domingo, 10 de maio de 2026

Memórias do 25 de Abril de 1974 sem abolição do machismo

Excerto publicado na crónica do Jornal Serras de Ansião em maio de 2026


Quinta-feira apresentava-se um dia normal na jornada estudantil no Externato António Soares Barbosa de Ansião, até à chegada da Praça do Município, onde avistei professores, alunos e a contínua Maria Nena, ao portelinho do recreio, e a parede da sirene dos Paços do Concelho grafitada a preto, em letras garrafais – Abaixo o Fascismo, e defronte na barbearia – Bufo da Pide. 

Paços do Concelho de Ansião


De esquina onde foi a barbearia  do Sr. Júlio Freire de Albarrol


Obra do 25 de abril o mamarracho de varandas, inestético, descontextualizado na arquitetura do centro histórico de Ansião

Demolido o solar onde funcionou o Externato, e a parte sul do recreio foi rasgada uma avenida para a Mata Municipal.
O prédio deu  ganhos a emergentes do PSD... 
Muitos anos mais tarde foi colocada na lateral do  edifício, a sul, um painel azulejar com a foto do solar, para não se perderem as memorias, e na frente outro painel maior com os nomes dos seus fundadores, debalde, acabou por ser retirado para serem feitos os sanitários públicos. Culpa à falta de literacia cultural  no sumiço do painel, quiçá  guardado ou destruído, quando devia ter sido decisão a sua recolocação, por  enunciar  os pioneiros da fundação do Externato.

Na chegança ao ajuntamento junto da tasca da "Ti Augusta do Tarouca” de braços cruzados, nada entendi sobre o que balbuciavam sobre uma revolução em Lisboa .

A primeira mudança sentida no Externato com a Revolução do 25 de abril de 74,  foi liberdade de raparigas e rapazes poderem estar juntos no mesmo recreio, até ali diferenciado perante o olhar repreensivo da contínua Maria Neno, passou a se escudar de ordens repreensivas !

Naquele entretanto abria o comércio, de véspera, tinha acertado iniciar a arte do crochet com a minha prima Isaurinda Lucas, mal abriu a loja do Sr. Alberto Pires, onde me dirigi para comprar linha e uma agulha. Aprendera a fazer cordão no Colégio Religioso as Salesianas no Monte Estoril, nas tardes de sábado, a obrigação de trabalhos na sala de costura, sentadas em cadeirinhas, umas faziam crochet, outras artesanato com ráfia ou fio plástico, outras passavam a ferro e outras na máquina a costurar. Como não gosto de regras , não passei do aprendizado do cordão, no final do ano trouxe um saco enorme  de cordão  matizado ... 

A revolução do 25 de abril de 1974 aconteceu a dias de celebrar dezasseis anos, desconhecia o regime político que vigorava em Portugal , só sabia da instauração da República em 1910. Portanto nada sobre golpe militar de 28 de maio de 1926 que daria início à Ditadura Militar que culminou no regime do Estado Novo de cariz ditatorial, com Oliveira Salazar no governo, Estabilizado com a aprovação da Constituição de 1933 que se manteve até ao 25 de abril de 1974,  derrubado num golpe também militar premeditado por alguns militares saídos do quartel de Santarém, rumo a Lisboa.

Só ao almoço, em casa o deslumbramento pela transmissão em direto na TV, do Largo do Carmo. Onde se concentrou uma multidão acotovelada com tanques e soldados defronte do quartel da GNR com jovens empoleirados nas árvores e na fonte. Estupefatos com a audácia e coragem do homem de estatura baixa e grande fibra, capitão Salgueiro Maia, armado de megafone, sem medo da morte pedia ao presidente do Conselho Dr. Marcelo Caetano: se não aceita o exílio abro fogo... ao fim de algumas horas o refugiado aceitou a resignação, e partiu para o Brasil. 

A TV dava informação do esquema montado pelos militares  das senhas  na Emissora Nacional com as canções - Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho e Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso, para iniciar a revolução, sendo sancionada a canção "Venham mais cinco" .E dos desfiles de tanques com militares de cravos vermelhos enfiados nas metralhadoras...Segundo consta uma governanta vinda do mercado com um ramo de cravos, ao se encontrar na rua com a revolução,  reagiu ao impulso de enfiar um cravo numa  metralhadora, gesto de apelo à paz,  numa revolução sem derrame de sangue…desta forma tão simples nasceu o símbolo da revolução dos cravos vermelhos do 25 de abril de 1974!

Em abono da verdade o ingénuo julgar jus a desconforto  à laia do perdido império aquém e além-mar, por mares nunca dantes navegados e do estreito de Ormuz. Acrescia a parca cultura, o telejornal, a preto e branco, com reportagens de mortos e mutilados  despedaçados pelas minas, a destruição de aldeias, povos na miséria, fome, crianças desidratados e prisioneiros, da guerra do Biafra e do Vietname. Pelo Natal, os soldados do Ultramar em fila indiana ao microfone enviavam votos de prosperidades, dito por alguns propriedades... Do fascismo nada sabia,  palavra nesse dia enxergada  pela primeira vez. Nascida no seio de uma família que a custo de árduo trabalho já estudou, funcionários públicos, criada e mordomias; peixe fresco, roupa dos armazéns do norte e passeios. A proporcionar quer a mim como à minha irmã boas condições de vida em relação à maioria, que vivia com dificuldades. Sem autorização de brincar na rua, a fuga acontecia por rebeldia, assim como a audácia de trazer cachopos para verem  TV e lanchar, até que desapareceu da cozinha uma libra de oiro, quiçá confundida por moeda ... Os reutilizadores de roupa e pastas de cabedal, no adeus à  sacola de chita. Incitou rebusco  aos bolsos do casaco do meu pai para lhes ofertar  cadernos de 5$00, pelo uso de cinco tostões como lhes paguei o rádio escolar ao Prof. Albino Simões, sem jamais um obrigado! 

Santa ignorância sem nada saber sobre a ditadura? Até me lembrar de tempos idos numas eleições nos anos 60, do séc. XX, em que o meu pai se recusava ir votar, e a súplica da  minha mãe quase de joelhos a implorar Fernando tens de votar pelas nossas filhas, queres ser preso…resignado votou contrariado! 

Desconhecia a razão da  Pide , a rede de informadores no País que aprisionou  lutadores contra a  ditadura, presos e torturados na prisão de Caxias, Peniche e, Tarrafal, em Cabo Verde, onde muitos morreram no degredo como Bento Gonçalves ... 
O País mudou com o 25 de abril de 1974!
A Pide foi derrubada por Spínola, não se queria render, à pressa destruiu arquivos e de metralhadoras nas mãos repostaram para quem se insurgia clamando na rua, morreram cidadãos jovens, promissores, e um elemento da Pide, que saíra à socapa, de seu nome Lage, quiçá carisma diferente aos demais, e da inspetora  Leninha, víbora, enxertada em corno de cabra, desumana e má, uma fera terrível. 
As instalações foram supervisionadas pela Marinha, onde esteve um amigo meu do Murtal, Alvaiázere, que se ofereceu durante uma semana nos serviços administrativos, dizia que um dia apareceu uma senhora de idade, num Mercedes, que lhes ofereceu boas sandes e muitas de leitão...

O Povo com o 25 de abril sentia ter o Poder, finalmente livre, era o fim ao obscurantismo  e aos poucos o derrube de  preconceitos. A torto e a direito foram feitas nacionalizações de grandes empresas e herdades no Alentejo. Chegaram magotes de retornados das ex províncias ultramarinas com ideias modernas jamais vistas... A facilidade de se dar um beijo na boca , como assisti um casal  no recreio da escola de Pombal ... E engates no trajeto da carreira para Pombal no recanto do sopé da Gruta do Calaias,   e  ex  polícias da PIDE no regresso a Ansião, olhados de lado , alcunhados o pide...

