quinta-feira, 10 de julho de 2014

Visita conventual ao Seminário Maior de Almada

Há anos para conhecer o Convento de São Paulo, transformado no Seminário Maior, sito na rua Francisco Foreiro em Almada.
Frade dominicano fundador do Convento " na lápide da sepultura foi escrito com "U"

Convento dominicano fundado em 1569 com uma população reduzida entre 12 a 15 frades que aqui viveram 200 anos, até ao XVIII . A concretização de projeto sonhado aquando da sua participação no Concílio de Trento, onde foi muito importante à época, por nele ter sido redigida a nova redação do catolicismo.O sítio escolhido foi o Campo dos ingleses que tinham um hospital nas imediações abaixo junto do Tejo -, hoje o sítio detêm o nome inicial de Campo -, mas de São Paulo, apóstolo e padroeiro do Seminário que aqui funciona desde 1935.
A crónica é extensa , amenizada com a música aqui gravada em 2010

CD "Sopro de Vida" com a flauta de bambu de Rão Kyao acompanhado pelo pequeno órgão, que serve a comunidade do Seminário tocado por Renato Júnior.´
Em 1668 foi criada a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, tão presente nos painéis de azulejos da igreja.
Em 1712 foi construída no adro da igreja, junto do atual Cruzeiro uma capela que se encontra desaparecida já no século XX.
O terramoto destrói grande parte da igreja, pouco afetando a torre, a sacristia e o Convento, na derrocada do templo, morreu o Frade que celebrava a Missa de Todos os Santos e 26 fiéis na maioria mulheres e crianças.
Em 1761 fica pronta a reconstrução da igreja.
Em 1775 os Frades de São Domingos devido a dificuldades financeiras e poucas vocações deixam o Convento de São Paulo de Almada indo para o Convento de São Domingo de Benfica em Lisboa como outros Frades de outros conventos no País.Os Frades não foram expulsos com o decreto do "mata frades" António Augusto de Aguiar, saíram de livre vontade . Nesse ano de 1775 a Ordem Dominicana vende a Quinta do Convento por 900$00 réis ao cidadão francês Pilliart -, homem de negócios com uma fábrica de tecidos junto ao rio perto da quinta do Olho de Boi .Em 1835 a igreja do Convento deixa de ser paroquial, que o foi no tempo após o terramoto a paróquia de Nossa Senhora da Assunção do Castelo que se desmoronou, sendo incorporada na de Santiago de Almada, ficando a igreja do Convento de São Paulo para a Irmandade de Nossa Senhora da Assunção.
Em 1843 Almeida Garrett lê pela primeira vez publicamente, no Conservatório Real de Lisboa, o drama Frei Luís de Sousa, sendo o II e III atos desta notável obra teatral de marcante romantismo com laivos da tragédia grega, se situam precisamente no Palácio adjacente e na igreja de São Paulo de Almada. Evocam a figura de Manuel de Sousa Coutinho casado com D. Madalena de Vilhena, ilustres almadenses muito ligados ao Convento de São Paulo de Almada, por razões não muito habituais ao tempo por serem casados decidem enveredar na vida dominicana, tornando-se Frades no Convento da Ordem mas em LisboaEm 1840 foi erigido o cemitério de Almada na cerca do antigo Convento.
Em 1855 após décadas de confusão, o antigo Convento e a Quinta tornam-se propriedade da esposa do senhor Joaquim Miguel Ferraz, ainda ligada à família Pilliart, sendo afilhada do último descente daquela família. Herdou o Convento a sua filha mais velha, esposa do senhor Manuel Ferreira que falindo vendeu tudo ao Montepio Geral -, exceto o corredor da sacristia e algumas pequenas divisões que ficaram na posse do Senhor António da Silva de Gondomar.
Em 1933 o Convento e respetiva Quinta é arrematada em Praça pública pelo padre José da Costa Oliveira Falcão por 380 contos e, em seguida, doados ao Patriarcado para instalação de um Seminário, seguindo-se as respetivas obras, restauro e adaptação.A comunidade portuguesa no Brasil ajudou muito a pagar as obras bem como muitos outros fiéis.
Fotos do Convento pelo tardoz a norte quando foi comprado em 1933

