quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Caminho de Santiago no canhão fluviocársico de Sicó

Aventura no fim de tarde do dia 23 de março de 2025, no Zambujal, Rabaçal, no trilho do Caminho de Santiago de Compostela

Zambujal,  o Caralium Secum , nome romano, rebatizado pelos mouros. Só conhecia o rio seco.

Segui para sul para ver as aguas na ponte que serviu a vila romana do Rabaçal.
Contei seis pontes em menos de 7 km.
As aguas juntam se a sul, vindas de Penela com os riachos de enxurrada.

Este rio tem caudal como o rio Nabão.

Leito  de  enxurrada, cenário espetacular
No Zambujal há 3 pontes, a da foto a que dá acesso à aldeia,  a mais recente com 7 entradas de água

A ponte a sul serviu a vila romana do Rabaçal

Jamais identificada por investigadores, nem historiadores

Acesso da via romana militar para poente onde se distinguem lajes da calçada romana para a ponte

A norte do Zambujal no corredor da via romana militar e no Caminho de Santiago
                                   
                  
                                      
Ponte a norte do Zambujal com 8 entradas de água
                  
Leito em abundancia de águas
Fonte Coberta
Eternização da passagem do Príncipe Cosme de Médicis em 1669 na peregrinação do Caminho de Santiago de Compostela
                                   


Fonte  de mergulho a norte da Fonte Coberta , a origem do topónimo que  fidelizou a aldeia

No tempo as requalificações retiraram a traça ancestral da fonte de mergulho
O algar na cota máxima com rebentação junto da grelha de esgoto...
A  crer a ponte mais recente na Fonte Coberta junto da fonte na ligação ao Poço das Casas
Casario de traça antiga na Fonte Coberta

Passagem das invasões francesas



Capela; Apontamento de cantaria

Casa com lintel 1693?


Piais com cantaria artística nas laterais da janela
Casa com janela no sobrado com data em moldura

1652?
O painel dita o sítio onde foi a estalagem. 
Inserida  no corredor da via militar romana com mansio (estalagens e mutatio, para mudança de cavalgadura). Falta averiguar se depois de Conímbriga não foi sítio um desse sítios que em época medieval se tornou estalagem.

Ponte Filipina
Obra de um pedreiro de Ansião
                    

                                     

Deus nos acuda  em avançar com as margens do Carálio a transbordar, e os terrenos alagados
A partir daqui alerto quem de direito nestas rotas, em chão de Condeixa, o perigo do trajeto até ao Poço. Falta sinalética de aviso para rio cheio, devia haver alerta e criar alternativa pela ponte na estrada alcatroada ao Poço. O trilho do Caminho com água, escorregadio é muito, muito perigoso, com muitas aguas, vindas de todos os lados. De sul há imensas escorrências vindas das serras e regatos de forte corrente de exsurgências .
              
Água a vir de todos os lados...
Muros de pedra seca autenticas cascatas com agua a sair nas reentrâncias... 
Riacho com forte corrente vindo de sul
As aguas cobrem o caminho, chega-se a um ponto onde é tanta agua de um ribeiro que não deu para saltar, o meu marido caiu, e já molhado e enlameado, outro remedio não tivemos senão meter-nos  na água que atravessamos com ela pelo meia perna...do outro lado segue o leito do rio a transbordar.
O caminho acaba e continua por  carreiro cuja berma é a margem do rio
             
               
                             
Trilho muito perigoso em tempo de águas
Com receio de escorregar novamente e cair no rio entramos acima num terreno com buracos, o dono se calhar vai plantar arvores. Fizemos o caminho com pés molhados...
                   
                   
Poço, em chão encharcado...
                                
                                     
Poço, nada mais que um poço de chafurdo com escadaria, que foi requalificado
                   
                                                
Ponte no Poço das Casas

Fonte que deu o topónimo ao Poço

O meu marido quando caiu ficou com a roupa enlameada, lavou-se na fonte do Poço, diz que a agua é macia ,as mãos deslizavam no volante ...

Ruína altiva
                   
                   
Subimos a serra para norte 
                  
Em plena  serra até olhar Conimbriga...
Decidi vir de volta, percebi que desta vez a minha intuição falhou...ouvi raios e coriscos...
Olhei as orquídeas, a beleza de varias serras que ali se juntam e me fizeram recordar a primaria quando as desenhava...os jipes entram no Poço para Conimbriga, passaram alguns.

