sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O 39º aniversário do meu casamento

Passou este mês de setembro o 39º ano do meu aniversário de casamento.
O destino foi Lisboa com partida da Trafaria para apanhar o barco, parecia um avião até Belém, com vistas fenomenais nas duas margens.Destino o Museu de Arte Popular, que merece uma crónica.  
Baía da Trafaria, a selfie...
Assisti à foto da chegada de um grupo de ciclistas ingleses de várias faixas etárias na ligação Lisboa / Faro.
O barco da Transtejo mais parecia um avião com destino a Belém, sentada na frente com uma vidraça enorme onde se apreciam vistas deslumbrantes das duas margens.

 Torre de S.Sebastião na frente da Torre de Belém
 A ponte 25 de abril

Porto Brandão
Belém em Lisboa com uma panóplia de monumentalidade; Padrão dos Descobrimentos, CCB, Museu da Marinha, Arqueologia e Maat, Mosteiro dos Jerónimos, Museu de Arte Popular, Planetário, Palácio de Belém, Praça do Império, Feira de artesanato e de Velharias e,...
 Maat

 
 Museu de Arte Popular

Gradeamento do Museu à antiga com términus rematado em Cruz
Almoço em Belém num restaurante de minhotos. Comemos e bebemos bem.

A margem do Tejo, antigo farol
Deitados nos pufs no CCB na sombra de oliveiras com azeitona a perder-se e bem alegre em demasia imitava a vozinha doce dos meus netos---avô Luís---avó Bela... até que o meu marido me chama a atenção que estavam a olhar para nós...demos corda aos sapatos porque a terra estava molhada, sujo-nos os calções ...
 
O calor castigava, não fui de modas meti-me dentro da fonte da Praça do Império com estrangeiros a perguntar se a água estava boa...admirada porque estava limpíssima, por isso não escorreguei.
 
Foi um dia fantástico a sorver cultura e não só!
Que venham muitos mais aniversários!

Dr Fernando Travassos um João Semana em terras de Ansião

Foto retirada da entrevista em 2012 de Ansião TV
A crónica nasceu a 22.02.2013 incorporada com outras individualidades sendo destacada em finais de 2017.Desde que me conheço sempre ouvi falar do Dr. Travassos na boca do meu pai, entre outras afinidades da amizade o gosto pela caça, aconteceu um caso insólito numa caçada às imediações do Pinhal do Dr. Faria ao Carvalhal , no valado na serventia rasgada para passagem da propriedade do meu avô e do tio Acúrcio Monteiro de barreira alcantilada em argila ao resvalar numa raiz aérea de um grande pinheiro a arma do meu pai disparou para trás tendo-lhe atingido o dedo indicador da mão esquerda, para ali ficar sem ele, tendo-lhe valido o Dr. Travassos para estancar o sangue e tratar do operatório..
Conta a minha mãe que foi em janeiro de 1950 que chegou a Ansião ficando hospedado na pensão da Ti Dorinda Monteiro, na vila. Trabalhava no Hospital da Santa Casa da Misericórdia ao Ribeiro da Vide, onde chovia a cântaros e a minha tia Maria apanhava as beiras com alguidares em tudo o que era sítio e pelo frio amornava a friagem com latas de brasas para o  jovem médico se aquecer, apesar da vitalidade , tal préstimo saldou influência na sua filha São, a sua ajudante, para lhe reconhecer mérito e aconselhar em seguir enfermagem em Lisboa, profissão que abraçou depois de casada.
Em 1951 foi um sócio fundador do Clube de Caçadores de Ansião com o comerciante Sr. Adriano Carvalho, entre outros.Também sócio honorário da Filarmónica Santa Cecília de Ansião.
Havia de o conhecer no seu consultório ao sobrado da casa do Sr. Domingos Carvalho.Desse tempo depois da escola primária teria os meus oito anos na hora do lanche tanta vez a caminho do correio velho buscar dinheiro para comprar uma sandes de iscas ou de atum na tasca do Sr. Domingos nas vezes que passei pela porta aberta com uma grande e alta escada de madeira que levava ao sobrado onde era o seu consultório.

Médico "Um João Semana"
Granjeada tamanha fama ganha em terras de Ansião e redondezas ainda viva até hoje pelo seu grande humanismo e dedicação à profissão. Médico sem jamais cumprir horários, acorreu a onde foi chamado dia e noite, sem olhar a quem. Dedicou toda a sua vida a cuidar doentes, apaziguar dores carnais e psicológicas, ainda mostrou gosto em preservar tradições da nossa terra e mais saber do seu passado. De perfil aprumado, moreno, olhar tímido e doce de sorriso escorreito e finas mãos, abdicou de ter vida própria em prol da sua profissão, atencioso em ajudar quem quer que fosse, até num conselho -, sempre disponível a toda a hora a cada instante, no consultório ou em casa do paciente onde acorria na boleia do seu fiel companheiro - o seu Ford, trocou por outro, ainda outro e mais outro, na mesma silhueta de anos sempre vestido de cigarro na ponta da boca, engatada mudança na mesma velocidade, óculos de massa e suspensórios, ainda se cobria com sobretudo.Diariamente ao longo de 20 anos assim o via passar quando andava pelos arrabaldes do adro da capela do Santo António ou no seu escadatório ao Ribeiro da Vide, num tempo que havia poucos carros, o seu era inconfundível em mais uma rota de atender um doente aflito para os lados das Cavadas, Pessegueiro ou Portela. Também veio a casa dos meus pais ver a minha irmã que teve sarampo, mandou pôr uma colcha vermelha na cama e tapar o candeeiro com papel celofane vermelho , mal se viu curada fiquei eu doente. Infinitas horas em espera no seu consultório, sentada naquele grande banco preto, sempre a chegar táxis com pacientes vindos de fora, naquele tempo nem sei como as pessoas se orientavam na sua vez, por certo todos me passaram na frente, além de tímida, reburizava com facilidade até que chegou a minha hora de levar a injecção contra o tétano na pele da barriga, mandou-me deitar na marquesa verde,  na adolescência pela primavera me tratou das alergias aos pólenes que me faziam bolhas entre os dedos das mãos e para as impinges na cara provocadas pelo frio e o vento seco só a pomadinha Pomitolencarte me curava, menos o cobrão, esse teve de ser a Ti Jezulinda do Carvalhal que o cortou com uma faca ao mesmo tempo que ali no chão de cimento da cozinha fez a mesinha, a pomada caseira com palhas de alhos, azeite e enxofre tudo pisado com o martelo. E me curou. De resto mazelas de maior nada nos afetaram.

