sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Lenda da Fonte Santa em Ansião

O Lugar da Fonte Santa pertence ao concelho de Ansião, a meio caminho entre os Netos e a Constantina.
Julgo aqui existiria uma pequena capelinha velhinha(?) que foi remodelada e ampliada cuja execução fica a dever-se ao grande benemérito e amigo, filho da Constantina, Sr. João Santos Pires e sua esposa Graciana Ramos Loureiro que a suas expensas custeou toda a construção em 2008.
Agradeço a cortesia do meu bom amigo Renato Paz, neto do primeiro fotografo na vila de Ansião, na foto de família, os patriarcas com os filhos, falta o Jaime, que tirou a foto, o pai do Renato o 2º a contar da esquerda seguido da TITI e do Tio António, e da minha tia Clotilde irmã da minha mãe e da TITI.
A quem agradeço a partilha do folheto do Milagre  da Fonte Santa, produzido na tipografia do Pontão Papeltipo numa reedição em 1984 por um Grupo de Jovens entusiastas da Constantina(?).

Afinal a Lenda não é bem assim...
No Livro escrito por Manuel Severim de Faria em 1625, aquando da viagem  com o tio, o Chantre de Évora, à região centro para visita de santuários, passaram na casa da sua irmã em  Maças de D.Maria, onde  foram muito bem recebidos na fartura de comes e bebes, tendo daqui partido para a Constantina, onde o milagre acontecera há dois anos, seguindo por Ansião a caminho do santuário de Nossa Senhora dos Covões em Alvaiázere, e finalmente Nazaré.

Escrito em português arcaico
Excerto
"dispois de hum anno, que hauia a Senhora estava nesta hirmida acontece, que hum mininodo mesmo lugar sonhou que no milho que o pai tinha semeado, nu secco atral lhe dava Nossa Senhora da Paz huafonte aonde com fé viva se foi pella menham a cauar com as mãos no lugar em que sonhava e fez verdadeiro,  (...)"Diz mais ao menos isto: depois de um ano que a Imagem da Senhora estava na ermida acontece que um menino do mesmo Lugar sonhou que no milho que o pai tinha semeado, num seco areal lhe dava Nossa Senhora da Paz uma fonte aonde com fé viva se foi pela manhã...com as mãos no Lugar em que sonhava e fez verdadeiro o que todos a quem ele contava o sonho que tinha como impossível por ser o lugar  em que a fonte saiu dum sequíssimo areal e pela mesma razão incapaz de a poder de ter dentro de si, quis mostrar a Senhora com muitos Milagres que era obra sua por a fama da fonte santa que todos lhe deram esta nome, acudiram muitos géneros de cegos e aleijados e todos os que se lavavam com aquela água ficavam sãos  e começaram tantos a deixar esmola que passado menos de um ano depois do Milagre se começou a fazer uma ermida maior .
"Trata-se da ermida da Nossa Senhora da Paz com compromisso em 1623 e confirmação em 1630 por Filipe IV. Reza a lenda que no local da edificação da capela, existia antes uma pequena ermida , para onde em 1922, foi transferida a Imagem de Nossa Senhora da Paz, antes pertença da Matriz de Ansião. A colocação da Imagem na Constantina originou uma séria de acontecimentos milagrosos no local, o que motivou a construção da capela e a Constantina na rota dos peregrinos".

Em miúda era assídua na casa do comum tio-, António Paz, onde recordo de ver no álbum fotos da família tiradas neste local em tempos idos junto da mina e do Cruzeiro. Também de ouvir falar com eloquência da Fonte Santa e da Constantina, onde julgo tinham raízes, pelo menos do apelido "PAZ" . O mesmo do Renato Paz, que se recorda esses "tempos felizes da infância em Ansião em que adorava ir a casa do tio António e comer os deliciosos pudins de laranja, toucinho do céu, licor de laranja, tangerina, leite e de folha de figueira, provei-os também, muito bem confeccionados pela sua tia Maria da Luz. Estaria lá de certeza algumas vezes uma menina engraçada que era a Isabel..."
Pois estava, um nadita mais nova e muito tímida, cujas faces reburizadas me atrofiaram e de que maneira!
Retida na memoria a vontade de conhecer. Lamentavelmente aqui passei uma vez, mas nem há espaço condigno para estacionamento(?). Ao passar por engano neste finado mês de setembro, teimei parar, ainda bem, que gostei de conhecer.

