sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Falar do Zé Lopes eternizado " Zé Carates" de Ansião


Os bolos que a minha comadre Odete fez para o festejo da celebração do aniversário dos nossos netos Vicente e Laura , já na 4ª festa e agora com a família em Ansião.
O Carlos Moreira foi meu distinto colega no Banco, irmão do meu compadre Fernando quando lhe ia para oferecer queijo fresco que tinha comprado na Fábrica de Santiago da Guarda  e o deixei ficar de noite com pedrinhas de sal para lhe domar o palador, interpela-me pedindo atenção para ler uns versos  feitos por uma senhora do Mogadouro, não me soube dizer o seu nome, é familiar de alguém que mora em Ansião, quem o souber que o diga que acrescentarei com gosto.Em abono da verdade, bem antes da leitura final descobri o visado das quadras...
Vai da alta para a baixa
Dentro do seu guarda pó
Com suas grandes sandálias
Nunca despe o abrenó

Só pensa na sua vida
Não se mete com ninguém
Trabalha de noite e de dia
É escravo do que tem

É casado, não tem filhos
Nunca foi a uma festa
Tem uma vida pior
Do que um lobo na floresta

Não tem dias de descanso
Passa as horas ao balcão
Não faz descontos nenhuns
Manda mais que o patrão

Arranjou umas achegas
Lá na cobrança da luz
Onde mete ele o dinheiro
Ninguém sabe meu Jesus
Ai se ele fosse o meu tio
Eu contava-te um segredo
Que o chamasse depressa
Para junto do São Pedro

Do distrito de Leiria
É natural de Ansião
Apalpa o cu às galinhas
Sua única distração.

Quando o patrão o chama
Ele vai logo sem demora
Montado na sua bicicleta
Não passa dos  dez à hora 

Cansado de andar a dez
Passou a andar a mil
Embarcou num avião
Foi viver para o Brasil.

Pus meus defeitos à vista
Mas não te digo quem sou
"Carates" minha senhora
Ainda não adivinhou?

Conheci desde sempre o Zé Lopes, eternizado com a alcunha " Zé Carates" desconhecendo a autoria de quem lhe a pôs, e o que na realidade a mesma significa. A sua mãe irmã do meu bisavô Elias da Cruz nascida no Bairro de Santo António, bem a conheci, a tia do Alto, mulher de alta estatura cheguei a ir a sua casa sita precisamente no ponto mais alto depois do Ribeiro da Vide e antes do entroncamento para os Escampados na frontaria com o caminho o muro tinha um portelinho de madeira, a casa de pedra de sobrado em formato de "L" tinha pela frente um terreiro de terra batida onde havia um grande poço e uma frondosa figueira, o quintal fazia extrema com a fazenda dos meus pais também com o nome de "Vinha" onde quase na extrema havia grandes pereiros de peros macios raiados de vermelho, sorrateiramente os roubávamos... porque tinha sido o local escolhido para a sepultura do "Franjinhas", o caniche na década meados de 60 recebido como prenda de Natal que o meu pai foi de propósito de táxi com o Germano a Coimbra para o comprar , infelizmente ficou doente com o banho que eu e a minha irmã lhe demos, ou já viria doente (?) foi chamado o veterinário o Dr. Mateus dizendo para o meu pai que não havia nada a fazer tinha de ser abatido porque tinha pneumonia...à sua campa vínhamos assiduamente pôr flores como tínhamos visto no Jardim Zoológico em Lisboa... até ao dia de frio depois da visita à campa do "Franjinhas" levámos uns cavaquitos espalhados pela clareira para atear a lareira quando chegássemos a casa, azar, não nos livrámos de levar uma forte tareia, porque o nosso pai sabia que pereiro, era árvore que não tínhamos... o roubo para ele era coisa abominável!
O pai do "Zé Carates" conhecido por "Francisco da vinha", alcunha ganha depois de casar ao ter construído a sua casa já referida no gaveto da Fazenda da "Vinha" ( resquícios da antiga quinta de vinha do Vale do Mosteiro). Julgo que os pais eram oriundos do Marquinho, tendo vindo morar para o Canto, antigo limite da vila a sul onde lhe corre na frente da casa entrada franca para seguir viela, a rua mais estreita do concelho, apenas a entrada a nascente e a poente se mostram francas.Curiosamente a nascente a casa onde nasceu e a poente entesta com a minha casa, em tempos um barracão herança dos meus avós paternos.O Canto, assim chamado pelo rasgo da Rua Dr Domingos Botelho de Queiroz que dividiu a quinta da Maria Francisca (hoje quinta do Dr Faria), cujo marido dela era Fonseca, em que familiares "Fonseca Lopes" ficaram com esta fasquia de terreno a nascente e sul , onde moraram até ao inicio do Cimo da Rua, entre os demais a padeira, a mãe da D.Piedade Lopes e a mãe da D.Helena.
Em finais de oitecentos o rasgo da nova Rua Dr. Domingos Botelho de Queiroz para o Ribeiro da Vide permitiu que a mãe da D.Piedade construísse a sua casa, hoje o sitio a Pastelaria Ansianense conhecida por ser a primeira em Ansião do Sr.Adolfo, para anos mais tarde também o sobrinho o "Zé Carates"quando se casou veio adoçar a sua casa na  parte  da herança do pai.Na frente da estrada era da mãe da D.Helena onde veio a construir a sua casa, adoçada aos meus avós e na frente, a minha casa.
Na Rua Políbio Gomes dos Santos na casa onde nasceu uma minha bisavó o CANTO é hoje o estabelecimento do Sr.Zé Júlio seguido para poente de uma casa que foi de uma irmã da D.Piedade Lopes, hoje da sobrinha. Portanto todos família.
A minha avó Piedade Cruz recebeu de herança um quinhão da casa do Canto que ainda a conheci em ruínas onde se veio a construir o estabelecimento .
A quelha, viela ou Rua do Canto  sem placa na toponímia!
Entronca a nascente na Rua Polibio Gomes dos Santos

 A casa onde nasceu o pai do "Zé Carates"
 
Depois da casa a rua encurta cotovelo de que maneira em estreito corredor.Acima do lintel a meia lua em cerâmica, uma tradição na arquitectura ancestral.
 