Em 1935 -, ano de nascimento do meu querido e saudoso pai foi marcado solenemente com a procissão de 18 de outubro onde Sua Eminência o Cardeal Cerejeira comunica aos seus paroquianos a abertura do Seminário Menor de São Paulo de Almada, que abriu oficialmente a 20 desse corrente mês com 41 seminaristas. Aqui se formaram muitos padres-, sendo o mais emblemático o Cardeal D. José Policarpo. 
Em 1936 o corredor da sacristia e as pequenas divisões anexas, graças aos bons ofícios de Monsenhor e Cónego Dr Alberto Carneiro Mesquita são cedidos graciosamente pelo proprietário, que ainda se mostrou mais generoso ao pagar 20.000$00 para o desaterro de uma vasta área onde hoje se encontra o pavilhão norte, o ringue de patinagem e parte de miradouro.Depois das obras em 1935 no mesmo ângulo da foto anterior

Quinta, casario , igreja e miradouro sobre a capital com mais de quatro séculos de história onde se somaram muitas remodelações e ampliações.

Fachada principal
Uma das entradas da Quinta junto do Seminário a metros de outro portão que abre para um átrio ajardinado onde despertam apontamentos de cariz romântico no remate de telhados, e de paredes pintadas a ocre no contraste do branco das paredes, azulejos em bordaduras de janelas e ornatos em pedra a lembrar o típico no casario da arte portuguesa.
A caixa de correio como só havia nos Postos de telégrafo e nas Estações. Em Ansião numa igualzinha abri a tampinha e meti muitas cartas, as do Pai Natal nunca tiveram resposta...
O Seminário haveria de ser transformado em Seminário Maior em 99 quando passou em definitivo para a jurisdição da Diocese de Setúbal.
A torre sineira com sinos de vários calibres
Por cima da porta principal a Cruz de Santiago esculpida
Óculo e portas com grades de ferro forjado na frontaria
Átrio antológico belo exemplar como no tempo e manteve acolhedor de casario de traça elegante sobre a abertura deste elegante arco para a Quinta, tardoz do Seminário e miradouro.
Fontanário alimentado com água da mina pequena no topo da Quinta, decorada com azulejos em cima depois da carranca de pedra e no rodapé. Outra mina e poços espalhados pela propriedade, bem como a cisterna do claustro seiscentista, revelam que a procura de água sempre aguçou o engenho de quem aqui habitou.
Imagem do patrono São Paulo de pedra sobe mísula manuelina num nicho
Varandim de belas arcadas com belos azulejos no 1º andar da Fábrica Viúva Lamego, bem como a escadaria que lhe dá acesso, memória evidente do Palácio senhorial que foi desde 1775, imortalizado por Almeida Garrett no drama de Frei Luís de Sousa .
Latada de parreiras de belas uvas já a pintar na tradição da vitivinicultura que foi rainha por Almada e os Frades tinham uma ampla adega.
Alpendre de cúpula abobadada ao fundo suportado por duas colunas e remate de pináculo ao meio. Uma bela trepadeira com flores grandes em laranja.