Foto do casamento da prima Tina na frente do velho hospital onde trabalhou
Sou a menina de chapeu
Irmãs Lucrécias
Até à chegada do Dr.Travasos quem valia às mulheres parturientes eram as curiosas,chamadas "aparadeiras" ao tempo assim chamadas por apararem os bebés ao nascer, de seu nome Matilde, parteira sem diploma, ajudou o Dr. Travassos em muitos partos e outros havia que os fazia sozinha com a irmã Virgínia, sua ajudante, como o parato que fizeram à Augusta, mulher do primo do meu pai, o Chico do Bairro, da sua primeira filha a Dália e de todos os seus irmãos, também da Fernanda da Carmita ajudou a nascer a sua filha Paula,  na casa da avô no Bairro de Santo António .No cimo do quintal bem andei de roda da janela para ver o aparato do nascimento da Dália, apenas vi as parteiras sair à porta da cozinha em direção à velha mina de água no quintal onde enterraram qualquer coisa ensanguentada…nesse tempo a Augusta ficou de resguardo em casa um mês, já dos rapazes foram quarenta dias. As Parteiras eram irmãs solteiras, nas horas de "dar à luz" estranho é pensar como saberiam desta arte da procriação, suposto serem solteiros e portanto  virgens...
O Dr Travassos confidenciou-me que a Matilde aprendeu a arte com a sua mãe. Havia outras curiosas.Incansável também a prestar ajuda às mulheres grávidas o "Sr. Pires ajudante na farmácia do Dr. Botelho durante 40 anos" homem extremamente educado de silhueta ímpar usava chapelinho -, o tirava e em vénia o cumprimentava…"bom dia Sr. Doutor" para as grávidas dirigia sempre boas falas "não vai custar nada minha filha"… 
O velho Hospital veio a fechar por falta de condições.
Lembro-me bem do hospital desativado e da sua requalificação, para de novo servir a população graças à influência do Dr. Vítor Faveiro na década de 60 e de José Lucas Afonso Gomes, primo direito da minha mãe,  ajudado por outros conterrâneos. Mal o Hospital foi remodelado todos os dias chegavam táxis com parturientes, uma ao Ribeiro da Vide não aguentou, o bebé nasceu no carro a escassos metros da marquesa... 

Citar episódio verídico que me relatou o Dr. Manuel Dias
" se eu existo a ele se deve tanto quanto aos meus pais; Nasci ao contrário (não dei a volta, ou dei voltas a mais!?) a parteira ao constatar a minha posição, achou que o "caldo estava entornado"!
Havia que chamar o médico. O meu primo Zé Carteiro (aliás, a esposa, a terna Ti Aurora é que era prima em 1.º lugar de minha mãe) que era vizinho teve de telefonar para o Dr. Travassos (o nosso João Semana lá se levantou e seguiu com a urgência que lhe foi possível para o Casal. Fez a cirurgia necessária e tirou-me, depois cuidou o melhor que pôde da minha mãe!
Constatando que eu não dava qualquer sinal de vida, provavelmente por ter estado horas nasce não nasce (e se calhar já com o cordão umbilical cortado, disse a meus pais: este era macho, mas já se foi! Contudo, porque a esperança é a última a morrer, agarrou-me pelos pés, esfregou-me com álcool e deu-me "porrada" pelo corpo todo!
Foi a minha primeira coça. E não é que foi bem dada? Quando testemunhou os primeiros sinais de vida, disse ao meu pai que era melhor vestir-se, já que era católico e certamente quereria batizar-me, e com ele e a parteira iriam chamar o Arcipreste, para que me baptizasse de urgência, porque de certeza tinha poucas horas de vida.
E assim foi, fui baptizado no mesmo dia que nasci: a madrinha foi a parteira (a Ti. Laurinda) e o padrinho o S. José (talvez então? a imagem mais perto da pia batismal, não sei bem!). Felizmente (ou não!?) o médico enganou-se na minha esperança de vida. Mas salvou-me e ainda bem!"

Citar episódio verídico que me relatou o Renato Paz 
" Tenho dois irmãos; o Rogério e o Ilídio Nuno. O meu irmão mais velho à nascença não respirava . O Dr. Travassos, contava o meu pai, lhe salvou a vida. Pegou-o pelos pés, de cabeça para baixo, deu-lhe umas palmadas no rabiosque com força , venceu o homem de capa negra e foice que o queria levar..."

Também esteve bem o Dr. Travassos em deslindar em tempo o caso de meningite do Abel Nogueira e de tantas outras maleitas a outros…

Imaginar-se o pasmo com enxerto de porrada...se salvavam crianças!
E ainda a rápida atuação em casos difíceis, fulcral para colmatar atrasos mentais!
Por tudo o que deu ao povo e ajudou, seja meritório um grande bem haja ao médico que sabia do ofício como ninguém!

