quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Batalha La Lys celebra 96 anos

Batalha de La Lys travada entre 9 e 29 de abril de 1918 no vale da ribeira da La Lys na região da Flandres na Bélgica, este ano vai fazer 96 anos. Desconheço os soldados que do concelho de Ansião participaram, embora há poucos anos tenha sido desterrada uma escultura na frente do Complexo Monumental de Santiago da Guarda em mármore de um Professor e seus alunos, em blocos , pesada, austera, brutal, cujas inscrições com os líquenes e a agrura do tempo não permitem a sua leitura...
Em pequena ouvia falar do "Calais" que o povo pronunciava "Calaias" no linguarejar de gente analfabeta dando conta que teria sido um soldado raso nessa 1ª Grande Guerra no norte de França de onde regressou "avariado das ideias"com a cabeça cheia de traumas...
A verdade sobre qualquer assunto deve ser sempre apurada, sobretudo nestas questões do passado atendendo à época o povo de fraco nível cultural quando interrogado nem sempre fala do ponto de vista objectivo e realista, com isso supostos equívocos e incorrectas informações, não foi concretamente o que veio a acontecer quando solicitei informação a uma amiga sua familiar num encontro no Programa Preço Certo em Lisboa a convite de outra comum amiga , antes pelo contrário a Elisabete se mostra bastante culta, e de partilha, na verdade tenha sido a falha minha por já ter ideia formada que tinha sido soldado, quando na verdade não o foi . E ainda por ter dele conhecimento na mesma década de 60 com alguns militares regressados do Ultramar de cabeça e atitudes tresloucadas sendo fácil fazer a colagem de um  nos demais e assim ter caído no erro de transmitir a informação e ainda de não ter conduzido a investigação em pormenor,  disso me lamento francamente!
Porque a verdade tem que vir ao de cima, no dever de pedir desculpas aos leitores sobre o teor da minha crónica Batalha La Lys elaborada em 2014 com informações incorrectas sobre o Calais, por deficiente pesquisa de testemunho. Graças ao ter republicado a crónica na passagem dos 100 anos neste mês de abril onde me granjearam com comentários que ajudaram a discernir as irregularidades, entretanto já alteradas.
Quem conheceu bem o Calais recorda-o muito transtornado com medos provocados por tudo o que vivenciou durante a caminhada solitária, a fome e o frio, sem contudo perder o sentido de orientação chega a Calais , sem saber se aconteceu antes ou depois de abril , a data da maldita  linha de combate em trincheiras quase inexistentes onde pelo menos 400 homens padeceram para sempre em terras de França. Ao não ter sido recrutado teve melhor sorte,  salvou-se, apenas foi feito prisioneiro e devolvido até à fronteira com o recado " se tentasse voltar a França , ser-lhe -ia cortado o pescoço"...
Chegado à terra onde não se conseguiu reintegrar de novo ao ambiente da vida de casa, tão pouco a conviver com os familiares fruto dos medos que sentia, nunca mais quis morar nas Louriceiras  e de cariz solitário decide procurar refúgio ermita longe de tudo e de todos nas grutas onde teriam vivido segundo rezam as lendas, as moiras aos Poios, na frente do Nabão, sitas na antiga estrada de ligação de Ansião ao Marquinho. Quem o via diz que subia por uns altos paus em jeito de escada, até levava um cântaro com água da ribeira às costas para dentro da gruta, onde se acoitava, e fazia fogueira e molhos de lenha. Hoje a altura do penhasco dá a errada sensação de ser mais alta porque desterroaram bastante o morro no sopé da escarpa. Na costa do serrado da Mata da Mulher onde as grutas se localizam na arriba abrupta, não deixa
de ser curioso o nome , talvez influência da lenda das moiras, onde a Ti Eufrofina do Carvalhal que conheci, carinhosamente tratada por “Porfina” pelos cachopos, ao andar a pastorear o gado nesta sua propriedade, dizia que via o "Calais" na borda da ribeira, espiador,  ao sol...
Aos buracos da escarpa alta ainda hoje se chama o Buraco do Calaias , a sua alcunha deturpada pelo linguarejar que muita gente assim o pronuncia, até eu até perceber a razão desta alcunha do soldado que não foi mas com o medo da guerra virou mendigo e cheguei a conhecer velhinho.  
Dele se falava que falava umas palavras de francês...
    Vinha ao Nabão buscar água da ribeira ou de algum poço se fosse verão...

O buraco da gruta
Porque razão se assumiu com a alcunha de Calais, quando na verdade se chamava Manuel Teixeira? Possivelmente a alcunha foi ganha  da terra onde foi feito prisioneiro e se sentiu herói!
Ao que parece segundo a Elisabete assim passou a assinar o seu nome - Manuel Calais.

