sexta-feira, 19 de abril de 2013

Palácio da Viúva Gomes na Cova da Piedade com glicinias brancas ou cachos da índia

Vamos recuar 200 anos ao tempo e fausto da COVA DA PIEDADE
A sul do Jardim da Cova da Piedade existe um palácio unido por uma cocheira mais baixa de grande mirante em ameaça de iminente derrocada.Tentei saber mais. Disse-me um homem que a abriu no 25 de abril na força viril tudo é do povo... no resulto a vandalização de património cultural por desconhecimento dum povo inculto tanto se destruiu em Almada!
As carruagens foram compradas pelo Xavier de Limar.
Distingui o interior da cocheira através da grade do portão com os restos de estuque marmoreado com pias grandes rectangulares de bordos redondos em lioz  digna de um palácio que se liga ao chalet estilo suíço que foi de um familiar do dono do palácio.
O chalet do arquitecto Ribeiro Telles foi adquirido pela Câmara .
O telhado da cocheira em desanda...
Através da grade da porta distingui ao fundo buracos no teto  que deixam os raios de sol entrar sem pedir licença para embelezar tão triste ruína...
Apesar de desalenta imagem consegui apreciar beleza  fosse das pedras, do estuque e até do móvel escaqueirado ao meio...
Entretanto o mirante não resistiu e caiu...
Impressionante o mirante caiu de pé e assim permanece...
Veja-se no tardoz a parede e os estuques pintados - fotos de 9.jan 2014
Obras de canalização na parede de lado deixou a pia  deslocada depois da 1ª vez que abordei esta temática
António José Gomes
O industrial que mandou construir o palácio no século XIX . Homem rico e esclarecido industrial amante das inovações tecnológicas que trazia das suas viagens à Europa.
A obra arquitectónica apresenta pormenores construtivos -, no alto da sua fachada neoclássica destaca-se uma estátua de uma mulher com um martelo na mão e uma roda dentada por trás de si, uma clara alusão à indústria moageira , actividade que ocupava o proprietário. As varandas em ferro forjado são outra marca da revolução industrial. O estilo Arte Nova é o novo movimento estético que se caracteriza, ao nível da construção e decoração, pelo uso de novos materiais, entre os quais o metal. O portão lateral do palácio, o gradeamento do jardim e a escada espiralada nas traseiras do edifício são testemunhos deste novo estilo, merecendo um olhar atento.
As duas estátuas entre as duas chaminés
Funciona no palácio a SFUAP após o incêndio na sua sede na curva da estrada para as Barrocas.
Não sei de quem é pertença o imóvel. Apesar de ocupado está a deteriorar-se, a meu ver mal empregue para este tipo de atividade (?).  Deveria ter outra finalidade mais adequada à sua grandeza e riqueza do interior a deteriorar-se nas pinturas e exteriores em quase total abandono.
Após o 25 de abril neste Palácio da Viúva Gomes como ficou na história conhecido abriu uma Clínica para atendimento da população onde também se faziam abortos, recordo a faixa da frontaria que assim o ditava.
A fazer jus ao benemérito António José Gomes que se destacou não só pela aposta em novas tecnologias mas também pela sua humanidade, ganhando aqui fama por dar assistência médica e apoio na doença aos seus trabalhadores, medidas vanguardistas para a época cuja população beneficiou com a sua acção benemérita no melhoramento das ruas e do jardim ainda apostou numa escola para adultos, edificou uma primária, fez a doação de livros e roupa para os mais novos, alguns dos actos por que ainda hoje é recordado.
As pessoas atendidas na clínica diziam muito bem do serviço, assim o atestou uma senhora lindíssima que passava defronte quanto fotografava - apreciávamos a glicinia branca , confidenciou-me ter caído num buraco sendo ali assistida devidamente.
O busto do benemérito está patente num pedestal no Jardim defronte do Palácio.
Ao tempo o único habitante que tinha um automóvel na Cova da Piedade um Rolls Royce.
E telefone.
O primeiro a ter as novidades como a electricidade.
Um homem de grande visão, pergunto e descendência? Acaso não teve ? Não entendo a te-la não se terem interessado no património de família (?) para o palácio ter chegado aos nossos dias em quase total abandono tendo sido de gente tão endinheirada com belo património de beleza romântica não merecia ter este fim !


