sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Acordar memórias dos conventos de Figueiró dos Vinhos


"Marco religioso de grande significado simbólico para os figueiroenses, o Cruzeiro denominado Cruz de Ferro, situa-se no cruzamento da Rua D. Diogo de Sousa com a rua Dr. António José de Almeida, incrustado num muro sobre um plinto de pedra. Com a altura de três metros esta cruz feita em chapa de ferro apresenta as terminações lanceoladas, bem como o alto relevo de Cristo Crucificado, com as insígnias da paixão em contraste.
Datada de 1816 foi por certo das últimas obras das Ferrarias da Foz de Alge.
Hoje no facebook chamou-me a atenção um texto muito interessante
Investigador Miguel Portela: Manuel Fernandes, mestre pedreiro da cerca do Convento dos Carmelitas Descalços em Figueiró dos Vinhos.

"Atestamos, também, que Pero de Alcáçova de Vasconcelos faleceu em Figueiró dos Vinhos a 12 de setembro de 1617, tendo sido sepultado pelos frades carmelitas neste convento. Sua esposa, D. Maria de Meneses, faleceu em Madrid no ano de 1638, deixando a este convento 200 000 réis (SANTA ANA, Fr. Belchior de, Chronica de Carmelitas descalços…, op. cit., tomo I, pp. 393-395). Sabemos que durante a primeira metade do século XVII foi edificado todo o complexo conventual, sendo que a 15 de novembro de 1620 os religiosos procederam à contratualização com Manuel Fernandes, mestre pedreiro de Braga, da empreitada da cerca deste convento (doc. 1). Nesta escritura estiveram presentes o Padre Frei Domingos do Espírito Santo e os restantes padres do dito convento, nomeadamente Frei Ângelo de S. Domingos, Frei Diogo da Cruz, Frei Sebastião dos Reis, Frei João de Santa Maria, Frei João de Cristo e Fr. Aleixo de S. Paulo, para além do referido Manuel Fernandes, mestre-de-obras de pedreiro morador na cidade de Braga, na Rua dos Cónegos, freguesia da Sé. Sabemos que o contrato determinava «sobre lhe aver de fazer a toda a serqua da sua serqua que estava por fazer do dito convento e sobre comesamdo do cabo do muro que ele pedreiro tinha feito e ahi ao longuo de Manoell Garro para a fazemda deles padres ate a de António Moxão a peguar com o muro do dito convento ate fiquarem de tudo sercado e tapados». Através da leitura desta escritura, reconhecemos que Manuel Fernandes havia já construído uma parte do muro deste convento e que, agora, se pretendia cercar todo o complexo conventual."
O processo construtivo é descrito de forma precisa nesta escritura, sobretudo a definição de que este muro «seria de alltura de douze palmos fora da terra com espiguão // [fl. 129v] e de aliserse teria dous pallmos onde fose nesesario e em cazo que fose nesesario seis palmos de aliserse que teriam comtado que o dito aliserse ate sair da tera seria de largura de tres palmos e da tera pera sima seria de dous pallmos emensotado de tera e baro emcrespado de qual a area d’ambas as partes como o que elle ofisiall já tinha feito da maneira que se costuma tres de cal e duas d’area e faria o dito muro tambem feito como que timha feito da estrada». Esta empreitada foi contratualizada pelo valor de «cem mil reis em dinheiro de contado e sinquo allmudes de vinho e dous allqueires de azeite e dous mill reis pera cal e as serventias da dita obra livres e desembarguadas".
 Convento Masculino de Nossa Senhora do Carmo
Gravura retirada do Jornal O Século, datado de 18 de julho de 1897, onde se pode observar, do lado esquerdo, o muro da cerca do Convento dos Carmelitas Descalços, em Figueiró dos Vinhos.

