terça-feira, 28 de setembro de 2010

Janelas antigas com um caixilho

Um dos locais mais bonitos da minha infância que preservo fica num extremo de além a seguir à capelinha do Escampado de Santa Marta de 1708 por serras de Ansião.
O progresso quis que este antigo caminho sem saída fosse roteado para ligar este Lugar a Albarrol. Um baque!
O que se perdeu por aqui -, nem quero lembrar...grande era o empedrado a fazer lembrar calçada romana (?) de grandes pedras arrumadas geometricamente, ainda uma enorme laje plana com um pequena cruz templária esculpida.

A frágil casita meio derrubada ainda me lembro de lá ter entrado, agora de porta aberta pintada a cal, as silvas a invadir o espaço, ainda um bengaleiro feito manual muito castiço, os quartos minúsculos em tabique, onde acredito terem sido gerados e paridos sem prazer os filhos, como na época era normal...sufoco só de pensar!
Ao fundo depois da cozinha a lenha o alpendre com o forno em barro abobadado e  abertura celta em triângulo. Adoro fornos, dos cheiros da lenha a arder, das cores, do crepitar até ficar branco, sinal que está no ponto para receber a massa levedada de milho, centeio ou trigo, ainda mistura e broinhas de azeite, entaladas com bacalhau, sardinha, chouriça ou açucar...
Incrível, hoje quase tudo se perdeu!
  • O empedrado encontrei-o numa das minhas caminhadas com a minha mãe um pouco mais abaixo para o lado direito à saída do Lugar, talvez o mais provável eixo da estrada romana vinda da Lagoa do Castelo a caminho de Albarrol, Almoster, Alvaiázere onde a toponímia ainda hoje atesta nomes de aldeias como Romila e Rominha -,da existência dos fornos de cerâmica, do olival com oliveiras desse tempo com mais de 2.000 anos, dos buracos feitos nas encostas das serranias para se esconderem  fortes indícios da sua passagem por estas terras...tudo aventa que a via romana por aqui passasse, por certo não há dúvidas, tantos são os indícios nos Escampados num círculo restrito, coisa de um km sem dúvida alguma...passou!
Desde miúda que sou vidrada neste tipo de janelas em madeira com minúsculo caixilho em vidro.A primeira, a que faz parte do meu manancial de memórias existia nas traseiras da  casa dos meus avós paternos, entre a estrada real e a vila
  •  o meu pai tinha uma foto com uma folha de couve galega na mão, por detrás dele a casa de janela de madeira e janelo em vidro minúsculo...perdeu-se a foto...a casa sempre a conheci como palheiro pertença do Ti Serra , nunca registei a foto, com o tempo o palheiro pertença de dois, houve um que o  remodelou!
A segunda janela encontrei-a precisamente neste Lugar de além do Escampado de Santa Marta quando por lá ia com a comandita de cachopos do Bairro na véspera do dia de Ramos à procura do alecrim.Passaram-se os anos, mais de trinta, deixei de lá voltar, entretanto uma vez por outra tentava, alguns caminhos passaram a ser asfaltados, fatalmente perdi-lhe o norte , não conseguia encontrar a direcção, faltava-me qualquer coisa...
  • fui tentando nas várias passeatas que gosto de fazer com os cães da minha irmã, quis um imprevisto que numa tarde de domingo no meio da estrada, uma reunião para obras na capela me obrigou a desviar noutra direcção , o meu coração bateu forte, será que era aquele?
De passo apressado parti à descoberta... finalmente tinha-o encontrado!
Vibrei nas recordações de que maneira...até perdi o fôlego, tais as emoções...
  • Voltei mais tarde desta vez levei a máquina....com um baque no coração com o que via e não queria ver, nervosa pela perda irrecuperável de tanto património tremi a foto, mas volto lá, voltarei mesmo desfocada não resisto a mostra-la!
Pena fiquei em saber que o dono lhe tirou as colunas que sustentavam o alpendre, antes que as roubassem...o caixilho outrora com vidro já não o tem, escaqueirada mal se nota a cor original em amarelo, o que ainda resta o avental em pedra calcária, linda!
Quanto a esta janela pela antiguidade já não tem o vidro que lhe conferia  glamur!
Dei com ela numa das minhas caminhadas pelo Escampado de S. Miguel, vinha de mota do Marquinho e naquilo ela deparou-se à minha frente, irresistível não fotografar.
No caminho para Fátima  numa aldeola junto à estrada existe também uma, vi-a mais em pormenor quando fiz a peregrinação a pé.
Até há pouco tempo existiu na antiga estalagem do Bairro de Santo António em Ansião janelas em madeira sem o caixilho, são ainda as que se vêem mais.
No entanto para mim o caixilho pela sua pequenez, é um encanto um rasgo criativo do habitante da casa.
  • Como seria entrar no quarto e ver a luz através dele?
Que dizer dos efeitos de contrate na camisa de dormir em estoupa grossa para afugentar as pulgas, bordada no peito com monograma a vermelho pendurada no cabide...
Romântico diria!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Arrábida piquenique e banhos!

