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| A minha querida mãe vestida de Pai Natal sob o olhar do meu painel de azulejos de Coimbra alusivo a 17.. e troca o passo... |
Carta ao Pai Natal…chegadas as férias de Natal nos meus tempos de menina e moça a televisão incitava as crianças a escrever ao Pai Natal. Durante anos
escrevi a minha carta onde pedia o meu presente, a minha mãe dava-me sempre o selo para imediatamente a colocar na caixa vermelha ao lado da porta de entrada do Correio,
despedindo-me dela com um beijo. Tantas esperanças. Carta colorida com lápis de
cor, desenhos com arco-íris, balões e flores. Acredito que o Pai Natal não teria assistentes ao tempo, a correspondência deveria ser
muita em verdade nunca recebi resposta, muito menos presente. Com o passar dos anos, desiludida, abandonei a
causa.Nesse tempo a tradição da ceia de Natal na minha casa era o
mesmo de hoje na casa de muitos portugueses: o bacalhau cozido com couve asa de
cântaro. Para mim repasto semanal sempre que m'alembre. Nunca percebi
porque lhe conferiam tanta importância. Bem sei que os tempos eram outros.Nas mercearias só via as pessoas a comprar bacalhau do miúdo, do corrente mais caro só poucos lhe
chegavam, comia-se muita raia seca, recordo a faca de
guilhotina no balcão para cortar o fiel amigo ou
amiga raia, que o rabo também se levava para fazer um bom arroz acompanhado com pataniscas
ou bolinhos com muita salsa e pimenta. A agricultura é uma paixão, sempre
gostei da horta: cultivar e colher. A couve deve escolher-se uma com o melhor olho, porque a geada nesta
altura do ano não perdoa, outras ainda cheias de gotículas de chuva, tem arte a escolha da
melhor com talos tenros para a consoada. De véspera cozia-se a abóbora menina. Que me perdoe a minha rica mãe, na altura
os tormentos com o meu pai, que nada fazia e implicava com tudo, para ele tudo
estava mal e ela nervosa e com horário para cumprir no correio, os velozes não lhe calhavam bem...
Receita dos velozes fofos de abóbora-menina: coze-se à roda de um quilo e meio com sal e um pau de canela, depois de fria deixa-se a escorrer num pano uma noite, prensa-se com as mãos até tirar toda a água. No alguidar mistura-se com o fermento de padeiro (15 a 20 gr) dissolvido no sumo de uma boa laranja ou duas, junta-se 3 ovos pequenos ou dois grandes, um de cada vez mexendo sempre, um cálice de aguardente , 100 gr de açúcar amarelo e 250 gr de farinha, menos ou mais, consoante a textura da massa que deve ficar mole e de consistência rendada depois de levedada coisa de 2 horas em local abrigado. Fritam-se colheradas de massa, ensopam-se do excesso de azeite da fritura em papel pardo e cobrem-se numa mistura de açúcar amarelo e canela. Prontas a saborear.
Nem é bom lembrar o momento dos velozes na minha casa que originava quase sempre discórdia, a minha mãe na altura nem a minha avó Maria da Luz tinham mão certa para os fazer, criativas inventavam cada ano, umas vezes batiam as claras em castelo em vez de usar os ovos inteiros, já a farinha ou punham a mais ou a menos, também na adição de sumo de laranja e aguardente. O que sei os últimos eram os melhores, há medida que viam a massa não estar no ponto, remediavam o azar da receita acrescentando mais farinha. Escolhidos os melhores guardavam-se para levar no dia de Natal para oferecer de fogaça ao Menino Jesus. Na cestinha redonda de aba baixa e asa alta em arco onde atava um lacinho punha os velozes embrulhados em papel vegetal como se fosse um naperon pelo recorte feito à tesoura pela minha mãe, ao subir as escadinhas do adro logo a deixava no palanque das oferendas junto à parede da casa do Porfírio ourives. De mãos livres ia a caminho da igreja para arranjar um lugar sentada onde me perdesse a olhar para o presépio de figuras grandes, não faltavam os montes e uma gruta. No fim da missa em fila indiana gostava de beijar o Menino Jesus como agradecimento por não se ter esquecido de me deixar uma prenda no meu sapatinho. As fogaças eram leiloadas no final da missa, um ano a minha foi arrematada pelas filhas bonitas do Sr. Coutinho que viviam Aquém da Ponte da Cal… Moçoilas e mulheres airosas me devolveram a cestinha com sorrisos …
Receita dos velozes fofos de abóbora-menina: coze-se à roda de um quilo e meio com sal e um pau de canela, depois de fria deixa-se a escorrer num pano uma noite, prensa-se com as mãos até tirar toda a água. No alguidar mistura-se com o fermento de padeiro (15 a 20 gr) dissolvido no sumo de uma boa laranja ou duas, junta-se 3 ovos pequenos ou dois grandes, um de cada vez mexendo sempre, um cálice de aguardente , 100 gr de açúcar amarelo e 250 gr de farinha, menos ou mais, consoante a textura da massa que deve ficar mole e de consistência rendada depois de levedada coisa de 2 horas em local abrigado. Fritam-se colheradas de massa, ensopam-se do excesso de azeite da fritura em papel pardo e cobrem-se numa mistura de açúcar amarelo e canela. Prontas a saborear.
