sexta-feira, 20 de abril de 2018

Moinho d'água de Além da Ponte em Ansião

Nesta última estada por Ansião em véspera despedida o dia mostrava-se radiante pelo que convidei o meu marido para uma caminhada a ver águas do Nabão onde descaradamente me sentei num dos bancos da Ponte da Cal para saborear o tempo que era palco de casais de namorados , em lamento jamais ter sido meu e disso tenho pena, pois com água o cenário mostra-se de extraordinária beleza. 
Lançado o mote em seguir para norte apesar de não saber se havia ligação nos caminhos para o Nabão depois da quinta de Além da Ponte, onde encontrámos o nosso bom amigo "Chico Serra" do Escampado de Belchior que arrumava a ceifeira, trocámos conversa até que a filha nos adverte e bem que ainda tinha de ir para a catequese...Cortámos à casa que foi do alfaiate, pai da Irene e do Fernando, ainda me lembro dele a trabalhar no r/c de grande tesoura na mão e reparei noutra casa que lhe está adoçada mais pequena, muito bem restaurada com a pedra viva à vista em brutal contraste com um casario de imensurável dimensão que se avista ao fundo do caminho, chegando perto mostrava-se de linha direita sem modernidade na estranha ligação com uma parte antiga sem saber que arquitecto lhe destinou o traço em as unir,  a norte e a nascente, e ainda pela cobertura de betão armado a imitar pála do telhado. Seja plausível dizer que o arquitecto da câmara para aprovar o projecto de construção e ampliação aqui teve de vir e não se deu conta ou deu, sem bom senso em ajuizar o contraste sem harmonia nem graça com a  modernidade a colidir com o antigo, que o abafa, lhe retira identidade e sobretudo brilho, e ainda pela nova passagem de serventia larga a poente a mosaicos de cimento...Um desatino!
O que me pareceu estranho foi a impuridade  em abarcar o que  foi um solar do século XVII não o dignificando na sua ancestralidade com a contemporaneidade, e bem podiam conviver em ambiente intemporal.Confesso me deixei ficar sem fôlego indignada pela atrocidade a que este belo exemplar da arquitectura ansianense, do pouco que ainda resta do seu património dum passado rico, a que foi votado. Solar de sobrado sito ao gaveto do antigo caminho com orientação poente/sul  com duas frontarias e duas portas em cujos lintéis existem inscrições, uma não consegui deslindar e noutra pareceu-se ser a data de 1676 (?), cujos líquenes depois de limpas  será mais fácil decifrar.  A sul com balcão com varandim fechado por duas belas lajes inteiras em esplendor  que suportaria o telheiro (que já não existe) por duas colunatas em pedra com escadaria. O que destoa? As estruturas novas que lhe foram acrescentadas; a pala em cimento armado e as colunas que o suportam e ainda para nascente a continuação da ampliação da construção. Ainda assim não se perde tudo. Defronte fizeram uma fila de garagens.
Desconheço a finalidade do projecto se apenas contempla casa de habitação ou para turismo (?).
Na realidade há solares desta época no Alentejo e nas Beiras que tem vindo a ser intervencionados e bem com adaptação de novas estruturas modernas para fins turísticos sem colidirem, antes existe harmonia e graciosidade, em completo contraste com o que aqui senti pela tamanha grandeza corrida de fachada  austera pode desditar não seja para essa utilidade e apenas a de habitação (?).
Em repto lamento omitir opinião, desconhecendo o actual proprietário do imóvel. No meu tempo a família "Pires" da Sarzedela além da grande propriedade, era o moleiro. Limitei-me do caminho a observar, porque aprecio a pedra e a arquitectura do passado, a que sou involuntariamente afoita em fotografar no dever de cidadania, porque todo e qualquer património arquitectónico do passado de Ansião deve merecer maior reconhecimento e ser valorizado no dever que todos se deviam incumbir em proteger e salvaguardar quando herdado ou comprado porque encerra história com estórias sobre o passado de Ansião.