No entanto é fácil constatar que a Quinta no tardoz foi há anos urbanizada com lotes para prédios sendo encimados pela Escola Secundária E.B.2/3 Comandante Conceição e Silva podendo a nora ser observada do exterior porque ficou dentro do seu perímetro. Mais abaixo há outro engenho menor.
A Câmara executou um semi anfiteatro junto ao que resta da adega da quinta .
Aqui e ali alguns esqueletos de casario com muito interesse que mereciam recuperação.
Pergunta-se o que pensam fazer do local?Um gatil com pinturas Picasso já lá mora!
Os gatos!



As pinturas, artista(s ) desconhecido?

Na frente do chalet  a calçada em mosaico preto e branco mostra algumas reminiscências. Já em frente do palácio a calçada  em calcário a duas cores, a chamada   calçada à portuguesa, na frontaria é magnífica  como a foto elucida e em redor dos jardins também existe.
Apesar de ser da mesma época, o chalet é uma típica casa suíça de estilo romântico com telhados em bico, próprio dos países nórdicos. O chalet foi adquirido pela autarquia será brevemente transformado na Casa do Professor, ao que parece os quartos são pequenos... Por a achar deliciosamente bela para ser dedicada a esta profissão especial (?) em detrimento de outras igualmente bonitas e de interesse que foram o ganha pão na Cova da Piedade...sendo em abono da verdade que todas as profissões são dignas de mérito na menção de terem a sua casa, ou não? Se não lhe acodem, acaba por se perder e é pena! 
Felizmente a cãmara deu-lhe a mão está em recuperação em 2017/8.
Tirei esta foto através da grade da porta, mostra a entrada interior do Chalet
Novembro de 2018 a reabilitação!

Garagem
Doada à Fundação do Padre Ricardo pela câmara . Ouvi dizer que tem de fazer uma ligação pedonal para norte.
 
Edifício romântico para garagem do Rolls Royce com fosso para reparações. O primeiro automóvel na Cova da Piedade.Os azulejos estão a cair da fachada, pelo chão há vestígios, alguns esperam melhor hora em cima de um muro ...a vontade que tive de os trazer!
Faixas de azulejos em iminente derrocada
 
Clube Recreativo Piedense
O Clube Recreativo Piedense de cara lavada na cor verde água  .
 
Pormenores de remate em faiança no telhado do Clube de paredes meias com o palácio.
Adega da quinta de António José Gomes
Neste edifício com o portão “enferrujado” funcionou a Fábrica Bucknall e Sons com 821 trabalhadores onde se produziam rolhas e aglomerados de cortiça.
               A casa do gerador
Foto para a posterioridade. Entretanto em 2016 caiu parte. Também doada à Fundação do Padre Ricardo pela câmara.A casa dos geradores, Veja-se o telhado com janelas ventiladoras a lembrar a China e as fábricas.
Pormenor do candeeiro público na quina redonda do edifício e do algeroz no outro
Disperso algum casario emblemático de cariz muito romântico...
 
Nora em Ferro
Encomendada por António José Gomes e montada na Quinta situada nas traseiras do Palácio pela firma Arcelos e Filhos com o fim de abastecer de água a propriedade.
Peça classificada com valor concelhio pelo Instituto Português do Património Cultural, devido à originalidade do desenho, atribuído a Eifell (Séc. XIX) razão pela qual é considerada património municipal, constitui um exemplo da prodigalidade e elegância com que a tecnologia do ferro é introduzida na arquitectura.
Trata-se de uma de duas noras que abasteciam de água a Quinta de António José Gomes.
A outra nora sita na traseira do palácio vista em duas perspectivas, mais antiga e a água era puxada por tração animal.Nesta terra durante muito tempo houve falta de água potável, aparecia salinada . As pessoas guardavam a urina em potes cerâmicos para regar a raiz das plantas hortícolas, porque tem azoto. Não se estragava nada.
Tardoz do palácio com escada em metal em caracol
 