Parreiras e oliveiras sempre presentes no espaço
Painel de azulejo Cargaleiro 2009
"Se não tiver caridade nada sou " - Coríntios
O pintor em 53 pintou painel que se encontra no miradouro em celebração do fim de curso dos Gregórios(?)
Interessante constatar intervalo de 60 anos e outra obra no mesmo espaço
Brasão do Cardeal Cerejeira
No século XX em 35 o Cardeal Cerejeira toma a iniciativa de aqui instalar um Seminário Menor
Entrada para o vestíbulo da igreja
Igreja  de estilo barroco 
A igreja fundada juntamente com o Convento em 1569, sendo a imagem de Nossa Senhora do Rosário muito devota, muito presente na pintura azulejar, também atingida com graves estragos no terramoto de 1755 . Na implantação da República na noite de 9 para 10 de outubro um grupo de republicanos exaltados tomou de assalto a igreja, a qual por estar mais afastada da vila como a Ermida do Pragal, sofreram invasão destruindo praticamente todo o espólio escultórico atirando as imagens maiores ribanceira abaixo ao miradouro, depois recuperadas muito danificadas, e as mais pequenas dizimadas pelas labaredas.
Filhos de Almada acorreram a recolher os pedaços das maltratadas esculturas e os restos carbonizados dos seus Santos.A imagem de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora da Assunção, as de maior veneração, foram pouco depois restauradas, já as imagens de São Francisco, de São Domingos, de São Pedro e de São Paulo ficaram guardadas à espera das verbas para restauro.
No teto de madeira da igreja sobressai uma pintura representando o brasão de armas coroado sendo dividido pela Cruz da Ordem de Santiago.
Chão cerâmico antigo possivelmente depois do terramoto ou quando foi vendido
Em 1750 ano da morte de D. João V, Frei Pedro Soriano Bravo, então prior, pregou do púlpito desta igreja o seu famoso sermão das exéquias de D. João V ao desenvolver o tema do dom da paz que este rei tão bem sobe cultivar ao longo do seu reinado, impresso pode ser consultado na Biblioteca Nacional.
O painel do Rosário, enquadrado no púlpito, em homenagem aos grandes pregadores do Rosário da Ordem de São Domingos. A Nossa Senhora aparece com o menino ao colo em cima de uma árvore cujas flores se assemelham a rosas.
O Cristo crucificado do altar da frente ao da Nossa Senhora do Rosário imagens barrocas mandadas fazer após o terramoto.
Na capela-mor o retábulo da Ceia de Emaús colocado em 2005, pintura a óleo de João de Sousa Araújo, por detrás ficou a escadaria comum em muitos altares antigos.
A igreja toda revestida a belos painéis de azulejaria em policromia cromática em explosão surpreendente desde o azul cobalto ao verde azeitona, roxo-seco ou cor de vinho, azul e amarelo,de fundos quase sempre brancos apresentam belas molduras rematados a florões dos finais do século XVIII aplicados pelos Frades poucos anos antes daqui partirem-, pois da azulejaria anterior ao terramoto nada se sabe. Sendo que nos da capela-mor predomina a figura de São Paulo o padroeiro do Convento e também a de São Pedro, enquanto que no corpo da igreja, a figura principal é a de Nossa Senhora e dela o uso de pedir o Terço, os motivos religiosos mais potenciados.A imagem de Nossa Senhora do Rosário em madeira do século XVII sofreu restauro.
Como símbolos dominicanos mais representantes nos painéis destaca-se; a Estrela que reporta à infância de São Domingos e o facho também à vida deste Santo; o Sol, símbolo de São Tomás de Aquino; Cruz patriarcal que estabelece a relação entre São Domingos e São Bento;a Espada símbolo habitual de representação de São Paulo;a Tiara e as Chaves símbolos de São Pedro.
Painel de Santa Inês. Nossa Senhora sentada, entregando o Menino Jesus a uma religiosa que se encontra de joelhos
Benfeitores e suas pedras tumulares
Ao longo dos tempos sempre houve gente que mostrou interesse quando morressem aqui serem sepultados e para isso contribuíram com donativos. 
Frei Francisco Foreiro encontra-se por baixo do arco da capela-mor tendo sido trasladado da Sala do Capítulo
Numa porta falsa da parede, única que se apresenta na vertical com o brasão, por vontade própria D. Álvaro Abranches da Câmara, almadense, participou na independência de 1640 sendo Capitão do Exército da Libertação, assim aqui quis perpetuar.
D. Francisco de Almeida Mascarenhas a grande lápide e de grandes dimensões no chão ao fundo do corredor principal antes do altar da capela-mor, homem ilustre da Almada, escritor nascido em Lisboa aqui faleceu com 44 anos.
Frei Luís de Sousa e sua esposa D. Madalena enquanto casados aqui viveram num palácio (O Prior do Crato) incendiado pelo próprio em 1600 para não ter de alojar os governadores do reino por conta do reino espanhol, fugidos de Lisboa infestada de peste.
Foram amigos e vizinhos dos Frades, sendo benfeitores deste Convento para reza de missas com hipoteca de casas situadas na Porta do Mar, contrato que foi distratado em 1613 quando decidem enveredar na vida religiosa, tendo sido sepultados nos Conventos onde morreram-,ele no São Domingos de Benfica e ela no Sacramento.
Outras pequenas pedras tumulares. Supostamente as filhas de Fernão Mendes Pinto pela doação de parte da sua propriedade no Monte Alvão em 1762, mais tarde adulterado em Valdeão, à direita para o Vale de Palença (?).
Pia de água benta inserida no painel de azulejos referente a São Francisco e São Tomás
Painel humoristicamente interpretado " chega-se ao céu o Frade São Domingos junto de Cristo em glória e viu uma multidão de religiosos, mas não estava lá nenhum dominicano, ficando tão triste começa a chorar e pergunta "isto é que é o céu? Nisto Jesus lhe aponta para Maria, a qual, debaixo do seu manto , abrigava uma multidão de religiosos seus irmãos dominicanos assim protegidos"...
Painel evocativo da Refeição Milagrosa em que Nossa Senhora amparada por anjos em cima distribui a um dos Frades sentados o cesto de pão.
Em 1748 João da Cunha faz um órgão de tubos para a igreja de São Paulo de Almada, que sobreviveu ao terramoto mas dele nada resta...
Tão fascinada e tempo curto não fotografei um painel do casamento místico de Santa Catarina de Sena
Painel de Frei Reginaldo deitado na cama surpreendido pela nuvem que alguns anjos seguram com Nossa Senhora que assim lhe aparece.
Também Teresa Salgueiro gravou em estúdio um CD Mistério-, um hino da liturgia das horas dedicado a este Seminário.