A uns escassos 4 kms do rio  à entrada de Setúbal vindo pela nacional depois de Azeitão na 1ª rotunda corta-se à direita por uma estrada sinuosa, passa-se à desativada Universidade Moderna ,sítio de quintas umas a seguir a outras com frondosos portões e muros. Sempre a mira de seguir em frente até deparamos com a sinalética num entroncamento com tabuletas improvisadas, algumas partidas com os vários itinerários, e para a direita avisava o parque de merendas. A estratégia do parque de merendas naquele local adivinha o mesmo ser pertença de uma grande quinta abandonada que se encontra na encosta da colina. Vedado a toda a volta com rede, dispõe de 4 assadores em pedra, poucas mesas, bancos corridos debaixo das oliveiras -,já o conhecia de outra vez, aqui acorrem corropio de gente, sobretudo emigrantes ucranianos a fazer churrascos!

  • Piquenique em 26 de setembro de 2009

Postados nos lados do parque grandes troncos de eucaliptos tri -seculares jazem despidos corroídos no interior, ainda um vivo com um diâmetro a perder de vista.
Visível na encosta um grande palacete em ruínas, ainda vestígios do empedrado da estrada de acesso, mais à frente uma parede com ameias em jeito de castelo encoberto pela vegetação, seria um miradouro?
Ao lado do parque estende-se um grande terreno arenoso quase despido de ervas com cor de terra...tropecei sem saber num fóssil-, um búzio, fui com a mão, saltaram outros da terra como se estivessem dentro de farinha, aqui jazem há milhares, milhões de anos?
Adoro fósseis e outra das minhas paixões "caquinhos de faianças" que encontrei no terreno, apanhei alguns debaixo de um sol baixo escaldante...
Por certo restos da vida de outros tempos do palacete na encosta, que as chuvas no tempo descarrilaram pelas terras.

Portinho da Arrábida. Deitada na toalha na praia a saborear contrastes de sombras do sol encoberto por nuvens com o verdes das encostas crespas de vegetação mediterrânica,efeitos enigmáticos dos estratos e das cristas de calcário, misto brecha e pudim da Arrábida -, trouxe uma amostra redondinha, parece um nugget de amendoim...
Soberbo panorama de fazer perder a respiração, tanto sossego, tanta beleza incomum num lugar paradisíaco ainda por explorar.
Deixámos de mirar a Arrábida para avistar aquele mar azul com bancos de areia antes de Tróia a perder de vista, e os verdes das encostas do planalto com os prados tipo paisagem "Bocage" de fenos já cortado, ainda El Carmen que me deixou a sonhar e de que maneira!
Fazia-se horas para regresso. Na subida um acidente com um casal de mota que ficou sem travões...Claro, o INEM bloqueou a estrada, criou o pânico no trânsito, e não havia necessidade. As mulheres fizeram-se sinaleiras, ora mandaram avançar os da fila para descer, ora mandaram avançar quem como eu que  vinha de baixo, na esgueira de portas abertas e carros mal estacionados, tomámos a valeta, ao desenrasque!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Real fábrica do Gelo em Montejunto