Graças à capacidade de questionar porquês, o entendimento do que foram 48 anos de tortura e falta de liberdade em que Portugal mergulhara  com o fascismo,  sem  progresso, povo massacrado, sem oportunidades de emprego no interior, apenas a agricultura,  silvicultura e serviços camarários, provocou um êxodo rural depois da segunda guerra mundial rumo ao litoral.  A população vivia em extrema pobreza, os cachopos picavam com um garfo de ferro da malga ou bacia de faiança, o aferventado de couves ou nabos com feijão frade,  sem ver conduto, a ressalto perguntavam às mães que lhes respondia estar no fundo da bacia - galo ou peixe, mas pintado!
O repasto alternado com sopa, a tranca da barriga, e meia sardinha , só nos dias de festa se matava o galo ou um coelho. Graças à sapiência da economia do lar herdada das guardiãs avoengas, sobreviviam com a venda ao intermediário dos ovos e queijos produzidos semanalmente  para comprar na mercearia bacalhau ou raia, açúcar, café de cevada, arroz, massa e petróleo para o candeeiro. Só no dia do trabalhador se comia queijo em casa. Viviam sem quaisquer condições, chegavam a dormir na mesma cama de ferro quatro, dois à cabeceira e  dois aos pés, sem água canalizada, enchiam cântaros nos poços, fontes e minas, sem casa de banho, poucas retretes de madeira, uma maioria fazia as necessidades a céu aberto “ao Deus dará” debaixo de uma árvore e limpava-se com um telho, pedra ou verdura… sem rede de eletricidade, iluminavam a penumbra da noite com a luz do candeeiro a petróleo e candeias de azeite, sem estradas asfaltadas,  raros transportes, locomoção a pé ou em carros de tração animal. Com a 2ª guerra mundial agudizou-se a miséria com o racionamento de bens essenciais, dando-se o êxodo rural das aldeias recônditas nas serranias, encaminhando-se para o litoral. Vieiros de Leiria emigraram internamente para as margens do rio Tejo de Vila Franca de Xira, construindo casas palafitas  sobre estacas de madeira, outros vinham sazonalmente de Aveiro e do Algarve para a Costa de Caparica, viviam em casebres levantados de  brunho. Lisboa acolheu muitos na procura de trabalho melhor remunerado em armazéns, construção civil, carpintarias, caixeiros, caminho-de-ferro, refinaria e serviços… As mulheres empregaram-se como criadas de servir, governantas, lavadeiras, caixeiras e, … Deu azo ao agudizado hábito de abusos, perpetuados por senhores e filhos,  nas suas governantas, as chamadas sopeiras, sujeitadas à devassidão da vida humana, caladas para sobreviver à miséria, sofriam caladas e humilhadas. Analfabetas, sem estudos, criadas de servir, algumas conseguiram estabilizar a vida casando, com um rol de filhos incógnitos, verdade reposta com o 25 de abril,  cada nascimento obriga a paternidade, em alguns casos recorre-se a exames de ADN.  

O interior  com parcas oportunidades de ensino, que era pago, como em Ansião, apenas subsistia uma rede de escolas do Estado Novo que cobria o País, mas, não se valorizava a escola, porque as famílias eram em geral numerosas, com um rancho de filhos, os pais viam nas crianças mais velhas ajuda nas tarefas da lavoura, e as raparigas cuidadoras dos irmãos mais novos. Muitas nunca foram à escola e outras fizeram a 3ª classe, poucas as que continuavam os estudos,  e se licenciaram antes do 25 de abril, porque no interior  não haviam liceus, só nas cidades. Os padres encaminhavam rapazes  para o Seminário, que souberam aproveitar a mais valia quase gratuita, mas, raros foram os deram continuidade ao presbítero.  Sinto orgulho no meu avô paterno José Lucas Afonso, da Mouta Redonda, da freguesia de Pousaflores que mandou para Coimbra para ser professora primária a sua primogénita nascida em 1911, a minha Titi. Como estudou a minha mãe e o meu pai. 
Com o 2º ano podia-se ser Regente escolar e com o 5º ano Professor. Os Correios foram das primeiras empresas públicas a admitir mulheres com o 5º ano dos liceus, durante décadas com histórico de colaboradores maioritariamente feminino. Na minha família a irmã mais velha da minha mãe, ela própria, eu e a minha irmã, num tempo sem informatização telefónica,  só havia telefone até à meia noite, um PBX com cavilhas e manivela para chamar a central. Enquanto nos países europeus depois da 2ª guerra tinham florescido novas empresas no ramo da indústria, comércio e serviços com apoio estatal à educação, e à saúde melhorando as condições de vida para as suas populações, e por cá o País estagnou com o regime fascista, discrepância abismal na sociedade de ricos e pobres. Portugal ainda era tipicamente um país rural na década de 60 do séc. XX, o uso da bicicleta ficou na história com o nome pasteleira, apenas para remediados . Muitos enveredaram pela emigração maioritariamente para França, que proporcionaram aos filhos  estudos, deixando-os em casas de familiares, que lucravam com um rendimento suplementar, à laia dos cambistas com os francos, chegadas em cartas ...Por outro lado donos de fábricas e empresas, ricos senhores  exploravam a mão-de-obra  barata, com pagamento de salários muito baixos à laia da jornada de um sapateiro na sua deslocação a casa do freguês que recebia de jorna uma broa (pão de mistura de trigo e milho), a jorna na agricultura era diferenciado entre  homens e mulheres, desigualdade que se mantém depois do 25 de abril, e não devia. 

Sendo mulher… Não posso deixar de falar  que sempre as conheci num papel de escravas… Finalmente entendi que a sua sina até ao 24 de abril era ditada à nascença, cujo mandante era o pai e depois de casada, o marido. Subserviência total, sem direitos,  aprendizado dos serviços domésticos, saber governar com mestria a economia do lar com míseros recursos. Com a saída dos homens para a guerra do Ultramar, algumas viram a necessidade de trabalhar fora de casa, contribuindo com o seu salário, outras continuaram na lavoura de subsistência . A mulher casada era incumbida no dever de ser esposa fiel, cuidar do marido e dos filhos,  a quem devia obediência, só podia sair do País se ele autorizasse, assim como abrir uma conta bancária, ou ser irmã de uma Misericórdia, sem direito ao voto, sujeita a violência doméstica por maridos embriagados, sem educação, nem maneiras, dor abafada em casa e quando denunciada, o homem acabou por ver a justiça a seu favor com penas suspensas, porque o sistema judicial era fechado, machista. A mulher não tinha quaisquer direitos, a lei era escura em relação à mulher. O homem podia ser adúltero, porém a mulher se o fosse, via a sua imagem denegrida, enxovalhada, tratada como uma prostituta, sem serem apuradas as razões porque praticara tal atitude... Tudo era proibido à mulher, até sentir prazer...Quiçá muitas pariram sem nunca sentirem um orgasmo, tão pouco conheciam o termo...só reconheciam o calão... sentiam que para os homens era bom, já as mulheres criada para todo o serviço, um  depósito de espermatozoides… 

Deus ditou  séculos de vida abnegada e injustiçada às mulheres  em Portugal, que  o 25 de abril deu alternativa,  de poderem  dizer chega, quero, e mereço mais!

Quando os maridos foram obrigados a ir para a guerra no Ultramar sem saber se tinham bilhete de volta, viram-se obrigadas a procurar trabalho fora de casa, inicialmente nas fábricas, na sua emancipação, ao procurar trabalho fora de casa, de ganhar para o seu sustento, e serem independentes. Quantas noivas se casaram por Procuração enquanto outras desencadearam vontades de derrubar amarras e ultrapassar conceitos, com a mudança de atitudes e tradições, em decidir por si, valorizando-se, enveredaram pelos estudos, então domínio dos homens. Contribuiu na mutação cultural da sociedade com a aposta maciça nas Faculdades. Fenómeno que indicia num futuro próximo a sua ascensão para alcançar remunerados cargos de chefias nas mais diversas profissões. 
Imprescindível observar a mulher integrada na sociedade conquistando o espaço que merece, ajudando e participando na construção de um País, abolindo a descriminação, onde homens e mulheres se deveriam completar na procura de um bem-estar conjunto, fazendo força nessa união. Cargos de responsabilidade em empresas com histórico de homens no comando tem vindo a inverter-se, são cada vez mais mulheres tem vindo a ocupar lugares de chefia e a alcançar o sucesso num mundo que sempre fora dos homens. As mulheres além de femininas, mulheres, mães, donas de casa, são na vida laboral um exemplo de profissionalismo, desempenho, criatividade, perspicácia, audácia, rigor e poder de iniciativa invejável, conseguindo coordenar várias tarefas em uníssono e executa-las com sucesso, pelo excelso carisma prático. Desde que digam não à vaidade, as mulheres têm conseguido enfrentar as adversas dificuldades, tendo em conta os preconceitos formais da sociedade machista que ainda vigora, mas todas as suas vitórias são uma conquista de abril com a implementação da democracia, não há profissões fechadas às mulheres. 

Acordem Mulheres à mudança de conceitos educacionais dos vossos filhos, jus a Helena de Sacadura Cabal, com 91 anos, ensinou os seus homens, a serem independentes e a arrumar os quartos. Aboliu a destrinça de sexo à execução de tarefas, alternativa maior ao machismo, porque o saber não ocupa lugar, a ganhos de autonomia, lidar com a economia do lar, à perda de posse sobre o outro, respeitar o outro, sem ódio nas redes sociais, nem crimes de violência doméstica, paridade à vivência em equilíbrio cultural: igualdade e solidariedade em democracia a respeitar o outro!!

quinta-feira, 19 de março de 2026

Interajuda, interesses e amparo de cariz judaico nos manos Pascoal e Luís de Mello

 Excerto publicado no Jornal Serras de Ansião em março de 2026

Pascoal José de Melo Freire dos Reis

O mais notável jurisconsulto ansianense de todos os tempos, pai da Jurisprudência Portuguesa, e da História do Direito Civil Português, Desembargador da Suplicação e Professor da Universidade de Coimbra, no tempo da Reforma Pombalina.

