Em 23 de agosto de 2015 publiquei a crónica - Nascentes de água termal em Pousaflores e Chão de Couce no concelho de Ansião, sobre fontes e minas de águas férreas, medicinais. Mereceu 1646 visualizações.
Porque segundo alguém disse "A História é longa. E ... deixa reflexões..."
Publicação no Jornal Serras de Ansião em setembro de 2026
A referência mais antiga a águas termais nestas duas freguesias surge em 1726, no Aquilégio Medicinal, do Doutor Francisco da Fonseca Henriques no capítulo relativo às fontes de água fria faz referência a fontes em Chão de Couce e em Pousaflores.

Descreve nascentes nos montes em redor de Chão de Couce : Furadouro (à entrada da povoação do lado sul); Salgueiral (a 500 m); Quinta de Cima (700 m a sudoeste); Nexebra a (1,5 km a nordeste) e Fonte do Cano (junto do centro pastoral de Chão de Couce) Barroca no sopé da Serra do Mouro, Silveira na Portela e, no termo da vila de Chão de Couce”, cuja água não é muito delgada, e passa por minerais de enxofre e de ferro, alivia dores e inflamações da boca. Há experiência de que tem grande virtude para o calor, e chagas da boca, porque em poucas horas mitiga a dor, e tempera o incêndio; para que se à de tirar a água da fonte antes do nascer do sol , e não lhe há de dar antes que se use dela". Em Pousaflores, a nascente da Silveira, na Portela de S. Caetano, chegou a ser analisada e “tinha tantas ou mais qualidades orgânicas do que a água de Luso”.
Em 1860, A. Costa Simões, na Topografia Médica, descreve duas minas na Serra da Mata que alimentavam depósitos térreos, um tanque de lavagem e uma bica na Quinta de Cima, adquirida pela Câmara para melhoramentos que nunca avançaram. Subsiste ainda a estrutura de um tanque antigo, com escadas laterais, usado para banhos — talvez romano — num habitat não classificado, e outro no tardoz da antiga Casa da Câmara de Chão de Couce.
As águas do Furadouro e do Salgueiral foram mencionadas por Lopes (1892, 249). Escreveu sobre o Furadouro: “Na base da serra da Mata, nasce de uma rocha de grés uma pequena nascente de água mineral. As águas são frias, cristalinas de sabor férreo, deixando por onde passam um sedimento cor de oca, e cobrindo-se, no remanso, de uma película azul avermelhada.”
A Fonte do Furadouro marcadamente ferrosa. "Época termal - Indicações do Furadouro – Atonias gástricas, dismenorreias (Contreiras 1951) Tratamentos/ caraterização de utentes. Ingestão é também um chafariz simples atrás do qual se encontra um tanque de água onde crescem juncos, com uma inscrição na frontaria: “Oferta do Dr. Alberto C. Rego e sua Esposa – 1959”.A água vem de uma mina da encosta no seu tardoz eucliptizada.
A fonte do Salgueiral , localiza-se a norte da quinta onde morou o Dr. Quintela, à entrada norte de Chão de Couce , cujo portão tem um arco enleado em roseiral que deixa pender belas rosas em tons pálidos, Lopes informa que "encontra-se ali numerosas nascentes de águas sulfúreas, não só poços da Vila, mas ainda nos subúrbios dela, na Quinta do Salgueiral. Não consta porém, que tenham sido medicamente aproveitadas” (1892: 197). A fonte localiza-se na beira da estrada que foi o corredor da estrada coimbrã, tem uma data da centúria de 800.
A Fonte da Quinta, em Lisboinha, junto às Alminhas será abastecida por uma das minas focadas da serra da Mata, pertença do Furadouro, sendo que outra existe a escassos 100 metros na Rua dos Pinhais, que foi pertença do avô do meu marido, descritas por Lopes (1892): frias, cristalinas, de sabor férreo, deixando sedimento cor de oca e película azul avermelhada.
Grande depósito de rega (existe ainda a estrutura circular de um velho depósito desativado, impressionante pelas suas dimensões). No exterior do atual tanque nota-se a estrutura de um outro mais antigo, de dimensões maiores, que servia para banhos como denunciam as escadas laterais. Mas seria só um tanque para banhos de lazer (?), e nunca foi referenciado nenhum processo curativo por imersão...
Conheço os referidos tanques, enormes, só tenho foto de um.
Setembro 2015 onde me deixei fotografar junto da nascente Um pequeno chafariz coberto de azulejos em verde claro, encontra-se no tardoz do edifício Pastoral. |
A crer, a antiga fonte seria esta em pedra do lado oposto à atual , cuja água nasce numa mina no costado poente da Serra da Nexebra na frente do Furadouro. Talvez seja esta mina a que foi referenciada mina do Furadouro, e mais tarde foi feita uma nova fonte, a chamada Fonte do Cano, pelo cano de ligação da água, que ao meio ainda se distingue como no tardoz da fonte também canos.
A vista para norte e poente que se vislumbra da Fonte do Cano
"A Fonte da Nexebra, tem um restauro de tipo tradicional, onde não faltam, o santo e os pequenos púcaros de água; num recanto da estrutura ficou a pedra do antigo chafariz com a data de 1712."
A sul da aldeia de Nexebra existe outro chafariz com abundancia de água e na frente um grande tanque que aventa ter sido romano.
