quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia do Pai falar do meu Fernando Rodrigues Valente de Ansião

O meu pai nasceu na vila de Ansião na 1ª casa, na 2º janela
                                    Os meus pais a namorar nos Olhos d'água
                                  
O  seu casamento na Igreja de Pousaflores 
Agosto dia 8 de 57 no meu batizado, o padre Freire de Lisboinha, primo da minha mãe, os meus avós paternos, o tio Zé André do Ribeiro da Vide e a criada do Alvorge com 14 anos-, uma criança, comigo ao colo.
Espasmos em jeito de confissão após mais de 40 anos a lembrar o meu saudoso pai.
Ao tempo o calendário ditava quinta feira, 7 de setembro, dia de muito calor, quando partiste desta vida...Na agenda trabalho rural na Lameira, na apanha do milho com a  Mena e o Ti Rafael . Para o almoço, a mãe preparou no forno pargo assado com batatinhas, em cima da mesa havia um bilhete " telefonei para a clínica, o paizinho foi o dia que comeu melhor" escrito em cima da hora para  o turno da tarde no correio.
Estranhei por volta das três da tarde  achegança de uma mota com o carteiro, mensageiro de má notícia, " irmos para casa porque  o paizinho tinha falecido"...remata em tom surdina o Ti Rafael " se foi o dia que comeu melhor, foram as melhoras da morte" a fazer fé no dito popular em relação ao bilhete que ouviu a ser lido em voz alta.
Chegadas a casa andavam em reboliço mulheres a tentar retirar os sinais de riqueza dos olhares alheios para se iniciar o velório, a nossa mãe logo as espevita no aviso claro de se ficarem quedas-, em grito de ultimato, não deixou tirar nada do sítio, nem carpetes nem passadeiras "se o marido gostava da casa assim, era dessa forma que havia pela última vez sair dela" atitude de mulher culta, com estudos em relação às demais, sem receio algum, a primeira mulher nesta terra a desafiar rituais e do luto para toda a vida, que outras haviam de se seguir, embora naquele tempo a iletrice associada ao cariz lastrápio e desbocado em falar da vida alheia, o mesmo nos costumes, infelizmente ainda hoje algumas  se mantêm neste estar... 
Na varanda dei conta da chegada da ambulância de onde tiraram um sacão de lona creme, trazia o teu corpo inerte ainda quente, durante anos não esqueci esse momento, tal como o choque que senti ao dar-te o meu último beijo, antes de fechado o caixão, no rosto gélido, frio, cadáver, que me marcou intensamente.Ninguém queria dormir no quarto onde foi o velório, convenhamos as três na mesma cama era demais, decidi lá dormir sozinha, jamais esqueço a noite que acordei alucinada com a sensação que alguém me segurava a cabeça, sentia que estava lúcida, mas presa, olhei para a janela e no cortinado branco revi a tua imagem...
Tinha 15 anos,a Mena 13 e a mãe 38 . O cancro no pulmão foi fulminante, contribuíste e de que maneira com os quatro maços de tabaco sem filtro por dia, terrível hábito sempre a fumar, calmante para comer, falar e trabalhar, tinhas só 37 anos... E jamais foi culpa do vinho como as más línguas falaram, que tinhas cirrose...
Foste um homem de silhueta alta, armado com dentadura forte  e amarela do  maldito vício e os dedos igual, já estavas a  curvar nos teus 1,92 cm , naquele tempo era para poucos!
Ficamos as três sem ti-,desculpa dizer-te assim descuradamente, em franco sentido alívio (?) ...Muito por culpa do teu mau génio que amiúde chegavas a casa  " entornado com os copos" no dizer da mãe - esquinado - hoje daria-se um nome pomposo à doença, aquela que qualquer gota de álcool descontrola e tolda o cérebro, o raciocínio e a razão, quando se fica num estado que não se sabe o que se faz e porque se faz, depois em calmaria nada te lembra.