Contraste de vistas sobre os outeiros ao entardecer no Poço das Casas  à Fonte Coberta 
Extratos calcamargosos de calcário 
Contraste do verde e do abandono das terras
Orquídeas do maciço de Sicó
                      
                 
                  
Já de volta vinham dois caminheiros.
Não paro de pensar neles, será que se conseguiram safar? Espero que sim.
Foi uma aventura perigosa , de 11Klm,com percalços, mas conseguimos.
Aventura inesquecível, brutal, em plena natureza.
Agora falta fazer de Conimbriga para sul dois km para conhecer a cascata do rio de Mouros.

sábado, 6 de setembro de 2025

Origem em Ansião ao orago S. Lourenço

Crónica publicada no Jornal Serras de Ansião em setembro de 2025

O  vulgo mosteiro, no Vale Mosteiro, foi um habitat romano classificado em 2010 , cujo complexo ruinal foi reutilizado em época medieval. A crer, entre o Foral de Penela de 1137 e 1139 da batalha de Ourique  como morada de germânicos que raziam bagagem globalizada europeia; Pedro Mendes e Osório Rodrigues , dois de entre quatro vendedores  das suas parcelas ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que constituiu a herdade de Ansião. A crer, os mentores do esmoliadouro, evidente em 1175 numa das escrituras, integrou o apoio caritativo no hospital peregrino que ali incrementaram, jus à etimologia misericórdia, do latim; miser  – infeliz, triste, aquele que sofre e misericors (cordis), o que é sensível à compaixão por quem sofre. No apelo ao espírito peregrino na rota do Caminho de Santiago de Compostela, a fé ao Santo espanhol S. Lourenço, cuja imagem de pedra, jaz na capela do cemitério, sem glória. Pese agraciado na toponímia e vivo na feira a 10 de agosto jus ao provérbio; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, assim tenha verga e tempo! 

S. Lourenço

Lástima a perda ou estarão anexadas a outra terra , as Memorias Paroquiais de 1758 de Ansião, pelo que nada se sabe sobre a Feira de S. Lourenço ou dos poceiros. Aventa vir dos finais da centúria de 600, se atender às feiras francas da Constantina em franca concorrência à vila. 
Pois temos de nos valer nos concelhos limítrofes, para mais entender. Encontrei em ANTT – Memórias Paroquiais: Dicionário Geográfico do Padre Luís Cardoso, vol. 34, n.º 133, pp. 964- 965. da vila de Cernache em 1758 da feira de S. Lourenço com vendedores dos termos vizinhos, auspicia alguns de Ansião, que lhe fica a sul; “hũa quasi feyra realizada no dia de S. Lourenço, que somente consta de sal, posseyros de vimes, e verguas de salgueyro para as vendimas, e pas de pao de amieyro e encinhos, para alimpar, e ajuntar os trigos, e milhos nas eyras, e alguns poucos belforinheyros com suas tendinhas, e muytos tremoços; de sorte que o principal he o sal, que ha em muyta abundância, he somente pagam de medidas hum vintém cada carro”. A informação coeva mostra-se incompleta ao topónimo  que nessa altura a sua grafia era Sernache dos Alhos,  por ser grande produtor de alhos e cebolas onde aportavam mercadores nacionais e do estrangeiro. Cebolas assadas foi alimento do exército de D. Afonso Henriques na batalha de Ourique, só por isso a batalha jamais foi travada no baixo Alentejo em Ourique, onde não havia cebolas… A probabilidade mais assertiva é ter sido travada entre a Vala de Ourique em Soure,  e Chão de Ourique em Penela. 

