Excerto publicado no Jornal Serras de Ansião julho de 2026
Fonte dos peregrinos
Claustro

Um salão
Piscina

Trilho da Horta da Levada feita pelos frades
Forno da casa do ermita
Capela de Nossa Senhora do Monte onde termina o trilho
Palco dos meus 69 anos: reencontrar a proto- história que liga a Ladeia ao alto Alentejo, raiz profunda onde Ansião se inscreve no coração. A encontro âmago às coisas que amo.
Presente da minha filha, a estadia no Convento de São Paulo, no Redondo. Envolto numa cerca de 600 hectares, no sopé poente, abrigado, com água. Promove a chegada o aroma floral ao som da água da bica, eco a peregrinos que ali matavam a sede. A receção na ala lateral, um salão de austeridade clerical. O adeus, a pedido, a toque do sino — cerimonial.
A história começa em 1376, com Mem Gomes de Seabra, com a Casa dos Pobres de Nosso Senhor Jesus Cristo . Em 1536 acolheu a Ordem de Santo Agostinho. Em 1577 pernoitou aqui D. Sebastião antes de partir para África. Em 1578 nasceu a Ordem de São Paulo e o convento. Em 1669 passou D. Catarina de Bragança, vinda de Londres, após a morte do rei Carlos II. Agora, outros — e também eu.
Não dormi numa cela, mas na Casa do Cruzeiro. O pequeno almoço refastelado no antigo refeitório dos frades — seriam magros e baixos, pela porta minúscula, a brilho dos azulejos quinhentistas. Ampliado para sul no séc. XVIII, alas de corredores largos em tijoleira. Os silhares azul e branco contam a vida do fundador ermita, com um belo relógio de sol em mármore branco. Igreja, capelas e recantos soalheiros, com conchas e fontes — onde o mármore de Estremoz é rei — quadro bucólico de paz, desafia o verde. Duas piscinas a redor de arvoredo secular: araucária gigante, laranjeiras, nespereiras, palmeiras e olival em socalcos, a salpico de talhas e ovelhas de chocalho ao vento.
O costado sul, junto da ribeira, primou arroteio em leirões para hortas com regadio por levada e nora. Prima o trilho, o xisto , canteiros em pousio e a ribeira envolta em silvedo . Entre silêncios, chilreios e borboletas, a subida dos passadiços, até à antiga ermida de S. Gens — Senhora do Monte — do século XV, com a casa do eremita, a mina e o tanque. Lajes descomunais aguçadas e voltadas ao céu, dão colo ao cemitério. A redor os costados com rasgos de alto a baixo, nus , faixas de 10 metros — o corta fogo certo.
Após a expulsão das ordens em 1834, nasceu a aldeia Nova da Serra, junto à ribeira, dali se mudou para a beira da estrada, pelo casario de platibanda datado de 1900. Senti o caminho antigo que ligava castros e sítios megalíticos. Turistas americanos na anta da Candieira, um dos monumentos fúnebres mais estudados da região — encanto mítico que o alto Alentejo guarda riqueza imensa.
Respirei Juromenha. Acenei a Olivença. Almocei à farta no Zé do Alto, no Alandroal. Calor abrasador em Borba. Em Estremoz burlada num mini mercado, paguei por 33 cl de água, um euro. Afronta na desforra na feira num alguidar à laia de lava loiça. Vila Viçosa cresceu tanto que não encontrei o palácio — mas vi o castelo, que nem sabia existir.
Pesquisa a fecho d' oiro das rotas peregrinas pagãs e da arquitetura pétrea da Ladeia e ao megalitismo do Alto Alentejo e a relação à rica obra do ermita São Paulo na serra de Ossa, contra dois ermitas em 700, a viver em Ansião, sem obra que se saiba.

































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