domingo, 10 de maio de 2026

Memórias do 25 de Abril de 1974 sem abolição do machismo

Excerto publicado na crónica do Jornal Serras de Ansião em maio de 2026


Quinta-feira apresentava-se um dia normal na jornada estudantil no Externato António Soares Barbosa de Ansião, até à chegada da Praça do Município, onde avistei professores, alunos e a contínua Maria Nena, ao portelinho do recreio, e a parede da sirene dos Paços do Concelho grafitada a preto, em letras garrafais – Abaixo o Fascismo, e defronte na barbearia – Bufo da Pide. 

Paços do Concelho de Ansião


De esquina onde foi a barbearia  do Sr. Júlio Freire de Albarrol


Obra do 25 de abril o mamarracho de varandas, inestético, descontextualizado na arquitetura do centro histórico de Ansião

Demolido o solar onde funcionou o Externato, e a parte sul do recreio foi rasgada uma avenida para a Mata Municipal.
O prédio deu  ganhos a emergentes do PSD... 
Muitos anos mais tarde foi colocada na lateral do  edifício, a sul, um painel azulejar com a foto do solar, para não se perderem as memorias, e na frente outro painel maior com os nomes dos seus fundadores, debalde, acabou por ser retirado para serem feitos os sanitários públicos. Culpa à falta de literacia cultural  no sumiço do painel, quiçá  guardado ou destruído, quando devia ter sido decisão a sua recolocação, por  enunciar  os pioneiros da fundação do Externato.

Na chegança ao ajuntamento junto da tasca da "Ti Augusta do Tarouca” de braços cruzados, nada entendi sobre o que balbuciavam sobre uma revolução em Lisboa .

A primeira mudança sentida no Externato com a Revolução do 25 de abril de 74,  foi liberdade de raparigas e rapazes poderem estar juntos no mesmo recreio, até ali diferenciado perante o olhar repreensivo da contínua Maria Neno, passou a se escudar de ordens repreensivas !

Naquele entretanto abria o comércio, de véspera, tinha acertado iniciar a arte do crochet com a minha prima Isaurinda Lucas, mal abriu a loja do Sr. Alberto Pires, onde me dirigi para comprar linha e uma agulha. Aprendera a fazer cordão no Colégio Religioso as Salesianas no Monte Estoril, nas tardes de sábado, a obrigação de trabalhos na sala de costura, sentadas em cadeirinhas, umas faziam crochet, outras artesanato com ráfia ou fio plástico, outras passavam a ferro e outras na máquina a costurar. Como não gosto de regras , não passei do aprendizado do cordão, no final do ano trouxe um saco enorme  de cordão  matizado ... 

A revolução do 25 de abril de 1974 aconteceu a dias de celebrar dezasseis anos, desconhecia o regime político que vigorava em Portugal , só sabia da instauração da República em 1910. Portanto nada sobre golpe militar de 28 de maio de 1926 que daria início à Ditadura Militar que culminou no regime do Estado Novo de cariz ditatorial, com Oliveira Salazar no governo, Estabilizado com a aprovação da Constituição de 1933 que se manteve até ao 25 de abril de 1974,  derrubado num golpe também militar premeditado por alguns militares saídos do quartel de Santarém, rumo a Lisboa.

Só ao almoço, em casa o deslumbramento pela transmissão em direto na TV, do Largo do Carmo. Onde se concentrou uma multidão acotovelada com tanques e soldados defronte do quartel da GNR com jovens empoleirados nas árvores e na fonte. Estupefatos com a audácia e coragem do homem de estatura baixa e grande fibra, capitão Salgueiro Maia, armado de megafone, sem medo da morte pedia ao presidente do Conselho Dr. Marcelo Caetano: se não aceita o exílio abro fogo... ao fim de algumas horas o refugiado aceitou a resignação, e partiu para o Brasil. 

A TV dava informação do esquema montado pelos militares  das senhas  na Emissora Nacional com as canções - Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho e Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso, para iniciar a revolução, sendo sancionada a canção "Venham mais cinco" .E dos desfiles de tanques com militares de cravos vermelhos enfiados nas metralhadoras...Segundo consta uma governanta vinda do mercado com um ramo de cravos, ao se encontrar na rua com a revolução,  reagiu ao impulso de enfiar um cravo numa  metralhadora, gesto de apelo à paz,  numa revolução sem derrame de sangue…desta forma tão simples nasceu o símbolo da revolução dos cravos vermelhos do 25 de abril de 1974!