Situa-se em plena serra de Montejunto, também designada real fábrica da neve, a escassos 50 km da capital.Vinha eu na Ponderosa, num repente apeteceu-me mudar de rota , conhecer Montejunto.Gosto de andar por estradas do interior,exalta-me o fascínio pelo casario desordenado, as colinas umas verdes de floresta, outras de vinhedos, ainda muito mato, a sinalização quase passava despercebida num entroncamento com semáforos.
Aldeias castiças encravadas nas colinas da serra e dos vales imensos e profundos,inevitável uma pedreira, no ar uma avioneta fazia círculos atrás de círculos....mas que raio faria ali, perguntava-me...
  • A faixa dizia tudo, tudo!" És única, completas-me M ama P Q do Castro".
Percebi melhor quando esbarrei mesmo defronte da quinta de rija e soberba fachada imponente...talvez casamento!
Pragança -, a última aldeia grande antes da serra com cabeços de pedra debruados a vegetação mediterrânica, tipo ramalhete, naquela de continuar a subir ,sempre a subir ,o carro já ia com o ponteiro do aquecimento quase no máximo... Está a ficar velhote!
Um miradouro com muros pintados de branco e um cruzeiro, ao longe o oceano atlântico!
Continuámos estrada acima na companhia de pedras tipo ponte agudas que servem de resguardo à barreira abrupta e logo acima um entroncamento, parque de campismo, centro de interpretação da serra e fábrica do gelo, quisemos continuar até ao cume.
Montejunto -,afinal um sítio mítico outrora povoado por dominicanos que não perderam tempo em se pirarem de lá, tal a agrura do inverno... repleta de um sem número de antenas de todos os canais, de redes de telemóveis e força aérea ...uma loucura, os zumbidos, tantos fios esticadores presos em sapatas de cimento armado, pior as desactivadas, que as deixaram lá inactivas a morrer ao sol...e a destoar no contexto serrano de pedra calcária. Deparei-me com a fachada da igreja de Nossa Senhora das Neves, por detrás dela ainda vestígios de suportes em pedra usados no século XXII, até os caixilhos das janelas são em pedra, ainda ruínas do primeiro convento dominicano erguido em Portugal,uma ermida com muitas velas e ao lado umas ruínas onde ainda se vê o chão em pedras pequenas tipo mosaico e noutra os alguidares encaixados na argamassa de cal, um vidrado em verde, não resisti trazer um fragmento, louca por estes artefactos!
Subimos mais um pouco, aí sim o cume de Montejunto com uma capela de S João e ruínas de um segundo convento ,os dominicanos não queriam desistir da serra, tentaram construir outro, porém desistiram pelo tempo frio que aí se faz sentir deixaram-no por concluir, foram de vez para Santarém. Existe no grande largo que se rasga na frente do aglomerado um lindo painel de azulejo com a menção de todos os pontos de interesse na serra.
Descemos e fomos em direcção à real fábrica do gelo.
  • Tivemos a graça de ter encontrado um excelente funcionário da câmara do Cadaval, simpático, afável,mui bonito e sensível, excelente candidato para este posto, com perfil para comunicar e agradar sem presunção nem favor, simplesmente porque adora o que faz, presentear e encantar o forasteiro. 
A pé caminhamos ordeiramente por entre castanheiros selvagens que escondem um parque de merendas, ao lado um parque de campismo apetrechado -, grátis-
Incrível no meio, uma ilha da força aérea com um enormíssimo radar verde...
Aberto o portão dei conta dos pinheiros seculares arrancados do chão, restos do grande temporal, que passou por Torres Vedras, ao nosso lado direito uma grande extensão de tanques baixos que intercomunicam entre si a água vinda de um grande tanque tipo depósito onde os alcatruzes da nora à força de tracção animal faziam retirar de dois poços contíguos, dia e noite...quando os tanques se cobriam de finas películas de gelo, as pessoas eram chamadas da aldeia de Pragana para as vir retirar e armazenar nos poços , um maior do que outro em pedra, achei fascinante as cúpulas em tijoleira tipo árabe, adorei!
  • Dentro do edifício chamado fábrica cujo chão em lajes grandes irregulares de pedra, ainda vestígios de arcos podem observar-se painéis elucidativos do tempo de oiro do gelo como, "Café do Gelo" em Lisboa ainda em funcionamento e noutro uma placa de mármore a dizer vende-se Fructas, Cerveja, Neve...
Interessante foi saber que a modernice de usar o gelo como refrescante foi trazido com a corte de D. Filipe II, por volta de 1600, julga-se que começou por vir da serra de Estrela, depois das faldas da serra da Lousã, do Coentral, ainda da serra de Sintra,mas rapidamente uma atrás da outra foi perdendo importância pela distância da capital e da génese do produto, o gelo -, não aguentar o tempo da viagem...que derretia... 
Assim nasceu a ideia de fazer gelo na serra de Montejunto julga-se por volta de 1741, e em 1782 inauguram uma nova fase, o gelo também começou a ser utilizado no hospital de Todos os Santos ali na Praça da Figueira. 
  • O armazenamento do gelo era feito nos poços onde era calcado com um maço tipo calceteiro, sendo depois o seu transporte feito em carroças puxadas a jumentos embrulhado em serapilheira e palha para aguentar o calor, as viagens faziam-se de noite quando o calor abrandava até à vala do Carregado onde embarcava em barcaças até ao terreiro do paço, um percurso de 12 horas, aí chegado era transportado para a casa do gelo, não se sabe muito bem onde seria, uns dos donos da fábrica era também dono do café Martinho da Arcada. Ainda no local pude ver um forno de cal em excelente estado de conservação que serviu para a construção da fábrica e também a população.
Fiquei com inveja dos castanheiros americanos, com 10 anos, de folhas grandes, ao invés do que plantei numa courela lá na minha terra, não medram!
Valeu a pena, fiquei com a sensação que já lá estive antes, maravilhoso cenário não me sai da cabeça, o pior é que tenho boa memória...Será do programa do Dr Hermano Saraiva?...
Continuo na minha, já lá estive antes...
Adorei!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sonho em viver aventura nas vindimas no Douro !