Conheci na Mó, em Chão de Couce, uma bica de água numa telha mourisca ( de uma mina do outeiro da Mó, a norte, sobranceira ao muro de pedra junto do caminho, hoje estrada, onde se ia buscar água para se fazer o sulfato para as vinhas.

Marco, limite da freguesia de Chão de Couce com Pousaflores.
Como seria no passado o nome como era conhecida? Mina do Marco? Ou mina do Pinhal do Índio?
Nas descrições antigas, permanece incerta a localização exata da nascente férrea mencionada por Fonseca Henriques que a descreveu como sendo no limite destas freguesias. Ora esta mina fica ao limite das freguesias, eis que se fez Luz!
Não levava calçado apropriado e por isso não enfrentei os fetos!O meu marido sentou-se no costado junto da zlevada que desce da mina e seguia para a casa do seu bisavô António Veríssimo, na Mouta Redonda de Baixo.
Mina da Amieira, com represa abastecia a casa do bisavô do meu marido
Mina da Quelha, abastecia a casa do brasileiro, tendo sido ligada à fonte da Mouta Redonda
Mina dos Serrados ( abastecia a casa do Silvério )
Mina da Horta, pertença dos meus avós, férrea .
Mina do Leirinho da família do António do Vale e a da Amieira da família do meu marido julgo serem as únicas que conservam água.
A serra de Nexebra outrora de pinheiro bravo e castanheiro.
Com a extinção das ordenanças nas Cinco Violas, o ex capitão mor pediu ao rei para lhe doar a quinta de Cima, que lhe tinha sido aforada por duas vezes. O rei doou-lha. Dizia o povo que o ex capitão mor, andava de cavalo branco pelos outeiros onde se apoderou de hectares no cimo da Nexebra, e costado, assim como do souto de castanheiro bravo junto ad quinta, património que fora das Matas Nacionais e antes da Universidade. Os seus descendentes à volta de 90 anos apostaram no plantio de pinhal nórdico na Nexebra, que a minha mãe ainda se lembra , após 20 anos foi vendido para plantio de eucalipto. Os vizinhos seguiram a mesma opção, ao saber que crescia numa periodicidade de 8 anos e com isso o rendimento em relação ao pinheiro que não rebenta , e o eucalipto depois do primeiro corte rebentam várias árvores .
Também porque nessa altura o souto de castanheiros foi dizimado por moléstia e os pinheirais foram dando lugar a eucaliptais. Resiste a toponímia "Pinhal do Leirinho", "Pinhal do Sérgio", "Pinhal do índio" e outros, sendo na verdade tudo hoje eucaliptal.
O eucalipto, espécie trazida da Austrália tem-se mostrado agressiva nos solos, e sobretudo na secura dos terrenos. Por isso as minas da Nexebra e circundantes se encontram praticamente em secura.
O abatimento da madeira pelos caminhos de terra batida com a passagem de camions e de máquinas pesadas para corte e seu transporte, esventram o piso sendo fácil encontrar os canos de plástico estreitos enterrados na década de 50/60, quando apareceu em força o plástico para a canalização da água . Como bem me lembro da água canalizada na casa da minha avó Maria da Luz, da mina da Cavada, com um a torneira na ponta e debaixo dela uma grande bacia em azul bebé...todos estes canos constituem matéria combustível para incêndios.Costa Simões, natural da Mealhada — e cujo pai era de Almofala de Baixo — foi, em 1843, médico do Partido das Cinco Vilas (Avelar, Aguda, Chão de Couce, Maçãs de D. Maria e Pousaflores). Esse exercício permitiu‑lhe estudar estas águas, então designadas minas ou nascentes. Porém, nada evoluiu. O investimento e o interesse recaíram no turismo termal do Luso, esse sim, fomentado e vivo até hoje. Por cá, venceu a eucaliptização — um inferno que secou a água, apagou memórias e deixou este património natural à beira do esquecimento.
Quem souber mais, que se exprima.
É igualmente lamentável constatar que “a Câmara Municipal de Ansião, comprou a nascente da Quinta de Cima para fazer melhoramentos, mas nada fez” — testemunho que permanece como ferida aberta na memória local.
Convém recordar que a estrada que atravessa a quinta — pelo sopé, Borda da Mata, seguindo pela antiga vereda do Furadouro, Vale Cego, Pereiro de Baixo e Relvas, já em Alvaiázere — foi conhecida como Estrada Coimbrã. Houve quem a quisesse usurpar ao povo, mas não conseguiu. Ainda bem: é um trajeto histórico que merece respeito.
Fica o repto final: seria desejável que estes lugares — sítios de fontes e de minas — fossem finalmente respeitados e protegidos pelas entidades competentes. A fonte da Mouta Redonda continua seca porque a água foi desligada da mina de S. João do Cuco. O atual proprietário do costado é estrangeiro, mas a mina pertence ao lugar: deve ser religada para abastecer a fonte, a água analisada e a mina fechada, para evitar vandalismo.
Se as freguesias perderam o proveito termal, não devem perder a pouca água que resta — um bem precioso, raro, carregado de tradição e de benefícios.
A crónica só foi possível graças à intervenção das Fontes.
Fontes
Ricardina Afonso
Ermelinda Coimbra
























