Ante do restauro
Convento pintado pelo Mestre Malhoa que viveu em Figueiró 50 anos

"O convento de Nossa Senhora do Carmo está localizado na Rua dos Bombeiros Voluntários, impõe-se pela sua volumetria. Fundado em 1598, a sua construção remonta a 1601, sendo o imóvel classificado de Interesse Público em 1996.Fundado por D. Pedro de Alcáçova de Vasconcelos, senhor de Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, por influência de Frei Ambrósio Mariano, destinava-se a albergar uma comunidade de Carmelitas Descalços. Sua filha, D. Ana de Vasconcelos e Meneses, e seu marido, D. Francisco de Vasconcelos, Condes de Figueiró, continuariam a sua ação de padroeiros deste convento, tendo de igual modo sido nele sepultados (SANTA ANA, Fr. Belchior de, Chronica de Carmelitas descalços, particular do Reyno de Portugal e Província de Sam Felipe, Oficina de Henrique Valente de Oliveira, Lisboa, 1657, tomo I, pp. 393-395).
Este convento nasceu na Quinta da Eireira (Figueiró dos Vinhos), pertença dos mencionados Senhores de Figueiró e Pedrógão, que Pero de Alcáçova de Vasconcelos tinha doado para tal fim. A escritura de fundação foi constituída por este e por D. Maria de Meneses, em Torres Novas, em 14 de dezembro de 1598, numa quinta de que era proprietário Jerónimo de Melo Coutinho, comendador de Punhete, irmão de D. Maria de Meneses.
Essa quinta possuía uma capela com a invocação da Senhora da Esperança, chamada de S. Lourenço, em meados do século XIX. Não chegaram aos nossos dias quaisquer vestígios desta edificação religiosa (Arquivo da Universidade de Coimbra, Capítulos da Visitação das Paróquias do Arciprestado de Alvaiázere (1823), D. III, 1.ª D, E.5, T2, N.º 13, fls. 15-16). Todavia, segundo o Padre Visitador, Frei José de Jesus Maria: «não convinha por hum Mosteiro em sitio tam afastado do povo, ao qual avia de acodir com os Sacramentos, e pregações». Para solucionar essa questão, Pero de Alcáçova de Vasconcelos adquiriu algumas casas com quintal e vinha a Francisco de Andrade, para a edificação da casa conventual junto aos seus paços, ao fundo da dita vila de Figueiró dos Vinhos. A primeira pedra do novo convento viria a ser lançada em 3 de julho de 1601 (SANTA ANA, Fr. Belchior de, Chronica de Carmelitas descalços…, op. cit., tomo I, pp. 393-395).
Nas palavras de Fr. Belchior de Santa Ana, «Figueiró estava em sitio mui agradavel, assi por gozar de bons ares, e muitas, e excelentes agoas; como por ter de pão, e azeite suficiente quantidade; de castanhas, fruitas, e vinho abundacia: e que os arredores, bem providos de pão, e azeite, darião aos Rellegiosos, que sahissem a pedir por espaço das seis legoas, que mandão as leys, o necessario para seu sustento». O convento manteve-se até 1834 ano em que foram extintas oficialmente as Ordens Religiosas no País".
O Convento possuía uma planta quadrangular envolvendo o claustro, sendo a Igreja desenhada em cruz latina. Este Templo apresenta uma frontaria aberta por galilé de três arcos, encimada por um nicho com imagem de Nossa Senhora do Carmo, janelão e óculo, rematada por uma empena triangular.
O claustro seiscentista contém uma pia de água benta de finais do século XVI. 
No seu interior, a Igreja possui uma única nave abobadada, destacando-se os seus três altares com notáveis retábulos de talha maneirista portuguesa do século XVII e com decoração marcadamente barroca, bem como duas capelas laterais. Uma instituída por Francisca Evangelha com as paredes da sua nave revestidas com azulejos raros joaninhos de produção lisboeta do século XVII, com padrões de motivos florais em azul e amarelo, sendo a parte superior de ornato tipo renascentista, com cartelas contendo as imagens de Santa Teresa de Ávila e de Santo Elias. Existe outra capela, a de S. José, do lado do Evangelho, com data de 1639 e que apresenta um retábulo de talha de barroco popular do século XVII com imagens de S. José, S. Joaquim e Santa Ana.
No pavimento do transepto, de fronte ao altar-mor, encontram-se quatro lajes sepulcrais pertencentes aos fundadores e benfeitores do Convento, D. Pedro Alcáçova e Vasconcelos, D.ª Maria de Menezes sua esposa, D. Francisco de Vasconcelos e sua esposa D.ª Ana de Vasconcelos e Menezes.
O púlpito é de escada com baluartes de madeira entalhada, existindo ainda duas pias de água benta, ambas quinhentistas. No coro pode observar-se uma delicada gradaria de madeira lavrada, em estilo rococó e com paredes laterais percorridas por bancos de pedra, com espaldar de azulejos brancos com cercadura azul.
A partir de 1625 foi o Convento destinado a Colégio das Artes, aí funcionando estudos de Filosofia, Teologia e Línguas Clássicas, tendo sido também aqui realizados vários Capítulos Provinciais da Ordem.