Solar do século XVII
Um dos poucos exemplares de solar com balcão e varanda alpendrada, típico da construção medieval que na Beira Baixa em Medelim, o povo ainda conserva mais de 200 em actividade, para em Ansião se contarem pelos dedos das mãos...Deixo o alerta para além do conhecimento não se descuidarem com a sua preservação e não mais se permita que sejam continuadamente demolidos, alguns por força do alargamento de estradas.Há que estar atento e haver consciência em defender o património!
Visível a placa em cimento armado da cobertura e a coluna na frente de suporte
Que família do passado de Ansião foi a donatária desta casa e quinta que se abrange até ao Nabão?
Na verdade a minha ideia de aqui vir ocorreu-me depois de ter lido no Livro Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas uma Informação do Concelho de Ansião dada pelo seu juiz, Manuel Rodrigues em 1721  "Capela que instituiu Joana Baustista do Moinho d'Além da Ponte termo desta vila feira a dita instituição aos 13 de setembro de 1696 annos; he possuidor e administrador della Manoel Matheus do mesmo termo; manda dizer quatro missas cad'hum anno."Este excerto revela que em 1696 Manoel Matheus era possuidor e administrador da capela mandada instituir por Joana Baustista.  Não tenho dados se os focados eram marido e mulher. Podiam ter sido, na possibilidade dele ter ficado viúvo ficou dono e administrador da capela, o que explica  a data do lintel da casa virado a sul de 1676 (?), ser a data da institualização da capela pela mulher. Hipótese a investigar se é verdade, que  me parece verossímil de afirmar!
Onde teria sido instituída a capela do Moinho de Além da Ponte? Uma possibilidade tenha sido aqui atendendo à graciosidade da colocação das das pedras que descem da janela até ao lintel da porta com a inscrição. Contudo não vi na frontaria nenhuma Cruz  porque acima o solar foi interceptado após a cimalha pela nova cobertura. A não ter sido aqui a Capela se possa aventar tenha sido inserida  no Moinho, no que dele resta ou na parte desmoronada. Há ainda outra hipótese, que os donos por conhecer o local antes de ter sido intervencionado tem o dever de reconhecer se no local da casa nova ou no das garagens havia alguma estrutura que possam arquitectar tenha sido uma capela.
Janelas de avental com pedras a ladear para os vasos
Frontaria a poente

Data de 1056 ? Não creio, contudo o algarismo "0" se mostra bem visível.Merece um olhar atento depois de limpa a pedra para ser decifrado com veracidade.
O que resta do Moinho de Além d'Ponte
 
 Visão de nascente sobre o Moinho de Além d'Ponte seguido do casario da casa nova e da velha
Adorei constatar a ribeira da Mata de leito de boa água corrente e  transparente vinda da Fonte Carvalho depois de passar pela Ribeira do Açor, beijar a Constantina para aqui a caminho de se espraiar no Porto Largo, a caminho da foz no Nabão que por aqui nas hortas ainda é  menino...

O que resta do caneiro ou levada para o Moinho
Desde o século XVII que Ansião assistiu a um numero elevado de moinhos de água e lagares. Em 1359 houve uma contenda com os almocatés sobre os pesos e as medidas que se encontra arquivada na Torre do Tombo, o que nota nesta época a grande laboração destes engenhos.
Descortinei parte da levada , o ribeiro artificial, que alimentava o Moinho d'Além da Ponte em virtude do IC8  e da abertura do caminho a norte  que lhe fica paralelo a ter deixado estrangulada. Julgo que antigamente chamavam a estes ribeiros artificiais , herança dos mouros em desviar a água da ribeira para os moinhos, se porventura lhes davam o nome de  levadas (?).
Excerto de https://historiasdeportugalemarrocos.com/2014/02/22/a-conquista-de-ceuta/«A conquista de Ceuta em 1415 marca o início da expansão portuguesa em África e tem fortes motivações económicas e de estratégia local. A importância da cidade é confirmada por Al-Hassan Al-Wazzan Al-Fasi, conhecido como Leão “o Africano”, que afirma na sua obra “Descrição de África” que Ceuta tinha 1.000 mesquitas, 360 casas de viajantes, 22 casas de banhos públicos e 103 moinhos.» Sem se saber se antes do êxodo dos judeus de 1492, já aqui haviam alguns, seja provável que a herança seja atribuída aos mouros a que eles deram continuidade na região quando aqui  aportaram na centúria de 500.

Apesar da vegetação onde a água da levada entrava no Moinho de Além da Ponte.
Reti o olhar entre a farta vegetação na jaz hirta  Mó - seria a delgada, por ser fina...Tanto património em aparente abandono que devia merecer mérito para vir a ser apreciado pelas pessoas nas suas caminhadas. Arte ancestral de séculos nesta terra que as crianças deviam ter compromisso de aprender e respeitar o que foi o seu rico passado na vantagem em produzir riqueza com o aproveitamento da água quando a havia, para fazer mover os moinhos e os lagares, por vezes a mesma levada dava para mais do que um moinho. 
Durante séculos o caminho de ligação de Ansião à Constantina,  Lagarteira  e Torre de Vale Todos, se faria por aqui, para apenas no século XX ter sido aberta uma estrada no Moinho das Moitas que  hoje se encontra cortada por via do IC8.

FONTES
Livro Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas Mário Rui Simões Rodrigues e de Saul António Gomes
https://historiasdeportugalemarrocos.com/2014/02/22/a-conquista-de-ceuta

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