Quadro a óleo no salão nobre dos Paços do Concelho de Ansião 

O rosto evidencia um nariz comprido, olhos grandes, lábios finos, bons cabelos e grandes mãos, a reivindicar genes no povo arábico da antiga Pérsia (?).

Citar excerto do Livro dos Ansianenses Ilustres 1 de Ansião, 2002 do Dr. Manuel Augusto Dias

"Nos finais do século XIX, Júlio de Lemos Macedo (op. cit., p. 177) escrevia que em Ansião já não vivia qualquer parente conhecido de Melo Freire, apenas em Almofala de Cima, ainda pertencente à Comarca de Ansião, vivia um seu sobrinho (...) é ainda o mesmo autor que nos informa que «Pascoal José de Melo Freire mandou construir em Ansião um bom edifício de vivenda que não chegou a ver concluído. Esse edifício, em estado de ruína, foi vendido por José de Melo Freire, de Almofala de Cima, filho de Bernardo Freire de Melo, capitão-mor das extintas ordenanças, um primeiro e outro segundo sobrinho do eminente jurisconsulto, ao pai de quem escreve estas linhas, José Luís de Macedo, que o fez reconstruir, aproveitando-lhe as paredes e a cantaria, e que do mesmo faz sua casa de habitação». Segundo o que conseguimos averiguar, esta casa ainda hoje existe, precisamente na Rua da Vila que ostenta o seu nome».
O autor  deu azo à transcrição da documentação sem sair da base de conforto para abordar o sitio da casa...Graças ao testemunho deixado pelo jurista que foi notário na comarca de Ansião, o autor apenas se dirige a ele sem lhe atribuir qualquer cargo, nem do pai José Luís de Macedo, foreiro da Misericórdia de Ansião, com dois foros ativos, um de uma casa na vila e de um olival na Senhora da Lapa, ao cemitério, como foi provedor da Instituição. Falta saber como conseguiu comprar a ruina e reconstruir a casa. Depois de falecer os seus herdeiros continuaram a pagar os foros.

Ansião a Rua Pascoal  de Mello Freire, e o solara à esquerda

Foto provável de 1908 da Rua  Direita vinda da Ponte da Cal,  agraciada na toponímia pela metade com o nome do jurisconsulto - Rua Pascoal de Melo Freire, quando o certo seria Rua Pascoal José de Melo Freire dos Reis. A mesma ignorância na  toponímia de Arroios, em Lisboa, somente Pascoal de Melo
(...) Após 84 anos do seu falecimento e 15 após a abolição da pena de morte em Portugal este vulto maior do direito português teve honra de dar o seu nome a uma Rua de Lisboa onde morreu a 24.9.1798».Lamentavelmente o nome pela metade! 

Invalida a todos de apelido "Reys" questionarem a sua origem, pior, em Ansião, jamais assumidos  descendentes do jurisconsulto.

A foto evidência  o solar austero para sul de alto muro com jardim e pilares de pedra, mais à frente seguido de outro solar da família dos Soares Barbosa, no meu tempo dividido na família da esposa do "Sr. Zé Piloto", e Virgílio Courela. Depreende em chão ancestral da família Freire. 

O jardim foi expropriado  em 1938 para ser feita a Praça de Peixe ladeado por duas ruas .

Belchior dos Reis terá vivido no largo do  Ribeiro da Vide

Numa de duas casas na posse de descendentes, no meu tempo do "Ti Zé André" . Presume onde terão nascido os filhos, ou no início do Cimo da Rua, em casas de familiares de apelido Freire , onde viveu a "Ti Zulmira, peixeira" ou na casa de família os Soares Barbosa, hoje Lar de Idosos. 

O filho mais novo de Belchior dos Reys , Pascoal José de Mello Freire dos Reys, foi para estudos  preparatórios em Coimbra, aos 12 anos, levado pelo pai que o deixou aos  cuidados do seu irmão mais velho, Luiz de Mello, meio-cónego no bispado de Coimbra. Ingressou na Universidade aos 13 anos, onde se doutorou  em Direito Civil, aos 19 anos. Presume costado judaico pela mãe, ao avô do Marquês de Pombal, que vivia na quinta da Gramela, em Pombal,  ao lhe reconhecer talento em Coimbra, aquando da reforma pombalina, e da criação da cadeira de Direito. Quiçá lhe lançou convite para a  sentença da família Távora, em Lisboa, onde se mostrou inflexível, a bater o martelo, favorecendo as reais intenções do Marquês de Pombal. Talvez por isso os canteiros de Ansião, jamais lhe levantaram cantaria!

Pascoal dos Reys, porém aboliu  o esquartejamento de corpos de bandidos e malfeitores depois de mortos no cadafalso  como tinha acontecido ao malfeitor Rui Mendes de Abreu em 1679, com família em Ansião na quinta da Boavista ao Senhor do Bonfim, e casas arrasadas na Carapinheira. O seu corpo esquartejado no cadafalso em Lisboa, vindo um braço para Ansião, e outras partes do corpo para terras onde praticou assaltos e mortes. Nos registos de óbito na época nada encontramos sobre a entrega e sepultamento...

Registo de batismo de Luís de MelloSetembro, 6, Ansião Luís Aos seis dias do mez de setesentos digo do mes de setembro de mil e settesentos e dezouto annos baptizou, e posos Santos Óleos o Reverendo Vigário da Redinha Fr. André Freyre a Luis filho de Belchior dos Reys e de Faustina Freyre desta villa. Foram por padrinhos o sobredito Vigário e Antónia Freyre desta villa e por verdade fis este assento que asiney hoje, dia, mes e anno ut supra.(a) Manoel Sylva e Souza. Neto paterno de Manuel Roiz Bicho e de sua mulher Isabel Roiz, também eles da freguesia de Ansião, e materno de José Carvalho, natural da freguesia de Santiago de Litém, e de sua mulher, Luiza Freyre, igualmente de Ansião. »

O revoltado Luís de Mello na hierarquia  do bispado de Coimbra 

A Monografia do Padre Carlos Godinho, do concelho de Ferreira do Zêzere, aborda as odisseias vividas por Luís de Mello, de quem apenas os historiadores se referiam apenas ser  cónego da Sé de Coimbra.
Uma vastidão de informação para se entender o carisma deste homem que se envolveu em grandes lutas até almejar o que queria. Informação sobre a tramitação do Santo Ofício para a declaração de limpeza de consanguinidade ; « Pelo protonotário Apostólico de Sua Santidade, Doutor Manoel Moreyra Rebello, Cónego Penitenciário na Sé Catedral de Coimbra, na chamada «Carta de Segredo, sobre o procedimento, vida, costumes» do candidato às ordens sacras, a sua idade, se é ou não bem procedido, bem como se é cristão velho ou se há impureza de sangue na sua família; acrescentam-se ainda outras informações respeitantes à freguesia de proveniência do candidato.",  «a respetivo do procedimento, vida e costumes e limpeza de sangue» Luiz de Mello é verdadeiro cristão-velho, pessoa de «boa vida, costumes e procedimentos» . 

A Tese de Mestrado retrata o  pandemónio que Luís de Mello exerceu no  bispado de Coimbra, jamais antes assim acontecido, ao não se resignar com a categoria de meio cónego, e querendo subir na hierarquia, travou muitas vicissitudes até conseguir  com ajuda do rei  nas suas deslocações a Lisboa, ficava na casa do irmão Pascoal de Melo Freire, o autor não menciona  o seu nome completo - Pascoal José de Mello Freire dos Reis Continua o autor: ".Luís de Mello privilegia-os, usufruindo de uma capacidade de organização interna dos Meios Prebendados e Tercenários, como acima se referiu, que suporta a sua contínua deslocação à capital do Reino. Ao mesmo tempo, este Meio Prebendado parece granjear aí apoios diversos, o que lhe permite permanecer em Lisboa por períodos de tempo mais ou menos longos. Todavia, também aqui não dispomos de elementos suficientes para determinar a natureza desses apoios, quem lhos podia prestar, ou ainda onde se recolhia Luiz de Mello aquando destas deslocações." Luís de Mello saia de Coimbra, sem nada dizer a caminho de Lisboa, para  aprender retórica em leis com o irmão Pascoal, sendo hóspede na sua casa, na habitual troca de favores  e amparo, quando em Coimbra  tratou dele aos 12 anos até se formar  . Luís de Mello precisava de saber como se defender para ganhar a contenda no bispado, como através do costado ao Marques de Pombal teve acesso a falar com o rei.  O ganho da contenda  teve sucesso, seguramente por estas ajudas e a do irmão que o exercitou na arte como falar sobre o Direito . 