Também sofreu restauro a Capela de Santa Catarina hoje do Sagrado Coração de Jesus logo depois do vestiário da entrada à esquerda.

Corredores de acesso à sacristia, foi a última zona do complexo do edifício a tornar-se propriedade do Seminário, em 1936, apresenta em rodapé uma faixa de azulejos em xadrez, uns verdes, outros brancos.São quinhentistas e único que remontam à fundação do Convento.
No corredor uma comprida cómoda de paramentos com a Imagem do Sagrado Espírito Santo
Bancos espaldar e azulejos...muitos azulejos embelezam o corredor
                                                           Portas com janelas em jeito de vitral simples
Janelo em feitio de coração por cima desta porta  e outro mais pequeno no vestíbulo da sacristia 
Vestíbulo antes da sacristia -,a Sala da Purificação, com lavabo em pedra do século XVII, em mármore rosa, com alçado rectilíneo de quatro almofadas lisas de mármore branco.
As paredes apresentam revestimento em azulejos de um valioso enxaquetado polícromo rematado por bordaduras de desenho mais miúdo dos meados do século XVII
Quadro bordado a ouro sobre seda que se desconhece a proveniência mas parecendo evidente ter sido bordado por Freiras que o ofertaram(?)
Espaldar com a toalha que noutro tempo seria de linho agora algodão e pia de água benta, provável a origem do Convento.
Sacristia de um riqueza bidimensional revestida a belos painéis de azulejos amarelos do século XVI, resistiu ao terramoto.
Altar com frontal de azulejos cuja decoração central com elementos vegetais, alguns animais e aves exóticas, formando um conjunto notável, de inspiração oriental tem sido motivo de estudos por especialistas pela assimetria do desenho que o torna raro no nosso País.
Por cima do frontal de altar, uma tela do século XVII descreve um milagre de Santo António, tendo sido restaurada nos anos 60 por um amador que a adulterou a sua riqueza e beleza original, tendo tido a franqueza de deixar, no canto inferior direito,a sua própria assinatura...( ouvi um murmurinho de uma senhora que dizia ter vindo do Museu de Arte Antiga (?).
Resumo do milagre passado em Bourges na França, onde ao tempo proliferava a heresia se negando a presença real de Cristo na Eucaristia. Na procissão do Santíssimo, o Santo António foi abordado pelo chefe do povo de seu nome Guyard que o confrontou numa tentativa de o expor ao ridículo:
"se me provares um milagre público que o corpo de Cristo se encontra realmente na hóstia, juro que renunciarei às minhas doutrinas e acatarei as vossas.Tenho uma mula à qual durante três dias não darei de comer.Depois, levá-la-ei para a praça pública e vós vireis também com a hóstia consagrada. Se a mula em vez de comer a aveia que lhe apresentar, se prostrar diante do Santíssimo Sacramento, declarar-me-ei convertido e crente" 
Proposta aceite pelo Santo António, ao fim dos três dias na praça pública como sugerido a mula com a aveia na frente do Santíssimo Sacramento na vez de comer a aveia, se ajoelha" .
Painel surreal, me parece de beleza minimalista inflamado de amor pelo pintor que o pintou
Não resisti a registar uma selfie no espelho da sacristia...
Há uma janela com grades de ferro, por baixo houve um porta que dá para o exterior, possivelmente aberta no século XVII quando António de Gouveia adquiriu a sacristia para seu jazigo. Hoje entaipada nem se dá dela por conta do espelho.
Ao centro a sepultura de António de Gouveia morador na Quinta do Pombal, cavaleiro da Casa de Sua Majestade e "veedor de João Alves de Caminha da Veiga Cabral", supostamente foi um dos muitos que sulcaram mares em busca de ouro e prestígio. Daí a riqueza e requinte da sacristia mandada totalmente ornamentar por ele só lhe acrescentam que seria muito rico,de bom gosto artístico, e fascinado pelas culturas além mar.
Corredores e corredores sem fim, largos, decorados com lambrins de azulejos em branco e azul
A atual ala de São José que se apoia sobre a abóbada da sala do capítulo foi a zona da cozinha e residência dos empregados domésticos do solar.Recentemente remodelado dando lugar a quartos mas ainda visível a imponente chaminé do solar que dava seguimento à chaminé do Convento sita no piso térreo que deixou de ser usada.O que resta de mais valioso dos tempos do solar está nas duas salas contíguas da ala norte do primeiro andar: sala de Santa Cecília apresenta um conjunto de sete painéis de azulejos com cenas alusivas à caça do veado.
E a sala de D. Gilberto Reis, a sala de estar com duas portas, foto tirada do livro, ornada por nove painéis com cenas românticas bucólico-palacianas. Ambos os compartimentos de rara beleza ornados no total com 16 painéis de azulejos dos finais do século XIX ou princípios do XX com a inscrição A.R.Santos F.V Lamego Intendente Lisboa.
Sala do Capítulo
Na uma escada em caracol provavelmente mandada construir pelos Palliart para construção do 1º andar após a compra da parte sudeste do Convento em 1775. Exigiu um considerável rasgo na abóbada seiscentista.