Pedra  encastrada num muro de extrema a sul com inscrição coberta de líquenes, difícil lê-la...
Confraria de Nossa Senhora...1937?
"Segundo a lenda, se deu a aparição da Virgem, em 11 de Agosto de 1623 junto de uma eira, sob a ardência dos raios solares, estava uma criança a brincar com umas flores campestres, guardando o milho que naquela eira seus pais tinham a secar. Recomendaram-lhe que não abandonasse a eira, mas a criança mortificada pela sede, esquece aquela recomendação e vem a casa pedir água. A mãe irada por a filha ter transgredido as suas ordens, não só lhe não deixou beber água, como a castigou e obrigou a voltar com sede para a eira. A pobrezinha lá foi chorando a sua desdita, e sentou-se na eira junto das flores colhidas já quase secas, como secos seus olhos estavam de chorar. Ninguém ouvia os seus gemidos, ninguém passava que a socorresse, e a infeliz não podendo por mais tempo suportar a sede que a devorava, lembrou-se de Nossa Senhora; ajoelhou, com as mãos erguidas, olhos fitos no céu-, aquele anjo depois de ter pronunciado as primeiras palavras da Ave Maria, vê junto de si, cercada de um resplendor imenso, a Rainha dos Anjos a dizer-lhe: «Não chores filha, procura nessa areia e encontrarás água.» A tremer, a criança, volve com as mãos a areia e encontra logo água cristalina com que matou a sede que a consumia. Poucos momentos depois, passaram por ali varias pessoas que ficaram admiradas de verem a criança a beber água num local onde bem sabiam não a haver horas antes, e interrogando-a, ouvem aqueles lábios juvenis que já sorriam de alegria, contar a milagrosa aparição de Nossa Senhora. A nova bem depressa se espalhou por toda a freguesia de Ansião e o povo correu a procurar naquela água remédio para as suas doenças, e levado de santo fervor mandou construir naquele lugar uma fonte de cantaria que é conhecida pelo nome de FONTE SANTA em que mandaram gravar a seguinte inscrição: «ESTA FONTE APPARECEU A 11 DE AGOSTO DE 1623» Algumas pessoas mais devotas de Nossa Senhora lembraram-se de colocar no nicho da FONTE SANTA uma imagem da Virgem e encontrando uma nas ruínas da antiga igreja paroquial de Ansião, em S. Lourenço, mandaram-na pintar e no meio de grandiosos festejos para lá a conduziram e ali se conservou até à construção da capela da Constantina, onde hoje se venera o milagrosa imagem, sob a invocação de Nossa Senhora da Paz. Instituiu-se então naquela capela a Confraria de Nossa Senhora da Paz, em reconhecimento das mercês com que a mesma Senhora favorecia o povo da freguesia de Ansião e dos contínuos milagres por ela praticados. Os irmãos da confraria pediram ao Rei D. Filipe III confirmação para o compromisso que tomaram de velarem pelo culto de Nossa Senhora da Paz, de se amarem uns aos outros com verdadeira caridade cristã, socorrendo-se mutuamente nas suas necessidades e em louvor de Deus e da Santíssima Virgem reunirem os pobres na capela da Constantina uma vez cada ano e dar-lhes um bodo em memória dos finados. A Confirmação foi-lhes dada em alvará de 30 d’Outubro de 1624. Com o andar dos tempos arruinou-se a fonte e a água deixou de correr. Em Junho de 1905, devido aos esforços da Confraria de Nossa Senhora da Paz e por meio de subscrição entre o povo da freguesia de Ansião a fonte foi reparada e hoje como outrora na FONTE SANTA, corre a água cristalina com que os doentes vindos de toda a parte se curam dos seus padecimentos, e aos pés da Virgem da Paz, na sua capela da Constantina, todos encontram consolação para as suas mágoas, alívio para as suas dores e a esperança de pela sua intercessão alcançarem a felicidade eterna."
O que me chama a atenção? A data da inscrição na fonte é a mesma data inscrita no portal da capela da Constantina. Será que só durou quatro meses e meio a sua construção? Sendo que a Virgem apareceu a 11 de agosto...
E não vi gota d'água!

O painel azulejar em policromia, moderno, o achei descontextualizado neste local histórico, a meu ver deveria ter sido pintado em azul sobre branco.

Outro benemérito da região ofereceu o pedestal com a imagem de Nossa Senhora
Tendo sido remodelada a capela deveria ter sido também o Cruzeiro, que lhe falta a parte lateral à direita conforme a foto documenta. Sendo a Constantina ainda terra de Canteiros e cantarias, deveriam apostar em repor o mural em falta, bem o merece para dignificar o lugar de devoção.
Veja-se a foto acima e esta, onde se verifica o que se aborda.
 «ESTA FONTE APPARECEU A 11 DE AGOSTO DE 1623»
Data de 1906 da casinha  da ligação da mina para a fonte(?) contigua ao Cruzeiro.
Curioso observar que se apresenta ao género, e da mesma época, das que existem  na vila de Ansião
Início do Cimo da Rua 
Também no Cruzeiro com data de 1902.
Desculpem a franqueza, mas achei o sítio pequeno, atrofiado pela estrada de ligação aos Netos,  com outra variante que passa no tardoz da ermida. Fiquei com a má impressão (?) que no tempo os vizinhos se foram apoderando na largueza dos quintais em detrimento do adro, ao qual já não acorriam peregrinos...Seja o espanto pelo fato de ter vivido a minha infância e adolescência defronte do adro da Capela de Santo António que se mostra muito grande em todo o seu redor. 
Pois, não sai, sem algumas manobras para virar o carro na abertura que tem para o adro...

Fontes

http://www.ansiao.net/
http://www.geocaching.com/ Reedição Grupo de Jovens da Constantina 1984 (Transcrição do documento original)
Renato Paz com envio do folheto
https://www.academia.edu/10230102/Manuel_Severim_de_Faria_e_a_sua_ida_a_Ma%C3%A7%C3%A3s_de_D._Maria

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