Em segundo lugar,  aborda as odisseias do seu irmão, Luís de Mello,  sem falar da sua origem judaica. A sua carta de segredo referencia  os costumes e limpeza de sangue, que Luiz de Mello é verdadeiro cristão - velho, não havendo qualquer indício em contrário relativamente aos seus ascendentes. Mas, a sua descendência sabe que  "vieram de Espanha fugidos de guerras com libras em oiro", aportados pela estrada real onde ao Bairro de Santo António se encaminharam para o alto costado do Escampado de Calados, na centúria de 500, convertidos em cristãos novos, onde viveram em casario concentrado com forno comunitário e poço de chafurdo, uma casa com janela de avental e bancos namoradeiros. Com gerações de casamentos, agora na 4ª geração, em  uniões próximas com familiares para manter amparo e os bens, no seu tempo, já considerados cristãos velhos. Sobressaem genes vincados , jus ao retrato de Pascoal, no salão nobre dos Paços do Concelho. Ao tempo bastava um elemento da família seguir o sacerdócio ou estudos, para os outros irmãos ficarem libertos da declaração de consanguinidade.

Excerto da declaração do Santo Ofício "(...) Destinado à vida eclesiástica, Luiz de Mello inicia o seu processo, no sentido de receber Ordens Menores, com apenas dezanove anos, em 1738 em Coimbra. Viria a receber as primeiras Ordens nesse mesmo ano. Em 1743, após o necessário exame de cantochão, de que é «considerado capaz, é ordenado Subdiácono.
Em 1745 é ordenado Diácono, após aprovação para esta ordem a 25 de Junho desse ano e depois de, a 6 de Setembro, ser, uma vez mais, examinado no cantochão. Ainda neste mesmo ano, a 2 de Dezembro, se inicia o «pedido de averiguações» para ascender à Ordem dos Presbíteros. Como indica o processo de Ordenação, Luiz de Mello foi ordenado, neste grau do Sacramento da Ordem, «nas temporas de Santa Luzia». Tendo sido nomeado para «Ministro da Meza Eclesiastica» do Reverendo Bispo Conde D. Miguel da Anunciação, por mediação do Tesoureiro Mor e Provisor do Bispado, Doutor Manoel Rodrigues Teixeira cargo que exerceu durante alguns anos, Luiz de Mello é provido numa Meia Conezia na Sé de Coimbra, a 19 de Maio de 1749 , altura em que vagou esta «Porcionaria da Cathedral», estando a ela anexa o «Curato da Freguezia» Esta provisão havia sido confirmada por D. Miguel da Anunciação, com data de 20 de Março desse mesmo ano , tendo em consideração as necessidades económicas a que Luiz de Mello estava sujeito e a que já nos referimos. Certo é que o provido, pese embora o cuidado e « contemplação» que mereceu por parte do Bispo Diocesano e do seu Provisor, logo que viu aumentadas as suas forças e diminuída a sua dependência, «não poz tanto cuidado em moderar o seu génio», iniciando um conjunto de perturbações na Sé, movendo o Ministério da Pastoral a favor das suas causas e partindo para a Corte, «afim de atear o incêndio a que tinha dado matéria». Neste contexto, não só dá início a um processo profundamente perturbador da paz da Catedral de Coimbra, como ainda se manifesta, de «viva voz» e por escrito contra o Prelado «seu Benfeitor» e contra o «dito Doutor Provizor, a cuja mediação devera tanto», facultando ao Marquês de Pombal «de sua mesma letra hum papel do qual se formaram os Interrogatórios» da devassa a que dava origem. Não admira, por isso, que alguns autores, como Fortunato de Almeida, denominem Luiz de Mello como «astuto e intriguista», «sem escrúpulos», não refreando os meios no sentido de atingir os seus fins.
Ou ainda que o Cabido, nos seus escritos, o denomine como «mais ingrato do que Judas». O próprio Bispo Coadjutor, D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, na sequência da «Conta» que dá ao Marquês de Pombal, chega a denominar Luiz de Mello como «o Sacerdote mais miserável, que tem o Bispado», não tendo em mente outra coisa senão «o projecto de arruinar a Jerarquia da Cathedral» (...)
 Este conflito, accionado por Luiz de Mello, inicia-se quando este Beneficiado, unido a seus Companheiros, produz em juízo «hum extenso, e infadonho Libello contra o Cabido», em que formulava oito pedidos, que podem agrupar-se em dois fundamentais: um «commum com os mais Beneficiados», pretendendo o titulo de Cónegos e respectivos Direitos Canonicais ; e outro, que «dizia só respeito ao seu Benefício», em que exigia que os Capelães «fossem obrigados a subsidiar o seu Cura no impedimento da doença». A causa correu no Juízo Eclesiástico durante dois anos demorando-a Luiz de Mello com um conjunto de «incidentes , após os quais foi avocada para a Cúria Metropolitana, para que esta fizesse juízo da primeira instância ex causa retardatae justitiae ». Deferida, em Braga, a causa a favor de Luiz de Mello, reacendeu-se de imediato «hum grande incêndio de discórdias na Cathedral» , nas palavras de D. Francisco de Lemos. Como se inovava uma causa já discutida e vendo o Cabido a desordem em que se entrava recorreu este para Sua Majestade para que fosse avocada a causa para a Secretaria de Estado, como veio a acontecer, por acção do Marquês de Pombal. Deste modo, pretendia o Cabido que se mantivesse a autoridade das sentenças anteriores, que Luiz de Mello queria anular; que se mantivessem os Direitos da Catedral; e que esta se conservasse em sossego. Avocada a causa, por Decreto Real, para a Secretaria de Estado, onde permaneceu por muito tempo, pareceu que Luiz de Mello ficaria «prezo para prosseguir na execução do projecto intentado». Por outro lado, via-se «restaurada a paz no Sanctuario; desterrada a discórdia da sua corporação; e os Officios Divinos restituidos á sua antiga ordem, e formosura». Todavia, o Meio Cónego, impossibilitado de seguir por este caminho, logo abriu outro, por onde pôde prosseguir os seus intentos. Não esperando pela «Resolução, e Providencias de Sua Magestade», na causa avocada, mudou de «acção»,de « Pessoas» e de « Juízo", movendo uma força aos Capelães, no juízo da Conservatória da Universidade, tratando agora exclusivamente do artigo que lhe dizia respeito, sem que deste modo iludisse o processo anterior. Nesta segunda causa, pretendia Luiz de Mello que os Capelães fossem obrigados «a subsidiar o Cura da See em todos os seus impedimentos» petitório que havia deduzido do primeiro Libelo. Resolvida a causa a favor dos Capelães, Luiz de Mello não desarma e recorre ao «Supprêmo ribunal da Supplicação».Nesta instância, por desconhecimento da fraude do Suplicante, uma vez que a causa estava entregue ao poder régio, foi decidida a questão a favor de Luiz de Mello com data de 18 de Janeiro de 1763. Entretanto, em todo o processo, Luiz de Mello sempre se denominou como Meio Cónego. Este Beneficiado, que ora estava em Coimbra, ora desaparecia da cidade,sem conhecimento do Bispo e do Cabido, «para effeito de poder ser contado como presente», logo que viu resolvida a causa a seu favor ali se apresentou de novo com a sua Sentença. Todavia, deixou de requerer a sua execução ao longo de vários meses. Foram os Capelães, apoiados pelo Cabido quem notificou Luiz de Mello para que exibisse em Juízo a Sentença, de modo a que, conhecendo o seu conteúdo, pudesse executar-se. Opôs-se o Meio Cónego, «tanto pelos seus Procuradores, como pela sua própria letra», respondendo que «não podia a isso ser obrigado, porque o Direito lhe dava o espaço de trinta annos», para que esta se executasse. Gerou-se novo litígio entre Luiz de Mello, os Capelães e o Cabido, exigindo os últimos a exibição da Sentença e recusando o primeiro a sua execução.Por fim, instado a que se lhe desse execução, declarou nos autos que «exhibia a Sentença». Porém, não só não a exibiu, como partiu para Lisboa, queixando-se a Sua Majestade de que «o Cabido lhe impedia a execução da Sentença, e não queria estar pela authoridade da causa julgada». Além disso, na petição que dirige ao Rei, passa a nomear-se Cónego Meio Prebendado, na esperança de que assim a decisão a tomar resolvesse a causa comum avocada à Secretaria de Estado, passando Luiz de Mello e seus companheiros não só a denominar-se com o título de Cónegos, mas a exigir, igualmente, os respectivos Direitos Canonicais. Certo é que o rei providencia para que a Sentença seja executada a favor de Luiz de Mello, mediante Decreto Régio, datado de 4 de Setembro de 1766, no qual, entre outros elementos, o denomina Cónego Meio Prebendado. Além disso, o rei censura a desobediência do Cabido, pelo facto de os Capelães não subsidiarem o Cura da Sé e de este ter sido multado nos dias em que esteve doente, exigindo que se proceda à devida liquidação dos direitos que lhe assistem. 
O Cabido, resignado, obedece à Carta Real e procura liquidar as multas bem como dispor a que os Capelães procedessem segundo a régia decisão.Todavia, na procuração do Cabido, em que se fazia «Termo deste ajuste» Luiz de Mello não era nomeado «Conego Meyo Prebendado», mas simplesmente «Meio Conego». Ora, não aceitando este que se lhe negasse o título que lhe havia dado Sua Majestade, «com summa industria gritou Luiz de Mello, que o Cabido desobedecia ao Decreto». Os Capitulares, aterrados, fizeram-lhe nova proposta, no sentido de se assinar nova procuração sem menção dos «Títulos dos seus respectivos Benefícios» .Todavia, Luiz de Mello não aceitou. O Cabido propõe fazer nova procuração, em que o nomearia Cónego Meio Prebendado, mas apenas em «reverencia ao Decreto». Resiste Luiz de Mello, exigindo ser tratado pelo Título que lhe havia dado Sua Majestade.