Hoje a feira de Cernache, julgo perdida, apenas resiste a de Celorico da Beira, em Trancoso, e a de Ansião a 10 de agosto, em dia de S. Lourenço, por altura das Festas  do Povo, o certame decorria na rua de S. Lourenço e depois na Avª Vitor Faveiro com estaminés de cesteiros prostrados no chão. Panóplia de estilos e tamanhos; cestos para as vindimas de vários feitios,  cestas de mão, cabazes, cestas de costura, fruteiras, garrafões empalhados, cangalhas e seirões onde não faltavam também os característicos da região feitos em cana. O meu bisavô Elias do Alto, a recordação que tenho dele num sábado em cima do almoço de o ver no seu passo lento vindo da Praça do Peixe a descer a rua a caminho de casa , com a cesta de cana na mão com a sardinha. A feira é testemunho da tradição de trabalhar o vime, perdida a arte das canastras (muito viva em Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, e  também foi em Ansião, trazida de Espanha, pelos judeus, ainda viva no sul em Mijas e outras terras, como penduram os vasos nas paredes, já entre nós perdida, e nos piais que foram poiso de penicos, agora ornados a vasos de sardinheiras de folha rendilhada. 

Ansião e a tradição da cestaria 
Um dos meus oratórios
                   

Mantêm-se  a tradição de trabalhar o vime branco e bicolor na Torre de Vale de Todos
                               
Presente o stand na última feira de S. Lourenço  de 2025.
Pedi autorização para publicar a foto com o Dr. Jorge Fernandes publicada no Facebook, de certa forma foi entusiasmado pelo meu post; A propósito do post da Maria Isabel Coimbra, que tão bem relembra um pouco da história da cestaria em Ansião e do artesão Paulino Costa (aqui a foto antiga, retirada desse post), senti vontade de publicar uma foto das Festas do Concelho, onde estive na feira dos poceiros, ou como nós, em criança lhe chamávamos, os "peceeiros". Nesta foto até parece que estou a dar uma lição de cestaria… mas não! Apesar de ter visto muitas vezes o "Ti Zé Mau" a fazer os seus "peceeiros", nunca lhe prestei atenção suficiente para aprender. Na verdade, estava apenas a perguntar aos presentes se sabiam o que era um poceiro ou um peceeiro… e não eram muitos os que sabiam.
Felizmente, a Acr Tvt - Associação Cultural e Recreativa da Torre de Vale Todos, tem feito um trabalho notável em preservar esta arte que é nossa. Uma arte que não pode desaparecer, porque a nossa história é a nossa maior riqueza.
Obrigado à autora pela partilha da foto e da memória.
Parabéns a todos os que mantêm viva esta tradição!
Lembro os poceiros grandes usados nas vindimas, ao encher algumas vezes se tornavam pesados por ficarem molhados com o mosto, havia quem os usasse para carregar o estrume à cabeça e outras tarefas.

Cestaria de  cana pela artesã Flor, da Bairrada. 
Alguns exemplares diversos
                 
Herdei na Mouta Redonda uma cesta oval em vime branco de levar piqueniques para a Nexebra.


Perdida a arte e o artesão das canastras com aparas de pinho. 

                                           
Cabazes  com  muita viagem na carreira do Pereira Marques para Lisboa...
                                         
                                             
O Ti Paulino Costa, de Barcelos
Aportado nos anos 30, do séc. XX, montou oficina com  ajudantes no Bairro de Santo António . 
Fazia obras de verga branca; cadeiras, mesas, poceiras redondas e ovais, cabanejos  e seirões. 

Cortesia de duas fotos cedidas pela Elisa, a sua neta do Bairro de Santo António

O Ti Paulino Costa e a sua filha Teresa, mãe da minha querida amiga Rosalina, que vive em Barcelos. A tenda no mercado na vila
Arte da cestaria da Torre de Vale de Todos
Em Ansião, as vendedeiras no tempo da minha avó Piedade Cruz  até anos 50 do séc. XX andavam de cestas de verga branca à cabeça , como a Ti Angelina de Albarrol, recentemente falecida, até o meu pai e tio Chico, fazerem a venda de pão de bicicleta pasteleira, em cestões, antes de irem para o colégio.