Nem é bom lembrar o momento dos velozes na minha casa que originava quase sempre discórdia, a minha mãe na altura nem a minha avó Maria da Luz tinham mão certa para os fazer, criativas inventavam cada ano, umas vezes batiam as claras em castelo em vez de usar os ovos inteiros, já a farinha ou punham a mais ou a menos, também na adição de sumo de laranja e aguardente. O que sei os últimos eram os melhores, há medida que viam a massa não estar no ponto, remediavam o azar da receita acrescentando mais farinha. Escolhidos os melhores guardavam-se para levar no dia de Natal para oferecer de fogaça ao Menino Jesus. Na cestinha redonda de aba baixa e asa alta em arco onde atava um lacinho punha os velozes embrulhados em papel vegetal como se fosse um naperon pelo recorte feito à tesoura pela minha mãe, ao subir as escadinhas do adro logo a deixava no palanque das oferendas junto à parede da casa do Porfírio ourives. De mãos livres ia a caminho da igreja para arranjar um lugar sentada onde me perdesse a olhar para o presépio de figuras grandes, não faltavam os montes e uma gruta. No fim da missa em fila indiana gostava de beijar o Menino Jesus como agradecimento por não se ter esquecido de me deixar uma prenda no meu sapatinho. As fogaças eram leiloadas no final da missa, um ano a minha foi arrematada pelas filhas bonitas do Sr. Coutinho que viviam Aquém da Ponte da Cal… Moçoilas e mulheres airosas me devolveram a cestinha com sorrisos …
A consoada no
turno da meia-noite no Correio velho…tempos e foram muitos que a minha mãe
teve de trabalhar na noite da consoada e as vezes que lhe fiz companhia? Deus sabe
que foram mais que muitas. Filha mais velha me levava para dividir o medo, nem tinha
como fazer capricho de ficar em casa a ver televisão. Deus sabe o que me custava no tempo de invernia sair de casa, da beira do lume ou de cima da cama aconchegada com a pele de bode alentejano,
consolada a ver televisão. Não perdia um Natal dos hospitais e da reportagem
das Boas Festas que o contingente militar no Ultramar em fila ditavam
para o microfone para familiares e amigos, alguns soldados de tanto matutar no que haviam
de dizer quando chegava a sua vez engasgados com o aparato diziam mal o recado - “desejo à minha família muitas
propriedades, em vez de dizer prosperidades" na altura reconheci o
irmão mais novo, o Dr. José Luís advogado, irmão do então Padre Filipe Antunes que
não se enganou ao mandar saudações para a família e namorada a “Celinha do Vinte e nove”.