Percebendo o Cabido o intento de Luiz de Mello, que outro não era senão o de aceder aos direitos que advinham da denominação como Cónego, «não quizerão estar pela assignação pura e simples do dito Titulo», fazendo-se a liquidação na «forma do Decreto».
Luiz de Mello não desarma e faz petição ao Provedor para que mandasse vir à sua presença os Livros do Cabido, «não só os da Fazenda, mas do Governo Espiritual, e do mais expediente». Foram colocados os livros à sua disposição, para que averiguasse não só o que respeitava aos descontos feitos, mas igualmente o que se referia ao exercício dos últimos dez anos. Luiz de Mello, todavia, «com fingidos pretextos, e soffismas», não só embaraçava a liquidação, como de imediato começa a espalhar rumores de «haver nelles falsidades, e extravios de dinheiro». Efectivamente, achando nos livros «algumas aspas» e «huma folha cortada», pediu logo ao Provedor que mandasse fazer auto destes factos. Na verdade, não interessava a Luiz de Mello que se desse por terminada a questão, já que a sua pretensão, bem como dos seus companheiros, era a de passar do nome de Cónego para o sufruto dos direitos Canonicais, usando, portanto, deste expediente; uma vez que lhe estava vedado outro caminho pela causa avocada. Ora, neste sentido, nada lhe era mais conveniente do que «metter as cousas em confusão». Assim, «fazendo correr que havia falsidades nos livros, e extravios do dinheiro da Massa», principiou também, com os seus companheiros, a espalhar pela cidade de Coimbra que o Cabido «estava contumaz em desobedecer ao Decreto»; que o «seu governo era o mais desordenado que podia haver»; «que falsificava livros»; e que «extraviava dinheiros da Massa Commua».Mas de todas as queixas, sobressaía, particularmente, a de desobediência «formal» dos Capitulares, ao não quererem nomeá-lo como o fazia Sua Majestade. Certo é que o Cabido, no desejo de ver restabelecida a paz no seu interior, havia estabelecido com Luiz de Mello a liquidação de «seis mil e quinhentos cruzados», que fez entregar em Casa do Ministro Provedor, através de dois Capitulares procuradores, com a obrigação de «assignar o termo da ditta composição». Todavia, como na procuração não se dava a Luiz de Mello o nome de Cónego Meio Prebendado, este «não quis receber o importe da ditta composição», ficando o dinheiro depositado «em juízo», nas mãos do mesmo Procurador. Entretanto, neste contexto da denúncia de falsificação dos livros, propalada por Luiz de Mello, o Provedor Pascoal de Abranches Madeira, que desconhecia os objectivos deste Meio Cónego, «adopta os seus sentimentos» e dá conta ao Rei de que o Cabido era realmente «rebelde», «falsificador de livros», e «Administrador infiel», propondo que os Meios Prebendados e Tercenários tomassem parte no governo Capitular. Se, neste ponto do conflito, o Provedor Pascoal de Abranches Madeira tivesse agido com «justiça», «quietação» e «socego» - nas palavras de D.Francisco de Lemos –, tudo se dissiparia. Mas não: persuadido de que Luiz de Mello era Cónego; vendo a repugnância do Cabido em nomeá-lo com este título; aceitando como verdadeiras as «falsidades suppostas, de que fez Auto; decidiu não apenas dar conta do sucedido a Sua Majestade, mas igualmente propor-lhe «hum arbítrio para terminar as questões, e obviar as fraudes do Cabido». Sugere que Luiz de Mello se continue a chamar Cónego Meio Prebendado, que um dos Beneficiados fosse «perpétuo Secretário do Cabido», e que na administração do Cacifo e do Celeiro «concorressem simultaneamente com os Conegos Capitulares». Ora, nada servia melhor os intentos de Luiz de Mello, já que estes elementos eram os que constavam da causa avocada à Secretaria de Estado. Expedida a conta do Provedor, eis de novo Luiz de Mello a caminho de Lisboa, com procuração dos seus companheiros, naturalmente interessados na causa, pois que ela entrevia o fácil acesso aos direitos Canonicais. À «contado Provedor» acrescentava Luiz de Mello queixas de «grande miséria», a que o Cabido o havia «reduzido», concluindo «todo este arrazoado, com lágrimas,para extorquir dos ouvintes a compaixão. A questão esteve sem ser decidida alguns anos, permanecendo Luiz de Mello em Lisboa, «para onde hia, sem dizer nada ao Cabido, continuar as mesmas lamentações de vexação, e de miséria» .Entretanto, em 1775, o Rei decide a causa, dando razão, uma vez mais, a Luiz de Mello, por Decreto Real datado de 23 de Setembro desse mesmo, ano.No Decreto, não eram simpáticas para com o Cabido as palavras e a atitude do monarca: se considerava os Capitulares, por um lado, temerários, obstinados e desobedientes no cumprimento das sentenças régia; por outro, exigiu ao Provedor da Comarca de Coimbra que, logo que recebesse o seu Decreto, intimasse o Deão António Xavier de Brito, o Cónego Nuno Pereira Coutinho e o Cónego mais antigo da Catedral e os desterrasse para uma distância de trinta léguas de Coimbra, sem que pudessem ficar a menos de vinte léguas uns dos outros. O Decreto Real, que fazia eco das queixas de Luiz de Mello e do Provedor, nomeadamente a falsificação dos Livros do Cabido, determinava, como elemento essencial, que se fizesse integral restituição ao «Espoliado» - as multas pretéritas na quantia de seis mil, e quinhentos cruzados» –; bem como se efectuasse o pagamento apenas com recurso à «Massa dos Capitulares vogais» e não da que pertencia ao conjunto dos Beneficiados da Sé, uma vez que – alegava-se ali – «os Conegos Meyos Prebendados, e Tercenarios, não tiverão culpa» alguma. Além destas determinações, estipulava ainda que de entre os «Conegos Meyos Prebendados» se fizesse a eleição de um para «Secretario do Cabido» e que concorressem sempre hum «Conego Prebendado, e outro Meyo Prebendado» para os ofícios de Cacifeiro e de Celeireiro. Mas de todas as decisões régias, aquela que mais servia os interesses de Luiz de Mello e seus companheiros era a denominação de Cónegos Meyos Prebendados, que o monarca assumia como legítimo nome destes Beneficiados. Efectivamente, declara em relação ao Suplicante: «E na questão do nome, se fique o Restituído denominando Conego Meyo Prebendado, como athé agora se denominou, pondo-se nesta questão hum perpetuo silencio» Dirigido o Decreto ao Provedor da Comarca de Coimbra, a quem chegou em Outubro de 1775, Luiz de Mello não tardou em regressar a esta cidade sendo recebido no meio de «acclamações, e vivas dos seus sequazes» . A Sentença foi logo executada, quer no que respeitava «ás perdas, damnos e multas», quer na denominação de Cónego Meio Prebendado dada a Luiz de Mello.
Por outro lado, três dos seus colegas foram investidos nos ofícios de Secretário, Cacifeiro e Celeireiro. (...) Mas Luiz de Mello, por outro lado, «trabalha por confundilla», elaborando agora um «extensíssimo Memorial», no qual «elle empenhou todas as suas forças, e com o qual a ppareceo terceira vez na presença de Sua Magestade»(...) Mas Luiz de Mello não desarma e assume já novas atitudes: enquanto decorrem as averiguações decorrentes dos processos, procura agora perturbar a disciplina da Catedral. É neste contexto que D. Francisco de Lemos, então Bispo Coadjutor de Coimbra, decide fazer a exposição da sua «Conta» ao Marquês de Pombal, com o objectivo de que enquanto não se decidisse qual era a intenção do rei no seu Decreto, «se conservasse tudo na ordem em que estava até ali», já que os Meios Cónegos tentavam, por todas as vias, apoderar-se dos direitos Canonicais, que reclamavam nos «Papeis, e Memoriaes». É precisamente na sequência destas atitudes que D. Francisco de Lemos justifica a sua exposição ao Marquês, desabafando: «depois de terem exaurido toda a minha paciência por mais de hum anno, ultimamente me vi precisado a fallar nellas a V. Excellencia para lhes dar o opportuno remedio» .Se é verdade que a Catedral viveu momentos conturbados durante todo o século XVII, particularmente após 1615, como referimos atrás, agudizados ao longo do século XVIII, nada se compara aos tumultos que opuseram Beneficiados e Capitulares no ano de 1775, ano em que a paz se «rompeo de todo». Não é de estranhar, portanto, que D. Francisco de Lemos denomine este período como aquele em que se vive um «scisma aberto na Cathedral»  (...)Sugestiva é a atitude de Luiz deMello, numa altura em que presidia ao Coro o Cónego João Leite Cabral Tavares. Tendo este Capitular mandado a um beneficiado que suprisse a falta de um hebdomadário, e tendo ele recusado, replicando-lhe «que o fizesseelle», foi multado por desobediência. Luiz de Mello, que estava no Coro, vem em defesa do beneficiado, disputando ao presidente o direito de multar. Ora, o Cónego João Leite, vendo tamanha desobediência em Luiz de Mello, multa-o também. Mas este não se conteve e declara « que também o multava»(...) Curiosamente, com a sua habilidade jurídica, tal foi o que Luiz de Mello conseguiu para si, com os Decretos Reais resolvidos a seu favor.Não admira, portanto, que, perante tal abuso e injustiça, D. Francisco de Lemos interpele, na sua missiva, o Marquês de Pombal sobre tamanha violação «á Disciplina da Igreja» e à própria obrigação de providenciar à cura da Sé. E de tal modo se adensava esta perturbação, que o próprio Prelado chegou a pôr a hipótese, caso se mantivesse esta desordem, de rever o estatuto dos Capelães.De resto, ele mesmo afirma que, após as sentenças proferidas, a atitude de Luiz de Mello não só vai aterrando os Capelães, agravando as suas obrigações, como vai «ampliando os Direitos dos Curas». Na verdade, com as exigências