A brincar com a cachopada do Bairro em dia que a minha irmã fazia de médico dando a tomar uns comprimidos pretos que eram botica do nosso pai ao Jorge, neto do Ti Parolo. Ao começo da noite o rapaz sentiu-se mal e a avó e a tia foram a caminho do Dr. Travassos que não estava porque naquele tempo também dava consultas na Clínica Cinco Vilas em Chão de Couce. Como o miúdo estava mal meteram-se num táxi e se encontram a meio caminho, o médico perante o quadro e por estar mais perto de Chão de Couce decidiu voltar onde lhe fez uma lavagem ao estômago e o salvou de maleita maior.De volta a Ansião as mulheres bateram forte na porta do correio velho para dar o recado à minha mãe que fazia o turno da meia noite- " D Ricardina tenha mão na sua Mena com a brincadeira aos médicos o sarilho que ia arranjando com o meu neto..." Claro eu é que ouvi por ser mais velha que tinha de tomar conta dela...

As autópsias

Alguns episódios relatados pelo meu pai durante as refeições, então funcionário no Tribunal e ajudante do Dr. Travassos nesse serviço que era feito a sul da Capela do cemitério. Debaixo do alpendre jazia uma grande pedra de calcário, que me parecia ser Lioz, ligeiramente escavada para encaixar o defunto com um orifício por onde escoriam resquícios dos fluidos do cadáver esquartejado.
Fascinada com os relatos macabros, curiosa,  um dia fui ao cemitério para a ver e foi arrepiante sentir a pedra tão grande, fria ali desabrigada onde tudo acaba!
Outro episódio daquela mulher encontrada morta no chão para as bandas da Lagarteira, teve de ser serrada para caber na urna…Certo e sabido, ninguém em casa comia mais nada nesses dias!
A casa onde viveu o Dr Travassos
Linda a escadaria interior da sua vivenda que se avista da bela vidraça em alumínio dourado e preto em losangos. Ao que parece nenhum artista do oficio atinava em a fazer conforme o projeto, até ao dia que lhe apareceu um homem dos lados do Pessegueiro, em prol de pagar serviços afiançou ser capaz de a fazer -, o médico tinha doentes para atender, não fazendo muita fé no seu dizer - ainda assim - o levou a ver o trabalho, quem o ouviu, admirado ficou com a sua teoria - no final a obra foi um sucesso -, escadaria graciosa da rua a contemplo,grande o seu esplendor no gosto de a mirar e do baú com incrustações a marfim, oferta do seu bom amigo João Calado, a devia ter trazido de Macau!
Citar histórias contadas na sua voz no Jardim do Ribeiro da Vide
Tarde soalheira de setembro no alvor dos seus 90 anos sentado num banco desfrutando da sombra dos plátanos na companhia da fiel governanta, a D. Lurdes, onde me cheguei para alegre prosa, conversa puxa conversa, arranques de risos,  diz-me "ponha lá isso no Livro"…
"Até aos anos 50 a falta de médicos era substituída pelo barbeiro. Havia um dos lados do S. João de Brito que tratou dum paciente que veio a falecer. O caso veio a Tribunal, na audiência o réu interrogado, apresenta em abono da sua defesa ao Meritíssimo o seguinte argumento "Saiba Vossa Excelência que fiz um barbarismo aos sintomas…"

"Outro barbeiro que andava a tratar de uma paciente a quem não se via jeito de cura, acabou por mandar chamar o médico que acorreu a sua casa - na visita domiciliária - alguém se descaiu que a doente andava a ser seguida pelo barbeiro da Ramalheira…
O Dr. Travassos dá mote à resposta atrevida "olhe que lhe instauro um processo judicial"…
Num tempo que a arte de barbeiro era de gente com antecedência judaica que sabia da medicina e da botica.

"Um dia apareceu no consultório do Dr Travassos um homem dos Nogueiros, visivelmente aflito para o levar a sua casa fazer o parto à mulher - durante a viagem o pobre homem só se lastimava "veja lá Sr Dr já tenho cinco, agora mais um…" responde-lhe o Dr Travassos "deixe lá homem, onde comem 5 comem 6…" chegados a casa o Dr. Travassos manda-o ir dar uma volta que ali na vez de ajudar só desajudava, que viesse mais tarde - quando o pobre homem voltou dirige-se ao médico "então Sr Dr já são 6…" responde-lhe o Dr. Travassos "não... são 7…" 

De enaltecer o seu árduo trabalho de médico quase a tempo inteiro ainda para actividades sociais, o recordo durante anos na orientação do cortejo alegórico na escolha dos motivos e suas decorações -, houve um ano no ultimar do carro antes do almoço chegou-se ao Largo do Bairro de Santo António e mandou desfazer o brasão descentrado que se tinha feito na frente da camioneta emprestada pelo Manuel Murtinho,  visivelmente irritado obrigou a refazê-lo centrado.
Homem de saber estético quando via que as pessoas não o tinham fazia-se ouvir para aprenderem como os pormenores harmoniosos o devem ser ... 
Salvou muita gente, e não foi só na região. Seja por todos sabido a estima e terno carinho que se nutre pelo Dr Travassos no concelho de Ansião, arredores e em Arganil de onde é natural.