Ritual às pressas com a minha mãe antes de sair de casa
para o turno da meia-noite enchia a lata de brasas para nos aquecermos na
braseira,a nossa companheira fiel, não fossem as pratas dos maços de cigarros para as
fazer aguentar, já eu não me esquecia de deixar religiosamente o sapatinho no pial
da lareira. Anos mais tarde a estação de Correios recebeu um grande aquecedor de barras a
óleo, em que o modernismo fez perder a beleza da braseira em contemplar do
brasido a morrer em cinzas ao jus de castelo de cartas em derrocada... Quão grande
era o prazer de sentir os pés assentes no seu estrado na quentura morna do
borralho a saborear o parco farnel aviado de casa. Muito gostava eu de pôr a
tranca grossa de madeira na janela, fechada a sete chaves a nossa ceia era
degustada por volta das 10 horas; uma mão cheia de passas pingo mel, nozes que
partia com o peso da balança, velozes, papo secos com maminhas, lascas de
presunto e uma miniatura de vinho do Porto “bem
arresuadas” (termo calão usado nas bestas sinónimo de bandulho cheio, que a
minha mãe ouvia dizer ao seu pai), para se chegar horas de me aconchegar no chão na minha soneca, a fazer de colchão uma ou duas malas
de lona ao lado do cofre vermelho e frio, enregelada e mal aconchegada com um parco e
velho cobertor de uma fábrica do Avelar trazido da herança da minha avó Maria da Luz. Impossível esquecer os cheiros da estação de Correio:
pó, papéis, malas de transporte da correspondência e das encomendas, e do odor forte
da cabine telefónica forrada a corticite, do soalho velho gasto de tanto esfregado,
da braseira e até do cheiro do petróleo do candeeiro de latão quando faltava a
luz. Forçada a acordar ao som das badaladas do relógio da Reguladora. Inesquecível o som de duas cordas, música para os meus ouvidos, inigualável, único .No melhor do sono acordar às pressas à chamada da minha mãe para me levantar, num
ápice vestíamos os casacos, pegava na lata das brasas e no saco do farnel, a minha mãe com a grande chave em punho descíamos ao rebate da porta para dar duas voltas, em espera de ouvir as badaladas do relógio da igreja, da fábrica Cousinha de Almada...
Quantas noites de Natal e passagens de ano, Carnaval, feriados, tantas noites ali passadas a fazer companhia à minha mãe. Naquele tempo não me lembro de haver um assinante sequer que se lembrasse de telefonar para desejar "Boas Festas". Pasme-se! E não pagavam, porque naquele tempo o sistema era manual com verbetes. Uma noite como outra qualquer, sem troca ou partilha de afetos com os assinantes do dia-a-dia.Denota a falta de globalização, de cultura para se constatctar a mudança brutal em poucas décadas. Hoje assistimos a um exagero de troca de votos em moda cansativa, desprovida quase sempre de sentimento, só porque se usa, é moda, faz parte.
Quantas noites de Natal e passagens de ano, Carnaval, feriados, tantas noites ali passadas a fazer companhia à minha mãe. Naquele tempo não me lembro de haver um assinante sequer que se lembrasse de telefonar para desejar "Boas Festas". Pasme-se! E não pagavam, porque naquele tempo o sistema era manual com verbetes. Uma noite como outra qualquer, sem troca ou partilha de afetos com os assinantes do dia-a-dia.Denota a falta de globalização, de cultura para se constatctar a mudança brutal em poucas décadas. Hoje assistimos a um exagero de troca de votos em moda cansativa, desprovida quase sempre de sentimento, só porque se usa, é moda, faz parte.
Vínhamos abraçadas caminho fora por ruas vazias de gente e pouco iluminadas, o pior era passar ao Ribeiro da Vide pela escuridão do arvoredo onde me amedrontava, valendo-me a fé, rezava - eu vou com Jesus, Jesus vai comigo, ao mesmo tempo redopiava o pescoço em todas as direções do baldio repleto de plátanos na mira descobrir um vagabundo ou ladrão, começava a enxergar a fonte, o lavadouro público, só havia um poste de luz elétrica na casa do Zé André, outro junto do poço camarário e há nossa porta.