Em abono da verdade o ingénuo julgar jus a desconforto  à laia do perdido império aquém e além-mar, por mares nunca dantes navegados e do estreito de Ormuz. Acrescia a parca cultura, o telejornal, a preto e branco, com reportagens de mortos e mutilados  despedaçados pelas minas, a destruição de aldeias, povos na miséria, fome, crianças desidratados e prisioneiros, da guerra do Biafra e do Vietname. Pelo Natal, os soldados do Ultramar em fila indiana ao microfone enviavam votos de prosperidades, dito por alguns propriedades... Do fascismo nada sabia,  palavra nesse dia enxergada  pela primeira vez. Nascida no seio de uma família que a custo de árduo trabalho já estudou, funcionários públicos, criada e mordomias; peixe fresco, roupa dos armazéns do norte e passeios. A proporcionar quer a mim como à minha irmã boas condições de vida em relação à maioria, que vivia com dificuldades. Sem autorização de brincar na rua, a fuga acontecia por rebeldia, assim como a audácia de trazer cachopos para verem  TV e lanchar, até que desapareceu da cozinha uma libra de oiro, quiçá confundida por moeda ... Os reutilizadores de roupa e pastas de cabedal, no adeus à  sacola de chita. Incitou rebusco  aos bolsos do casaco do meu pai para lhes ofertar  cadernos de 5$00, pelo uso de cinco tostões como lhes paguei o rádio escolar ao Prof. Albino Simões, sem jamais um obrigado! 

Santa ignorância sem nada saber sobre a ditadura? Até me lembrar de tempos idos numas eleições nos anos 60, do séc. XX, em que o meu pai se recusava ir votar, e a súplica da  minha mãe quase de joelhos a implorar Fernando tens de votar pelas nossas filhas, queres ser preso…resignado votou contrariado! 

Desconhecia a razão da  Pide , a rede de informadores no País que aprisionou  lutadores contra a  ditadura, presos e torturados na prisão de Caxias, Peniche e, Tarrafal, em Cabo Verde, onde muitos morreram no degredo como Bento Gonçalves ... 
O País mudou com o 25 de abril de 1974!
A Pide foi derrubada por Spínola, não se queria render, à pressa destruiu arquivos e de metralhadoras nas mãos repostaram para quem se insurgia clamando na rua, morreram cidadãos jovens, promissores, e um elemento da Pide, que saíra à socapa, de seu nome Lage, quiçá carisma diferente aos demais, e da inspetora  Leninha, víbora, enxertada em corno de cabra, desumana e má, uma fera terrível. 
As instalações foram supervisionadas pela Marinha, onde esteve um amigo meu do Murtal, Alvaiázere, que se ofereceu durante uma semana nos serviços administrativos, dizia que um dia apareceu uma senhora de idade, num Mercedes, que lhes ofereceu boas sandes e muitas de leitão...

O Povo com o 25 de abril sentia ter o Poder, finalmente livre, era o fim ao obscurantismo  e aos poucos o derrube de  preconceitos. A torto e a direito foram feitas nacionalizações de grandes empresas e herdades no Alentejo. Chegaram magotes de retornados das ex províncias ultramarinas com ideias modernas jamais vistas... A facilidade de se dar um beijo na boca , como assisti um casal  no recreio da escola de Pombal ... E engates no trajeto da carreira para Pombal no recanto do sopé da Gruta do Calaias,   e  ex  polícias da PIDE no regresso a Ansião, olhados de lado , alcunhados o pide...