de Luiz de Mello, os Capelães deixavam o ofício de aumentar em as vozes no Coro e as missas dos Legados, para coadjuvarem o cura da Sé, nas suas obrigações paroquiais.Ora, tal exigiria essa revisão do estatuto, uma vez que se alteravam, na substância, as suas obrigações.Podemos concluir que o «apetite que tem os Beneficiados de serem Conegos» – na expressão de D. Francisco de Lemos – suscitou ao longo de mais de quatro séculos vários conflitos na Sé Catedral de Coimbra.Todavia ,nenhum período foi tão conturbado como este em que Luiz de Mello, provido na Cura da Sé e, consequentemente, numa Meia Conezia, se assumiu como principal cabeça de motim, tornando-se ele mesmo advogado desta causa, que se estende praticamente a todos os Beneficiados. Estava em causa um interesse preciso. As demandas ganham proporção na justa medida em que as decisões régias – como vimos – favorecem os Beneficiados. Em tal circunstância, atinge-se um ponto tal de ruptura que não era mais viável prolongar o conflito. Ele necessitava de uma outra intervenção do poder régio para que a paz se restabelecesse em definitivo na Catedral. É para aí que aponta D. Francisco de Lemos, na sua Conta dirigida ao Marquês de Pombal, justificando assim a sua intervenção: «Á vista de tudo, V. Excellencia dará as Providencias, que lhe parecerem convenientes para parar o curso de tantas,tão continuadas, e tão antigas desordens» .Efectivamente, as contendas viriam a resolver-se a favor do Cabido. Mas não já no tempo do Marquês. Seria D. Maria I, entretanto aclamada Rainha quem viria a restabelecer a ordem na Catedral, dando o seu beneplácito à Bula Papal que reviu o Estatuto dos beneficiários da Sé.Os Meios Cónegos, para justificarem a sua pretensa condição Canonical,começam por referir que o Provedor Pascoal Abranches Madeira defendeu, na representação que fez a Sua Majestade, que o Meio Prebendado Luiz de Mello se devia chamar Cónego, uma vez que, no Decreto Régio, «o mesmo Senhor [assim] o denominava». Todavia, a questão de Luiz de Mello é uma espécie de trampolim para o reconhecimento de todos os Meios Cónegos como pertencentes, de pleno direito, ao corpo Capitular. Aliás, referem mesmo que Sua Majestade os reconheceu como tal, ao decretar que não só Luiz de Mellose chamasse Cónego, mas também todos os outros.E, num tom de apologia, dizem que esta foi uma sábia decisão, depois de terem sido envolvidos em toda a questão não só as «Partes», mas também «o mayor Tribunal do Reino». Tão pouco o facto de o rei ter denominado, no Decreto, os demais Cónegos como «vogais» implicaria qualquer forma de diferenciação.Tal expressão advém da exclusiva necessidade de diferenciar quem devia, ou não, suportar as despesas com o pagamento das demandas em curso, particularmente a Luiz de Mello, o Meio Cónego Luiz de Mello, nos petitórios que dirige a Sua Majestade, abandona este nome e passa a denominar-se Cónego Meio Prebendado, «tomando porauthoridade própria aquele Titulo». Deste modo, manifesta o seu espírito contraditório, porquanto se queixa da desobediência do Cabido, na presença do rei, e toma para si um nome por livre iniciativa, contra as leis da Catedral, «que participão da Protecção de Sua Magestade».Ora, Luiz de Mello obteve esta denominação com base na sua mentira, pois que não seria presumível que algum vassalo se apresentasse na presença do rei com qualquer título que lhe não pertencesse, o que este Meio Cónego veio a fazer «com muita meditação» .
(...) O Cura da Sé, agora confiada a Luiz de Mello,o Cabido E he certo, que esta Freguezia está ainda hoje unida a huma Meia Prebenda, de que he Titular o Meio Prebendado Luiz de Mello». Sendo o objectivo singular dos Meios Cónegos e Tercenários o de ascender ao Canonicato e que desde cedo perturbou a corporação Capitular de Coimbra, certo é que tal desiderato, na segunda metade de setecentos, ganhou um fôlego nunca visto na sua intensidade e durabilidade, o que provocou um desassossego ímpar na história da Catedral – e mesmo da cidade –, pela subversão que operou na ordem e disciplina que organizava a vida de tal instituição da igreja Coimbrã. Tão pouco as demais Catedrais do Reino, que registaram conflitos internos de natureza similar, se confrontaram com processos de litigância de dimensão equivalente. Para tanto contribuiu a personalidade ímpar e determinada de Luiz de Mello, por certo caracterizada por uma maneira de ser exaltada e buliçosa, que D. Francisco de Lemos evidencia ao afirmar que se trata de um «animo naturalmente intrépido, para logo o considerar como o «Sacerdote mais miserável, que tem o Bispado». De facto, considerado o quadro mental, político e religioso que viemos a definir, a verdade é que o conflito não teria assumido as proporções que atingiu senão pela conjugação de tais factores com a personalidade deste Meio Cónego. Efectivamente, devem-se à sua intrepidez argumentativa os meandros que as diversas demandas vieram a percorrer. Também, neste sentido, podemos considerar, uma vez mais, as palavras de D. Francisco de Lemos ao referir que Luiz de Mello é «poderoso na Arte do Foro, e cheio de infinitos recursos», com o intuito de alongar as demandas e "confundir os Direitos mais certos». Certo é que este Meio Cónego, dotado de uma clara inteligência, de força de ânimo e possuindo um vasto conhecimento do direito eclesiástico e da prática jurídica da época, denota, de facto, uma profunda capacidade argumentativa, sabendo aproveitar a seu favor as minúcias processuais, o que lhe permite alcançar aquilo que reclama. A título de exemplo, constatamo-lo na questão dos Capelães e, muito especialmente, na particularidade da atribuição, que lhe é feita, do título de Cónego Meio Prebendado – sendo ele a denominar-se assim, vê legitimada pela autoridade régia a sua pretensão, partindo daí para a reivindicação da plena condição Canonical.
Luiz de Mello foi o grande protagonista de todas estas contendas que opõem os Meios Cónegos e Tercenários ao Cabido da Sé de Coimbra. Não apenas porque a sua casa foi o espaço de «assembleias diurnas, e nocturnas, em que se trata da ruína dos Capitulares", na expressão de D. Francisco de Lemos; mas sim, particularmente, porque foi o próprio Luiz de Mello quem tratou de formar o «façanhoso projecto de arruinar a differença das Ordens da Jerarquia da Cathedral»Ele, homem «dotado de um animo naturalmente intrépido, poderoso na arte do Foro, e cheio de infinitos recursos, que ella tem inventado para confundir os Direitos mais certos, e alongar as Demandas»na expressão do mesmo PreladoEfectivamente, foi ele a «Cabeça» de todos os Beneficiados no desenvolvimento do conflito. Foi-o em Coimbra, onde reiniciou as demandas; e em Lisboa, onde se manteve por períodos diversos, e por vezes bem longo, como verdadeiro embaixador da causa dos Beneficiados, ocupando-se a fazer «papeis para as causas», e sob o auxílio dos seus companheiros, que em Coimbra lhe «fazião os gastos» de modo a que não fosse multado. Ainda que não isolado, pois que no desenvolvimento do conflito D. Francisco de Lemos se refere sempre à acção de Luiz de Mello e seus Companheiros, foi verdadeiramente o promotor e o rosto da grande perturbação que se prolongaria na Sé Catedral de Coimbra por mais de duas décadas.Em todo este processo não é de estranhar, contudo, que Luiz de Mello tenha contado com o apoio de algumas personalidades influentes. Ainda que as não conheçamos na totalidade, e tão pouco a natureza de algumas das suas possíveis intervenções, não podemos deixar de considerar a proximidade familiar deste Meio Cónego com o grande jurisconsulto Pascoal de Mello Freire, de quem é irmão. Isso não significa obrigatoriamente, é certo, qualquer participação directa deste grande legista no processo conflitual; todavia, estranhar-se-ia que Luiz de Mello o não tivesse consultado a propósito das demandas em que estava empenhado. A verdade é que Luís de Mello soube usar, no desenvolvimento do processo litigioso, a sua capacidade mobilizadora: iniciando as demandas com os Cónegos a partir de uma questão pessoal – a questão dos Capelães – rapidamente as abriu ao interesse colectivo, congregando as vontades e intervenção decidida de seus pares. Mas entendamos, todavia, que esta ordem de Beneficiados da Sé Catedral de Coimbra – Meios Cónegos e Tercenários – não agiu apenas por simpatia para com o Meio Prebendado Luiz de Mello. O seu interesse ia mais fundo. Mediante a acção deste «cabeça» de motim abria-se, como se compreendeu já, a possibilidade de ascender a uma nova posição hierárquica.E, neste sentido, de aceder a uma organização que proporcionava um claro desafogo económico aliado a um novo estatuto social Luiz de Mello, contudo, independentemente do modo como acedeu à hierarquia Catedralícia, encetou um percurso de auto afirmação que nos parece assentar num alto conceito que faz de si próprio. Realidade que nos permite compreender a forma como afrontou o Cabido da Catedral de Coimbra. Podemos concluir, portanto, que quer um quer outro destes Meios Prebendados reconheciam a existência de um profundo poder simbólico inerente à condição Capitular, que se transforma em força motivadora para lutarem pela posse do título de Cónego. Em certo sentido – reafirmemo-lo –essa titularidade constituía-se, no contexto do Antigo Regime, como cume de um percurso de valorização pessoal que se trilhou, ou como reconhecimento de um poder preexistente que, como dissemos, interessava agora complementar.