Aqui no apoio da escada era o túmulo onde em 1581 foi sepultado o seu fundador, por isso trasladado para trás do altar mor com o seguinte epitáfio "Aqui jaz o Padre Mestre Frei Francisco Fureiro de boa memória fundador desta casa faleceu a X de janeiro de MDLXXXI".
Na esquerda uma sala que teria sido o dormitório dos Frades
Claustro seiscentista ao estilo mourisco com quatro arcos, no estar primitivo seria o chão em terra batida.Ao meio um cilindro de cantaria lavrada-, cisterna com profundos sulcos pelo roçar das cordas a puxar milhares de barricas de água.O lancil cerâmico em azul e branco na maior parte cópia de azulejos oitocentistas que sobreviveram à ruína do edifício, sendo facilmente distinguidos, os antigos das cópias.Apreciai de relance a quietude e excelsa beleza, pensei que o percorríamos para sentir tamanho clímax, debalde o calor abrasador, tive de me socorrer da foto no livro...
Porta do antigo refeitório dos Frades
Tem um lavabo e azulejos tipo holandês e uma pintura representado a Virgem e o Menino, cópia de quadro do século XVI.Em frente do refeitório há outra porta que conduz a duas arrecadações ainda não restauradas que seriam a cozinha e a copa primitivas.
Piso térreo que remonta às origens com ombreiras e lintéis das portas  quinhentistas em  cantaria lavrada uma elegância sóbria do Convento dominicano inicial.
Grande porta que dava acesso pelo interior à Adega do Convento, hoje denominada salão Pio XII, Papa que nela tem o seu busto em mármore, lembrança do curso de 1951.Depois da igreja é a divisão mais ampla do Convento de cariz seiscentista. de grossas paredes com arcos que suportam pesadas abóbadas, de temperatura e humidade constante, revela bem a finalidade para que foi concebida-, de manter o néctar dois deuses de sabor espirituoso no beber.No topo a poente existiu um grande  Lagar entretanto demolido. A adega no tempo do último proprietário Ferraz tinha o chão de terra batida e foi coberto por soalho de madeira sendo convertida a adega em salão nobre da casa. Aqui foram acolhidas a famílias dos seminaristas desde a fundação do Seminário que durante muitos anos funcionou como sala de visitas.Em 1984 o chão foi remodelado para pavimento em grés, aberta uma porta de acesso às casas de banho, aplicados painéis de azulejos e um lancil cerâmico da fábrica de Santa'Anna. 
Hoje é lugar de concertos e de conferência. 
A antiga Adega dos Frades mostra agora notáveis painéis de azulejos, alguns vieram de arrecadações do Patriarcado por volta de 1934 deles fala um jornal da época: "nas paredes principais depara-se com painéis de azulejos, alguns mutilados, trabalhosamente concertados, pacientemente embrechados, pertenciam esses azulejos à Sé de Lisboa que foram tirados sem dó nem piedade, para a banda, como coisas inúteis, salvos pelo ilustríssimo Cónego Dr Carneiro de Mesquita de espírito lucidíssimo e conhecedor de coisas de arte, da boa arte da cerâmica e presidiu à sua  reconstituição ".
Os Frades viviam quase de auto-suficiência para além dos legados pios, e de algumas doações dos Reis e da Câmara da Vila de Almada, tinham rendimento das propriedades do Convento.Em meados do século XVIII tinham vinhas olivais, casas de habitação, quintas, terras de cultivo, num total de mais de quarenta propriedades, na maioria alugada a particulares das quais recebiam  o foro, que podia ser em dinheiro ou bens da terra.
Tirantes  para tocar os sinos para chamara a comunidade para as orações
Pavilhão de grandes salas em  dimensão. No exterior das arcadas vasos quadrados revestidos  azulejos com flores e animais
Segundo um especialista estes azulejos de flores e aves  seriam feitos por crianças que na técnica de aprendizes a pintores  na olaria exercitavam a arte do traço com o pincel, por isso nenhum é igual
Palco para espectáculos e recinto de ginástica com espaldares e uma vista de tirar a respiração sobre Lisboa que o sol não deixou na teimosia registar.
Fase nova com arcadas com vista do  antigo solar com varandins em ferro forjado século XVIII
Painel do conjunto referente a São Pedro
Bar onde se compram souvenirs e nos ofereceram limonada e doces feitos no convento.
O meu marido comprou um saquinho de Areias-, doces feitos no Convento que saboreámos ao jantar com um Vinho do Porto especial  dez anos-, aberto propositadamente  para celebrar a visita.  Painel de proveniência desconhecida representa o Sermão na Província narrado por São Lucas, assinado pelo ceramista lisboeta António Luís de Jesus realizado nos finais do século XIX em tons de azul  claro e aguada. 
Na parada do Seminário dois grandes painéis vindos provavelmente da Sé de Lisboa, como outros dois que estão na antiga Adega dos Frades, e outros azulejos da mesma proveniência já mencionada, a este conjunto azulejar pertenciam também painéis da biblioteca D. Manuel Martins, e da Capela de Santa Maria Mãe da Igreja, pelo menos dois deles pelo desenho dos corvos e da barca, parecem ser provenientes de uma igreja com especial ligação ao patrono de Lisboa S. Vicente.
Estes dois foram colocados no exterior  no topo do pavilhão mais perto do rio  atribuídos a Gabriel del Barco que viveu e trabalhou em Lisboa nos finais do século XVII.