Graças à capacidade de questionar porquês, o entendimento do que foram 48 anos de tortura e falta de liberdade em que Portugal mergulhara  com o fascismo,  sem  progresso, povo massacrado, sem oportunidades de emprego no interior, apenas a agricultura,  silvicultura e serviços camarários, provocou um êxodo rural depois da segunda guerra mundial rumo ao litoral.  A população vivia em extrema pobreza, os cachopos picavam com um garfo de ferro da malga ou bacia de faiança, o aferventado de couves ou nabos com feijão frade,  sem ver conduto, a ressalto perguntavam às mães que lhes respondia estar no fundo da bacia - galo ou peixe, mas pintado!
O repasto alternado com sopa, a tranca da barriga, e meia sardinha , só nos dias de festa se matava o galo ou um coelho. Graças à sapiência da economia do lar herdada das guardiãs avoengas, sobreviviam com a venda ao intermediário dos ovos e queijos produzidos semanalmente  para comprar na mercearia bacalhau ou raia, açúcar, café de cevada, arroz, massa e petróleo para o candeeiro. Só no dia do trabalhador se comia queijo em casa. Viviam sem quaisquer condições, chegavam a dormir na mesma cama de ferro quatro, dois à cabeceira e  dois aos pés, sem água canalizada, enchiam cântaros nos poços, fontes e minas, sem casa de banho, poucas retretes de madeira, uma maioria fazia as necessidades a céu aberto “ao Deus dará” debaixo de uma árvore e limpava-se com um telho, pedra ou verdura… sem rede de eletricidade, iluminavam a penumbra da noite com a luz do candeeiro a petróleo e candeias de azeite, sem estradas asfaltadas,  raros transportes, locomoção a pé ou em carros de tração animal. Com a 2ª guerra mundial agudizou-se a miséria com o racionamento de bens essenciais, dando-se o êxodo rural das aldeias recônditas nas serranias, encaminhando-se para o litoral. Vieiros de Leiria emigraram internamente para as margens do rio Tejo de Vila Franca de Xira, construindo casas palafitas  sobre estacas de madeira, outros vinham sazonalmente de Aveiro e do Algarve para a Costa de Caparica, viviam em casebres levantados de  brunho. Lisboa acolheu muitos na procura de trabalho melhor remunerado em armazéns, construção civil, carpintarias, caixeiros, caminho-de-ferro, refinaria e serviços… As mulheres empregaram-se como criadas de servir, governantas, lavadeiras, caixeiras e, … Deu azo ao agudizado hábito de abusos, perpetuados por senhores e filhos,  nas suas governantas, as chamadas sopeiras, sujeitadas à devassidão da vida humana, caladas para sobreviver à miséria, sofriam caladas e humilhadas. Analfabetas, sem estudos, criadas de servir, algumas conseguiram estabilizar a vida casando, com um rol de filhos incógnitos, verdade reposta com o 25 de abril,  cada nascimento obriga a paternidade, em alguns casos recorre-se a exames de ADN.  

O interior  com parcas oportunidades de ensino, que era pago, como em Ansião, apenas subsistia uma rede de escolas do Estado Novo que cobria o País, mas, não se valorizava a escola, porque as famílias eram em geral numerosas, com um rancho de filhos, os pais viam nas crianças mais velhas ajuda nas tarefas da lavoura, e as raparigas cuidadoras dos irmãos mais novos. Muitas nunca foram à escola e outras fizeram a 3ª classe, poucas as que continuavam os estudos,  e se licenciaram antes do 25 de abril, porque no interior  não haviam liceus, só nas cidades. Os padres encaminhavam rapazes  para o Seminário, que souberam aproveitar a mais valia quase gratuita, mas, raros foram os deram continuidade ao presbítero.  Sinto orgulho no meu avô paterno José Lucas Afonso, da Mouta Redonda, da freguesia de Pousaflores que mandou para Coimbra para ser professora primária a sua primogénita nascida em 1911, a minha Titi. Como estudou a minha mãe e o meu pai. 
Com o 2º ano podia-se ser Regente escolar e com o 5º ano Professor. Os Correios foram das primeiras empresas públicas a admitir mulheres com o 5º ano dos liceus, durante décadas com histórico de colaboradores maioritariamente feminino. Na minha família a irmã mais velha da minha mãe, ela própria, eu e a minha irmã, num tempo sem informatização telefónica,  só havia telefone até à meia noite, um PBX com cavilhas e manivela para chamar a central. Enquanto nos países europeus depois da 2ª guerra tinham florescido novas empresas no ramo da indústria, comércio e serviços com apoio estatal à educação, e à saúde melhorando as condições de vida para as suas populações, e por cá o País estagnou com o regime fascista, discrepância abismal na sociedade de ricos e pobres. Portugal ainda era tipicamente um país rural na década de 60 do séc. XX, o uso da bicicleta ficou na história com o nome pasteleira, apenas para remediados . Muitos enveredaram pela emigração maioritariamente para França, que proporcionaram aos filhos  estudos, deixando-os em casas de familiares, que lucravam com um rendimento suplementar, à laia dos cambistas com os francos, chegadas em cartas ...Por outro lado donos de fábricas e empresas, ricos senhores  exploravam a mão-de-obra  barata, com pagamento de salários muito baixos à laia da jornada de um sapateiro na sua deslocação a casa do freguês que recebia de jorna uma broa (pão de mistura de trigo e milho), a jorna na agricultura era diferenciado entre  homens e mulheres, desigualdade que se mantém depois do 25 de abril, e não devia. 