O título da publicação do Engº Miguel Portela, remete a equívoco

“ As casas do cónego Luiz de Mello na vila de Ansião em 1769”

O autor desconhecia o sítio do solar de Pascoal , apresentou este postal , mostra à direita um solar do início do séc. XX,  de um recém chegado do Brasil. 

Em 1758  Luiz de Mello era meio-cónego no bispado de Coimbra, onde foi «a Cabeça de todos os Beneficiários nos conflitos para subirem na hierarquia»,  « este Beneficiado, unido a seus Companheiros, produz em juízo «hum extenso, e infadonho Libello contra o Cabido», em que formulava oito pedidos, que podem agrupar-se em dois fundamentais: um «commum com os mais Beneficiados», pretendendo o titulo de Cónegos e respetivos Direitos Canonicais ; e outro, que «dizia só respeito ao seu Benefício», em que exigia que os Capelães «fossem obrigados a subsidiar o seu Cura no impedimento da doença». «dotado de um animo naturalmente intrépido, poderoso na arte do Foro, e cheio de infinitos recursos, que tem inventado para confundir os Direitos mais certos, e alongar as Demandas». Indo a Lisboa, onde se manteve por períodos diversos, e por vezes bem longos, como verdadeiro embaixador dos Beneficiados, ocupando-se a fazer «papeis para as causas», e sob o auxílio dos seus companheiros, que em Coimbra lhe «fazião os gastos», de modo a que não fosse multado.» Não há qualquer dúvida que  a  encomenda foi de Pascoal, jurisconsulto abonado que instruiu o irmão, pelo facilitismo de  este viver em Coimbra, na sua deslocação a Ansião, para comandar a obra, em ação concertada de interajuda e amparo à família, ao «Pay já velho, a três irmãs e alguns irmãos»cunhados e sobrinhos, os 10 familiares, que coabitavam a companhia de Pascoal, e deles dizia serem criados...Luís de Mello serviu-se da notável complacência de ajuda mutua, amparo, e cobrança de favores, já que acolhera  Pascoal, em Coimbra, e agora na sua deslocação a Lisboa, e através dele receber influência junto do rei, do familiar Marquês de Pombal. Como do irmão, assertivo discurso de retórica, à luz de advogado que usou e bem na sua defesa  e dos Beneficiários, saindo na odisseia vitorioso!  Não nega, nem esconde a sua ascendência judaica, defensor dos seus direitos, lutador, inveterado por justiça!

Acerca do património  familiar, de Luiz de Mello ; " as indicações são contraditórias: se por um lado nos é referido n que os seus pais eram «abondantes de Bens», o que lhe permitia candidatar-se a Ordens Sacras, formado em Cânones,  podendo usufruir do património necessário, sem prejuízo de terceiros; por outro, a indicação é a de que provém de uma família de parcos recursos, chegando mesmo a afirmar-se que era «muito pobre» e teve mesmo a seu encargo o sustento de seu «Pay já velho, a três irmãs e alguns irmãos». Apesar de Pascoal denotar vergonha de coabitar com a família, que dizia serem criados, o eleva à  dúbia conduta, em mente brilhante, como não  sem exarou memórias da sua família, momentos da sua infância, das vivências , tão pouco outros filhos saídos de Ansião, para estudos em Coimbra, até ao séc. XIX. No entanto, pasme-se, o único que teimou voltar à sua terra de Ansião, debalde a morte precoce aos sessenta anos em Lisboa, não lhe permitiu ver o seu sonho finalizado, tão pouco, sem nenhum dos seus herdeiros a valorizá-lo, eis que acabou vendido em ruína,  hoje na  posse de dois donatários. Verossímil , reafirmado pelo sobrinho aquando da venda  da ruina inacabada, a José Luís de Macedo  . Portanto não basta fazer transcrição documental, é preciso conhecer os locais e as gentes, para melhor situar o que os documentos não descriminam na totalidade, na verdade nem  tudo o que aparece escrito se deva seguir como certo, como neste caso é  plausível.

Arrematação das casas (...) "Ficou arrolado neste contrato que em 28 de setembro de 1769 o cónego Luís de Melo havia arrematado ao mestre canteiro José da Maia a empreitada de alvenaria dessas casas pela quantia de 135.800 réis e que “ficara por seu fiador e principal pagador o referido António Jozé que fizera hum escrito particular e hums apontamentos assinados por eles, e testemunhas, e que retificava o dito escrito e apontamentos, e fiança de fiador e principal pagador na forma que em si declaram como se tudo foçe copiado nesta escritura; ” De idêntica forma, assegurou também o citado mestre canteiro “ que agora novamente tinha tomado da mam do referido Reverendo Cónego toda a mais obra de cantaria, e alvenaria das ditas cazas na forma que sede clara em outros segundo os ditos apon-tamentos que se acham feitos”, apresentando como fiadores os mestres canteiros António José e António Martins .Para o cumprimento desta empreitada, foram contratados três dos mais relevantes mestres canteiros de Coimbra, revelador de que o cónego Luís de Melo procurou a garantia de um trabalho de excelência e qualidade, prova do seu estatuto e condição social nas sociedades conimbrcense e ansianense."