Testemunhos do Sr Padre Manuel Ventura Pinho em 2018
"Conheci um homem na minha aldeia que esteve nessa batalha. Mas veio e fez uma vida quase normal .Ouviu-o algumas vezes contar coisas macabras que aconteceram nessas horas. Mas dizia: "o que me valeu foi a minha fé, se não dava em doido!"
" Já conversei várias vezes com pessoas que conheceram esse Calaias e diziam-me que era uma dó como ele vivia, com medo de tudo e de todos.
O atual sacristão, Sr. João Dias, que era dos Nogueiros, diz que o viu algumas vezes a vir das Louriceiras onde ia buscar mantimentos que lhe eram dados pelos pais e, depois dos pais morrerem, pelos familiares. E diz que ele queria mesmo pagar a renda aos donos da propriedade onde estavam as grutas que ele usava. Os proprietários eram os pais da Professora Olívia e irmão Armando da Piedade Mendes.
Ele pensa também que ele foi apurado para a guerra contra os alemães e teria estado na França e eventualmente na batalha de La Lys, perto de Calais, mas pode estar enganado. O que sei é que muitos morreram nessa batalha e muitos outros vieram em muito más condições psíquicas, até porque o governo da altura se desleixou no apoio aos sobreviventes. Mas a D Maria Elisabtre pode ter razão, pois os pais devem-no ter conhecido bem.
Testemunho da Maria Elisabete em 2018
"Conheci o Calaias, aparentado materno.Visitava a casa dos meus pais tratava a minha mãe por senhora prima que lhe deu um cântaro feito de barro,tinha partido o dele ao subir pelos grossos paus de pinho que lhe serviam de escada para a sua "gruta". Portador de doença psicológica,não foi apurado para servir o rei,viu partir os amigos para a guerra de França,desapontado com isso decidiu ir também , e foi a pé até ser interceptado em Calais, e devolvido até à fronteira,sendo-lhe dito que se tentasse voltar a França ,ser-lhe -ia cortado o pescoço,e assim voltou a pé para as Louriceiras de Santo António onde fora nado e criado,chorava ao contar esta sua pena por não ter servido o seu REI... 
Testemunho de Isidro Freire Leal em 2018
" Ouvi algumas vezes os seus guinchos lançados das fragas do Marquinho. Não era nada agradável ouvi-lo!"
Testemunho do Artur Mendes
"A sua mãe que era do Caniço o viu muita vez com um molho de lenha ás costas para levar para a gruta"
Foto da cidade devastada pelos combates
 
As tropas portuguesas, em apenas quatro horas de batalha, perderam cerca de 7500 homens, a 2ª Divisão foi completamente desbaratada, sacrificando-se nela muitas vidas, entre os mortos, feridos, desaparecidos e capturados como prisioneiros de guerra -, ou seja, mais de um terço dos efectivos, entre os quais 327 oficiais.
Esta batalha viria a marcar negativamente a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial porque os exércitos alemães provocaram uma estrondosa derrota às tropas portuguesas, constituindo a maior catástrofe militar  em Portugal depois da batalha de Alcácer-Quibir em 1558.

A moral do exército português era tão baixo que houve insubordinações,  deserção e suicídios. A frente de combate distribuía-se numa extensa linha de 55 quilómetros, comandada pelo general Gomes da Costa.
A ofensiva alemã ficou designada por "Georgette" visava a tomada de Calais. 

No meio do caos no campo de batalha -, distinguiram-se vários homens, anónimos, na sua maior parte. 
Porém, um nome ficou para a História, deturpado, mas sempre eterno: O soldado Milhões.De seu verdadeiro nome Aníbal Milhais, natural de Valongo, em Murça, viu-se sozinho na sua trincheira, apenas munido da sua "menina" -, uma metralhadora Lewis, conhecida entre os combatentes lusos como a Luísa. Munido da coragem que só no campo de batalha é possível, enfrentou sozinho as colunas alemãs que se atravessaram no seu caminho, o que em último caso permitiu a retirada de vários soldados portugueses e britânicos para as posições defensivas da retaguarda. 
Vagueando pelas trincheiras e campos, ora de ninguém, ora ocupados pelos alemães, o soldado Milhões continuou ainda a fazer fogo esporádico, para o qual se valeu de cunhetes de balas, que foi encontrando pelo caminho. Quatro dias depois do início da batalha, encontrou um major escocês, salvando-o de morrer afogado num pântano. 
Foi este médico, para sempre agradecido, que deu conta ao exército aliado dos feitos do soldado transmontano.Regressado a um acampamento português, um comandante saudou-o -, dizendo o que ficaria para a História de Portugal como  "Tu és Milhais, mas vales Milhões!".
Foi o único soldado raso português da Primeira Grande Guerra a ser condecorado com o Colar da Ordem da Torre e Espada, a mais alta condecoração existente no país.
A sorte deste soldado Milhões foi ter salvo um médico, sendo instruído, e agradecido o mencionou a quem de direito para o agracia e assim ficar narrado nos anais da História.
Já o Calais homem voluntário, sem ser soldado acabou sobrevivente nesta odisseia pelo que o considero também herói pela vontade em participar, debalde na pouca sorte de não ter opção de combate  quando quiçá louco tenha participado de alguma forma  prática a rivalizar o soldado Milhões... Por isso foi localizado e acabou desterrado na fronteira...Segundo o testemunho da minha boa amiga Elisabete do Pinheiro, ele voltou a França. Interessante se questionar a vontade em voltar ao palco da guerra, ao que parece se apoderou dele o medo de outra guerra igual à que viveu também acontecer por cá...
Nunca ouvi que o Calais ermita, tenha feito mal a ninguém.Morreu com idade avançada, tão pouco sei onde foi sepultado.


O meu estar fatigado pelo puxar da bicicleta que se mostrou perra...outrora aqui feliz no batismo de mota com a minha irmã, neste dia com o meu marido.

Cemitério de Richebourg no norte de França onde repousam muitos dos portugueses tombados nesta guerra.
No concelho de Ansião, em Chão de Couce, houveram vários soldados que passaram a adoptar a alcunha de Calais, para no linguarejar os chamar de Calaias, o que vem credenciar, algo aconteceu de bom em Calais aos soldados que ali se reencontraram, no meu opinar.
Em miúda ouvia falar muito do nosso Calais, como de outros achadiços (pedintes e mendigos) que viviam nos Escampados -, o Pelaralho e o Graxa .

Fontes
 http://geopedrados.blogspot.pt/2013/04/a-batalha-de-la-lys-comecou-ha-95-anos.html
 Graças ao testemunho simpático e disponível da minha querida amiga Maria Elisabete do Pinheiro , do padre Manuel Ventura Pinho, Isidro Freire Leal e Artur Mendes

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