada como escultura, num dos novos espaços reabilitados, falta quanto a mim a sensibilidade em analisar e validar o que se julga que não presta, mas tem muito valor. Há ainda falta de noções básicas como reabilitar, reciclar, renovar, quando se altera um cenário como este, está a ser do avesso. ”aqui um dia em miúda os filhos do marinheiro da Portela, a Helena e o Vítor teimaram em me ensinar a nadar, não conseguiram, o trauma é grande há anos!”. 
Quem se lembra dos versos alusivos ao Agroal no tempo de antanho

Agroal terra dos meus encantos

Merda por todos os lados

Cagalhões por todos os cantos!



A câmara de Ourém decidiu na sua margem revitalizar o espaço da entrada, tornando-o pedonal, muros novos, varandim para o rio, o "barroco" virou uma grande piscina - chão em pedrinhas - rebordo em pedra, duas entradas com escadas, corrimões em inox, grande espaldar em madeira para os veraneantes se esticarem ao sol, 4 mesas de piquenique, relva e até areia e claro balneários e casas de banho.

Também a câmara de Tomar fazer a sua cota parte que anunciou - incrivelmente ainda nada fez na sua margem - apenas fez a limpeza de casebres feitos "à doc" -  como diz o povo feitos num tempo sem rei nem roque!
Esperava muito mais de Tomar, muito mais!

Estreei-me num destes domingos, gostei da banhoca. Curti o contraste dos verdes, sonhei, viajei...Só me faltou mesmo amar...impossível lugar de coisa pública, incrivel nem vivalma de moscas!
No regresso  fomos degustar um belo piquenique - pataniscas de bacalhau e arroz de feijão no pequeno parque de merendas na estrada de Rio de Couros.
Coisa para voltar a repetir, tendo na mente a inspiração para o banho, água fria para não dizer quase gelada, de arrepiar, faz bem, depois de entrar com o sol a dar na pele, não apetece sair

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