Frontaria do palácio
Entrada do jardim no tardoz do palácio também com passeio de calçada igual à frontaria
 
Este grande homem mandou construir a Fábrica de Moagem do Caramujo.A primeira obra em betão armado em Portugal, uma novidade que trouxe da Europa. Hoje é da Câmara. Empregava 160 operários, usava a máquina a vapor e produzia 15 000 Kg de farinha por dia. Hoje o espaço juntamente com o bairro de casinhas de paredes meias dos operários durante anos fez-me lembrar o Faroeste...muito abandonado...muita ruína onde um dia houve fausto! Está em rejuvenescimento a Romeira desde finais de 2017 com armazéns recuperados e um mercado a imitar o da Ribeira em Lisboa.
O coreto evoca a Batalha da Cova da Piedade (1833)
Toponímia dada à Avª 23 de julho que liga a Cova da Piedade ao Laranjeiro.
Depois de uma caminhada a pé desde o Algarve, os Liberais enfrentaram os Miguelistas nesta freguesia em lamaçal , dizem apesar da desvantagem numérica os apoiantes de D. Pedro ganharam esta luta , porque o povo os ajudou a livrarem-se da lama, pois nela sabiam andar.O líder dos miguelistas dizem foi enterrado vivo com um braço de fora. Os outrops refugiaram-se no castelo e no dia seguinte embarcaram em Cacilhas para Lisboa, por isso na capital deu-se a derradeira vitória dos Liberais no dia seguinte que ditou a Avª 24 de julho em Lisboa.
Os nomes das avenidas 23 de Julho (Cova da Piedade) e 24 de Julho (Lisboa) assinalam exactamente o percurso da vitória liberal.
Os arabescos do coreto em ferro forjado imitam renda finíssima que alguém teceu na dureza do metal.
Belo trabalho característico da Arquitectura do Ferro do século XIX.
A principal Praça de visitas da Cova da Piedade era um terreno insalubre nas imediações de um esteiro do rio Tejo -, o esteiro da Mutela. Conquistada às águas por assoreamento e secagem tornando-se um terreiro onde no Séc. XVIII se realizavam touradas, após a batalha aqui travada entre Liberais e Miguelistas decidiram fazer um Jardim público.
 
Deixei o palácio com vontade de comer nêsperas tão amarelinhas em abril...
Remato com o ditado popular que me foi transmitido por uma vizinha de Torres Vedras aqui a morar há 60 anos numa conversa trivial sobre heranças disse-me...
«Na arca está guardado um tostão e as pessoas julgam que é um milhão!»

No muro da escola um mural em graffits
Arte moderna!