Em 2008, com a herança inesperada de uma propriedade vinícola, vi-me confrontada com um dilema: apostar na manutenção ou no seu abandono.Decidi teimar na aposta da sua preservação, surgindo a necessidade de alguma aprendizagem e aquisição de conhecimentos específicos sobre esta temática, da vinha e do vinho.Através de roteiros turísticos disponíveis on-line, seleccionei uma Quinta no Douro que oferece aos seus visitantes, na época das vindimas, a possibilidade de participar nesses trabalhos, para auto valorização, aprendizagem ou somente lazer.A escolha foi aleatória, tal o número de ofertas.Fácil, foi agendar uma data e ir sem ninguém se aperceber...menti...tinha de ser!
Na data estipulada, depois de acalmada a ânsia com o aproximar da hora, cheguei à Quinta do Crasto no Douro vinhateiro.À minha espera, o capataz e o enólogo deram-me as boas-vindas.Todos sabiam da minha chegada e dos motivos da minha visita, esclarecer e aprender vários conceitos da vinha e do vinho.A vontade de começar a fotografar era imensa: a casa grande, os barracões, onde se guardam as alfaias, a serem invadidos pelas mulheres, que se apressavam a ir buscar as tesouras de poda, e a azáfama dos homens a carregar os tractores de cestos.O capataz pegou, então, na maleta de primeiros socorros, embalagens de luvas e garrafas de água.Estava tão entusiasmada com o rodopio dos tarefeiros.Todos pareciam saber as suas funções e, já instalados, lá partimos rumo à vinha do Marco do Grilo.A minha vista alcançava em redor um percurso sinuoso de estradas estreitas, rodeadas por um imenso mar de vinhedos aos carreirinhos, xisto e mais xisto a tropeçar nos pés. Ao longe o rio sereno numa de fazer caretas com as sombras dos salgueiros por entre os raios de luz… 
Interrompi os cliques da máquina fotográfica para ouvir as explicações sobre a utilização de luvas: "a casta das uvas pretas é muito tintureira e as mãos, se não estiverem protegidas, ficam encardidas".Por falta de hábito no manuseamento da tesoura de poda, ou nervosismo, cortei um dedo, de imediato o capataz apressou-se a ir buscar a maleta e a socorrer-me no ferimento.Fiz uma pausa na vindima e voltei a atenção para a minha máquina digital, que já contava com umas largas dezenas de fotos.Neste momento estava a ouvir à minha volta algumas pessoas que falavam acerca da maturação das uvas, prevendo uma colheita superior à do ano anterior.O tempo tinha corrido de feição,o míldio fez tréguas,também a última chuvinha diziam, acabou por lavar, engordar os cachos que ganharam mais doce, alimentando expressões com sotaque ...
"Olhe, as abelhas já andam à roda delas", auspiciando um ano de bom grau, quiçá de um vinho "vintage".O vaivém dos homens com os cestos cheios de uvas nos carreirinhos e os de regresso já descarregados no tanque inox do tractor, estratégica medida cautelar de higiene sem perdas de uma pinga de mosto, saíam em direcção ao lagar, atulhados de uvas, reluzentes ao sol.O almoço foi servido no arraial em plena vindima, trazido por mulheres com cabazes de verga branca.Serviram de entrada bola de Lamego, o prato rancho à moda de Viseu, fruta melão,e doces as famosas cavacas grandes que davam para encher de vinho da adega, por sinal esplêndido.Com o estômago composto com o apetitoso repasto, ouviam-se anedotas, e alguém insinuou: "Então e as fotos?"
Aproveitei o ensejo do mote e registei mais uns momentos descontraídos de todo aquele alegre rancho de gente.À tardinha regressámos à Quinta em direcção ao lagar.O rancho, só de homens que tinham vindo à frente, estava já no preparativo do ritual da lavagem dos pés para entrar no grande tanque.Dava-se início à pisa das uvas! 