No miradouro  "como não há outro assim igual no Mundo" 


Pelas vistas de extasiar sobre o  Olho de Boi, Tejo,  Cristo Rei e Lisboa.
Do miradouro escreveu  Frei Luís de Sousa na História de São Domingos
"como o sítio he no mais alto do monte e pendurado sobre o mar (...) senhor de hum tão fermoso, e tão bem assombrado horizonte, que confiadamente, e sem parecer encarecimento,podemos afirmar que não há outro tal em toda a redondeza da terra:o que fica bem de crer, pois se sabe que tem diante dos olhos por painel a cidade de Lisboa,estendida sobre a ribeira direita do Tejo, e que de nenhum outro ponto se pode ver e julgar sus grandeza toda junta, como deste".
O panorama que Manuel de Sousa Coutinho contemplava é  diferente daquele que hoje contemplamos  e porquê? Porque sendo ele homem  abençoado de bom olhar e um romântico,  assim admirava em ênfase as vistas e o miradouro, onde iria amiúde ao Convento.  Junto às imediações deste foi erguido séculos mais tarde o Cemitério.
Sendo que a distância era diminuta do seu Palácio -, viria a ficar recordado e conhecido por Almeida Garret na peça de teatro com o nome de "Frei Luís de Sousa ", porque de fato acabou como dominicano, reza assim:
"Aqui viveu Manuel de Sousa Coutinho, e aqui se passou grande parte desta história: Em 1591, pela ocupação de Portugal pelos reis de Castela, por causa de um surto de peste em Lisboa os governantes preferiram refugiar-se em Almada. Manuel de Sousa Coutinho, para evitar a ocupação do seu palácio pelos castelhanos, preferiu que o palácio fosse consumido pelas chamas: "Ilumino a minha casa para receber a suas majestades!"
Quem  for atento fácil  entende que o muro que divide o Seminário do Cemitério corta ângulo ao atual miradouro, ainda assim soberbo, que abaixo no outro miradouro da Boca do vento ou do Castelo não.