Outro pintor naturista conviveu com Malhoa - Manuel Henrique Pinto natural de Cacilhas falecido em Figueiró dos Vinhos em 1912.
O convento
 Pintado por Malhoa
Pescadores no Nabão
Será em Ansião na ponte da Cal?Não, é mesmo em Tomar onde o pintor dava aulas.
Apesar de no século XX, a quase totalidade desta cerca ter sido demolida para se construírem novos equipamentos concelhios; mercado, as piscinas, o polidesportivo, a biblioteca, nasceu na ala nascente do corpo sul do antigo Convento de Nossa Senhora do Carmo entre outros, constatamos, nos dias de hoje, que uma pequena parte da cerca conserva as características referidas nesta escritura, e que são a marca da passagem de Manuel Fernandes, mestre pedreiro de Braga, nesta vila de Figueiró dos Vinhos.."
"Conheceu obras de restauro em 2000, mantendo-se a função cultural tendo sido possível salvaguardar o importante espólio que encerra."
"Desde 2007, em finais de Outubro, por altura dos Santos, realiza-se no Convento do Carmo, a Feira de Doçaria Conventual certame que traz a Figueiró dos Vinhos doceiros de diversas regiões do País e que conta com um programa de animação paralelo, que engloba concertos de Música Sacra, Animação de Rua, entre outros, proporcionando assim um contacto directo com este património histórico de Figueiró dos Vinhos."
Forma interessante de chamar o turismo com a doçaria conventual, agora no convento de cara lavada, sendo remonta desta origem o Pão-de-ló, uma especialidade da terra de fama reconhecida.
Prefaciando correspondência trocada com o Padre Manuel Ventura Pinho, pároco de Ansião
"Lembro-me de quando eu estava em Figueiró dos Vinhos ter consultado muitos livros e documentos sobre mosteiros na Biblioteca da Universidade de Coimbra e na Torre do Tombo e nunca me apareceu referência a mosteiro algum em Ansião, já Figueiró dos Vinhos teve dois: um masculino e outro feminino.
A extinção das Ordens Religiosas no século XIX fez com que o património dos conventos fosse vendido ao desbarato e encontrei a Igreja do convento feminino de Figueiró dos Vinhos totalmente derrubada e a servir de cerca de galinheiro. Na altura ainda se viam alguns azulejos antigos."
Desde sempre me recordo da beleza excelsa e idílica que a paisagem a caminho da vila de Figueiró dos Vinhos, a partir de Almofala me inspirava, seja pelas águas, cameleiras ou das quintas que me deixavam a sonhar quando passava ao longo da estrada, a caminho de Castanheira de Pera ou de Pedrogão-, na rotunda da vila, no gaveto da esquerda existe uma grande casa, cujo marceneiro do telhado foi o meu sogro Fernando Coimbra de Chão de Couce, sendo mais à frente o convento do Carmo, reminiscências de memórias que o meu pai gostava, tal como eu de partilhar .
Convento Feminino de Nossa Senhora da Consolação até ao ano de 1606, usaram o orago de Nossa Senhora da Consolação, a partir daí mudaram-no para Nossa Senhora da Encarnação e posteriormente para Santa Clara. 
"O cronista Fernando da Soledade atribui a fundação a quatro mulheres moradoras na vila e que se juntaram no local chamado Fundo da vila, numas casas.
Foi a primeira casa monástica feminina de Clarissas, na região estremenha durante os séculos XVI ao XVIII com muita nomeada."
"Trata-se de um livro que será de referência para compreensão da História do período de maior riqueza artística da Estremadura portuguesa e da vila de Figueiró dos Vinhos, em particular. 
O principal objectivo deste estudo é dar a conhecer alguns aspectos relevantes da história do Mosteiro de Santa Clara de Figueiró dos Vinhos, com particular incidência sobre o seu passado artístico, valorizando a acção do escultor Leandro da Silva que, em meados do século XVII, contratualizou com os Condes de Figueiró a execução do retábulo para a capela-mor da igreja deste mosteiro feminino.
Oferece também alguns considerandos para caracterizar Figueiró nessa época, dando especial ênfase à fundação deste mosteiro e à figura incontornável de D. Ana de Vasconcelos e Meneses, Condessa de Figueiró, na história desta casa monástica.
Elucida, igualmente, as relações familiares do citado escultor com indivíduos ligados às artes, nomeadamente, à pintura e à escultura, que residiram nesta vila e aqui desenvolveram actividade artística.
Tendo sido este um edifício do período moderno de grande riqueza histórica para a vila e para a região, foi porém destruído na segunda metade do séc. XIX, pelo que o estudo das suas obras de arte, quer arquitectonicamente, quer de outra índole, ajudará a compreender e a valorizar a importância da História e do património ainda existente na região."
Fonte das Freiras
"Construída para servir o Convento de Nossa Senhora da Consolação, a Fonte das Freiras é dele o único vestígio remanescente. Embora a data aposta na moldura indique 1692, esta deve ser mais antiga, tendo desde a sua edificação sido usada pela população da vila, pela sua estratégica implantação à entrada do antigo convento. Esta fonte composta por uma cisterna quadrangular, a partir da qual se desenvolvem escadas de três degraus em forma de U, possui nas suas quatro faces cunhais de cantaria sendo encimada por um coruchéu hexagonal. Logo após um Tanque secular de uso comunitário.