Abraçados a cantarolar "Era o vinho, meu bem, era o vinho, era o vinho que eu mais adorava!" a fazer lembrar os rituais alentejanos a cambalear como ondas.As mulheres tratavam da lavagem dos cestos e da limpeza das tesouras, arrumando tudo o que tinha ido para a safra.A noite já ia longa, o corpo não perdoa e o cansaço era muito.Todo o pessoal irradiava uma simpatia sem igual, franca e sempre pronta a esclarecer dúvidas.Aprendi novos conceitos sobre um tema quase desconhecido, que me tornaram apta para seguir em frente com o meu projecto.A Quinta tem várias vinhas: Lameira, Cadela, Cantinhos e Salgueiro.Cada safra com a sua casta destina-se apenas a um lagar (tanque).No lagar havia cinco, só dois estavam ainda vazios.Depois da pisa, o mosto foi tratado com produtos químicos (a quantidade regula-se pelos cestos,compra-se nos Grémios e farmácias), o mosto ferve entre 4 a 5 dias durante estes o ritual diário, calcar duas vezes o mosto que sobe no tanque com alfaias de madeira a lembrar os rodos das salinas.Noutro tanque, registei essa tarefa, executada por várias pessoas à volta do mesmo, ficando tapado com plástico como medida de protecção.No dia seguinte, assisti noutro sector do lagar, ao vasilhame do vinho em pipas de carvalho francês, devidamente preparadas, sendo estas tapadas com um marmelo ou uma maçã, para evitar os mosquitos, o mosto continua a ferver e deita fora, quando deixam de ferver, finalmente são tapados pela rolha de cortiça.A minha aventura tinha terminado.
Numa conversa, de hora e meia, com o dono da Quinta, esclareci as últimas dúvidas sobre cava da vinha e sua fertilização.Por fim, ele fez questão de se despedir pessoalmente de mim e dos restantes colaboradores de fim-de-semana que abraçaram uma aventura diferente, na lavoira!
Quanto ao vinho, com muita pena minha, o resultado final só será provado na Páscoa, pois no Carnaval ainda devia ferver.Será que irá manter a graduação da colheita anterior, 15º?
Vamos esperar para ver e, com sorte, ainda poderei fazer uma pequena visita e prová-lo directamente das pipas da Quinta da D. Antónia.
Apeteceu-me regalar de espanto e surpresa a minha família.Para tal os presenteei na casa rural com um almoço regrado.Fiz cartazes de boas vindas alusivos que tinham ao lado dos lugares na mesa com a lenga-lenga, à falta de melhor improviso na arte de poetar:
Surpresa, surpresa! O que vem lá?
Será coisa boa ou coisa má? 
Boa será!
Humm, cheira a cozido… 
E a sobremesa o que será?
Querem uma pista?
Podem ser tintas,brancas ou morangueiras 
Colhem-se e esmagam-se de mãos nas ancas,
E o aroma? Ah, cheira tão bem! 
Mal podia esperar para mostrar as fotos de todos os registos feitos durante a minha aventura.Será que ia ganhar o desafio?
Depois de um bom cozido à portuguesa e já bem instalados no sofá e no caixote corrido, dei início ao documentário.Fotografia a fotografia fui revelando as experiências por que tinha passado,original, divertida e de mais valia como conhecimento.Tal o espanto da família era geral, estupefactos com a aventura que eu tinha vivido.
Perguntavam incessantemente "Foste tu? Mas és tu, não és?" 
O desfecho desta minha aventura... aposta foi ganha! 
Não poderia desejar nada mais do que os sorrisos e as palavras expressas naquela tarde por todos, um a um.Valeu a pena o desafio.Agora, só é preciso pôr mãos à obra naquela que será a nossa Quintinha da Mó.Bem, conhecimento já adquiri, motivação também.
Já iniciámos a poda e a fertilização do terreno.Agora é só esperar por Setembro próximo e que o ano tenha chuva e sol quanto baste.De resto, bem… já os antigos diziam "o hábito faz o monge", nesse pressupsoto o desejo para mim!