Mal podia esperar por chegar a casa para me deitar na minha caminha, apesar de dormir inquieta a pensar na prenda do Pai Natal, pela manhãzinha ao acordar com a casa gélida, fácil era saltar da cama para em corrida rápida pelo corredor só parar junto ao pial da chaminé para ter na mão a prendinha deixada no sapatinho que dormia ao lado da cama de cinzas ainda quente... Deleite maior sentir que o Pai Natal nunca se esqueceu de mim nem da minha irmã. Durante anos, acreditámos que descia pela chaminé com o saco das prendas às costas, por isso era limpa com o vassoiro de urze, porque o nosso pai, amante de grandes fogueiras atiçava o lume com ramos de oliveira, labareda farta para a limpar da fuligem, dizia…
Pior os anos que a prenda já era conhecida...a entidade patronal dos CTT no final da década de 60 começou a enviar presentes, sem a destrinça "menino ou menina" .Recordo uma grande bola feita em gomos às cores em plástico e uma girafa amarela com manchas castanhas e corninhos que a minha mãe os escondia atrás da porta do seu quarto que tem uma reentrância...claro que eu e a minha irmã dávamos conta de tudo, mas fazíamos conta que era surpresa... Em 69 a minha mãe encomendou a prestações o Cabaz de Natal que chegou numa grande camioneta que parou à nossa porta, dela saiu um grande caixote que deixaram na sala de visitas para ali logo o abrir, vimos quase tudo e voltámos a fechar. Quando os nossos pais voltaram do trabalho ficaram estupefactos com o nosso entusiasmo pela enorme surpresa e felizes de nos verem de joelhos a tirar bolas azuis para a árvore de Natal, o pinheiro bravo cortado nas traseiras do hospital da Misericórdia por a semente ter caído farta, trazia o caixote vários frutos secos; caju que não conhecíamos e tâmaras, passas, licores, aguardentes finas, vinho do Porto, sumos e néctares - afinal a Compal era uma empresa recente, recordo a marca V5, chocolates, bacalhau, latas de fruta , goiabada, prendas para as crianças e,...Sempre foi fácil fingir as surpresas...
Eu e a minha irmã éramos no tempo levadas da breca!
Não faltava nunca o bolo rei encomendado telefonicamente nas boas pastelarias de Coimbra; Briosa ou Café Internacional que vinham na camioneta do Pereira Marques.Confesso que na altura nenhuma de nós apreciava a iguaria, escarafunchávamos o bolo todo para lhe tirar as frutas que nesse tempo não apreciávamos só para encontrar a prenda...inacreditável eles deixavam!
Mal podia esperar por chegar a casa para me deitar na minha caminha, apesar de dormir inquieta a pensar na prenda do Pai Natal, pela manhãzinha ao acordar com a casa gélida, fácil era saltar da cama para em corrida rápida pelo corredor só parar junto ao pial da chaminé para ter na mão a prendinha deixada no sapatinho que dormia ao lado da cama de cinzas ainda quente... Deleite maior sentir que o Pai Natal nunca se esqueceu de mim nem da minha irmã. Durante anos, acreditámos que descia pela chaminé com o saco das prendas às costas, por isso era limpa com o vassoiro de urze, porque o nosso pai, amante de grandes fogueiras atiçava o lume com ramos de oliveira, labareda farta para a limpar da fuligem, dizia…
Pior os anos que a prenda já era conhecida...a entidade patronal dos CTT no final da década de 60 começou a enviar presentes, sem a destrinça "menino ou menina" .Recordo uma grande bola feita em gomos às cores em plástico e uma girafa amarela com manchas castanhas e corninhos que a minha mãe os escondia atrás da porta do seu quarto que tem uma reentrância...claro que eu e a minha irmã dávamos conta de tudo, mas fazíamos conta que era surpresa... Em 69 a minha mãe encomendou a prestações o Cabaz de Natal que chegou numa grande camioneta que parou à nossa porta, dela saiu um grande caixote que deixaram na sala de visitas para ali logo o abrir, vimos quase tudo e voltámos a fechar. Quando os nossos pais voltaram do trabalho ficaram estupefactos com o nosso entusiasmo pela enorme surpresa e felizes de nos verem de joelhos a tirar bolas azuis para a árvore de Natal, o pinheiro bravo cortado nas traseiras do hospital da Misericórdia por a semente ter caído farta, trazia o caixote vários frutos secos; caju que não conhecíamos e tâmaras, passas, licores, aguardentes finas, vinho do Porto, sumos e néctares - afinal a Compal era uma empresa recente, recordo a marca V5, chocolates, bacalhau, latas de fruta , goiabada, prendas para as crianças e,...Sempre foi fácil fingir as surpresas...
Eu e a minha irmã éramos no tempo levadas da breca!
Não faltava nunca o bolo rei encomendado telefonicamente nas boas pastelarias de Coimbra; Briosa ou Café Internacional que vinham na camioneta do Pereira Marques.Confesso que na altura nenhuma de nós apreciava a iguaria, escarafunchávamos o bolo todo para lhe tirar as frutas que nesse tempo não apreciávamos só para encontrar a prenda...inacreditável eles deixavam!