Em Aquém da Ponte 

O atelier de cestaria acoberto num  modesto telheiro do “Ti Zé mau”, sem paredes, onde o dia se via por todos os lados, castiço, em telha vã antes da Ponte da Cal...Onde o via sentado num tripé e tanta vez na demolha do vime amarelo num poço ou a retirar para o trabalhar. O seu filho guarda exemplares, mas não tenho foto. Cachopos sem pescaria no Nabão petiscavam caracoletas assadas na companhia do mestre. A paixão pelo vime foi enraizada pelo meu pai que lhe encomendou duas cestinhas minúsculas. Estreia com azeitona para retalhar aos 8 anos pelo Natal com a minha irmã. A súbita mudança do tempo levou-nos ao abrigo no vulgo mosteiro, por um portal quebrado sob passadeira de lajes brancas. Fora a morada  do Miguel  e da esposa que um incêndio ditou imigração para o Brasil. Num canto havia uma pia de água benta e uma Cruz alta de pedra, perspetiva uma nova luz que nos dita que não foi inicialmente palco de uma capela, e sim, o sítio do primeiro hospital com oratório a S. Lourenço, a prestar apoio e  socorro caritativo à pobreza peregrina em Ansião.

Como cheguei a esta conclusão? Pelo levantamento do territorial Ladeia que premiou Ansião com caminhos que foram reutilizados pelos romanos e em época medieval. Antes da nacionalidade, a região a nascente, teve três mosteiros: Pera, Alge e Murta, como hospitais no apoio à pobreza peregrina  nas rotas de Roma, Terra Santa e de Santiago de Compostela. Só temos informação de hospitais para a Sertã, onde pelo menos foi implantado um antes da nacionalidade por germânicos, o que  galvaniza grandemente em Ansião ter sido aposta de um, cujo mérito deu origem ao seu topónimo .

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Rota de paneiro pelo alto Alentejo

Resumo publicado no Jornal Serars de Ansião no mes de Julhod e 2025

Em 2011 presenteio meu e da minha irmã à nossa querida mãe de reviver a rota de paneiro do seu pai,  o meu avô José Afonso Lucas da Mouta Redonda, pelo alto Alentejo. Então definida numa faixa territorial a consenso de paneiros da freguesia de Pousaflores, a venda ambulante na arte de paneiro com vários tipos de fazenda, serrobeco, burel, algodão, crepes, chita da tabela , riscado de Santo Tirso,  etc, a par de outros vendedores que  vendiam outro tipo de produtos, só havia pouco comércio  nas lojas e feiras. 
O ofício de paneiro admito enraizado no atual concelho de Ansião, por influência judaica nos mercadores da feira da Paz ou dos Pinhões, e a da Rainha Santa Isabel, na Constantina, ao correlacionar os confrades da sua Confraria de Estremoz, Avis, Abrantes, Coruche e Golegã. Além da coincidência do apelido Simões, Irmão da Irmandade da Confraria de NSPaz em 1623. Na aposta na deslocação para sul, onde se foram fixando noutras terras pelo alto Alentejo, a que também associo o orago de NS da Orada, em Santiago da Guarda, com Orada, em Ferreira do Zêzere e em Avis. Alguns deixaram o negócio por essas terras montado para um filho, a exemplo; no Sabugueiro, Arraiolos, fixou-se um ramo da familia do  Outeiro do Pessegueiro, conheci os filhos; Arménio e o Zé Carlos, estudantes no Externato de Ansião. 
O curioso cruzar de apelidos que foram vivos em Ansião e em Avis. Destaque do seareiro da casa agrícola de João Abreu Calado, o maior proprietário de Avis e do seu irmão Francisco Abreu Calado, lavrador de Benavila .João Fernandes, impulsionador da plantação de sobreiral no Alentejo no início do século XX, chamado "menino de ouro" de Évora, proprietário de várias herdades nos concelhos de Avis, Mora e Ponte de Sor. António Pais da Silva Marques Jr., e Joaquim Pais Monteiro donos de lagares de azeite em Avis. José Godinho d’Abreu dedicou-se ao apuramento de raças de porcos e ovelhas e tinha uma coudelaria. O seu irmão Cosme dos Campos Calado, herdeiro de todos os bens da família e também sem filhos, constituiu a Fundação Abreu Callado, que ainda funciona. Manuel António Botas com a matéria-prima dos outros, a azeitona, foi um grande o produtor de azeite. Avis, teve uma fábrica de sabão como houve uma em Ansião em 1630.