Houve demasiada violência doméstica!
Uma vida de maus tratos e de medo constante incutido a todas, quando lúcido nem acreditavas os disparates que tinhas feito...Muito por culpa da tua vida, nasceste no seio de um casal que não se amava, a tua mãe foi obrigada a casar com um homem rude, apesar de trabalhador, não condizia com a mulher sensível, prendada de mãos, excelente bordadeira, perfil alto e elegante, de pele branca, desmesuradamente bela, a contrastar com o noivo "rodas curtas", a puxar resquícios a mouro, claro, dele fugiu na noite de núpcias, debalde a má sorte, os pais a levaram de volta ao marido...Tanta amargura na tua casa vivida, sem amor e carinho, como na maioria, nesse tempo não havia sitio nem igreja, que ensinasse como  amar os filhos, em os abraçar, acarinhar e perguntar os porquês, que vagueavam nas suas mentes, era uma vida mundana  "salve-se quem puder" apesar da tua casa farta, vida parca de afetos, de manhã ainda fazias a venda de pão de bicicleta, depois a caminho do Externato, sabes bem que te portaste mal e tiveste de ser recambiado para o internato no Colégio D. Nuno Álvares Pereira em Tomar, onde aprendeste álgebra e história...O teu pai sentia orgulho da tua inteligência, saberes, também do porte, ansiava fosses um dia  doutor...
Encantaste-te cedo pelos atributos das mulheres, namoradas tiveste as que quisestes, eras um homem bonito, desempenado, de pais remediados, emprestavam dinheiro a outros, num tempo que não havia bancos. Mas deixaste-te encantar pela mãe - , apesar de baixa, era e ainda é, uma mulher bela, de graciosos cabelos cor d'oiro, olhos verdes e pernas perfeitas qual Marylin Monroe, mas os ciúmes toldavam-te as ideias de tão doentios, um inferno a nossa vida . Imprevisível o teu estar, a tua conduta mudava como o vento -, as vezes que ela fez e desfez as malas, as vi quando entupiam o corredor, como podíamos ser felizes ? Pouco contribuías para a nossa vida ser melhor, sei que eram outros tempos, resolvias tudo à 
" tareia" forte e feio, no pior perdias as estribeiras... 
Reconheço que tanto eu como a Mena éramos crianças hiperativas...Quantas peças dos serviços de café e chá da SP de Coimbra,  a servir nos batizados das nossas bonecas, a loiça que se partiu e a brincadeira " a imitar o consultório do Dr Travassos"  a Mena fazia de médico, usava sem rodeios a tua botica do armário da casa de banho -, até ao dia do grande  susto com o Jorge, o neto do Ti Parolo, se não fosse a prontidão da lavagem ao estômago teria tido consequências desastrosas. Já eu entusiasmada com a publicidade da televisão no fascínio da depilação, sem modas fiz uso da tua máquina de barbear, mal senti a frição na pele da perna logo a deixei cair, e se foram as três cabeças da Filhshave, em abono da verdade não as consegui encaixar "fechei-me em copas" e no dia seguinte penduraste-me na trave mestra do sótão, onde  fiquei horas a imitar o Cristo pregado na Cruz...Reconheço que as duas éramos terríveis em fazer" trinta por uma linha". Julgo em 64 na televisão não se falava doutra coisa , a  notícia do  século -, o Dr Cristian Barnad na África do Sul, o médico que arriscou o 1º transplante do órgão dos afetos -, o coração, por outro de um dador...entusiasmante operação inédita e brutal, a ser falada a toda a hora...No quintal passados dias aconteceu o inusitado com o galo que espetou esporas no pito e o deixou com  as tripas ao sol, mote imediato em idealizar a operação ao pito na mesa da cozinha, a Mena encaixou friamente as tripas na barriga e o cozeu com agulha e linha, enquanto eu fiz de enfermeira a desinfetar, depois foi posto no recobro numa caixa branca de sapatos, de encosto na parede da casa de banho, onde o quente se fazia sentir da lareira, até ao momento que o vimos de pernas esticadas por não ter resistido à operação, tal como aconteceu com o paciente transplantado...Confortadas no mesmo designo, afinal a nossa 1ª operação!