Homem de olhar doce ainda hoje chama às mulheres de qualquer idade "meninas" -, vá entender-se o porquê…só pode ser coisa de homem romântico, sensível, apaixonado pelo belo - um sedutor, no meu entender olhando para trás sinto que não teve vida própria, amar e ser amado por falta de tempo em prol dos demais ou, por força de outras razões, maiores…mas, falar de amor é coisa pessoal de cada um...Acredito nesta terra deixou vasto mulherio com dores (?) a que não pode acudir...Fico descansada por saber que teve muito carinho e afectos da D Lurdes, como supostamente da família o mesmo não se pode comparar, e tanto o entristecia...
A idade não lhe altera o aspeto de homem charmoso , até a verruga no queixo lhe confere graça. 
Também me lembro da D. Armanda Oliveira e da mana Mariazinha as tardes que se deslocavam a sua casa para o chá das 5, ainda no tempo que tinha os pais vivos, tantas as vezes que nos encontrávamos quando as via saírem pelo beco das traseiras entrando eu ou saindo pelo portão do correio velho...
Sinto que tenho uma cumplicidade comum com o Dr Travassos - o passado de Ansião. 
Falou-me que conheceu Façalamim na década de 50 onde chegou a ir ver uma paciente, nessa altura haviam muitas ruínas onde só viviam duas mulheres. Despediu-se de mim com a retórica quando lá quiser ir diga que vamos os três...
Ainda me falou de uma estalagem na Fonte Galega. 
Por certo sabe mais coisas que a não ficarem escritas se perderão quando um dia nos deixar!.
Nutro um especial carinho pelo Dr. Travassos, pela sua franca disponibilidade apesar da farta idade em falar sobre Ansião, a terra que adoptou para viver a que se dedicou inteiramente, como outro assim não conheci!
Para mim um homem na bonita idade, apesar de doenças, no alto dos seus 95 anos, se espera que chegue aos 100!
O que se lamenta? Julgo não errar ao escrever que até hoje ninguém lhe dedicou uma bibliografia (?), somente e apenas tal como eu compilação de relatos e memorias, e o seria meritória pela sua rica história de vida recheada de estórias da pobreza e incultura das gentes desse tempo em retrato de época! 
A penúltima vez que o encontrei vindo do jardim do Ribeiro da Vide com a D. Lurdes, andava eu a chapinhar de cimento as faltas da calçada na minha porta, porque ali nasce couval de ervas , lancei convite para entrarem. Recordo de o ver a observar a sala como se fosse uma criança, para me agradar nas coisas que me disse... Ofereci-lhe um frasco de doce de abóbora que tinha comprado numa feira  na Praça de Toiros do Campo Pequeno. Para a última vez o ter visto junto da Misericórdia onde foi ver a actuação dos ranchos folclóricos.Depois disso julgo não voltou a sair de casa.
Não foi privilegiada escolha do local para a sua sepultura no cemitério de Ansião, jaz longe do passeio público, apenas a  campa singela como queria, sem vaidades, afinal como viveu.Se a pedra fosse branca bem ficaria gravado a cinzel a sua silhueta vestido de sobretudo e suspensórios, chapéu de aba pequena , óculos e cigarro na ponta da boca, o culminar de grandiosa obra para os amantes de arte fúnebre no cemitério de Ansião, que ganhou mais um herói. 
Aguarda-se reconhecida distinção em lhe ser desterrado um pedestal em pedra com o seu busto. Sugiro que seja endereçado convite a um escultor da terra-, o Dr Fernando de Albarrol, sem saber se tem atelier que comporte a obra! 
A proporcionar uma nova visão futurista, sendo Ansião terra de pedra e canteiros, arte hoje praticamente em decadência mas que no passado honrou com artesãos na construção do Mosteiro da Batalha,  a hora de fazer nascer uma escola de cantaria, só dignificaria o concelho e o País. 
O meu BEM HAJA ao Dr. Travassos pelo carinho que sempre me privilegiou  e também na excelsa dedicação aos outros e ao associativismo cultural na vila de Ansião!
O seu perfil ao jus de celibato, o humanismo e dedicação extrema aos outros ajudado pelo aspecto, denota homem de ascendência judaica, que o conota o último guardião de famílias abastadas que seguiram Medicina como o eram os colegas quando aportou a Ansião; Dr António Amado de Freiras; Dr. José Manuel de Almeida, da Junqueira ambos com consultório em Ansião, o Dr João Maria Quintela e Dom João Pais de Almeida e Silva de Chão de Couce. A comunidade judaica que se expandiu durante a reconquista cristã do norte até à  região centro e depois de 1492 da raia das Beiras a caminho do litoral e Ansião não foi exceção, até hoje não houve historiador capaz de abordar esta temática, pioneira,  audaz,a levantar o véu! 
Por fim em gesto de cortesia uma gentil homenagem à sua governanta D Lurdes pelos anos que lhe dedicou de grande afectividade,  hoje é raro haver pessoas serem assim tão abençoadas. Entregou espólio ao Espaço Museológico do Consultório de Memória, e também para o Alvorge. Melhor sorte que a colega governanta do Dr Bacalhau no Espinhal que o ofereceu à JF e lamentavelmente ainda nada foi feito…
Agosto de 2019 Inauguração do Consultório Memória em sala e meia da que foi a terceira cadeia em Ansião, agora requalificada
Estive presente na inauguração, o espaço encontrava-se a abarrotar pelas costuras...
Gostei da homenagem. Senti ausência da família, pese o convite dirigido pela Câmara . 
Senti demasia e pressa para a inauguração nas Festas (?) em que se devia ter equacionado a avalanche de gente para a escolha da recepção ter acontecido na Biblioteca, depois seguia  romagem ao local  para o acto inaugural, revezando-se o povo na entrada minúscula para depois todos em romagem ao cemitério- isso sim teria sido uma grande homenagem !
Confesso que me chocou a escolha da antiga cadeia. O imóvel é obsoleto de pouca serventia para cousa alguma com aquela maldita escadaria em pedra, íngreme, sem adaptação para deficientes em mobilidade.Tem de ser reinventado com boa planta e elevador.
No Espaço Museológico de relance senti falta do armário de nogueira, doação do  Dr Botelho, o farmacêutico, quando deixou Ansião, bem mais gracioso que os armários modernos que não apreciei, senti falta do banco preto símbolo de horas na espera de vez para o atendimento, dos suspensórios e do sobretudo, do telefone, quando aqui aportou era manual, um PBX,  todos os Santos dias dava à manivela para perguntar à minha mãe - menina veja se ainda tem muitas chamadas...Senti falta de fotos no seu Ford, nem sei se existe alguma, senti falta  de pessoas que fizeram parte da sua vida, da Mariazinha Oliveira, senti falta de mais  partilha de emoções vividas com o nosso querido e saudoso Dr Travassos- fiquei com a nítida sensação que o trabalho de casa não foi feito como bem merecia, com pouca investigação, a mim nada me perguntaram, quando sabia muito para partilhar. Por isso a facilidade em lhe achar lacunas...Os Orgãos da Comunicação Social - Serras e Horizonte - relataram que o espólio tinha sido doação da família. E não foi. A doação tem o mérito da  D. Lurdes, o que a família deixou na casa até podia ter deitado para o lixo ou vendido a um antiquário. Por exemplo a tabuleta do consultório tinha o vidro partido sendo posta no lixo na véspera que alguém lhe a pediu...Por isso se deve dar valor a quem o teve, grande gesto altruísta de ofertar para manter viva a memória do Dr Travassos,  grande mérito conseguido, é dela, ninguém lhe o pode tirar!
A que acrescento a doação do lindíssimo e bom serviço em prata , tinha sido uma oferta ao Dr Travassos acaso a D Lurdes fosse mulher de interesses o vendia, e rendia bastante - os pequenos gestos em gente com reformas minúsculas, pouco mais de 200 € para se encontrarem os maiores valores na nossa sociedade, por isso o que o Dr Travassos lhe deixou de coração em vida, foi pouco. O certo seria a deixar com fortuna para se acolher na sua velhice. 
A D. Lurdes ofereceu espólio para este Espaço Museológico e para o Alvorge, terra que também o saudoso Dr Travassos amava muito, curiosamente eu também. A coleção de selos foi dividida , pessoalmente tenho relutância a coleções serem divididas.Mas infelizmente é o que se vê a cada dia, recordo o Dr Hermano Saraiva, José Capucho, grandes colecionadores...
Pessoas com a fortuna amealhada como o  Dr Travassos deviam deixar uma Fundação para perpetuar o seu nome. Recordo a Fundação da Casa Amália entre outras. Talvez por ter sido bancária conheço histórias com estórias de gente com muito dinheiro que  não viajou, não usufruiu das coisas boas que o dinheiro proporciona, como bem merecia para o deixar à família, que ainda o discute em vida, em maneiras estranhas e desconfiadas, quando na verdade  pouco, quase nada lhe proporcionaram de alegrias ou dádivas.
A última vez que vi o Dr Travassos, senti-o triste, magoado, fiquei com a impressão que a sua  vida se pautou desligado da fortuna, do que lhe podia ter proporcionado para em final de vida se aperceber, mas já sem forças para lhe dar outro rumo... 