Na vila de Ansião estabeleceram o comércio de paneiro dois irmãos apelido Simões, até década de 30 do sec. XX e depois venderam ao Sr. Pires .
O meu avô José Lucas começou a sua vida profissional como peixeiro, indo de carroça à Costa de Lavos comprar o peixe. Em dada altura um seu amigo de Lisboinha, por estar com farta idade faz-lhe a oferta do da rota sazonal que tinha pelos montes do Alentejo, que aceitou. Montou loja e taberna na Mouta Redonda com presença nas feiras anuais a 6 de janeiro em Avis, dia 27 de julho a feira de S. Pantaleão, em Figueiró dos Vinhos, a feira do 23 no Arneiro em Almoster, além do mercado de Ansião e do Cabaço (s). Em 31 de dezembro de 1911, depois do mercado em Ansião vinham os meus avós ao alto da serra do Mouro, quando a minha avó foi acometida das dores do parto da sua primogénita, sendo ali prontamente socorrida no parto, cortando o cordão umbical com a tesoura de cortar a fazenda. Acomodando-as entre os fardos como pode sob abafo de um cobertor do Avelar, a caminho da Sarrada da Mata onde as deixou na casa de um casal amigo  e quando restabelecidas as foi buscar. 

Graças aos relatos da minha querida mãe para não se perderem as memórias, a presenteio de aniversário de 75 primaveras fomos reviver a rota do seu pai, meu avô, com saída de  Ansião, armadas de voucher ”A vida é bela” pela IC8 com paragem para admirar a barragem do Fratel. Atónita em Arez, o nicho do oratório vazio, quê dê o Santo de pedra? Café e empada em Nisa, na roda-viva à cestaria, barros decorados a pedrinhas, trapologia de felpo e queijos, a praça de cara lavada com desocupados, e pensionistas... Rumo a Alpalhão paragem junto a uma anta artificial o registo de fotos. O convento Flor da Rosa prestes a fechar, soslaio ao r/c agora hotel. Almoço no Crato na praça em Mós de granito, com o castelo de xisto pintado de branco, a fonte Perofilho em branco e amarelo, o museu fechado em obras, a varanda gótica dos Paços do concelho em granito rendilhada com arcos imita a Pax Júlia de Beja, casario com portais góticos, e Ansião com apenas um, esquecido no tardoz da Igreja da Misericórdia. Rota pela ponte no rio Seda, eis-nos em Alter do Chão na praça do castelo com cúpulas brancas jus à sempre noiva de Arraiolos. Surreal tarde de banhos na piscina da estalagem, exclamava a minha querida mãe; mal chegue a Ansião vou mandar fazer uma no galinheiro. Felizes no ginásio, e vestidas para jantar um delicioso bacalhau à Crato, remoído ao som de chocalhos no redil do chaparro ao pôr-do-sol a definhar na charneca...Bom pequeno-almoço a caminho de Fronteira eco às viagens pelo S. João em Badajoz após o 25 de abril. Jazia morta uma raposa de reluzente pêlo na chegada a Sousel antes da linha desativada do caminho-de-ferro. Almoço em Ervidel onde estabeleci conversa com um senhor cujo pai fora paneiro, e acompanhou em criança, perguntei se tinha memória de um paneiro da região centro – onde me diz; era conhecido pelo Coimbra, baixo, russo, trazia uma mala de lata na carroça, e deixava as mulas na estalagem da Ti Joana, onde pernoitava com o meu pai. No Alentejo o meu avô ganhou a alcunha “Coimbra” cidade sonante onde comprava a mercadoria a crédito, e depois de vendida era paga nos armazéns Lousada na Rua da Sota, e outro na Praça do Comercio, junto da igreja, com oferta de um corte de vestido para a sua filha mais nova, a minha mãe. Marçanos faziam o transporte dos fardos embrulhados em sarapilheira para a carreira do Pereira Marques. Transbordo em Chão de Couce onde deixava de manhã o macho com a carroça à sombra do freixo do adro, balde água e fardo de palha.