Na hora das refeições havia sempre zaragata, um inferno -, a Mena era muito endiabrada, comia com as mãos-, e tu sempre a recomendar para usar os talheres...Perdoaste-lhe muitas cenas -, afinal para ti o filho, que não tiveste, nela vias uma menina rapaz, pela sua paixão por pistolas, espadas e carros, de subir às árvores, apesar de quando estavas em dia não, apanhar tareia tal como eu, os mesmos pontapés, um dia voou no comprimento do corredor só parou na porta da sacada, porque aparecemos em casa com um molhito de cavacos de pereiro -, árvore de fruto que não tínhamos, e logo reconheceste a lenha por serem cavacos fracos com líquenes -, forte e feia a porrada, por os termos roubado na fazenda da tia do Alto, onde íamos  muitas vezes visitar e deixar flores na campa do nosso Franginhas, no mesmo propósito do cemitério de cães do jardim zoológico em Lisboa, que tínhamos visitado...O caniche branco de pêlo encaracolado foi uma prenda de Natal, foste no táxi  com o Germano Pires, comprar-lo  a Coimbra, nós encantadas com a novidade quisemos logo dar-lhe  banho, sem saber se já estaria doente, ou da invernia que se fazia sentir foi atacado de pneumonia, chamado o veterinário Dr. Mateus às pressas, estava quase paralisado -, olha para ti e diz  " Valente não há nada a fazer, tenho de lhe dar uma injeção para o abater"...
No dia da Imaculada Conceição,de quem eras tremendamente devoto, coisa de família da parte do teu pai,  davas a cada uma de nós uma nota de vinte escudos, fielmente sempre a depositei na caixa de esmolas na igreja -, não sei se a Mena ficaria com ela? Capaz disso sem favor faria(?) porque nunca foi dada a rituais cristãos, embora crente a Nossa Senhora de Fátima, no tempo de catequese, simplesmente deixou de a frequentar, e missa  não era ritual que adorasse, as raparigas só iam para se mostrar aos rapazes (?) depois de noivas passavam o tempo a mexer nos cabelos só para lhes verem os anéis de noivado...disso  não "emprenhava" ser o certo ...Lembras-te quando descíamos a escada de madeira até à loja? A nossa cave, onde era a adega , tanta infusa das Caldas  enchi de água pé e de vinho. No tempo da vindima sempre nos deixavas entrar no grande tanque para a esmaga dos cachos-, os três no tanque, de mãos dadas na pisa, até ficar bem acalcada. Cansaditas por culpa do cheiro forte do mosto, não hesitavas nos  levantares em peso, para pousares no rebordo com as pernitas a escorrer baginhos de uva cor escarlate,com as unhas dos pés pintadas de encardidas. Pelo outono quando a caça abria aqui vínhamos amiúde fazer os cartuchos para encher a cartucheira e, limpar a arma com os escovilhões -, gostava em particular daquele em flanela e, do som do abrir e fechar a culatra -, arma calibre 16, comprada num armeiro na baixa de Coimbra . Depois das 5 da tarde quando regressavas do trabalho, mal chegado a casa logo de partida com a arma, os três à caça, lembro-me bem como eras cuidadoso connosco, para nada nos acontecer, perdias-te em conselhos, enquanto isso o "Sr tordo" à vontadinha voando  sem receio, a caminho do Ribeiro de Albarrol...
Naquele tempo podias ter pedido mais vezes o kodaque do Jaime Paz, para termos mais fotografias do tempo da nossa meninice, mesmo assim temos algumas tiradas  à la minut nas grandes feiras de Santa Iria em Tomar, Golegã e Santarém.