Descanse em Paz!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Adriano Carvalho, comerciante de Ansião enriqueceu em Moçambique

Devia lembrar-me do comerciante Adriano Carvalho homem natural das Cotas, Pombalinho, do vizinho concelho de Soure, a dois passos de Santiago da Guarda, por certo com raízes familiares no concelho de Ansião, pelo apelido . Segundo uma fonte que trabalhou na sua casa nos finais da década de 50, na pretensa em permanecer anónima,  a casa tinha duas empregadas; uma de casa e outra de fora para tratar do jardim, dos animais e ajuda ao Ti António Carvalho que  vivia no Canto,  trabalhador diário na quinta a tratar do milho, horta e da vinha. A  D Emília, esposa do Sr. Carvalho, era natural de Lisboa, falava da vida árdua do marido quando ainda rapazote veio para Ansião trabalhar na loja do Sr Adolfo Figueiredo de onde fugiu por maus tratos que nem a animais se infringiam. Obstinado ao trabalho o patrão foi a casa dos pais para o trazer de volta. Quem lhe valeu foi um avô que o entendeu e ajudou com dinheiro para emigrar para Moçambique, enricou para  anos depois regressar a Ansião para se radicar  em casa comprada pelo pai a quem  tinha enviado dinheiro.
Abel Falcão dos lados de Miranda do Corvo, também emigrante a África, acabou por aportar a Ansião onde um seu irmão foi presidente da câmara e veio a ser governador civil. Comprou a Quinta de Além da Ponte de herdeiros de Dom João de Mascarenhas Vellasques Sarmento e de Alarcão, conterrâneo com raízes no Espinhal, além desta Quinta de Além da Ponte adquiriu uma parte de outra Quinta, cujo nome ancestral se perdeu, para hoje ser conhecida por Urbanização da Quinta da Fonte onde construiu um solar de fachada azulejada da Fábrica Viúva Lamego, a marcar a arquitetura em Ansião, que depois foi comprada pelo  Sr Adriano Carvalho onde morou desde 1924 até 1966.
Solar do início do séc. XX mandado construir por Abel Falcão
Comprada por  Adriano Carvalho
Rua da Fonte
A expropriação em 1937 do jardim do solar conhecido pela sede do Clube dos Caçadores, para se fazer a Praça do Peixe, tendo a norte sido rasgada  uma travessa de ligação à rua que lhe corre pelo tardoz, António Salazar, erradamente lhe chamam Largo da Biblioteca, e a sul outra travessa que entroncava com o caminho para o Salgueiro e  Casais,  hoje denominada Rua da Fonte a limitar duas grandes quintas que foram do passado de Ansião, ambas sem se conhecer os seus nomes ancestrais. A quinta a norte cujo donatário foi Fructuoso  Veiga, onde ainda moram descendentes e a quinta a sul, cuja parte norte foi do Sr Adriano Carvalho faria parte do solar onde avento nasceram os Soares Barbosa, à muito sem descendência no que foi o seu chão.
A quinta  do Sr Adriano Carvalho tinha vários poços, julga-se que o poço usado antes da rede de fontanários pelas gentes das redondezas era um poço mais pequeno na terra do milho onde uma vez caiu uma mulher quando tirava água, e o Sr. António Carvalho de imediato se atirou e a salvou
Tenha ganho o topónimo - Quinta da Fonte no tempo do Sr. Carvalho, depois de 1924 pela bondade em deixar entrar as mulheres para encherem os cântaros num tempo que não havia abastecimento de fontanários da rede pública na vila. A quinta também  tinha um tanque que era cheio com motor com torneira. Na encosta da quinta havia um poço com muita água que também se tirava a motor, ainda outro poço  com nora e um poço mais pequeno na terra do milho .
Jornal  a Regeneração de Figueiró dos Vinhos de setembro de  1953 «As ruas ao Cimo da Rua foram calcetadas e por isso melhoradas substancialmente pela Junta de Freguesia , da digna presidência do Sr Francisco António Cardo»
O que se destaca?
Se o piso da a rua foi  melhorado devia nessa altura ter sido agraciada com o nome do comerciante Adriano Carvalho, ainda  lá morador... Para mais tarde ter sido agraciada na toponímia pela metade - Rua da Fonte
O certo?
Rua do Comerciante Adriano Carvalho
O estabelecimento comercial do Sr. Adriano Carvalho 
O prédio era da  família do Sr Acúrsio Monteiro
O Sr Acúrsio Monteiro explorava uma pensão no gaveto sul, tendo alugado o gaveto norte ao Sr Adriano Carvalho.
Este prédio foi o palco da Casa e Albergaria da Misericórdia, teria sofrido alterações na fachada nessa altura com a abertura de duas montras, uma a nascente e outra a norte, o grande balcão corrido em L e a poente a taberna com uma grande parede de tabuado, faria parte da arrumação de arreios e selins junto das cavalariças.  
O portão da taberna
Emblemas publicitários na fachada  de Correspondente do Banco Português do Atlântico e de um refrigerante Schweppos do tempo do Sr Adriano Carvalho