 Para terminar a poente novamente mais larga na Rua Dr.Botelho de Queiroz.
O lote onde foi a casa  que tinha no r/c uma taberna do "Francisco da vinha"
Após  a casa ruir virou parque de estacionamento e poleiro de caixotes do lixo, será que o espaço  não é urbanizado, não paga IMI?
 
Falar do "Zé Carates",  primo em 2º grau do meu pai Fernando Rodrigues Valente ambos puxaram genes à alta silhueta a rondar 1,90, homem de cariz reservado, cortês e meigo, foi casado com a Ti Virgínia, mulher de muito bom trato, sem maldade, nem mal de inveja. Tanto brinquei com a minha irmã e a sobrinha Elvira do Escampado de S. Miguel na sua varanda de janelas corridas  repleta de quadros e flores e no terraço telhado, abrigado a sul. Sem filhos, mulher sofrida por sentir a falta deles, passava horas a conversar comigo à beira do muro, na altura da fruta, num tempo que dela não havia fartura, os abrunhos azuis raiados de amarelo, nem os deixávamos amadurecer, se comiam ainda amargos, sendo tão doces quando maduros...As vezes que nos emprestou o burro e a carroça na quinta feira de Ascenção para a cachopada do Bairro, onde eu com a minha irmã íamos arrumados entre os taipais, os mais atrevidos de pé com as mãos nos fueiros, acomodados com a manta e as cestas do farnel para o piquenique sem esquecer de apanhar a espiga. Não havia outra mulher igual amiga dos cachopos, uma paz d’alma, jamais conheci aquela pobre mulher zangada…já doente sem falar, a recordo debruçada no varandim da sacada vestida com o seu belo fio em oiro em malha batida e a sua medalha com a Nossa Senhora de Fátima, mas já não me conhecia...O seu marido as vezes que nos encontrou em casa nunca dele ouvi sermão, nem voz alta, no último tempo de vida falávamos mais quando o via a caminhar de muletas, disse-me que começou a trabalhar na Polícia de Segurança Pública em Lisboa, passou pela Brigada de Trânsito em Moimenta da Beira, até que o Sr. Francisco Silva do Fundo da Rua o foi buscar para trabalhar na sua loja no Fundo da Rua, onde o conheci durante anos naquele balcão corrido onde afavelmente atendia a clientela vestido de bata cinzenta, ainda tinha o suplementar serviço da contagem da eletricidade, em que todos os meses o via chegar e parar ao adro da capela onde encostava a sua companheira, a velha pasteleira. Havia um colega, julgo o Sr Pinheiro, da EDP que depois de reformados os via muito juntos. O "Zé Carates" era um homem alto e na mesma amplitude um ser simples, trabalhador, recatado, honesto, educado e diziam avarento, pois amealhou e não esbanjava sem razão, sendo claro que o dinheiro é de quem o ganha e sabe poupar. Julgo outro assim não conheci, o mesmo dos irmãos empresários a viver décadas no Brasil na cidade de Santos, o António e o Francisco, os três com o mesmo carinho pela sua terra, pelas raízes e pela família, herdeiros da casa dos pais foi deitada abaixo para a construção de chalé de arquitetura modernista onde habitualmente se deslocam anualmente para passar férias, porque tem piscina e ainda pinhal a extremar a poente com o quintal da minha irmã. A sua simpatia irradia todos que com eles convivem.Recordo o dióspireiro que havia abrigado com a parede da escadaria da casa do "Zé Carates", nos últimos anos me dava autorização para os apanhar, até que secou. Para ultimar, quando me despedi do "Zé Carates" na  última vez que foi para Santos, no Brasil, a quem aconselhei vivamente nesse sentido em não perder mais oportunidades de poder viver uma vida em melhores condições e na companhia dos seus irmãos e demais família, confidenciou-me que iam contratar uma empregada para tomar conta dele, mote que despoletou forte riso entre nós, fiquei com essa imagem retida daquele seu olhar esverdeado de alegria e malandreca disse-lhe,  " oh Sr Zé, você vai adorar, vai pensar  que doido não ter aceite ter vindo logo assim que me convidaram, as brasileiras são dóceis e  meigas com a benesse da linguagem que ajuda ao contato e a desinibir..."
No cemitério o jazigo de Francisco Lopes
Ainda me disse que tinha formado acordo com os manos, no caso de vir a falecer no Brasil a exigência de voltar a Portugal para o jazigo de família no cemitério de Ansião, onde está a esposa, a Ti Virgínia. E assim os irmãos cumpriram o seu último desejo.Deixou saudades. Todas as vezes que passo à sua porta e são muitas, saltam as lembranças destas pessoas que aqui moraram e onde vivi bons momentos  e a emoção salta em flecha... 

FONTES
Versos facultados pelo Carlos Moreira de autora dos lados do Mogadouro

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