sábado, 11 de setembro de 2010

Olhos D'Água do rio Nabão e do seu afluente Agroal!

Ansião
O concelho está inserido no planalto do Maciço de Sicó que engloba Condeixa até à serra de Alvaiázere e para oeste abrange o maciço de Sicó. A rocha predominante o calcário, é frágil e parte com facilidade pela erosão criando muitas fendas, a água infiltra-se armazenando-se em grandes grutas, que se chamam algares - por isso os terrenos são mais áridos e secos, sendo que a água, essa corre muito funda sobretudo no verão. Desconhece-se o tamanho do algar do rio Nabão.
No poço Manchinho na Fonte Carvalho, no concelho de Ansião, nasce o -"rio velho", Nabão. Muito provavelmente o velho e o novo rio Nabão nascem do mesmo algar (?), sendo que o novo Nabão rebenta aos Olhos d'Água quando a gruta  por não aguentar mais água das chuvas a expulsa pelo poço feito na década de 40, assim poços da mesma época; Manchinho, Ameixieira e o do Olho do Tordo em Alvaiázere.No tempo dos romanos o rio que passava em Tomar deram-lhe o nome de Tomarel, seja já em tempos do século XIX (?) que o tempo por apenas o ver com águas na altura dos nabos (?), lhe desse o nome de Nabão(?).
Quis o destino que nos anos 40 - outra nascente no Moinho das Moitas a que chamaram "Olhos de Água" perdurasse até hoje, como a principal nascente deste rio. 

Foto aos Olhos d'Água de antigamente
Sr. Chiquinho Veiga de mãos abertas e a esposa atrás, na frente o meu pai Fernando Rodrigues Valente com o irmão o Francisco, os únicos na foto que conheci.
 