Segundo o Dr Manuel Dias «Adriano Carvalho destacou-se como Administrador do Concelho e vereador, contribuiu para a divulgação de notícias importantes em regulares “correspondências” no jornal “O Mensageiro” de Leiria, e ainda multifacetado na vida social - fundador do Clube dos Caçadores e Presidente da Filarmónica de Ansião. Deixou em definitivo Ansião para se radicar em Lisboa em 1966.»«Homem conservador convicto, travou grandes lutas contra o meio republicano local, que não lhe poupou críticas. Fundador, director e proprietário de um jornal ansianense, de duração muito efémera - O Anunciador d'Ancião, cujo 1.º número saiu a público no dia 19 de Novembro de 1924, com publicidade ao seu comércio, venda de mercearia, ferragens, adubos e sêmeas. " (...) Em termos profissionais, Adriano de Carvalho era comerciante. O seu estabelecimento situava-se no Largo do Município, e, em 1924, a publicidade ao mesmo, no seu Anunciador d'Ancião, referia a venda de mercearia, ferragens, adubos e sêmeas.
Já em 1938, a parte timbrada do seu recibo, anunciava uma maior expansão comercial:
«Mercearias, ferragens, miudezas, vinhos, sulfato, enxofre e adubos.
Representante de grafonolas e discos "Columbia", "Odeon", "Brunswick" e aparelhos de rádio.
Sub-agente da Companhia de Cerveja "Estrela".
Correspondente dos Bancos Crédit- Franco-Portugais e Cupertino de Miranda & C.ª
Agente da Companhia de Seguros A Mundial
Depósito de fósforos
Depositário de A Tabaqueira.
Camionagem.
Ao longo dos 42 anos que permaneceu em Ansião, envolveu-se activamente na vida local, contribuindo também para a divulgação do que de mais importante aqui ia acontecendo, através das suas regulares “correspondências” no jornal “O Mensageiro” de Leiria.
Conservador convicto, travou grandes lutas contra o meio republicano local, que não lhe poupou críticas. Foi fundador, director e proprietário de um jornal ansianense, bastante original, mas de duração muito efémera (na Biblioteca Nacional de Lisboa só conseguimos encontrar quatro números, referentes aos meses de Novembro e Dezembro de 1924). Trata-se de O Anunciador d'Ancião, composto e impresso na Tipografia Silva, em Pombal, cujo 1.º número saiu a público no dia 19 de Novembro de 1924, tendo como Editor e Administrador outro comerciante ansianense, Francisco Narciso da Costa Leitão.
Era um periódico de distribuição gratuita, bi-semanário (com saída anunciada às Quartas e Sábados) e o seu conteúdo era constituído, sobretudo, por anúncios, daí a razão do seu nome. O Director explicando aos leitores a razão do seu aparecimento alude o desenvolvimento industrial, comercial e agrícola do concelho concluindo tornar-se «necessária a existência dum periódico desta natureza, completamente independente, onde todos possam anunciar os seus produtos, o género do seu comercio e a natureza da sua industria, bem como tudo o que interessar à vila ou concelho. Foi Presidente da Direcção da Filarmónica Ansianense entre 1940/8 e um dos fundadores e dirigentes do Clube de Caçadores de Ansião em 1951. Mudou-se em definitivo para Lisboa em 1966» 
Mas antes, ofereceu a sua Quinta da Fonte a um comerciante muito seu amigo da vila que rejeitou o negócio por não ter dinheiro que chegasse, tendo sido vendida ao Sr Moisés Lourenço por 500 contos... o confidenciou a D Piedade Lopes.