Nunca fui boa aluna, sabes que era muito tímida e ruborizava com facilidade, isso fazia que me fechasse ainda mais. As professoras eram austeras, distantes e frias, nunca despoletaram em mim essa grandeza maior que é o saber -,  e tu que já estudaste poderias ter feito melhor esse papel -, mas só te preocupavas em atender os problemas dos outros, na maioria iletrados, muitos sem "eira nem beira" a todos ajudavas a quem recorria ao Tribunal, a troco de copos de vinho, porque gorjetas sempre foste contra -, essa herdei de ti. Adoro ajudar os outros só pelo prazer de o fazer e, jamais para receber seja o que for. Havia ao tempo mais outros três colegas em outras posições profissionais na Função Pública, na mesma ajuda -, mas esses não recusavam a gorjeta...Falou-se que depois de  morrerem  deixaram pequenas fortunas, sendo que nenhuma das mulheres deles trabalhasse, ao invés da mãe que ganhou sempre mais do que tu -, afinal morreste e só deixaste na caderneta 300 escudos que mal chegou para te amortalhar... 
Recordo a sexta feira que cheguei triste a casa e perguntaste o que tinha -,  a chorar expliquei que a professora não me tinha proposto a  exame , como já tinha chumbado na 1ª classe, disseste-me " não fiques assim, o paizinho na 2ªfeira vai contigo à escola e fala com ela para te propor "... fomos  e a professora Maria do Nascimento, diz-nos" não posso fazer nada, já enviei para Leiria as listagens "... 
Sou a segunda a contar da esquerda
A Professora para se salvar na conversa acrescentou que  eu podia frequentar as aulas de revisões que ia dar no solar da D. Maria Amélia , convite que aceitou sem pestanejar que tive de "gramar", no último dia  das explicações numa das clareiras da Mata Municipal, quando se registava uma foto esta surpreende-me " afinal a menina está bem mais preparada que as suas colegas..." só que  era tarde, com isso tive de aguentar mais um ano!
No final dos anos 60 ainda de férias estava eu no correio para pedir dinheiro para uma sandes de Iscas na tasca do  Ti Domingos, quando se chega ao guichet um lindo rapaz moreno a chorar, pedia um selo -, a   mãe  perante o aparato pergunta-lhe porque chora, diz baixinho..."tenho saudades da minha mãe"  (tinha vindo de Arraiolos onde vivia)...Passei a vê-lo sentado todos os dias no muro do Externato quando ia para a escola e, no ano seguinte já colegas,  num tempo de recreios diferenciados. Por nos termos conhecido num momento forte de emoções, nasceu um gosto especial reciproco, com namoro às escondidas, de cartas trocadas em correio dentro de livros que terceiros faziam a entrega, mas também trocávamos mensagens nas carteiras de madeira -, munidos de canivete depois de lidas logo raspadas e de novo respondidas, até sermos descobertos por colegas-, o pior foi a Dra Ilda te avisar do namorico e,  tu a pensar em ti, na louca paixão que viveste com a mãe, num ápice ficou grávida de mim...A ti devo a minha vida, ao não permitires que ela abortasse, por ser solteira, optaste pelo abandono do teu curso de Engenheiro em Coimbra, para casar...
Já a mim coube-me a sorte ou azar no ano seguinte  de frequentar um Colégio Religioso, onde só estive um ano, porque me vali de teres falecido, e supliquei à mãe para não voltar...Em 72 apesar de seres Funcionário Público a mãe não teve direito a reforma, ou teria e não o soube -, ninguém lhe disse...Nem mesmo o Dr Vitor Faveiro, então diretor das Contribuições e Impostos, e o Dr Arnaut o socialista que inventou a Serviço Nacional de Saúde, teu amigo e colega de estudos em Tomar, quando se deslocarem a nossa casa para prestar  pêsames, nada nos falaram. 