Sendo mulher… Não posso deixar de falar  que sempre as conheci num papel de escravas… Finalmente entendi que a sua sina até ao 24 de abril era ditada à nascença, cujo mandante era o pai e depois de casada, o marido. Subserviência total, sem direitos,  aprendizado dos serviços domésticos, saber governar com mestria a economia do lar com míseros recursos. Com a saída dos homens para a guerra do Ultramar, algumas viram a necessidade de trabalhar fora de casa, contribuindo com o seu salário, outras continuaram na lavoura de subsistência . A mulher casada era incumbida no dever de ser esposa fiel, cuidar do marido e dos filhos,  a quem devia obediência, só podia sair do País se ele autorizasse, assim como abrir uma conta bancária, ou ser irmã de uma Misericórdia, sem direito ao voto, sujeita a violência doméstica por maridos embriagados, sem educação, nem maneiras, dor abafada em casa e quando denunciada, o homem acabou por ver a justiça a seu favor com penas suspensas, porque o sistema judicial era fechado, machista. A mulher não tinha quaisquer direitos, a lei era escura em relação à mulher. O homem podia ser adúltero, porém a mulher se o fosse, via a sua imagem denegrida, enxovalhada, tratada como uma prostituta, sem serem apuradas as razões porque praticara tal atitude... Tudo era proibido à mulher, até sentir prazer...Quiçá muitas pariram sem nunca sentirem um orgasmo, tão pouco conheciam o termo...só reconheciam o calão... sentiam que para os homens era bom, já as mulheres criada para todo o serviço, um  depósito de espermatozoides… 

Deus ditou  séculos de vida abnegada e injustiçada às mulheres  em Portugal, que  o 25 de abril deu alternativa,  de poderem  dizer chega, quero, e mereço mais!

Quando os maridos foram obrigados a ir para a guerra no Ultramar sem saber se tinham bilhete de volta, viram-se obrigadas a procurar trabalho fora de casa, inicialmente nas fábricas, na sua emancipação, ao procurar trabalho fora de casa, de ganhar para o seu sustento, e serem independentes. Quantas noivas se casaram por Procuração enquanto outras desencadearam vontades de derrubar amarras e ultrapassar conceitos, com a mudança de atitudes e tradições, em decidir por si, valorizando-se, enveredaram pelos estudos, então domínio dos homens. Contribuiu na mutação cultural da sociedade com a aposta maciça nas Faculdades. Fenómeno que indicia num futuro próximo a sua ascensão para alcançar remunerados cargos de chefias nas mais diversas profissões. 
Imprescindível observar a mulher integrada na sociedade conquistando o espaço que merece, ajudando e participando na construção de um País, abolindo a descriminação, onde homens e mulheres se deveriam completar na procura de um bem-estar conjunto, fazendo força nessa união. Cargos de responsabilidade em empresas com histórico de homens no comando tem vindo a inverter-se, são cada vez mais mulheres tem vindo a ocupar lugares de chefia e a alcançar o sucesso num mundo que sempre fora dos homens. As mulheres além de femininas, mulheres, mães, donas de casa, são na vida laboral um exemplo de profissionalismo, desempenho, criatividade, perspicácia, audácia, rigor e poder de iniciativa invejável, conseguindo coordenar várias tarefas em uníssono e executa-las com sucesso, pelo excelso carisma prático. Desde que digam não à vaidade, as mulheres têm conseguido enfrentar as adversas dificuldades, tendo em conta os preconceitos formais da sociedade machista que ainda vigora, mas todas as suas vitórias são uma conquista de abril com a implementação da democracia, não há profissões fechadas às mulheres. 

Acordem Mulheres à mudança de conceitos educacionais dos vossos filhos, jus a Helena de Sacadura Cabal, com 91 anos, ensinou os seus homens, a serem independentes e a arrumar os quartos. Aboliu a destrinça de sexo à execução de tarefas, alternativa maior ao machismo, porque o saber não ocupa lugar, a ganhos de autonomia, lidar com a economia do lar, à perda de posse sobre o outro, respeitar o outro, sem ódio nas redes sociais, nem crimes de violência doméstica, paridade à vivência em equilíbrio cultural: igualdade e solidariedade em democracia a respeitar o outro!!

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