Junto ao muro do miradouro a poente vi canteiros de hortas com escadinhas de madeira-, coisa recente em jeito de jardim e no lado a nascente entre os pavilhões e o muro do Cemitério também numa zona estreita de terreno vi uma mulher a regar pela hora do calor... 
Muros do miradouro de resguardo construído em parapeito, ornamentado com azulejos antigos aplicados a esmo. O resultado desta aplicação de aproveitamento é surpreendente.Restos da herança do Patriarcado nos anos trinta, que não foi na altura patentear doutra forma.
Vista sobre o Olho de Boi e  hortas dos antigos operários do Bairro Operário , ainda visíveis os tanques para armazenamento de águas, estão cheios, que os vi do alto junto de hortinha e perto dela matagal de silvados a caminho dos céus pelo abandono...
Inusitado ao fim de muitos anos reencontramos a Elisabete que foi Educadora de Infância no Infantário da minha filha no Centro Comunitário e Promoção Social do Feijó, acompanhada do marido Francisco, colega do meu marido, e o filho mais novo, o Ricardo com 27 anos, que me lembro dele e do irmão pequeninos, uma gracinha de meninos vaidosos com um rabicho de cabelo...Ora na boa vida de reformados a beber cultura!
A esmo Santinhos no meio de flores e, espólio de arrecadações do Patriarcado de Lisboa na década de 30 sendo na altura este Convento sua pertença.
No Museu da Cidade está uma fotografia com este painel colocado a esmo
A imagem de Nossa Senhora de Fátima aqui pernoitou em 59 para a inauguração do Cristo Rei . No cinquentenário  deste Santuário em 2009,  assisti em Cacilhas a  ser transportada num barco da Marinha para seguir em peregrinação ao Cristo Rei, vindo aqui  ao Seminário  em oração.
O banco com  painel pintado por Cargaleiro
No limite do miradouro junto a Nossa Senhora de Fátima
Qual orgasmo inteletual assim sentido do alto a ver uma Caravela e um Paquete  a deslizar no Tejo ...
Registo da fotografia dado o palpite pelo Fernando-, um dos alguns visitantes deste dia ao Seminário Maior de Almada no registo de ambos a cruzar.
E eu  sonhadora na vontade de voar alto -, mas que fazer se de um lado tinha o Cemitério e do outro o Vale da Rocha que Brilha (oiro) para lá da Quinta do Arialva, e nesse tive vontade de aterrar pela costela fenícia, reza a história  foram os descobridores. 
Foi uma visita  interessantíssima, sei vou voltar para olhar melhor o que ontem vi apressada.

A Ana Maria no seu comentário falou-me na existência de Grutas no espaço da quinta. O meu marido acrescentou que sempre ouviu falar que se estendem do Castelo ao Cristo Rei(?). Ora se são artificiais? E uma necrópole com o espólio patente no Museu da Cidade de Almada e no Núcleo Medieval..
Colar feito com pedras de vários tamanhos com verdes