Apesar do IC 8 ter vindo estrangular este local de tamanha  beleza -  Os Olhos d'Água na década de 90 numa tarde de Natal, a vontade em registar fotos com a minha filha, ainda havia a ponte em pedra, a eira e em volta os muros de pedra seca e claro muita água e as grandes pedras que as obras da estrada deixaram ficar na margem...
A requalificação com  investimento e apoio comunitário, em todo o país vingado e aqui falhado!
Onde está a água no verão? Nos espelhos? Há que a bombear!
Queria água, muita água em Ansião no verão!
Exsurgência dos Olhos d'Agua, o poço da nascente cujas águas provêm de algares cársicos

Eira atual
Pedras postas em fila para passagem no passado foi herança trazida de norte
Aos Olhos d'Água num raio de escassos quilómetros nasce noutra gruta a nascente o rio Dueça, já pertença do concelho de Penela. Dizem os antigos que a proveniência da água dom Nabão é do mesmo algar do poço da serra da Ameixieira,  onde conta que antigamente foi feita uma experiência - "atiraram laranjas que vieram a aparecer no Agroal"...
O Agroal é o maior afluente do Nabão, sempre a brotar água seja inverno e de verão sito no limite do concelho de Ourém, o maior caudaloso afluente que no vale lhe corre aos pés passando por Tomar.Acredito que as gentes destas redondezas julguem que a nascente do rio Nabão seja no Agroal...mas não é!

Agroal
Onde o Nabão deixa de perder caudal pela rebentação continua de água.
Agroal, onde o afluente se junta ao Nabão

Ponte de Cal em Ansião
As águas exploradas desde o tempo dos romanos para  no século XX ainda existia um tanque de chafurdo nas Lameiras e tenha sido a razão na Ponte de Cal terem debaixo debaixo dos arcos tanques para chafurdo para homens, mulheres e crianças na centúria de 600. As águas que rebentam no Agroal tem as mesmas propriedades na cura de mazelas de pele, rezam-se estórias de curas milagrosas com aquelas águas, equezemas e outras moléstias da pele.
Nem a propósito, uma estória verdadeira: O meu tio Alberto Lucas era enfermo com uma doença de pele, foi pela sua mãe,minha avó tratado com as águas do rio Nabão em Ansião nos tanques que existem  na década de 30.
Tradição que se perde em Ansião da cura e banhos santos quando alguém lançou o Agroal onde o povo passou a ir ao buraco a banhos frios e quentes, em que os meus avós não foram exceção. Reza a lenda da Rainha Santa Isabel se apeava da sua liteira para beber água fresca e dar esmola a um Ancião aqui nos tanques, ora a ponte é de 1648 tendo  rainha vivido no inicio da centúria de 300.Não teria sido aqui nem mais abaixo e sim no tal tanque nas Lameiras na beira da estrada real que tinha um chafariz onde o comodismo seria de longe melhor naquele tempo do que na ribeira.

Citando o núcleo dos amigos das lapas, grutas e algares «Olhos de água de Ansião-Mais um passo para a exploração sub-áquatica . Ontem, (23 de Novembro) mais uma grande exploração no Maciço Sicó, desta feita nos Olhos d’Água de Ansião (Gruta da Nascente do Rio Nabão).Pela primeira vez foi possível explorar a seco a galeria freática que desce até aos 80 metros de profundidade (falta confirmar desnível com topografia!).Esta galeria apenas tinha sido visitada apenas uma vez, pelo espeleo-mergulhador João Neves (SAGA) em 2005.
Muita, muita lama, tipo manteiga e muitos metros de corda e cabo eléctrico sujos, mas valeu a pena!
As explorações futuras estão neste momento mais facilitadas devido ao alargamento da estreiteza que antecede esta galeria descendente, sendo que a exploração subaquática é agora bastante mais fácil e poderá dar resultados surpreendentes.»
Entaladeira
Rampa final
Foto do sifão terminal
Desde sempre ouvi falar da apanha de agriões na ribeira do Nabão, assim no meu tempo de infância se chamava, a Fátima Duarte que morava no Moinho das Moitas os apanhava, mas não são agriões, antes ranúnculos aquáticos, de nome científico Ranunculus peltatus.Mantos floridos de branco como se fossem tapetes. Desde sempre local para encontros e namorados
Os meus pais
Com os meus colegas do Colégio  no meu tempo do Externato António Soares Barbosa no ano 1973  junto a um "olhinho de água do Nabão"  onde hoje passa o IC8.
Almoster - Maria Marques, Luís Costa
Gramatinha - Fernando Ribeiro Marques
Anacos - Fátima Simões
Mogadouro - Isabel
Pessegueiro -João Carlos
Casal de S.Bras - Silvestre
Ansião - Eu, Fátima Duarte, Alfredo Lourenço,Maria João Valente, José Carlos Simões
Lurdes Carvalho - Sarzedela