Coimbra nas minhas memórias do 1º de maio de 74

O Externato António Soares Barbosa em Ansião foi instalado no Solar, onde viveu o Conselheiro António José da Silva -, apesar de António Soares Barbosa , ilustre ansianense ligado à filosofia das Luzes e à Universidade de Coimbra, ter sido a escolha para o nome. Estreei-me na primeira excursão efetuada à Serra da Estrela no dia 2 de maio de 74 com os Professores: Dr. Cardoso...homem de matemática -, carinhosamente chamava alguns alunos " de cavalgadura" e a esposa a Dra. Mané. 
Quem sabe por influência da liberdade, ou somente coincidência aconteceu o passeio! 
Passados escassos dias do 25 de abril, vesti saia e sapatos abertos de lado em cabedal de cor preta com fivelinhas, no tempo ainda não se usavam calças. Na Torre alguém improvisou escorregas com plásticos, os sapatos queimaram com o gelo. Gostei muito da Lagoa comprida, de ter visto pela primeira vez neve, do silêncio serrano, da Cabeça da Velha, dos rebanhos, pastores e cães da serra andantes na sua transumância por terras altas. 
Adorei a aldeia do Sabugueiro talvez por me fazer lembrar a aldeia com o mesmo nome onde morava na altura o príncipe pelo Alentejo… 
Não sei onde guardo um postal que foi rasgado, depois colado com mensagens dos colegas na excursão comprado em Viseu. 
Sondei a minha mãe para na véspera por ser feriado irmos a Coimbra no carro comprar salgados e bolos para levar de farnel. 
Comemorava-se pela primeira vez em Portugal o 1º de maio o Dia do Trabalhador. 
Mal chegadas à Praça de visitas da cidade no redol da cerca de ferro forjado da estátua do ilustre Conimbricense Joaquim António de Aguiar popularmente conhecido como o “ Mata Frades” por ter sido o responsável pelo decreto-lei que extinguiu as ordens religiosas em Portugal, reparei que os ranúnculos tinham sido arrancados o que me deixou pasmada, sempre o conhecera arranjado e muito florido. 
Nisto interrogava-me que liberdade era aquela que se apregoava! 
Na minha cabeça pairavam tantas dúvidas só via pessoas que falavam e gritavam, papéis no chão num descalabro brutal que jamais tinha visto na minha cidade onde nasci, ao longe ouviam-se lemas reivindicativos do povo oprimido sem “eira nem beira”...” A terra a quem a trabalha” “ abaixo os latifundiários” “ viva a classe operária” “fascismo nunca mais” “ abaixo o fascismo” ” viva o proletariado” “ viva o MFA” “ viva o 25 de abril”… Nada ou pouco havia para comprar...viemos de mãos vazias com a ideia de parar em Condeixa...mas do mesmo nada! 
Em Coimbra quisemos atestar o depósito nas Bombas na saída, por estar racionado tivemos de implorar...às escondidas elas traseiras conseguimos um garrafão com uns litros. 
Finalmente tinha acabado a censura com o regime deposto num ganho maior do direito à liberdade. Uma nova vida que permitiu uma abertura nunca antes vista numa mudança total de conceitos e atitudes -, também de exageros visível na falta de respeito uns pelos outros apesar das melhorias substanciais no ensino para todos, gratuito, com introdução da escolaridade mínima obrigatória. 
O País atrasado abriu-se finalmente para o mundo, para o fenómeno da globalização com o regresso inesperado dos retornados das ex-colónias. Foram repatriados milhares de pessoas de tantas cores... e com ideias modernas de abertura social inovadora para a época em controvérsia com a nossa conservadora e muito fechada, nas atitudes e formas de estar nunca dantes vistas como o simples beijo na boca, a moda de tomar duche todos os dias, nós por cá só só tomávamos banho uma vez por semana, muitos nem sabiam o que isso era... outros uma vez por ano no Agroal...então não levavam o sabão! 
Foram estas pessoas que nos demonstraram saber viver em liberdade, nós até ali vivíamos uma vida cheia de conceitos antiquados ! 
Fácil foi criar estereótipos por atitudes e hábitos arraigados da maioria de nós -, uma maioria teimou em viver integrada, adaptando-se às circunstâncias da própria circunstancia -, ainda alguns se instalaram sem contudo se integrar, pior foram outros morrerem sem ter aceite a perda dos bens, e das saudades do sol quente da savana da sua amada África...onde apesar de muito trabalho tinham sido felizes! 
Na década de 60 já tinha assistido à saída de pessoas à procura de melhores condições de vida no estrangeiro nas célebres “fugas a salto” com ajuda de “passadores” na fronteira espanhola -,perdidos por trilhos de contrabandistas andavam dias pelos montes a fugir da guarda-fiscal a caminho de França.
Acabado o fascismo a saída para a emigração passou a ser legal -, alguns milhares rumaram a novos Países da Europa e do Mundo, alguns retornados também. 
Da liberdade de arrancar os ranúnculos do jardim, dos papéis pelo chão e da gritaria não gostei! 
Acalmei a raiva a pensar na loiça "ratinha"...

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