DOCUMENTO 2

1769, novembro, 1, Coimbra – Escritura de contrato e obrigação da obra de cantaria da frontaria de umas casas na vila de Ansião entre o reverendo cónego Luís de Melo da cidade de Coimbra e os mestres canteiros José da Maia, António Martins e António José.Arquivo da Universidade de Coimbra, Cartório Notarial de Coimbra, Livro de Notas n.º 30 [1768-1770], do notário Manuel Francisco dos Santos, Dep. V-1ªE-8-5-87, fls. 130v-131.Fora 1.Obrigaçam que fas Jozé da Maya da Ribeira de Cozelhas,ao Reverendo Cónego Luis de Mello desta cidade.Saibam quantos este publico instromento de obrigaçam,fiança e aseitação como em Direito milhor dizer se possa e mais firme e valiozo for virem que sendo no anno do Nassimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil setecentos sesenta e nove, ao primeiro dia do mes de novembro dodito anno nesta cidade de Coimbra e moradas do Reverendo Luis de Mello, Cónego na Sé desta cidade, onde eu Tabaliam vim por vertude da Destrebuhiçam do thior seguinte: Por outra A. Santos = Obrigaçam que fas Jozé daMaya da Ribeira de Cozelhas, ao Reverendo Luis de Mello desta cidade, em vinte e nove de outubro de mil setecentos sesenta e nove, destrebuhida no Livro a folhas duzentas outenta e huma verço = De Jezus = E não dezia mais a dita Destrebuhiçam. Ahi se achava prezente o dito Reverendo Cónego Luis de Mello pessoa que reconhesso e bem assim se achavam também Jozé da Maya, Mestre Canteiro, e António Martins, ambos da Ribeira de Cozelhas e António Jozé de Val de Linhares todos Mestres Canteiros, pessoas reconhesidas das testemunhas ao diante nomeadas, e asindas, as quais eu Tabaliam reconhesso que me sertificaramserem os próprios aqui contheudos de que dou fé, e logo pelo dito Jozé da Maya me foi dito prezentes as mesmas testemunhas, que elle em vinte e outo de setembro próxim opassado do prezente anno tomara ao dito Reverendo Cónego a obra de cantaria da frontaria de humas cazas que o mesmo pretende fazer na vila de Anciam de que ficara por seu fiador e principal pagador o referido António Jozé que fizera hum escrito particular e hums apontamentos assinados por eles, e testemunhas, e que retificava o dito escrito e apontamentos, e fiança de fiador e principal pagador na forma que em si declaram como se tudo foçe copiado nesta escritura para ficarem valendo por ella; e dice mais elle dito Jozé da Maya que agora novamente tinha tomado da mamdo referido Reverendo Cónego toda a mais obra de canta-ria, e alvenaria das ditas cazas na forma que se declara e moutros segundo os ditos apontamentos que se acham feitos,e portanto dise, que a todo o contheudo dos ditos apontamentos se obrigava por sua pessoa e bens, e os avia por repetidos nesta escritura como se nela fossem tresladados,e huns e outros ficam sendo por tudo desta escritura, e coma mesma fé, para o que os primeiros apontamentos sendo asinados por eles, e no escrito particular que os comfirmou,e pelas testemunhas que no dito dia vinte e outo de setembro estiveram prezentes e os segundos apontamentos de toda a mais obra vem tambem asinados por mim Tabaliam com o meu sinal razo, e pelas testemunhas que sam desta escritura, e os // [fl. 131] E os riscos da obra vam também asinados por mim Tabaliam por onde se ham de regular, e diseram elles ditos António Jozé e António Martins que eles ficavam por fiadores e principais pagadores do referido Jozéda Maya a fazer outra declarada em ambos os ditos apontamentos dentro do tempo neles declarado e toda a falta,perda e damno, pois o dito Jozé da Maya se obrigava como se obriga a deste instromento dar feita e perfeita a dita obra no tempo ajustado nos ditos apontamentos, e que faltando a isso poderia elle dito Reverendo Cónigo meter Offeciais á sua custas, e executado por via somaria pelo que gastar que logo se dirá, e averá por liando digo e averá por liquido por declaraçam de dois dos ditos Offeciais feita nas custas desta escretura para logo por ela se thé a tiverem os desdias da Ley asim pela quantia declarada como pela perdae damno que também declararem os ditos dois Offeciais ou seja pela mora ou também pela emperfeiçam e defeito da obra contra os riscos, e apontamentos della e sendo por emperfeita na forma deles, elle dito Reverendo Cónego lhe pagará os cento e trinta e sinco mil e outocentos reis dos primeiros apontamentos, e os duzentos e sesenta e dois mil e quatrocentos reis dos segundos, e o mais que no numero quinto dos segundos apontamentos se declara, se elle dito Jozé da Maya o fizer, e do dinheiro que já lhe tem dado à conta como consta dos primeiros apontamentos valerá a quitaçam neles como escritura, e nos mesmos airá passando do mais que lhe for dando de que já resebeu sincoenta e sinco mil e outocentos reis como nos ditos primeiros apontamentos se declara, e não reseberá mais dinheiro senão a porpoçam do que valer a obra que tiver feita, e de tudo eles ditos António Jozé, e António Martins na forma dita diceram ficavam por fiadores e se obrigavam também como principais devedores, e pagadores e todos por suas pessoas e bens prezentes e futuros; e por ele ReverendoCónego me foi dito prezente as mesmas testemunhas queelle aseitava o prezente contracto na forma que se acha es-tipulado em fé e testemunho de verdade asim o outorgarame rogaram a mim Tabaliam lhe fizesse este instromento neste meu Livro de Notas em que asinaram de que pedira me comsederam hum deste thior e os mais que deste comprirem que aseitaram, e eu Tabaliam como pessoa publica por quem tocar auzente sendo testemunhas prezentes António Rodrigues Moreira, Aferidor e morador nesta cidaden a Rua da Moeda, e Felipe de Albuquerque, Sarralheiro morador na mesma, na Rua dos Sapateiros, e todos aqui asinaram depois que este lhe foi lido por mim Manoel Francisco dos Santos, Tabaliam o escrevy. Declaro que este instromento foi asinado em meu escritório sobredito o fis.(a) Luiz de Mello(a) Jozé da Maya(a) António Jozé(a) António Martins(a) Felipe de Albuquerque(a) António Rodriguez Moreira

O solar Pascoal de Melo Freire dos Reis aos dias d'hoje

Solar imponente de fachada, foram alteradas no r/c três janelas  por duas portas ficando apenas uma janela. Mantém a escadaria em meia lua em pedra da porta principal para o r/c e  escadaria lindíssima debruada a pedra que termina no sobrado em arcos. Abre-se o salão com portas e banquinhos namoradeiros, corrido a varandim de ferro forjado. No tardoz varanda de pedra em cantaria, arte lavrante do séc. XVII, jus à da quinta das Lagoas  restaurada em finais de 800 e de outras no concelho, sem estudo nem catalogação. 
A parte norte do solar pertence ao Clube dos Caçadores, foi objeto de obras ao abrigo de um Fundo comunitário. A   parte sul pertence a herdeiros do Sr. Mouco .
Há que fazer alguma coisa, se por um lado há proprietários que valorizarem em demasia o seu património, debalde, sem capacidade financeira para a sua reabilitação,  seja mote de acordo  para nascer o desejado   Museu Municipal de Ansião. Num esforço, de unir o solar como foi proposta no passado, ao prestigiar a nossa história tão esquecida. À laia de Santiago da Guarda, o consenso indemnizatório. Há que tomar decisões, sendo certo que muitos avaliam o seu património levianamente em milhões, herança de muitos, sem capacidade financeira para a sua reabilitação, cuja saída será apenas a venda para o manter dignamente consolidado. Na minha opinião, no meu direito de cidadania, com o devido respeito aos envolvidos. Visionário seja aquele que neste solar faça nascer o que tarda na área cultural de um Museu Municipal de Ansião!
Pode albergar no pátio a norte ou a nascente,  um elevador panorâmico para não estragar a escadaria.
O pelouro da Cultura deve proceder à alteração da toponímia  para o nome completo do visado, assim como  na Escola C+S, para finalmente os seus descendentes que vivem em Ansião se identifiquem  ao seu ilustre ansianense!
Da mesma forma que as escolas do concelho devem fomentar a  sua história .

Fachada sul propriedade dos herdeiros do Sr. "Freire Mouco"

Recordo no r/c  de uma loja de ferro velho de um homem da Gramatinha, se não me falha a memória.


 Tardoz  mostra a parte restaurada com a varanda e a parte por restaurar

Varanda em grade simétrica de pedra

Argola de ferro para prender as bestas e um pial de pedra na quina que não sei a serventia

Imponente a alta chaminé no tardoz

A definhar a cada dia 

Fontes:
Arquivo Distrital de Leiria, Livro de Batismos de Ansião, Dep. IV-28-A-39, assento n.º 3, fl. 661718, Registo de batismo do cónego Luís de Melo
Livro de Noticias e Memórias Paroquiais Setecentistas de Mário Rui Simões Rodrigues e Saul António Gomes
Ansianenses Ilustres do Dr Manuel Augusto Dias
Cadernos e Estudos Leirienses nº 9
Dr Vítor Faveiro
https://geneall.net/pt/forum/59276/pascoal-de-melo-ascendencia/
Tese de Mestrado
 https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fonte Santa na arriba da Azinhaga dos Formosinhos

Metro até á ultima paragem da Universidade do Monte de Caparica, seguindo pela rua para norte na antiga rota da procissão ad Fonte Santa para Murfacém.

                                             
Vistas sobre Lisboa e o Tejo


Na direita miradouro pertença da Universidade, aberto ao publico.

O painel azulejar gasto pela erosão da chuva e do vento

Moinho que se avista defronte na Azinhaga  dos Formosinhos

                   

Azinhaga da Fonte Santa

Casario típico da Fonte Santa
A fonte de 1815


Acabou o passeio com um aviso dos bombeiros que não podíamos passar, quando os carros passavam uns a seguir aos outros. Óbvio  tínhamos autorização do agente  da Psp  que estava na entrada. Desfasamento de poderes na proteção civil...


Tivemos de vir para tras,  havemos mais tarde de voltar

Seguimos para nascente pela Granja

 Onde apanhamos o Metro. 

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