No Colégio Religioso foi um ano muito cheio. A menina que mais encomendas recebi -, os primeiros patins que foste a Coimbra comprar, mal te falei que tinha aprendido com uns pesados dos jogadores de hóquei dos Salesianos do Estoril... Tantos telefonemas e cartas com dinheiro, as vezes que fui chamada à diretora para vos avisar, para não me mandarem tanta coisa, porque as outras ficavam tristes de pouco ou nada receberem, raro era o sábado que não fugisse a rastejar pelo relvado, depois andava a pé pelas ruas sozinha pelo Monte, a caminho do Estoril, até ao dia que a  Gina do Pobral, também dizia gostar do Arménio, me apanhou na fuga e ameaçou denunciar às Irmãs-, vali-me de uma artimanha -, ofereci-me para lhe trazer um perfume da drogaria, logo me deu o frasquinho -, comprei amoníaco, mal o levou a cheirar caiu redonda no chão -, ajudei-a a levantar-se e, com olhos arregalados vomitei ordens ali no dormitório, quem a ameaçou fui eu... Nenhuma de nós ficou com o Arménio, rapaz bonito e doce teve pouca sorte ao herdar a terrível doença da mãe, morreu cedo, talvez tão novo como tu, deixou uma menina morena, linda como ele. 
Os meus cabelos compridos atormentavam a minha paciência no Colégio onde só havia dois secadores... nas férias do Natal arranjei forma de me os deixares cortar -, sei que te custou imenso, idolatravas em mim os cabelos pretos reluzentes de origem fenícia da tua querida mãe, orgulhosamente penteaste anos a fio que lhe chegavam aos pés, estando ela em cima de um banco. Mas percebeste o meu dilema, sendo a minha artimanha a sedução, só me pediste para fazer uma trança e trazer para casa como recordação, o que fiz. De cabelo curto logo me apeteceu pedir outro favor, detestava após as aulas ficar sentada na sala a fazer os trabalhos até à hora do jantar, onde só havia interregno para a  leitura de um capítulo do livro do Erico Veríssimo " Os lírios do campo" pela Irmã que de nós tomava conta, até que engendrei a forma de te convencer para ires ao Dr Travassos pedir um atestado médico para poder sair da sala para ir à casinha de banho, as vezes que me apetecesse ... foi um tempo de gozo extraordinário de sair da sala, sem pedir licença, onde sozinha ficava minutos nas escadas de madeira sentada a olhar os vitrais, a pensar na vida que se passaria para lá dos muros, na vontade louca de fuga para descobrir o Mundo...
Gostava dos passeios a pé até à Costa, nos Escampados, aos domingos de tarde buscar pinhas verdes, que vertiam resina pegajosa e se abriam no forno  para fazer saltar pinhões. Naquele terreno pedregoso florido de madressilva onde dizias noutro tempo apanhaste muita batata e carrascos verdes, para crepitar nos fornos da padaria, ainda nos mostraste o resto da anta, onde te recolhias no chuvisco, aquando da tarefa guardador do rebanho, e de nos falares do sopé dos munhos de madeira, junto às azinheiras havia muros que hoje já não se vislumbram mais, na minha mente imaginativa sonhava como sendo restos de villa romana, já que a via de Conímbriga para Lisboa passava por ali algures na Lagoa do Castelo...
Herdei a tua teimosia. Nunca comeste nada congelado, porque bom peixe se comeu na nossa casa comprado na Ti Zulmina -, peixeira  que o encomendava ao filho a viver nos Riachos, tantas vezes a vi no Correio velho a pedir a ligação telefónica. Parava à porta com o seu carrinho de madeira, onde o amanhava com a gataria de roda  à espera das guelras, nunca se esquecia de pôr o contrapeso no prato da balança, já eu associava o nome a uma das alcunhas que deste à nossa Mena além de outras : meio-quilo, meio-tostão, taleigo e,...
