sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Encostas da Régua com histórias de azar e mau agoiro...

Dia 14 continua a saga dos dias de mau agoiro -, o primeiro que me lembre passou-se comigo há oito anos, é passado. A D. Gina colega da feira da ladra faz hoje 6 meses que faleceu de repente com um AVC, soube-o há coisa de 15 dias quando perguntava ao marido por ela...agora tenho lá ido menos vezes.O terceiro aniversário de hoje - faz dois anos que o marido da Glória faleceu intoxicado dentro de um tonel vazio do vinho do Porto numa adega. O preceito da lavagem destes tonéis carece de serem abertos para arejarem porque os vapores são muito intensos, alguém foi negligente - o bom homem  e outro que tentou ajudá-lo morreram os dois, tragédia - tão novos num acidente estúpido. Passei na região da Régua dois dias num turismo rural quando travei conhecimento com a Glória num local inusitado, escuro e medroso. Passeava com o meu marido e um casal de estrangeiros nas ruelas da aldeia, ao subir a escadaria da igreja deparo-me com o portão do cemitério aberto, atrevida exclamei em voz alta - bem, por aqui não dever ser hábito roubar cruzes das campas para venderem no sucateiro...nisto, vejo um vulto dentro do cemitério que vem na nossa direção, só perto reparo se tratar de  uma mulher escanzelada vestida de escuro tal como a noite se anunciava,  perguntei-lhe se não tinha medo - respondeu que não, ali vinha a qualquer hora do dia ou da noite visitar a campa do marido - contou-me a estória da desgraça da vida dela, e dos filhos sendo que o mais pequenino tinha três meses quando o pai faleceu. Mulher de 37 anos muito sofrida vive da caridade dos pais com mais de 80 anos com reformas precárias, doentes - não a entendem pela grande diferença etária.
O processo no Tribunal não ata nem desata - só lhe querem dar um valor ridículo que mal dá para ela e para sustentar e educar os filhos  - no momento estão recolhidos na segurança social - só os visita aos fins de semana. Mulher sofrida - sem amparo nem ninguém que a ajude, ainda por cima o marido morreu por conta de um tio que não tinha seguro de acidentes de trabalho,  no passado já tinha tido outro acidente com morte,  continuou negligente na segurança do pessoal  - rápido foi passar os bens para os filhos - não a ajudou em nada nem sequer perguntou se tinha de comer , para não falar que o marido não descontava sobre o real valor do ordenado.
Gostei francamente de a ouvir - conversa fluída, aprendeu a conhecer os meandros da justiça demonstrou no discurso uma desenvoltura mental acima da média de tal forma que fiquei curiosa  perguntei o signo - sagitário- personalidade forte, decidida, trabalhadora, contestatária na injustiça, quase sem forças para continuar a lutar contra o advogado que acha - argumentou bem  - tudo indicia se bandeou para o outro lado - a troco de favores e dinheiro da outra  parte, e - com isso a defesa perde força, e o valor da indemnização também, e não devia!
Neste País ainda se pratica muita atrocidade contra gente que não tendo influências - fica sempre a perder na justiça,  nem o ministério público faz nada, e deveria estar atento quando há menores.
Como será que a Glória se sentirá hoje a recordar dois anos de saudade do seu querido marido sob um calor tórrido?

Em todo o redor é tempo do buliço das vindimas nos leirões - pela frente ao longe a muralha de Cidadelhe - monumento com obras de requalificação por qualquer motivo pararam - encontrei o espaço vedado com o placar de pé...
 Na aldeia vim ver uma das quintas mais emblemáticas - BÔTTO com 75 hectares de vinha  adquirida pelo avô do  António Champalimaud ( e de outros irmãos, falo deste por ter sido meu patrão ,  debaixo de um secular sobreiro está enterrado o irmão Joaquim - exigiu ser enterrado na sua terra e foi ) .

No tempo das  Invasões francesas, o avô -  um oficial -, dizem se encantou pela região e por uma mulher de Paredes? com quem veio a casar - a propriedade tem um lindo palácio que continua na família - na região estão muito bem cotados nas regalias dadas aos trabalhadores com o mês de agosto de férias - nenhum patrão é tão bom como eles, dizem. Parece que o bom homem de descendência francesa se dava bem com o rei D. Carlos, ao tempo comprou a Quinta da Marinha...
Antes de chegar a Cidadelhe existe há pouco tempo uma grande unidade hoteleira com uma vista magnifica, sobre o Douro, disse-me um aldeão com quem travei conversa  - a quinta era de um homem com muitas quintas na região e muito dinheiro, cujos filhos derreteram a fortuna...fez o negócio para a instalação do hotel do qual há-de receber valias ?...parece que está quase na miséria, sendo outrora muito rico - coisa agoniante!
Haveria de ver mais uns solares de envergadura na aldeia, e ainda outro acastelado com ameias que parece pertencer ao dono do hotel na Régua, de quem o povo fala de má gestão e hipotecas resgatadas pela banca...

Toda a envolvente em redor resplandecia aos meus olhos num paraíso verdejante - logo o imaginei pelo outono em tons escarlate e de varas nuas em janeiro. Em qualquer altura do ano deve ter a sua beleza intemporal.
Estou a horas de entrar no 15 para me passar esta agonia de aniversários dolorosos.
Um dia se tiver condições sei que gostaria de voltar a ver a  Glória  e ajudar a ter uma vida melhor.
Mulher de fibra, e decidida é encarada na aldeia como maluca, sem juízo - apreciação feita levianamente por gente limitada, sem qualificações e de visão curta, fechados para o mundo - sozinha amargurada, lutadora e sofrida na sua voz a narrar os acontecimentos é levada no descrédito  - até já a levaram a Lamego para ser exorcizada... a talhe de conselho pus-lhe as mãos nos ombros, disse-lhe - Glória você é uma grande mulher, inteligente, sabe defender-se, ninguém a leva por trouxa, levante a sua auto estima, procure um companheiro porque o que lhe está a fazer falta é carinho - chorou e ainda me disse - mas ele há homens que só querem gozar, e eu preciso de um que me ajude a educar os meus filhos - insisti - você procure, não  volte é a casar - não vá perder a parca reforma  -, se ele não lhe servir como esperava manda-o embora, e procura outro...não se acanhe, estupidez é estar sozinha tão nova - porque as carências torturam, e muito a alma e, fazem mal ao espírito tornam-nos mais azedas - por isso quando fala sobre o assunto aos demais emprega uma atitude agressiva na entoação da voz , que a eles soa a coisa doentia...e, não é!
Trate de si, esmere-se continue a lutar, e muita sorte para si e crianças.
Aprenda a ser de novo feliz, porque merece, gostei muito de a conhecer - ela retribuiu o elogio.

Despedimo-nos com um fraterno abraço!

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