Só conheci a loja quando a trespassou ao  Sr. Carlos Antunes 
O Sr Carlos Antunes tinha uma serração de madeiras e era angariador de cortiça. Recordo a loja grande sob o comprido, escura, iluminada com a luz que entrava pelas portas da frontaria e do portão da taberna. Na quina do balcão havia um armário  envidraçado cheio de guloseimas, pastilhas, cromos dos jogadores da bola e dos trajes típicos regionais, chocolates e rebuçados cujo pagamento era sonoro com a grandiosa e imponente máquina  registadora, cor de prata, ao lado do cofre havia um extraordinário relógio de pé alto com barriga para albergar o grande pêndulo dourado que luzia oiro aos meus olhos, a taberna com  a pia cor de tijolo onde se lasvaçava mal e porcamente os copos na torneira , grandes pipos encafuados num tabuado vermelho, local onde fui muita vez chamar o meu pai, onde o dia e a noite se antevia pelo grande portão de madeira tendo pela frente o urinol público de cheiro fétido a urina, na Travessa da Misericórdia ...
Mais tarde soube que estes bens da loja deixados pelo Sr. Adriano Carvalho, o Sr.Carlos Antunes rapidamente os vendeu nos poucos meses antes de trespassar a loja ao Sr Murtinho. Aqui começou como caixeiro o meu amigo  -Zé Júlio de Albarrol.

Actualmente o prédio
Imóvel adquirido recentemente pela família de Manuel Murtinho, o seu último arrendatário.A derrocada do telhado da cozinha, que foi da albergaria, perdeu-se para sempre a sua bela e grande chaminé, apenas se reconhece no video de 1964 do cortejo alegórico filmado pela Televisão portuguesa nos deixou de legado, sendo que desconheço se existem fotos particulares, a cozinha ainda guarda a cortina na janela, no seu interior ainda deve existir a cisterna onde se abastecia em paralelo com o  hospital, que a içava de uma janela .A Casa da Misericórdia e o seu Hospital foram por mim correlacionados depois da leitura das Memórias Paroquiais e do conhecimento do local para lhe ditar o palco, em que a  identificação da janela de avental foi premissa, finalmente à vista apresenta uma racha, talvez do terramoto, devia ter sido tapada com pó de pedra e não cimento... 
Dignificaria a vila de Ansião este imóvel fosse preservado no que foi no seu passado! A Casa e Albergaria da Misericórdia!

Haja audácia em corrigir a toponímia!

Adriano Carvalho, homem por demais merecedor em vir a ser reconhecido e atestado  com respeito e consideração com a ratificação da toponímia!

Partilha de mais informação que a fonte pretende ficar anónima
(...) Ao lado do portão havia uma casa de sobrado que foi  armazém, arrendado ao Grémio da Lavoura, pagavam nesse tempo 100$00 por mês.O Sr Adriano ainda fazia fretes para Lisboa.Tinha um Lagar nas Cotas com casa por cima onde acabou os seus dias depois de ter distribuído  os bens pelos familiares ficou a viver dos juros, debalde a descida acentuada ao que parece viveu menos bem...
A senhora falava do tempo que chegaram a Ansião, das dificuldades, os caminhos maus mas havia comvivio social em que se reunia com outras senhoras nas tardes para o chã. Teve uma empregada  - Ana, mulher  desamparada da vida com um filho pequeno -  Henrique, foi criado com ela nesta casa, ambos foram muito estimados pelos patrões. O Henrique  tinha um tio em Angola - João Cancelinha  o levou ainda rapaz para Angola. Este tio em Angola teve uma relação  onde nasceu uma filha mulata que veio a casar com um homem branco, tiveram duas filhas - Maria Teresa a Maria Elisa. O pai delas faleceu e o avô o João Cancelinha tomou conta das netas. A Ana, mãe do Sr Henrique, morreu em casa do Sr Adriano Carvalho, ficou a amizade e quando as meninas vieram estudar para Ansião, para o Externato, o Sr João Cancelinha pagava a mensalidade ao Sr Adriano Carvalho para tomar cuidar delas, hospedadas na sua casa e mais tarde foram para Lisboa para casa da D. Deolinda madrasta da mulher do Sr Adriano Carvalho, uma delas era mulata e a outra branca com cabelos encrespados. 
Mais tarde o Sr Henrique quando regressou de Angola foi trabalhar no Ciclo, casou com a D Fernanda e moravam ao Fundo da Rua.
Recordo-me de algumas pessoas mulatas em Ansião, estava convicta que o Sr Adriano Carvalho é que por não ter tido filhos as tinha trazido, afinal como se constacta pelo depoimento não é verdade, por isso a importância da investigação.

Rua da Fonte inicio década de 50
Publicada na Página Facebook Ansião
A merecer atenção para uma nova rubrica de abordagem no Jornal Serras de Ansião com saída em setembro de 2019
Incitar o leitor à cidadania, a refletir sobre a atribuição da toponímia no dever em se pautar pelo conhecimento cultural destacando o mérito de pessoas, tradições e vocábulos antigos, debalde na prática constata-se dispersão e desvirtuar da realidade. Para não se perderem as memórias de Ansião da Rua da Fonte na década dos finais de 50 quando foi pela 1ª vez asfaltada, ainda com os bidons do alcatrão. Reconhece-se a Cadeia e a Praça do Peixe. O certo era a toponímia a imortalizar – Rua do Comerciante Adriano Carvalho. Homem natural das Cotas aportou a Ansião para a loja do Sr Figueiredo, de onde fugiu por maus tratos que nem a animais se infringiam. Como era obstinado e bom trabalhador o patrão foi a casa dos pais para o trazer de volta. Quem lhe valeu foi um avô que o entendeu e ajudou com dinheiro para emigrar para Moçambique de onde voltou rico, já com casa comprada pelo seu pai com dinheiro que entretanto lhe enviara, se estabelecendo em Ansião onde permaneceu 42 anos em regime de aluguer na que foi a Albergaria da Misericórdia, teria sofrido alterações na fachada com a abertura de duas montras, uma a nascente e outra a norte. No Livro do Dr Manuel Dias designado ilustre ansianense, conservador convicto, travou grandes lutas contra o meio republicano local, que não lhe poupou críticas. Fundador, director e proprietário de um jornal ansianense, de duração muito efémera - O Anunciador d'Ancião, cujo 1.º número saiu a público no dia 19 de Novembro de 1924, com publicidade ao seu comércio, venda de mercearia, ferragens, adubos e sêmeas.
Viveu ao gaveto da Rua da Fonte, na casa mais bonita de Ansião, forrada a azulejos Viúva Lamego, hoje propriedade do meu primo Vítor Lourenço, onde haviam vários poços, julga-se que o poço usado antes da rede de fontanários pelas gentes das redondezas era um poço mais pequeno na terra do milho onde uma vez caiu uma mulher quando tirava água, em que o Sr. António Carvalho, trabalhador diário na quinta de imediato se atirou e a salvou. Sem se saber a origem do nome da quinta, antes fez parte de outra maior, tenha ganho este topónimo - Quinta da Fonte no tempo do Sr. Carvalho ou do proprietário anterior, o construtor da casa, pela bondade em deixar entrar as mulheres para se abastecer de água.
Adriano Carvalho, homem por demais merecedor em ser reconhecido e atestado na toponímia!