Adoravas touradas e  nós também. Em 69 estivemos em agosto na inauguração da nova praça de toiros de Abiúl . Ainda me lembro da antiga em madeira ressequida pelo tempo, havia um mar de gente vestida de negro -, assim se vestiam as gentes de Ramalhais, mulheres com traje ornado a oiros de arcadas suspensas nas orelhas, cordões com medalhões ao pescoço e sobre as costas, à laia de casaco, saião dobrado com roda de veludo. Não faltou a  Emissora Nacional com o repórter Fernando Pessoa -, homem alto de microfone na mão ouvi-o dizer naquela voz forte " seria aqui - aqui, neste lugar onde estou, o varandim do Paço dos Duques de Aveiro onde estes avistavam o boi"...naquilo vejo duas velhas carregadas de preto, reluzentes em oiro, pernas tortas apressadas no ajeitar do lenço à laia de palas, de mãos ressequidas do calor e da rudeza do trabalho, em pressas se esgueiram na fresta do curro  para avistar o boi, o nome que por estas terras se dá ao touro.Como isso sentiam absoluta felicidade!
Além da televisão na nossa casa havia bons rádios Blackpunt. Na sala de visitas refasteladas nos sofás de madeira de espaldar e corações abertos, apesar de molas duras  forradas a tecido de lã xadrez preto e vermelho, de perna trocada a ouvir os Parodiantes de Lisboa, eu e a Mena na mesinha no prazer de abrir a caixa de charutos que os teus amigos traziam das Caraíbas, recordo o fio vermelho do celofane, o charuto gordo mal cabia nas nossas bocas, de cheiro agradável ao contrário do tabaco comum , grande frenesim só completo após duas ou três passas, já  que o prazer era apenas abri-lo para ver as folhas hermeticamente prensadas, um fascínio de trabalho manual!
Encontrei numa feira de velharias esta caixa que ofereci à minha irmã
As beatas do cinzeiro na casa de banho-, a Mena é que as fumava até ao dia que desconfiaste que uma de nós também gostava do tabaco, julgavas que era eu. Para nos  testar num fim de tarde outonal puseste as duas de encosto na parede da lareira, no lume em tom de ameaça puseste o espeto de ferro que o vimos ficar em brasa de meter medo incandescente, nas nossas bocas enfiaste um cigarro, naquilo a Mena espevitada e atrevida, perguntou-te " paizinho quer que inale para dentro, faça bolinhas, ou"...sorte a minha não ser a fumadora das beatas, em ato tresloucado sabe-se lá o que farias naquele  momento, valeu-nos a  sorte da nossa mãe sempre atenta, a nossa salvação em momentos da tua ira!
Quando dormias as vezes que entrei no quarto para rebuscar os bolsos do teu casaco. Foram muitas as moedas de vinte e cinco tostões que te roubei, com elas comprei cadernos para os meus colegas da escola, que só os tinham de cinco tostões, a outros paguei o Rádio Escolar, não aguentava mais os avisos constantes do Prof Albino Simões, cachopos acabrunhados sem tostão, enfiavam a cara no chão, mas nunca me disseram obrigado, mas também não me lembro mais quem são. Vergonhas nos fizeste passar quando fazias vistoria às nossas pastas, se encontravas lápis que não eram nossos, a obrigação de os devolver…
Mas maior bofetada a que me deste em plena Placa, onde fazias espera com os teus colegas para o horário da tarde. As notas eram baixas, vali-me de falsificar a tua assinatura, obra-prima em jeito de órbita ou arco de volta perfeita -, a Mena ganhou-te na imitação. O químico deixou a cor azul na prova, o arco ficou tremido, a Dra Ilda em plena aula de português mando-me ir ao Tribunal para que assinasses de novo -, claro percebeste logo, e sem delongas  à frente de todos infringiste tremendo castigo!