Emoção na Casa Branca ao entrar numa padaria antiga, a certeza que o meu avô ali também comprou pão, irrompeu o silêncio na reza em sua memória. Euforia em Santo António de Alcôrrego linda a casa branca e azul com data na chaminé que o meu avô arrendou para o seu filho Carlos Lucas. A intenção era casado se fixar, debalde vendeu os fardos da fazenda, e voltou à Mouta Redonda com a família e o hortelão. Lembranças da viagem de comboio da minha querida mãe com os pais para o visitar. Avis à vista, êxtase à tamanha monumentalidade dum passado esquecido, jus a Manique do Intendente…ruas sem vivalma chamava gente a buzina do padeiro ambulante de Abrantes, enfeiramos na adega azeite e vinho. Em bucólica paisagem Benavila com cavalos em pastoreio nas margens da barragem do Maranhão, a sempre linda Ponte de Sor, Rossio ao sul do Tejo, e sardinheiras em Constância. Matrena, as ruínas das fábricas de papel do Prado, e em Tomar, quem resiste às fatias da China?
Chegadas a Ansião partíamos de volta, pelo encantamento comungado de belas paisagens,  cheiros, as gentes, por onde o meu avô andou a fazer negocio sazonal... e chita da tabela ou riscado de Santo Tirso sem enxergar chapodada vestida!

terça-feira, 27 de maio de 2025

Por classificar na vila de Ansião o portal da capela de Santo Agostinho

Crónica publicada no Jornal Serras de Ansião em março de 2025

Aos 10 anos, em tardes de sábado e domingo, algumas ve4zes fixz o turno de 4 H, no PBX do correio, a ganho de 15$00 da Srª D. Maria Augusta Morgado. 
Sem rádio, nem habilidade para usar o telefone à borla, abria a janela para idolatrar o belo portal de arte lavrante.  


                   ~

Mal sonhava que fora capela da estalagem, estimo de 1700, pelo risco dos cunhais, jus ao portal da Misericórdia.

                   

Imóvel particular, de interesse municipal,  por classificar, vindo à luz num registo decifrado pelo Dr. Pedro França, cuja cortesia agradeço "Aos vinte e oito de março de mil e setecentos e trinta e cinco faleceu na estalagem de Santo Agostinho desta vila de Ansião um homem de caminho que disse se chamava Luís de Melo e ser casado e correio de Sua Majestade que Deus guarde. Faleceu sacramentado e foi sepultado na igreja, de que fiz este assento D. Jerónimo da Encarnação”
Capela mencionada na Noticia da Comarca de Coimbra, da villa de Ancião em 1721; Cappella que instituiu Manoel Freire Gameiro nesta villa e o dito administrador asiste em Torres Novas”. Onde tem descendência na arte de curtir couros. Orago dos Cónegos Regrantes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra; “Misericordia he doerse homem da coyta e miseria de seu prouximo e christaão”. 
As memórias paroquiais referem 3 ermitas, “ o cargo oficial de ermitão então responsável pela comunidade, com a incumbência de fazer as hóstias e de as cozer”.

A sul do adro da matriz  foi chão da Misericórdia de Ansião, não sabemso se recebido por diação. Foi aforado com terreno no tardoz, ao falecido Provedor ad Misericórdia António Furtado Silveira , cujo genro Joaquim Figueiredo Perdigão, gpagou parte das di vidas em atraso vindas há mais de 20 anos. Seguida da estalagem e capela que também foi  património da Misericórdia de Ansião. Cuja vicissitude depois de 1870, é desconhecida a sua transação, venda em hasta pública ou usurpação.

Por volta dos anos 20, do séc. XX, a capela foi vendida ao meu avoengo José Joaquim de Bastos Guimarães . Resta da capela o portal e óculo após a requalificação para morada do seu filho César Augusto, presidente da Junta de Freguesia, falecido sem herdeiros. A sua mãe, viúva, D. Augusta Guimarães, arrendou a taberna da estalagem, e o tardoz para loja de pneus, com acesso pelo r/c da casa por porta lateral nos fundos, hoje janela. O sobrado foi alugado em janeiro de 1940, aos noivos Srª Maria Silvina Caseiro e Alexandre Rodrigues, conhecido por “Plim. Julga-se depois vendida ao Sr. Gualdino do Martim Vaqueiro, quem mais tarde vende a casa aos inquilinos, e graças à sua filha Srª D. Fernanda, a conheci. 

O prédio guarda paredes grossas, calçada de calhaus rolados, pedra larga, quiçá, parte da ara do altar, e houve uma grande pia de pedra redonda, o chafurdo de patos, alvitra fora da cavalariça. Hoje barracão, com entrada pelo portão de ferro forjado que entesta a sul no prédio que fora a capela, na Rua Dr. António Salazar.

Património de interesse concelhio a preservar e não destruir!

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