Curiosamente não estava à espera de ver mulheres a trabalhar no espaço...E vi algumas! Quiçá voluntárias!
O chão de tijoleira podia-se lamber, de tão limpo que estava. Os azulejos maravilhosos, bem tratados, o que denota as gentes que aqui viveram os preservaram com cuidado.
Esperava ver um "Frade ou Freira " na cozinha a fazer as areias em mostra aos visitantes a mexer na massa e a comer...como em Alcobaça.
A Quinta alberga um espaço para treino de cães Goggy Clube e outras valências. 
Esperava ver tratores e campos de cultivo...Longe vai o tempo que tinham vacas, vendiam leite e produtos da terra, batatas, feijão e,...
Os acessos ao miradouro acho que mereciam uma atenção especial, sobretudo junto da imagem de Nossa Senhora de Fátima em quase abandono.
O Seminário Maior de Almada desde 99  na diocese de Setúbal decidiu em boa hora bafejar a comunidade abrindo portas para visitas com calendarização e outros eventos de vária ordem no aluguer de espaços e ainda em outubro o concerto de Sons de Almada velha com música erudita.
Um bem haja ao padre Fernando -, Prefeito e Écónomo, que nos acarinhou na visita sendo o seu cicerone. Atualmente uma população de sete seminaristas .
Deixei a visita molhada em águas fosse extasiada pela excelsa beleza e candura do Lugar -, pois nesta minha vida jamais vi tanto azulejo, da melhor qualidade desde do século XVI a XIX a rivalizar com o Museu que lhe rouba o nome que a meu ver só sairá vencedor pelo grande painel  que ostenta sobre Lisboa.
Há tantos anos para ir e calhou hoje. Amazing! 

5 comentários:

  1. Deixe que lhe diga que me fala de coisas que amo e me enche de inveja e satisfação! Inveja porque entre 71/74, ía todos os sábados com um grupo de alunos do curso experimental do 3º e 4ºs anos, falar de coisas que eram consideradas subsersivas sexo, economia, história , etc. com o Padre Correia, nosso muito querido professor de moral e religião e depois eramos autorizados a brincar o resto da tarde pelos jardins e pelos campos do convento.
    Quantas aventuras ali vivi. Adorávamos ir para as grutas fazer explorações e até consegui levar com um morcego num olho!!!
    Depois lembro-me que a minha mãe ía lá à missa salvo erro às 7h da manhã e ía muita vez lá comprar leite direct5amente da vaca para casa!
    Sempre amei aqueles painéis de azulejos lindíssimos e aquelas salas faziam-me sentir bem, adorava lá estar.
    Fiquei satisfeita porque desconhecia que se fazem visitas guiadas e vou de certeza tentar lá ir um dia destes. Assim como fiquei muitíssimo interessada em comprar o livro que mostra nas fotos. Sabe se só se vende no seminário? Ou talvez no turismo em Almada que não sei se ainda fica ao pé do Centro Comercial Sommer Ribeiro, onde antigamente era uma bomba de gasolina... Ah, invejo ainda o facto de já estar reformada e poder ter tempo para beber essa cultura toda!
    Por tudo muito obrigada.
    Bom fim de semana,
    Ana Silva

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    1. Cara Ana Silva muito obrigada pela continuada cortesia, pelo comentário, e também por saber que despoletei em si boas lembranças de tempos de antanho que lhe deixam saudade e riquezas na alma. Pois é indescritível tamanha beleza e fundamental conhecer. Mas aqui para nós esta crónica é maior e mais abrangente que propriamente a visita, sou observadora e embora limitada no tempo e no grupo consegui o máximo, sendo que falhei o claustro, baseei-me em pedaços do livro para engrandecer o post. O livro custa 5€ e as visitas são uma vez por mês e julgo aos sábados (?).A minha sogra que morava abaixo na Afonso Galo também lá comprou leite e feijão.
      Quando pensar vir diga, veja o meu email no perfil, vou consigo de novo, se quiser a minha companhia, porque os azulejos são dignos de Museu.
      Continuação de bom fim de semana
      Bjo
      Isabel

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    2. Terei certamente muito gosto na sua companhia! Agradeço as informações.
      Bjs.
      Ana Silva

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  2. Uma preciosidade. Os meus parabéns. Tenho que ler calmamente para "digerir" devidamente.
    Cumprimentos

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  3. Caro Raul Nobre muito obrigado pela cortesia da sua visita e pelo elogio no comentário.Interessante é a crónica se desenrolar numa vista casual, na capacidade em observar e de memória, para chegar a casa e com as fotos montar, para partilha, sobretudo dar a conhecer a outros.Sei que após esta cronica singela as visitas tem sido muito frequentadas.
    Retribuo cumprimentos
    Isabel

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