Sabes que a liberdade chegou dois anos após o teu falecimento. 
Terias jubilado de felicidade. Bem me lembro de numas eleições "bateres o pé" irado e revoltado, sem vontade de votar -, não fosse o bom senso da mãe que andou de  roda de ti a implorar por nós " o que vai das nossas filhas Fernando, ainda tão pequeninas..." e só por isso votaste contrariado, mostrando ser Grande!
Tinha acabado de fazer 6 anitos estava em casa contigo quando vimos chegar uns amigos emigrantes nos Brasis, na senda do convite para ires patuscar a casa de um deles. Insistiram para me levares, por seres muito alto foste sentado na frente no Mercedes, atrás ao colo do que ia sentado ao meio, ia eu, a caminho do lugarejo fora de portas, no caminho comecei a sentir que o homem tentava mexer debaixo da minha saia, aflita, vali-me em rolar sobre as suas pernas de um lado para o outro para o dissuadir de tal intento, mas ele insistia, insistia em tocar-me, eu só sabia que não queria, chateada ferrei unhas nas suas mãos, nem tossiu nem mugiu, chegando-me para a frente em cima dos joelhos, só o ouvi comentar " a cachopa parece que tem bichos-carpinteiros no cu"...mal chegados nem sei se comi, só sei que na volta insisti que queria vir à frente ao colo do meu pai e assim aconteceu. Chegados de novo à vila para mais um copo na taberna da "Gracinda dos cachopos, os amigos despedem-se" e, ficamos os dois onde me questionas o  porquê da minha insistência em vir ao teu colo,  não sei como te disse, essa a grande vitória, de nada perceber da vida em tenra idade, mas dentro de mim o instinto a falar mais alto, apesar de serem teus amigos, sem receio de te contar o sucedido que entendeste e, num repente fizeste  recomendação à Ti Gracinha " você não me deixe sair daqui a miúda com ninguém até eu vir" e saíste porta fora em passo apressado... ouvi-te depois contar à mãe que foste a caminho do Posto da GNR onde querias apresentar  queixa contra os teus amigos, infelizmente ao tempo fiquei desacreditada com o rótulo " Valente, sabes como são as crianças de mente imaginativa" ainda retorquíste " mas ela diz que o unhou"  certo e sabido o pedófilo não tirou as mãos dos fundilhos dos bolsos, para não se descredibilizar... ainda hoje quando passo à casa dele na aldeia fora de portas me lembro deste triste episódio...
Quero dizer-te hoje no teu Dia do Pai
OBRIGADO.
DESCULPA POR NUNCA TE DIZER QUE GOSTO MUITO DE TI !
  • Foste Grande, ao jus da tua altura, em não permitir que a mãe abortasse de mim
  • Foste Grande ao votar contrariado, só para não seres despedido e preso, a pensar na mãe, em mim e na Mena
  • Foste Grande a defender a minha honra apenas com 6 anos de idade em 1964
No mínimo foram três "a conta que Deus  fez" no dizer do povo as  atitudes de caráter nobre passadas nas décadas de 50 e 60.
Por isso estás perdoado por algumas coisas menos abonatórias que nos infringiste com o  demónio do vinho que em ti te transformava em loucura total, um pandemónio...
Demasia de medo e tormenta passada, sem contar as rezas para não nascer mais nenhum irmão, para sofrer já bastava as três, ainda fiz promessa a Nossa Senhora de Fátima que demorei décadas a cumprir, debalde quando cheguei ao Santuário me pareceu de cariz  tão ridículo...  
Quero falar-te do meu prazer de escrever -, um gosto que herdei da mãe, já que a Mena herdou de ti o jeito para a poesia. Tenho o rascunho para  livro de memórias até aos 20 anos, acreditas que do Pelouro da Cultura chegaram palavras..."por contingências orçamentais não há verba"  mas contudo não foi a falta de arranjo para editar outros que estavam na forja e continuam! 