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FONTES
http://ansianensesilustres.blogs.sapo.pt/1791.html
Fonte que pretende focar anónima que trabalhou na casa
Regeneração de Figueiró dos Vinhos de 1953

sábado, 23 de setembro de 2017

Criptopórtico romano na baixa pombalina

Com a entrada do equinócio do inverno meti-me a caminho de Lisboa para a visita às Galerias Romanas na baixa pombalina, que conheci há 30 anos, quando as deram a conhecer ao público.
Sozinha, o meu genro só arranjou um bilhete, por estar a decorrer as Jornadas do Património e em abril no dia dos Museus, únicas alturas do ano que são abertas, pela logística da parceria com os bombeiros para bombagem de água e pessoal da câmara.
Melhorou a entrada e o meu nível cultural que se enriqueceu e assim pude constatar um olhar diferente e mais apaixonante sobre as galerias romanas.
O criptopórtico foi descoberto em 1771, quando Manuel José Ribeiro construía o seu prédio na rua da Prata (nos hoje números 57 a 63). Nessa altura foi encontrada a lápide consagrada a Esculápio, colocada então no próprio edifício e hoje depositada no Museu Arqueológico.
A inscrição constante da lápide, com as dimensões de 0,72 m por 0,74 m, é a seguinte:
«Consagrada a Esculápio. Os Augustais Marco Afrânio Euporião e Lúcio Fábio Dafno ofereceram este monumento em dádiva, ao Município."
A arqueóloga teceu breve síntese sobre o monumento datando a sua origem no império de Augusto ou Tibério pelas almofadas de alguns blocos nos gavetos.
 

Água sempre presente com a marca habitual de um metro de altura, se julga fundamental para o monumento sobreviver (?).
Depois de descobertas tiveram várias designações
Termas dos Augustais, termas romanas de Lisboa, por possuírem "águas milagrosas" para curar certas maleitas, conservas da Rua da Prata, conservas de água da Rua da Prata , catacumbas e fórum municipal . Hoje, dá-se por quase certo que são criptopórticos, construções em abóbada que os romanos usavam em terras instáveis para servirem de plataforma de suporte a outras edificações, e que terão estado também ligadas a actividades portuárias e comerciais.
Apenas é visitável um terço do monumento que se estende desde a Rua da Prata (antiga Rua Bela da Rainha) e da Rua da Conceição, onde se entra entre a linha do elétrico, estendendo-se até à Rua do Comércio na baixa lisboeta.
A sul das galerias estão a decorrer novas escavações no que foi a cave de um prédio, com indícios do que foi o porto romano onde chegava e partia a mercadoria.
 
O chão das galerias com água foi coberto por uma espessura de 40 cm de entulhos cerâmicos e cimento
 Um arco de volta perfeita,  nesta galeria pode-se andar de pé
 Nesta galeria já temos de nos abaixar
 
Com o acumular de cultura na vida e aqui vinda pela 2ª vez alvitre tenham sido um sistema de cisternas para armazenamento de água potável que nesta zona de Lisboa era deficitária,  fazendo o aproveitamento dos níveis freáticos das ribeiras de Arroios que descia da Almirante Reis e da Valverde pela Avenida da Liberdade,  a correr a céu aberto, porque só em Alfama é que havia fontes frias e quentes. 
Digo isto porquê? Pelos inúmeros poços abertos na estrutura das cúpulas.Alguns prédios hoje a serem requalificados, todos tem um poço, que para gente como eu sempre conheceu os poços nos quintais e fazendas e nunca dentro de portas de casa.

 
 
 
 
 

Contraste com a cisterna romana do Carvalhal em Santiago da Guarda em Ansião, que há 40 anos também se especulava que seria um criptopórtico ou necrópole, por se ter encontrado nele um túmulo, curiosa a fui conhecer, e o seja cisterna que abastecia uma vila romana, há poucos anos descoberta na Casa Senhorial Conde Castelo Melhor. A região do Maçico de Sicó é muito seca de verão, a cisterna apresenta na curva uma abertura tapada com pedra.

 
 
 A abertura
Uma das galerias romanas apresenta uma grande racha, que está motorizada para dar conhecimento se ceder  e no chão também


 
 A boca do poço para esgotamento das águas
Não se entende a razão do lintel acima dos arcos frente a frente
 

Entrei nas  galerias romanas com cheiro a subsolo que depressa se dissipou para sair bem disposta, mais rica culturalmente nem me lembrei do eléctrico 28 que pelos carris trepida a compasso...

No final já na rua duas brasileiras e um rapaz que estava acompanhado de outros dois me pediram o endereço do blog, naturalmente pelas minhas  intervenções,  postura e conhecimento sobre história...
Bem hajam!

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