" O Convento de Nossa Senhora da Consolação de Figueiró dos Vinhos era feminino, pertencia à Ordem dos Frades Menores, e à Província de Portugal da Observância. Em, 1546 ou 1549, por breve pontifício de 26 de Setembro passou a casa de Terceiras Regulares. Anteriormente, já existia como recolhimento de Terceiras Regulares (mantelatas).Foi fundado por iniciativa de D. Paulina Leitoa, familiar de D. Beatriz Leitoa que fundara o Convento dominicano de Jesus de Aveiro.O cronista Fernando da Soledade atribui a fundação a quatro senhoras, entre elas Ana de Jesus, moradoras na vila e que se juntaram numas casas, no local chamado Fundo da Vila.Até 1564, ficaram na obediência dos padres da Terceira Ordem. Em 1591, constituiu-se como comunidade de clarissas da Segunda Ordem.
Rui Mendes de Vasconcelos, fidalgo de Figueiró dos Vinhos, doou-lhes uma torre, contígua à praça da vila, e fez nela as obras necessárias de modo a acolher a comunidade que entretanto crescera significativamente. Em 1643, a 10 de Maio, na congregação realizada no Convento do Cartaxo, a Província de Portugal, decidiu dar o padroado a Ana de Vasconcelos de Meneses, mulher do conde da vila, D. Francisco de Vasconcelos e descendente do fundador Rui Mendes.
Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" foi extinto até à morte da última freira, data do encerramento definitivo. Os bens foram incorporados nos Próprios da Fazenda Nacional. 
Até 1835, existem referências documentais, desconhece-se, contudo, a data da sua extinção."
Vendido a particulares, foi transformado. Chocou-me saber que o que restou do convento feminino e da sua Igreja chegou ao século XX a servir de cerca a galinheiro, onde ainda se distinguiam azulejos antigos...Nada como fechar a crónica em deboche a pensar nos galináceos sortudos pela quão eloquente vivência em terreiro sagrado, por certo vieram a conferir ao arroz de cabidela ou galo assado, estórias com história conventual, ao jus dos créditos que ouvi desde sempre sobre as mulheres destas bandas se mostrarem mui fogosas...

FONTES
http://cm-figueirodosvinhos.pt/c/o-concelho-patrimonio-historico-e-religioso.html
http://digitarq.arquivos.pt/details?id=1375565
https://www.academia.edu/12909199/As_Madres_do_Mosteiro_de_Santa_Clara_de_Figueir%C3%B3_dos_Vinhos_-_Donas_e_Senhoras_de_huma_hora_de_agoa_todos_os_dias
Algumas fotos do Convento do Carmo, da página do face de Margarida Herdade Lucas

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