Sou mesmo tua filha, os mesmos  genes,  que correm nos meus pulsos igualzinhos aos teus, no mesmo gosto de não pedir nada a ninguém, jamais implorar! Antes desatar a falar até que a língua me doa! 
Peço-te que me envies um aviso -, devo ou não continuar? Sabes que a tua opinião conta, contará sempre, porque a honra essa ainda mora dentro de mim.

Por certo estranhaste o fato de te tratar por tu, contingência da circunstância sem circunstância, de três mulheres sozinhas sem ti, onde o trato passou a ser o  de três irmãs.

Neste dia de memórias em mais um aniversário do DIA DO PAI.
Não há noite, desde a primeira, que não te contemple nas minhas orações. 
  • Agrada-me ouvir da tua neta que não conheceste - "o avô é o meu Anjo da Guarda" quando em momentos difíceis as coisas se resolvem a contento, é bom de ouvir!
  • E também já és bisavô, o Vicente é um bebé adorável, de ti herdou os genes fenícios na altura, dos pés, mãos e olhos grandes, calmo, doce, de estar prazeroso-, o homem que fazia falta na vida de quatro mulheres!
Lamentavelmente vai haver um dia de hora sem hora, afinal o dia maldito, porque não acredito em reencarnação...Seja o meu, da mãe ou da Mena !
No mesmo igual ao teu, se diz que o  nº "sete" é um número mágico...
Ninguém sabe o dia da nossa subida aos Céus!
Na certeza de voltarmos a descer à terra de onde fomos, enfim outra vez juntos,  no sítio do Fernando Rodrigues Valente!

2 comentários:

  1. Peço antecipadamente desculpas, por me dirigir a si, deste modo e por esta via.
    Procurando no google, algo sobre o sítio do Casal dos Valentes, topei com os seus escritos.
    Temos em comum, o nome dos nossos pais, Fernando Rodrigues Valente e, devemos ter alguma relação familiar.
    O meu pai, já nasceu em Lisboa mas, filho de Mamede Rodrigues Valente de Pousaflores, Ansião. Do qual encontrei ascendência, até à quinta ou sexta geração, sempre por esses lados.
    Noto que, vou ter muito que ler, nos seus escritos, muito pormenorizados, sobre os familiares e outras gentes desses lugares.
    Os meus respeitosos cumprimentos.
    José Rodrigues Valente

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  2. Caro JAVAL muito obrigado pela cortesia da visita e pelo seu comentário.
    Muito interessante os nomes dos nossos avós e pais serem o mesmo.
    Não sei se haverá relação familiar, o meu avô e bisavô nasceram no Bairro de Santo António, em Ansião. A minha mãe é que nasceu na Moita Redonda da freguesia de Pousaflores-, daí as minhas afinidades a estas terras.
    Em todo o concelho os apelidos Rodrigues e Valente são comuns, julgo oriundos da batalha travada no planalto de Aljazede, pertença de Ansião a Chã de Ourique, pertence a Penela, onde D. Afonso Henriques derrotou os sarracenos, mas na história ficou celebrizada em Ourique no Alentejo, no entanto alguns historiadores defendem esta teoria, mas há outras.Guerras e guerrilhas aqui nesta zona houve muitas para a defesa de Coimbra, e o apelido nasce aqui, por serem homens fortes e valentes a lutar, digo eu. Orgulho-me do apelido apesar de não o usar em detrimento do de casada , Coimbra, a cidade onde nasci. Quando quiser contatar comigo use o emal. ISACOY@HOTMAIL.COM. Este mês vou estar ausente por Ansião e lamentavelmente não tenho net, mas a partir de Setembro voltarei. Concerteza com tempo vamos descobrir a árvore da genealogia dos Rodrigues Valente
    Retribuo respeitosos cumprimentos
    Isabel Rodrigues Valente

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