Pobral -Vitor

Contraste da antiga ponte em pedra com o meu marido

Contraste da antiga ponte e eira com a minha filha
O novo leito do Nabão

Aqui existia ao tempo um conjunto de azenhas minúsculas serpenteadas ao longo de ribeiros estreitos tipo levadas ladeados por muros de pedra solta , no curso principal havia o moinho com uma enorme roda de madeira para a elevação da água, tradicional neste rio até Tomar.
Também havia a seguir um Lagar de Azeite e um Alambique.Ainda sou do tempo de ouvir falar que o Ti Parolo mestre do Lagar  que desceu à gruta, coisa de 40 metros para tentar bombear a água para fazer trabalhar o Lagar.
Saudades dos Olhos de Água da minha meninice,de ver grãos de milho a saltar da mó e dos taleigos enfarinhados dos fregueses que eram entregues à porta de casa pelo moleiro na companhia da sua carroça puxada pela mula - do cheiro da aguardente a sair por tubinhos a escaldar,das batatas roliças espetadas num arame em roda assadas no brasido - da linda ponte debruada a grandes lajes -da eira repleta de agriões floridos - da água a fugir de mansinho pela porta aberta ...
Durante anos no dia do entrudo gostava de lá ir apreciar a beleza das águas na viagem por entre pedras grandes e pequenas, muita espuma, cascatas brancas...em melodia sinuosa.
Tenho fotografias desse tempo com os meus pais a namorar nos anos 50.
Sei que o espaço foi prejudicado há anos com o traçado do IC 8, precisamente debaixo dele na curva haviam as últimas nascentes de "Olhos de água" - quando andava no colégio ainda por lá tirámos fotografias.
Hoje o espaço foi revitalizado, mantiveram o que puderam, o moinho grande em pedra  podia ter ficado...parecia uma casa de r/c e sobrado todo em pedra, era diferente, histórico.
Podiam ter feito melhor? Podiam! Ter a ousadia de manter a eira redonda e a ponte de pedra!
Ah! Porque não ter aproveitado a largura do dito rio no términos da barreira em borracha para uma piscina? O verão em Ansião é abrasador!
O espaço enriquecia de gente nos dias tórridos de calor, a fazer lembrar tempos idos que eu e a minha irmã tomávamos banho mais abaixo junto às Lameiras por entre agriões escondidas pelos verdes e espigados milheirais das fazendas de extrema com a ribeira, assim chamada aqui - e não rio!

 Reproduzo uma foto antiga de tempos de antanho. A mulher é do Casal.

Rio Nabão num adeus sereno na Igreja Velha
Os rapazes do colégio iam mais abaixo aos Mouchões, o açude junto às tamargueiras floridas em rosa pálido em jeito de beijar as águas correntes na represa... 
Ponte Galiz  
Ponte antes do Marquinho 
Triste é no verão   o rio  vai seco...seco...
    Depois da ponte do Marquinho 
    Deixei o carro da minha mãe na estrada
     



     


     Formigais 
    A nascente da Fonte Grande desagua no Nabão

    Fonte da Mata na Botelha em Formigais
    Em tempo de chuva parece uma cachoeira
    Olho do Tordo em Pelmá



    FONTES
    https://nalga.wordpress.com/2008/11/29/olhos-de-agua-de-ansiao-mais-um-passo-para-a-exploracao-sub-aquatica/

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